borderCrossings: leituras transatlânticas – novo livro de Vamberto Freitas

borderCrossings: leituras transatlânticas, o novo livro de Vamberto Freitas, será lançado na Livraria Solmar a 31 de Maio, pelas 19 horas. Trata-se de um extenso conjunto de ensaios literários e culturais, quase todos publicados na sua coluna do Açoriano Oriental (Ponta Delgada) e no Portuguese Times (New Bedford). Outra escrita aqui incluída foi originalmente publicada em revistas universitárias e da especialidade no nosso país e no estrangeiro. Divido em três secções sob os títulos de “Em Casa nos Açores”, Memória do Brasil” e “A Diáspora em Mim”, borderCrossings constitui uma outra narrativa do autor tendo como ponto de partida a literatura que, em português ou inglês, reflecte, representa e reinventa a nossa histórica experiência de vida principalmente no arquipélago, nos Estados Unidos, no Canadá e no Brasil. Vamberto Freitas é um reconhecido especialista na literatura contemporânea de língua inglesa produzida por luso ou açor–descendentes na América do Norte.

borderCrossings: leituras transatlânticas faz parte de uma extensa bibliografia do autor, que inclui O Imaginário dos Escritores Açorianos, A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, e mais, recentemente, Imaginários Luso-Americanos e Açorianos: do outro lado do espelho.

O livro será apresentado pelo Prof. Doutor Carlos Cordeiro. Historiador da Universidade dos Açores.

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Da nossa literatura nos tempos idos e agora

A crítica requer de um crítico uma tremenda nudez: um crítico autêntico não poderá depender de mais ninguém para além de si  próprio.

Randall Jarrell citado no suplemento literário do The New York Times

/Vamberto Freitas

 Eis aqui um texto de auto-reflexão sobre a questão não necessariamente da crítica literária entre nós (a nível nacional e regional), mas sim de como a tratámos um dia nos nossos jornais de maior ou menor projecção, quer no continente quer nas ilhas. Primeira conclusão: essas páginas nacionais não existem com o fôlego de um passado — e valores culturais, diga-se enfaticamente, também não — ainda na nossa memória. Segunda conclusão: provavelmente nunca mais voltarão devido às forças que passaram a dominar a nossa Imprensa, fazendo dela um instrumento de informação ao serviço dos poderes societais, e das bolsas financeiras sempre em transe obscuro mas com objectivos claríssimos: riqueza e a consequente influência que exercem nas “democracias” tal como as conhecemos e vivemos. Não coloco aspas sem mais nem menos nessa palavra que significa a nossa liberdade e onde reside – residia — a soberania de um povo, mas admito já não estar certo em que sistema estamos inseridos, mesmo que não batam às nossas portas na madrugada ou não nos prendam por delito de opinião. Os castigos, agora, poderão ser bem mais subtis, se bem que também devastadores, para a nossa dignidade e identidade individual ou colectiva. No entanto, os sinais actuais são mistos em tudo que à cultura diz respeito: os órgãos de informação mais próximos de casa continuam a dar espaço à divulgação de ideias e das artes em folhas-mosaicos que tratam um pouco de tudo, raramente indo a fundo ou com continuidade de um tema ou de uma obra. O leitor vai provavelmente escolhendo avulsamente ou fragmentariamente o que lhe interessa, mas sem um quadro que interligue tanto a teoria como a prática da leitura, passando ao lado do que está a ser criado ora em estado embrionário ora já como tendência generalizada de um tempo ou de uma geração. Quem sabe, talvez esta nova realidade seja outro mero reflexo da sempre desejada diversidade — liberdade — artística e literária, ou então a confusão que espelha o resto do movimento societal contemporâneo. Por outro lado, a cultura, especialmente a literatura, foi e será sempre um acto exclusivamente individual, a sua produção só possível na solidão fechada a quatro paredes. Só que na hora da verdade, esse mesmo escritor tem de ter apoio em todas formas, desde a editora um tanto arrojada ao periódico que reconhece no seu trabalho um bem colectivo, e enceta discussões ou debates públicos em volta das ideias que enformam ou não a nossa identidade, esse sentimento abstracto essencial à coesão de qualquer grupo nacional, as “comunidades imaginárias” que nos dão rumo e conforto. Como todos sabem, mais ninguém de fora se interessará nem pelo nosso bem-estar nem sequer pela nossa salvação.

