Revisitação a Sorriso Por Dentro Da Noite

Com aquela nesga de conhecimentos, de uma apreensão mais viva, a Xana sentia-se escorregar gradualmente para qualquer lugar, talvez um poço de águas negras e frias, que ela própria não sabia explicar.

Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite

/Vamberto Freitas

 

Advertência ao leitor: estou aqui a escrever sobre o romance da minha própria mulher. A força das circunstâncias impele-me para voltar a falar da sua obra em geral, e do seu único livro de ficção, Sorriso Por Dentro Da Noite, que era para ser o primeiro de uma trilogia em volta da nossa sorte histórica cá dentro e na imigração norte-americana, também por ela vivida durante alguns anos, que incluem os seus dias felizes na City University of New York na década de 70, onde completou todo o currículo em preparação para sua tese de doutoramento, que seria defendida mais tarde já na Universidade dos Açores. Queria relembrar a todos os seus leitores que ela foi “autónoma” de mim durante quase toda a sua vida, e já era escritora antes de me conhecer, mesmo que na altura só tivesse publicado a sua tese de doutoramento, Moby Dick: A Ilha e o Mar/Metáforas do Carácter do Povo Americano (1991). Mais do que falar sobre o romance em si próprio (muitos outros o fizeram um pouco por toda a parte onde a literatura açoriana é lida e apreciada, uns em mensagens particulares que guardo com especial carinho, outros em vários jornais e revistas), quero dizer algo sobre a sua feitura durante alguns três anos, com trabalho incessante por vezes dia e noite, e agora que está a ser traduzido para o inglês nos Estados Unidos por Katherine F. Baker e John Chamberlain, dois bons conhecedores da literatura das ilhas e da Diáspora. É claro que foi escrito quase todo antes e mesmo nos primeiros tempos do aneurisma que a atingiria de modo particularmente violento, deixando sequelas muito graves, tornando o seu título, como já disse noutra ocasião, quase numa profecia da sua má sorte. A sua grande coragem foi precisamente manter esse sorriso na noite do seu destino, a sua escrita foi parte da sua batalha pela vida que, como diria um dos seus médicos em Lisboa, estava perdida mas ainda não consumada inteiramente à altura. Foi publicado em 2004, após a leitura do poeta e escritor nosso amigo Viale Moutinho (Porto), que o entregaria de imediato com uma forte recomendação de publicação à então recém fundada Editora Ausência. Quando recebemos Sorriso Por Dentro Da Noite já em forma de livro pela primeira vez a Ponta Delgada, a nossa alegria foi a mais intensa, pois ainda não suspeitávamos da gravidade do que estava para vir na vida da autora. Do conteúdo já sabia eu, mas a sua apresentação ia agora além de todas as nossas expectativas. De capa verde-escuro, com o que parecem ser nuvens ameaçadoras, — o simbolismo ameaçador, sempre, a profecia como que tomando forma visível — duas hortênsias azuis a meio de um mar agitado, assassino. As primeiras reacções não tardaram, uma vez mais, em apreciações críticas escritas nas mais variadas publicações, no Continente, nas ilhas e na imprensa de língua portuguesa na América do Norte. Onésimo T. Almeida escreveu que era uma obra única na literatura portuguesa, particularmente pela sua temática: um mergulho sustentado durante duzentas e cinquenta e tal páginas na vida órfão de uma criança açoriana, aqui de nome Xana, algures no isolamento quase absoluto de uma freguesia das ilhas nos anos 50 e 60, os anos da nossa escuridão e sangria emigrante, êxodo quase bíblico da terra e do mar, um povo escorraçado, que pode vir a repetir-se muito brevemente. O romance apresenta ou foca um olhar diferente daqueles a que nos tínhamos habituado na literatura das ilhas, e a infelicidade presente em todo o nosso país faz com que em nada, neste como na maior parte da literatura do nosso país produzida pela nossa geração, esteja ultrapassado. Quando se conhece assim a história de um povo, a sua arte permanece como memória de um tempo e como aviso, por assim por dizer, a terra simultaneamente bela e erma como palco universal da condição humana.

