José, ou a grande arte de José Rubem Fonseca

Uma aliada do esquecimento, isso é a memória.
Rubem Fonseca, José Rubem Fonseca

 /Vamberto Freitas

Poderá vir classificado como sendo uma novela, mas José, do escritor carioca Rubem Fonseca, publicado no Brasil o ano passado, é um pequeno e precioso volume das suas “memórias” mais ou menos ficcionadas, que nos reinventa o seu começo como moço nascido no Rio de Janeiro (1925) de pais portugueses lá imigrados, comerciantes de grande sucesso e depois falhados e remediados, educado durante os seus primeiros oito anos de idade na cidade Juiz de Fora, de Minas Gerais, e depois o seu percurso de escritor de romances “policiais”, novelas, contos, e alguns ensaios literários que seriam reunidos em O romance morreu (título obviamente irónico, e um discurso de magnífica erudição, sem igual em língua portuguesa, sobre a literatura mundial e a que mais o influenciaria), guionista, vencedor de vários prémios Jabuti no seu país e, finalmente, no estrangeiro, recebedor dos Prémio Juan Rulfo e do Prémio Camões, ambos em 2003. A sua grande arte — título de um dos seus mais famosos romances – são as narrativas que giram sempre em volta da urbanidade moderna do Rio de Janeiro, a escuridão da alma humana no centro de cada trama que nos conta, a sua cidade natal e a marginalidade absoluta do mais baixo ao mais alto escalão social tornadas metáforas brilhantes, assustadoras e de todo universais da nossa capacidade para o Bem e, sobretudo, para o Mal. Ler qualquer romance, conto ou ensaio de Rubem Fonseca é, no entanto, mergulhar numa linguagem tão viva, escorreita, simultaneamente popular e erudita, de todo significante na sua pluralidade imagética e descritiva, que depressa nos esquecemos da fealdade e traição do “coração humano em conflito consigo próprio”, quando menos esperamos ou suspeitamos em qualquer uma das suas páginas. Ora, José parece-me agora o seu contraditório — contraditório redentor e em paz de alma —  dessa vasta obra sem par na nossa língua. Leio José como uma celebração da vida, de dádivas presentes e ancestrais, viramos as suas páginas como quem, suponho, daria na companhia de Rubem Fonseca um dos seus passeios diários à beira mar, circulando depois com ele na Praça Antero de Quental, falando sobre a beleza da nossa língua que hoje tanto continua a expressar a agonia lusitana no velho continente como a exuberância tropical do maior país na América Latina, ou ainda relembra com a mesma eloquência e criatividade a africanidade dos que naquele outro continente comungam ou connosco sofreram e sofrem uma longa história.

José Rubem Fonseca vem em forma de novela, narrada na terceira pessoa, porque o autor sabe muito bem, e redi-lo várias vezes aqui, que o nosso passado é sempre mais uma reinvenção da memória, que inevitavelmente nos falha, nos “trai”. Como um dos seus muitos personagens em interrogatório implacável, em que o sentimento de prováveis “culpas” se esvazia na tentativa de justificar qualquer acção ou movimento incriminatório e na tentativa de readquirir a sua humanidade temporária ou permanentemente perdida, lembramos o que de melhor passou pelas nossas vidas e esquecemos o que contraria a nossa auto-noção da bondade ou virtualidade. Entre a realidade e a ficção, pois, a linha é mais ténue ou fina do que habitualmente pensamos, um romance poderá conter todas as nossas verdades em contextos complicados, como uma autobiografia poderá tornar-se, como nos relembra o autor, um rol de mentiras involuntárias na reconstrução do ser, ou do que gostaríamos ter sido. Rubem Fonseca cita inúmeros escritores da literatura canónica mundial justificando a essencial criatividade com que reavivamos o nosso passado individual ou colectivo, como que a dizer, uma vez mais, que só na Arte reside a verdade das coisas e gentes, a “realidade” tal como a “vemos” ou a “entendemos”. É a sua infância, em primeiro plano, que o autor revisita em José, seguida por umas breves palavras sob a designação de “O autor”, nas quais uma outra voz, supõe-se que a de um editor, nos traz até ao início da sua carreira de escritor, depois de ter exercido várias actividades, inclusive a sua formação em questões policiais e de Direito, a área da sua formação.