A literatura nos Açores foi sempre um bem acarinhado e alimentado por vários sectores da sociedade, mas especialmente pela sua Imprensa. Creio que a escrita nas suas variadas formas continua a ser a marca primeira da cultura nos Açores, mesmo que a sua centralidade esteja a dar ou a partilhar espaço com outras manifestações do espírito. Vale a pena dizer uma vez mais que durante alguns séculos essas páginas públicas e diárias foram as nossas verdadeiras “universidades”, juntamente com os institutos culturais e as suas discretas publicações das gerações mais antigas até aos nossos dias, especialmente na Terceira e Horta assim como em São Miguel. Desse meio, inevitavelmente de elites e “aristocracias” locais, mas de consciência comunitária bem definida e enraizada, nasceram e ainda nascem as linguagens que dariam expressão à nossa maneira de estar no mundo, ao nosso modo de vida, aos nossos anseios de cidadania, dentro ou fora das nossas fronteiras. A história do povo açoriano vai desde o cais de Alcântara e arredores ao mais recôndito sítio na América do Sul, cinco séculos em busca de um lugar no mundo, uma saga que, parece, ainda não chegou ao fim, e talvez nunca chegue, povo navegante que somos por vontade própria ou impelido por forças que requerem andamento constante dos menos poderosos ou ricos. Seja como for, a nossa literatura é o mais denso repositório do destino ilhéu. As nossas viagens, reais ou fingidas, são o seu fundo aglutinador, quer dos séculos passados quer do nosso tempo. Quem não conhecer este feito literário, conhece distorcidamente a  nossa terra e a sua história, para além de capitães e capitanias e das datas da sua chegada, corsários disfarçados em terra como no mar. Foi sempre, insista-se aqui, a literatura que nos devolveu a nossa imagem em espelhos múltiplos, em faces tão diversas e repartidas, como repartida foi sempre a nossa alma e lealdades, até mesmo nos limites do próprio arquipélago da nossa naturalidade e residência, para a maioria, até mesmo para as nossas elites, nunca nada permanecendo definitivo ou de total confiança. Será precisamente deste sentimento simultaneamente de afincada pertença e visões desterretorializadas de que é feita uma literatura que deveria ser muito mais conhecida, reflectida e divulgada. Deveriam também calar a sua incorrigível ignorância aqueles que advogam, na cultura literária da nossa região, o salve-se quem puder no meio nacional a que pertencemos, esses que sabem ainda menos sobre nós, ao contrário de estudiosos nossos noutras línguas e Tradições. A questão cultural numa pequena região poderá dispensar benesses oficiais, mas não a colaboração formal e informal de instituições que são as nossas vozes públicas; nem nos países europeus mais ricos de dimensões semelhantes esse gesto é dispensável.

Tudo isto para dizer que certos lamentos entre nós continuam descabidos, sem razão. Outra afirmação que poderá mover sobrancelhas: as pessoas, até mesmo os mais jovens, continuam a ler, mesmo que não seja adentro das nossas preferência, digamos, “eruditas”. Não conheço uma única cidade norte-americana com uma população comparável a Ponta Delgada que tenha em funcionamento diário três grandes livrarias, uma outra especializada em livros técnicos, mais as fartas mesas ou estantes de dois hiper-mercados. Por minha parte, fiz da crítica literária e cultural o meu nicho intelectual por acreditar desde sempre que uma cultura literária necessita de ser debatida, apreciada, analisada, comentada e divulgada. Desde há muito resolvi não escrever sobre livros de que não gosto, ou neles não vejo valor, mesmo que por vezes um único parágrafo entre centenas de páginas justifique um livro inteiro. Como alguns outros escritores da minha geração, dediquei-me durante anos ao suplementarismo literário: cinco anos (1995-2000) no Correio dos Açores (SAC/Suplemento Açoriano de Cultura), e cerca de três (2003-2006) na revista mensal Saber Açores (SAAL/Suplemento Atlântico de Artes e Letras). Creio que pela primeira vez juntámos aos romancistas, poetas e ensaístas e interventores-outros da cultura nos Açores os escritores da Diáspora continental, norte-americana e brasileira, tendo pelo meio intelectuais de outras nacionalidades e línguas dedicados aos estudos literários arquipelágicos. Trouxemos a casa muitos dos que, noutra língua ou noutra geografia diaspórica, sempre fizeram parte integrante da nossa Tradição, são as vozes íntimas da nossa memória e dos nossos afectos. Hoje, muitos deles assim como os próprios suplementos no seu todo são citados em teses superiores um pouco por toda a parte, especialmente no Brasil, e não só em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Vêm aí, ou já estão dar conta de si, as gerações seguintes que prometem dar continuidade ao lugar fértil que sempre foi a vida da mente nos Açores. Que a solidão criativa lhes seja o território escolhido. Não haverá paga nenhuma, muito pelo contrário. Que não ouçam as vozes estridentes  dos exaustos — nem peçam favores ou glórias. A sua felicidade (e estatuto entre os seus) será outra.

