Da nossa literatura nos tempos idos e agora

A crítica requer de um crítico uma tremenda nudez: um crítico autêntico não poderá depender de mais ninguém para além de si  próprio.

Randall Jarrell citado no suplemento literário do The New York Times

/Vamberto Freitas

 Eis aqui um texto de auto-reflexão sobre a questão não necessariamente da crítica literária entre nós (a nível nacional e regional), mas sim de como a tratámos um dia nos nossos jornais de maior ou menor projecção, quer no continente quer nas ilhas. Primeira conclusão: essas páginas nacionais não existem com o fôlego de um passado — e valores culturais, diga-se enfaticamente, também não — ainda na nossa memória. Segunda conclusão: provavelmente nunca mais voltarão devido às forças que passaram a dominar a nossa Imprensa, fazendo dela um instrumento de informação ao serviço dos poderes societais, e das bolsas financeiras sempre em transe obscuro mas com objectivos claríssimos: riqueza e a consequente influência que exercem nas “democracias” tal como as conhecemos e vivemos. Não coloco aspas sem mais nem menos nessa palavra que significa a nossa liberdade e onde reside – residia — a soberania de um povo, mas admito já não estar certo em que sistema estamos inseridos, mesmo que não batam às nossas portas na madrugada ou não nos prendam por delito de opinião. Os castigos, agora, poderão ser bem mais subtis, se bem que também devastadores, para a nossa dignidade e identidade individual ou colectiva. No entanto, os sinais actuais são mistos em tudo que à cultura diz respeito: os órgãos de informação mais próximos de casa continuam a dar espaço à divulgação de ideias e das artes em folhas-mosaicos que tratam um pouco de tudo, raramente indo a fundo ou com continuidade de um tema ou de uma obra. O leitor vai provavelmente escolhendo avulsamente ou fragmentariamente o que lhe interessa, mas sem um quadro que interligue tanto a teoria como a prática da leitura, passando ao lado do que está a ser criado ora em estado embrionário ora já como tendência generalizada de um tempo ou de uma geração. Quem sabe, talvez esta nova realidade seja outro mero reflexo da sempre desejada diversidade — liberdade — artística e literária, ou então a confusão que espelha o resto do movimento societal contemporâneo. Por outro lado, a cultura, especialmente a literatura, foi e será sempre um acto exclusivamente individual, a sua produção só possível na solidão fechada a quatro paredes. Só que na hora da verdade, esse mesmo escritor tem de ter apoio em todas formas, desde a editora um tanto arrojada ao periódico que reconhece no seu trabalho um bem colectivo, e enceta discussões ou debates públicos em volta das ideias que enformam ou não a nossa identidade, esse sentimento abstracto essencial à coesão de qualquer grupo nacional, as “comunidades imaginárias” que nos dão rumo e conforto. Como todos sabem, mais ninguém de fora se interessará nem pelo nosso bem-estar nem sequer pela nossa salvação.