Rubem Fonseca será um dos pouquíssimos grandes autores brasileiros que raramente escreve em qualquer forma ou contexto sem que nos lembre da sua ancestralidade lusa (nem que seja fazer com que um dos seus personagens abra uma garrafa de tinto português) da qual muito se orgulha, inclusive da sua formação literária inicial em casa dos pais e pela mão destes, cuja colecção de livros à mão ia desde Camões e Eça de Queirós a Fernando Pessoa e Guerra Junqueiro. Aliás, a sua família imediata imigrada no Brasil nas primeiras décadas do século passado, contraia a imagem que ainda lá predomina da nossa gente — trabalhadores ou empreendedores em ramos do comércio de luxo, mas com uma sólida formação intelectual, tal como depreendemos do que o autor nos vai relatando na brevidade dos seus parágrafos, incluindo uma tia que lhe apresentou ainda em tenra idade à literatura de língua inglesa, que viria a exercer grande influência na sua carreira mais tarde, sem dúvida até na escolha romanesca que o haveria de distinguir no mundo, ultrapassando muitos desses seus supostos mestres. Não será esta atitude do escritor que faz dele o grande autor que é, mas faço questão em realçar, por ser tão pouco comum entre uma boa parte dos intelectuais brasileiros, não achar necessário fazer um ajuste de contas com a história da construção lusa do que viria a ser o seu grande país, maldizer quase em termos psiquiátricos a herança ibérica, especialmente em contraste obsessivo com a América do Norte. Rubem Fonseca nunca fala de “portugas” e nunca se refere ao que outros gostam de denominar de “terrinha”, raramente em termos afectuosos. Bem sei que, tanto de um lado como do outro, contribuímos todos para esse afastamento que só nos nossos dias está a ser ultrapassado, sem dúvida por uma educação mais sólida nos dois lados do Atlântico, e pelos contactos cada vez mais íntimos, constantes e duradouros entre portugueses e brasileiros. Rubem Fonseca não é só um dos grandes cultivadores da sua língua portuguesa — sabe como poucos, estou em crer, que a sua herança ancestral em nada é inferior à de outros povos, todo o sangue, ruína e raiva na invenção de novas nações é uma constante na caminhada universal dos povos. É desta abertura intelectual e afectiva de Rubem Fonseca que o leva ainda a ser um autor para quem toda a literatura do mundo lhe é familiar, e lhe oferece as mais díspares e ricas influências. A sua é uma obra que, a partir de um género literário para outros já formulário, consegue “retratar” não só toda uma sociedade ao mesmo tempo muito familiar e desconhecida pela maioria de nós, como a transforma em metáfora viva da feliz e infeliz condição humana em toda a parte. Reafirma ele numa destas páginas maravilhosas que prefere ser chamado um autor mineiro, e não da grande cidade de fama mundial que é a sua e lhe fornece todo o referencial humano e geográfico dos seus livros.

“A literatura feita em Portugal — escreve uma vez mais noutro passo — também teve uma participação importante nessa época em que, junto com o amor pela literatura, cresceu o seu amor pela língua portuguesa, e poderia citar dezenas de notáveis autores lusitanos, de história, ficção e poesia, que o marcaram e lhe provocaram grande enlevo e admiração. Seu pai gostava de recitar sonetos de Camões e versos de António Nobre e Guerra Junqueiro. José lembra-se dele recitando, deste último, ‘O melro’ e ‘Oração à luz’. Junqueiro não era um dos seus poetas favoritos, não obstante Fernando Pessoa tenha afirmado, em carta a um editor inglês, ao sugerir a publicação do poema ‘Oração à luz’, que Junqueiro era o ‘maior de todos os poetas portugueses …”