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Foto de um dos Encontros de Escritores Açorianos (Maia, S. Miguel) que se realizaram entre 1988-1991.

 

A memória inventada num tempo de guerra

 Estas coisas apagam-se alguma vez?
Urbano Bettencourt, África Frente e Verso

 /Vamberto Freitas

 África Frente e Verso, os poemas de Urbano Bettencourt retirados da sua vivência antes, durante e depois da guerra colonial (Guiné-Bissau), e acabado se sair, contém alguma da mais subtil, fina e irónica escrita alguma vez produzida entre nós, e falo aqui na literatura portuguesa em geral que dessa experiência brotou abundantemente durante as décadas recentes. É certo que alguns destes poemas e prosa (poética, sempre) já tinham circulado noutros livros seus e nalgumas das mais conhecidas antologias nacionais, mas a verdade é que agora reunidos em sequência e por ordem cronológica resultam não só em brilhantes instantes memorialistas desse conturbado tempo vivido e sobretudo sofrido, mas sim num grande livro que passa a requerer um espaço destacado nas nossas estantes, ao lado dos romances sobre a mesma temática escritos por José Martins Garcia, João de Melo, Álamo Oliveira e Cristóvão de Aguiar. Note-se que falo aqui, propositadamente, só de autores açorianos, pois foram eles alguns dos primeiros escritores do nosso país que tiveram a coragem e a arte de transfigurar, com toda a originalidade formal e temática, os anos de violência e miséria por eles próprios vividos em várias frentes de combate, com os quais pouco se identificavam como cidadãos; eram, pelo menos na sua ficção e poética-outra, os que iam quase sempre com a missão de matar, ou pelo menos travar, o outro. Ainda hoje me é difícil imaginá-los de G3 na mão, mas também noutros países aconteceria o mesmo, especialmente nos EUA com a longa passagem nada menos trágica pelo Vietname. Se existe uma farta “literatura de guerra” só quem a viveu seria capaz de a criar; qualquer outro escritor soaria falso e demasiado dramático na reinvenção da mais extrema contingência humana, que é, uma vez mais, matar e morrer com toda a “legalidade” em nome de um Estado, ou por causas abstractas quando não de todo injustas, proclamadas em certos períodos históricos pelas classes dominantes. Resta-nos, como que por obrigação de cidadania nada menos do que pelo gosto intelectual e artístico, lê-los como quem olha espantado e em êxtase a incomparável Guernica de Pablo Picasso. Nem sequer a fealdade absoluta e a mentira assassina resistem à beleza da arte, pura ou denunciadora.

Relembra-nos Urbano Bettencourt em Voltando atrás, a nota introdutória de África Frente e Verso, que estes poemas e narrativas surgiram após a publicação do seu primeiro livro, raiz de mágoa, publicado em 1972, assim como deveremos saber que nessa altura já andara ele na recruta em Mafra, com a guerra ensombrando esses dias de toda uma geração, “os fantasmas”, como diz, “de uma geração aflita”. Cada poema, cada outro texto de prosa-poética, alguns deles já escritos na frente de combate de 1972 a 1974, fala não necessariamente do pavor da guerra e da ideologia que a ordenava e sustentava, mas sim da solidão, dos medos e da consciência da futilidade que é sair de uma ilha pobre para negar a outro povo o seu direito à terra e à vida. Ao ler estes poemas, não nos lembramos nem nos temos de lembrar da contínua luta pela liberdade e dignidade daquele povo: a injustiça torna-se numa violência muito mais dolorosa da que poderá atingir o corpo, e pôr fim à vida, é a violação in extremis do espírito ou do “coração humano”, como escreveria outro grande escritor de guerra do século passado, William Faulkner, “em conflito consigo próprio”. Eis alguns versos do poema de abertura da primeira sequência: arquipélago de desejos massacrados/aqui teu corpo antegozado/rio de promessas e viagens. Mais adiante, no texto poético “Da ilha carn(av)al”, escrito na Guiné em 1973, o autor regressa a esse sentimento de dor e raiva, agora tomando outra fala e forma. Não restam dúvidas sobre a quem o poeta se dirige nessas palavras: estava numa guerra sem esquecer a chamada frente interna. Creio ser este o texto que domina ou dá o tom a todas as outras palavras em África Frente e Verso, o próprio título do livro introduz essa dualidade complexa de missão e angústia de pertença na terra distante, o seu berço de nascença — e igualmente terra “ocupada”.