A nossa e/imigração é vista em Sorriso Por Dentro Da Noite não de lá para cá, mas do ponto de vista dos que ficaram e “viveram” a América através de notícias e imagens diversas trazidas na bagagem de familiares, ou enviadas de lá através ainda dos relatos mais ou menos ficcionados dos que regressavam de férias ou definitivamente. Não poderia ser uma narrativa adentro da desde há muito ultrapassada tradição estritamente “realista”, mas sim um acto tão simbólico como simbólico seriam as linguagens das aventuras (re)contadas pelos que viviam ou tinham vivido essa América em directo. Xana, naturalmente a infância reinventada da Adelaide, não fala nunca directamente, é antes observada obsessivamente por uma irmã mais velha, que narra toda a estória. O ponto de vista, uma vez mais, é simultaneamente o de uma criança com memórias desconexas mas de todo significantes, e principalmente do ponto de vista dessa narradora adulta e consciente de todo o drama vivido pela família emigrada e pelos outros que permaneceram nos Açores. Nesse processo de rememoração, não só acompanhamos a família paradigma-símbolo de toda uma comunidade isolada a meio Atlântico ou fixada nos Estados Unidos, como acontece a essencial descrição e historicidade de todo um povo com identidade muito própria. Adelaide corta aqui também radicalmente com praticamente toda a literatura açoriana da nossa geração, a que se aventurou na temática dos nossos emigrantes: de meras caricaturas unidimensionalmente recriadas em muitas das nossas páginas romanescas e de poesia, a autora apresenta-nos seres humanos na sua totalidade, na sua mais profunda essencialidade, com alma, inteligência, alegrias, tristezas, tontices e astúcia. Quase não havia dor ou consciência da sua sorte — fora das obras dos escritores e poetas luso-descendentes, que nos vêm resgatando brilhantemente dessa penumbra literária. Nesses personagens tratados e vistos por outros, havia só roupa folclórica, linguagem despedaçada, certa cegueira ideológica ante o Novo Mundo e ante os que regressavam ou permaneciam nas margens imensas mas obscuras do grande continente a oeste. Muito antes da publicação de Sorriso Por Dentro Da Noite, eu já tinha escrito sobre essas visões de alguns autores açorianos, primeiro em recensões, e depois num ensaio apresentado num dos simpósios da Universidade dos Açores, com o título de “Imagens da América e dos Imigrantes: Um Duplo Olhar”. A Adelaide neste seu romance não está tanto na companhia dos seus colegas escritores que nunca viveram a experiência americana, mas está sim com todos os escritores da Diáspora e luso-descendentes que necessariamente se ocuparam do mesmo tema, desde Onésimo T. Almeida em (Sapa)teia Americana a Katherine Vaz em Saudade e Frank X. Gaspar, principalmente em Leaving Pico (mas também em muita da sua poesia) a Francisco Cota Fagundes em Hard Knocks: An Azorean-American Odyssey e José Francisco Costa em muitos dos seus contos de Mar e Tudo. Como se sabe, alguns destes nomes pertencem também, quase todos de estatura canónica, à própria literatura açoriana contemporânea.

“Na força expressiva do seu verbo, — escreveu a poeta e crítica Ana Marques Gastão no Diário de Notícias — na fluidez da frase, na discreta modulação do ritmo, na clareza da narrativa conseguida sem grande artifício, no esboçar das personagens, umas psicologicamente mais densas, outras menos, Adelaide Freitas dá-nos um romance que, na ductilidade que oferece, conta uma história de sangue e ternura no movimento e vida interiores. Mesmo a paisagem, o horizonte visual das coisas, que reconduz o leitor ao mundo concreto, surge como transferência metafórica no recorte da figura de Xana, a menina que viveu de fora, ilha agitando-se nas vagas”.

Sorriso Por Dentro Da Noite deverá conhecer em breve, para além da tradução em curso, uma segunda edição numa editora açoriana. Adelaide publicou ainda João de Melo e a Literatura Açoriana, Regresso À Casa: Uma Proposta de Intervenção Social, Nas Duas Margens: Da Literatura Norte-Americana e Açoriana, e os dois livros de poesia De Emigração Tecido e Viagem ao Centro do Mundo. Tem sido largamente antologiada cá e no estrangeiro.

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Adelaide Freitas, Sorriso Por Dentro Da Noite, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2004.

Este trabalho foi elaborado e actualizado a partir de um ensaio meu publicado em 2006.

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