Quantos autores portugueses falam da grande literatura brasileira nesta linguagem apreciativa e conhecedora? Quantos anos foram necessários para as nossas editoras começarem finalmente a publicar de modo mais ou menos sistemático alguns desses grandes escritores do nosso tempo, ou mesmo os clássicos escritos desde o Nordeste de Gilberto Freyre e Euclides da Cunha ao Rio Grande do Sul de Erico Veríssimo e Luiz António de Assis Brasil? Só para ler Rubem Fonseca, qualquer um dos seus livros numa lista que conta quase três dezenas, toda a longa espera, nas mudanças mútuas de atitude em curso nas duas margens do Atlântico, valeu a pena. Saiu também ao mesmo tempo deste José os contos sob o título (delicioso e todo Rubem Fonseca) Axilas e outras histórias indecorosas.

_____________

Rubem Fonseca, José Rubem Fonseca, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira Participações S.A., 2011.

Anúncios

De Joel Neto e do seu novo realismo

Tudo isto aconteceu e é verdade — e o facto de estar agora aqui a contá-lo não é, certamente, alheio a essa evidência.

Joel Neto, Os Sítios Sem Resposta

/Vamberto Freitas

 

Duas advertências ao leitor: não se preste muita atenção à capa deste novo romance de Joel Neto, Os Sítios Sem Resposta, por mais artística que seja, um menino com uma bola debaixo do braço olhando meio perplexo, creio que para lugar nenhum, ou então tentando adivinhar o seu futuro de olhos brilhantes e bem abertos, e nem se interprete ipsis verbis as palavras que cito aí em epígrafe, aliás não escritas na narrativa propriamente dita, mas sim numa “nota e agradecimentos” no fim do livro. Da já substancial obra do terceirense Joel Neto — a ficção de O Terceiro Servo e de O Citroen Que  Escrevia Novelas Mexicanas, a “crónica” de A Banda Sonora para um Regresso a Casa, entre alguns outros livros deliciosos sobre a doença desportiva nacional — conheço o suficiente para saber do seu gosto e gozo artístico em toda e qualquer escrita sua. Por outro lado, não se confunda nunca, não se associe os cómicos chamamentos à mais profunda e duradoura rivalidade entre portugueses durante todo o século passado, e agora ainda mais em intensidade psiquiátrica quando o país já está num divã clínico por muitas outras razões e motivos, ou seja a rivalidade Benfica-Sporting, o que não raras vezes leva à bolacha, como se diria na minha querida e pitoresca terra de origem, e tal como não podia deixar de acontecer numa das mais hilariantes cenas de Os Sítios Sem Resposta. Como afirmou recentemente na sua coluna literária do JL o romancista e crítico Miguel Real, trata-se aqui de algo bem mais sério, bem mais profundo, bem mais relevante na nossa ficção nacional da actualidade, especialmente a de Joel Neto com firmes raízes açorianas mas formado e com residência fixa, como também diria Urbano Bettencourt noutro contexto muito próprio num dos seus livros de poemas, no Continente — ou em “Lisboa”, melhor dito, tal como referimos o destino dos nossos marinheiros que optaram por viver a leste do “paraíso” atlântico.