“É difícil construir uma ilha com portos de chegada (em vez de esgotos) aonde os barcos regressem sempre, cheios de mãos e corpos em movimento pelas baías dentro, como quem nunca partiu definitivamente os laços que o prendem aos vulcões vivos e explodindo providencialmente quando se torna necessário defender a ilha dos corsários e dos vagabundos, até porque a ilha é por definição este pedaço de lava que bebeu o sal e o sol sem se curvar ou engravidar, e se algum dia se houver de fazer o elogio fúnebre da ilha bastará dizer que resistiu enquanto pôde, com a certeza de que a única filosofia válida é não acreditar em filosofias e para além de tudo amar as coisas até ao fim do prazer e do sabor, como quem sabe que há um dia para tudo ser destruído e então a ilha há-de ser lentamente violada pelo sexo dos aldrabões e dos aventureiros sem escrúpulos…”

Belo momento este em que Urbano Bettencourt decidiu juntar alguma da sua mais significativa escrita a partir do início da sua carreira literária até dias bem recentes, e seguindo quase de imediato Que Paisagem Apagarás. Do humor por vezes abertamente sarcástico e da fina ironia que sempre caracterizaram em primeiro plano toda a sua vasta obra em volta das questões identitárias prementes, regressamos agora ao combate intelectual dentro e fora do nosso próprio país, regressamos com a força inata do escritor que nada esquece e nada perdoa, um escritor cuja fase combativa em nada retira a beleza linguística com que elabora cada poema ou texto — mesmo ensaístico, o outro campo onde sempre se sentiu à vontade, e contribuindo exemplarmente para o esclarecimento da literatura saída dos Açores ao longo dos séculos. Muito pelo contrário, esta é a hora certíssima para reavivar a memória do tempo vivido entre o fogo e a esperança, entre a denúncia e a reafirmação de como perdurou dignamente um povo então acossado pelas mais desavergonhadas forças no seu país, seguido tudo de outra prosa e versos bem mais serenos, mas nada menos acutilantes na desmontagem crítica inerentes às melhores páginas literárias, particularmente numa cultura como a nossa, ainda e sempre profundamente inundada pela beatice e hipocrisia sem limites das velhas e novas classes que nunca deixaram de dirigir a sua sociedade quase exclusivamente em proveito próprio – como redescobrem nos nossos dias outras gerações também entaladas entre o Nada e o Nada. Neste sentido, o texto verdadeiramente antológico que é “Noite”, que relembra um camarada tombado em combate, contém em si toda a verdade de como fomos e somos.

“…Vais regressar a um país de bufos e beatas. Uns vão querer saber como anda a pátria por estes lados. As outras hão-de perguntar-te se os pretos vão à missa e se deixaste algum filho atrás. Aqueles poucos da tua idade que escaparam a África e à América farão, um dia, a pergunta desde sempre fisgada, ‘E as pretas’? Vais dizer o quê? Onde começarás a mentir para comprar o teu sossego? Quando precisares de fugir, talvez o regresso a este tempo seja o teu último refúgio, a forma de proteger o espaço íntimo a que tens direito.”

África Frente e Verso era o livro de Urbano Bettencourt que (nos) faltava, despeja força e sangue, raiva e amor numa consistente e volumosa obra que no seu todo me parece um clarão que ilumina como poucas toda uma sociedade, e a (pouca) sorte de sucessivas gerações. Faz parte de uma literatura cuja arte maior tem sido sempre a coragem de desconstruir os meandros submersos da nossa sociedade, ante as forças mais arcaicas que até há poucos anos nos dominaram, essas que apontam sempre o estrangeiro para quem não estava ou está satisfeito, ou não conseguia nem consegue meter-se nos seus espertíssimos esquemas de enriquecimento, ou sequer numa vida de mera sobrevivência quieta e legítima. Poderá ser que a poesia e prosa deste autor não patenteie ordinariamente “ideologias”. Será a sua serenidade e hábeis recursos literários que primeiro nos fazem admirar a sua beleza e originalidade – e só depois digerir as suas ideias. Qualquer leitor mais atento irá inevitavelmente além do puro prazer do texto. O resto está escondido no subtexto, tão actuante como a palavra a preto e branco.

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Urbano Bettencourt, África Frente e Verso, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2012.