A literatura nos Açores foi sempre um bem acarinhado e alimentado por vários sectores da sociedade, mas especialmente pela sua Imprensa. Creio que a escrita nas suas variadas formas continua a ser a marca primeira da cultura nos Açores, mesmo que a sua centralidade esteja a dar ou a partilhar espaço com outras manifestações do espírito. Vale a pena dizer uma vez mais que durante alguns séculos essas páginas públicas e diárias foram as nossas verdadeiras “universidades”, juntamente com os institutos culturais e as suas discretas publicações das gerações mais antigas até aos nossos dias, especialmente na Terceira e Horta assim como em São Miguel. Desse meio, inevitavelmente de elites e “aristocracias” locais, mas de consciência comunitária bem definida e enraizada, nasceram e ainda nascem as linguagens que dariam expressão à nossa maneira de estar no mundo, ao nosso modo de vida, aos nossos anseios de cidadania, dentro ou fora das nossas fronteiras. A história do povo açoriano vai desde o cais de Alcântara e arredores ao mais recôndito sítio na América do Sul, cinco séculos em busca de um lugar no mundo, uma saga que, parece, ainda não chegou ao fim, e talvez nunca chegue, povo navegante que somos por vontade própria ou impelido por forças que requerem andamento constante dos menos poderosos ou ricos. Seja como for, a nossa literatura é o mais denso repositório do destino ilhéu. As nossas viagens, reais ou fingidas, são o seu fundo aglutinador, quer dos séculos passados quer do nosso tempo. Quem não conhecer este feito literário, conhece distorcidamente a  nossa terra e a sua história, para além de capitães e capitanias e das datas da sua chegada, corsários disfarçados em terra como no mar. Foi sempre, insista-se aqui, a literatura que nos devolveu a nossa imagem em espelhos múltiplos, em faces tão diversas e repartidas, como repartida foi sempre a nossa alma e lealdades, até mesmo nos limites do próprio arquipélago da nossa naturalidade e residência, para a maioria, até mesmo para as nossas elites, nunca nada permanecendo definitivo ou de total confiança. Será precisamente deste sentimento simultaneamente de afincada pertença e visões desterretorializadas de que é feita uma literatura que deveria ser muito mais conhecida, reflectida e divulgada. Deveriam também calar a sua incorrigível ignorância aqueles que advogam, na cultura literária da nossa região, o salve-se quem puder no meio nacional a que pertencemos, esses que sabem ainda menos sobre nós, ao contrário de estudiosos nossos noutras línguas e Tradições. A questão cultural numa pequena região poderá dispensar benesses oficiais, mas não a colaboração formal e informal de instituições que são as nossas vozes públicas; nem nos países europeus mais ricos de dimensões semelhantes esse gesto é dispensável.

Tudo isto para dizer que certos lamentos entre nós continuam descabidos, sem razão. Outra afirmação que poderá mover sobrancelhas: as pessoas, até mesmo os mais jovens, continuam a ler, mesmo que não seja adentro das nossas preferência, digamos, “eruditas”. Não conheço uma única cidade norte-americana com uma população comparável a Ponta Delgada que tenha em funcionamento diário três grandes livrarias, uma outra especializada em livros técnicos, mais as fartas mesas ou estantes de dois hiper-mercados. Por minha parte, fiz da crítica literária e cultural o meu nicho intelectual por acreditar desde sempre que uma cultura literária necessita de ser debatida, apreciada, analisada, comentada e divulgada. Desde há muito resolvi não escrever sobre livros de que não gosto, ou neles não vejo valor, mesmo que por vezes um único parágrafo entre centenas de páginas justifique um livro inteiro. Como alguns outros escritores da minha geração, dediquei-me durante anos ao suplementarismo literário: cinco anos (1995-2000) no Correio dos Açores (SAC/Suplemento Açoriano de Cultura), e cerca de três (2003-2006) na revista mensal Saber Açores (SAAL/Suplemento Atlântico de Artes e Letras). Creio que pela primeira vez juntámos aos romancistas, poetas e ensaístas e interventores-outros da cultura nos Açores os escritores da Diáspora continental, norte-americana e brasileira, tendo pelo meio intelectuais de outras nacionalidades e línguas dedicados aos estudos literários arquipelágicos. Trouxemos a casa muitos dos que, noutra língua ou noutra geografia diaspórica, sempre fizeram parte integrante da nossa Tradição, são as vozes íntimas da nossa memória e dos nossos afectos. Hoje, muitos deles assim como os próprios suplementos no seu todo são citados em teses superiores um pouco por toda a parte, especialmente no Brasil, e não só em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Vêm aí, ou já estão dar conta de si, as gerações seguintes que prometem dar continuidade ao lugar fértil que sempre foi a vida da mente nos Açores. Que a solidão criativa lhes seja o território escolhido. Não haverá paga nenhuma, muito pelo contrário. Que não ouçam as vozes estridentes  dos exaustos — nem peçam favores ou glórias. A sua felicidade (e estatuto entre os seus) será outra.

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Foto de um dos Encontros de Escritores Açorianos (Maia, S. Miguel) que se realizaram entre 1988-1991.

 

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