Os Sítios Sem Resposta é um romance de características formais muito próprias, mas cuja temática nos é de todo familiar. O seu protagonista, de nome Miguel João Barcelos, em muito se assemelha ao autor Joel Neto, mas não se suponha ou se deixe que essa provável dose de autobiografismo influencie de modo algum a nossa leitura. É certo que os Açores, desde as obras inaugurais da nossa literatura, têm sido sempre uma obsessão tanto para quem parte como para quem fica. Não se deve este facto marcante dessas nossas melhores páginas em qualquer género a um suposto “ensimesmamento” e muito menos ao “regionalismo” que tanto fere as sensibilidades dos nossos “universalistas”, ou dos “cidadãos do mundo”, a expressão mais falsa e pretensiosa no vocabulário intelectual dos que, por vezes não conhecendo as suas raízes natais, pretendem conhecer e pertencer ao resto do mundo. Por minha parte, estava convencido até há bem pouco tempo que a nova geração de escritores açorianos residentes fora do arquipélago não esqueceria nunca essa Tradição literária e cultural, como efectivamente não esqueceram, levando-os quase sempre a uma fina cortesia de reconhecimento aos seus antecessores e referências intelectuais, mas partindo fulgurantemente para a sua situação num mundo radicalmente transformado, com as suas ansiedades existenciais agora no centro da sua arte, visto os temas desses seus antecessores ilhéus estarem — ou parecerem — ultrapassados, história escrita e encerrada. Quero dizer, com todas estas considerações, que este romance de Joel Neto é tudo isso, e é ainda muito mais, é a sua prosa ficcional numa fase de total maturidade, a vivência circular do seu protagonista entre as ilhas e a capital do país, em que toda a sua vida é revista e repensada numa actualidade que, do mesmo modo, tanto parece progredir nos seus espasmos de modernidade incerta como parece regressar ao solo das origens, esse que tudo condiciona na vida reinventada de um açoriano perfeitamente integrado nos grandes meios, mas nunca liberto do seu passado, que nem sequer é passado e nunca morre, nas palavras de um grande escritor norte-americano quando se referia à sua própria história comunitária. Se refiro aqui a segurança — ou maturidade — desta nova escrita de Joel Neto, quero transmitir a ideia de que num processo de “evolução” cultural e literária de uma nova geração tentar renegar ou mesmo matar o seu passado nesse processo de reinvenção pessoal e depois artística só significa que as origens terão necessariamente de renascer em cada uma das nossas vidas, permitindo assim uma ideia mínima de quem somos, de onde viemos e para onde gostaríamos de ir. Os Sítios Sem Resposta representa aqui a realidade mais forte do que a vontade dos que gostariam de tudo transformar a seu gosto ou conforme as suas preferências socioculturais, ou até filosóficas, representa a imutabilidade da força das nossas raízes para além das aparentes mudanças ou transformações que nos levam a uma noção de libertação individual. O passado, uma vez mais, persegue-nos sempre, quer o aceitemos ou não. Podem crer: se o jogo de metáforas que são as querelas entre os dois grandes clubes lisboetas de futebol oferece-nos a comédia da nossa fatuidade diária e atávica infantilidade emotiva, ou talvez mesmo a ausência de sentido nas nossas vidas contemporâneas, a dor vivencial de cada dia nos nossos relacionamentos íntimos, familiares, profissionais, assim como a vida por entre as incertezas que nos impõe uma sociedade absolutamente à deriva, são o fundo temático e a criatividade linguística de Os Sítios Sem Resposta. A sociedade é aqui, parece ser, muito mais protagonista do que os seus personagens, meras peças secundárias na engrenagem em que toda uma geração está apanhada e presa, “crise” sendo uma das mais amenas, se bem que repetidas, palavras neste romance.

“Onde andavam os homens de Lisboa, — diz o narrador resignado aos dias do nada, em que já nem o futebol lhe comovia, e muito menos o seu emprego medíocre numa seguradora qualquer com sede na capital — sabia-o eu bem: não estando a assistir a filmes tontos sobre feiticeiros e dragões, estavam ali, aos murros num simulador — e, entretanto, as mulheres ocupavam-se das compras, com aquele ar ressentido de quem não é devidamente apreciado”.

Todos os prazeres aqui nunca são doces, são quase sempre amargos, pagos ou sofridos — casamento, sexo, vida em família ou a vida num gabinete qualquer de trabalho tornados uma prisão mais ou menos voluntária. Nem me vou alongar na descrição da existência citadina de Miguel João Barcelos, estamos numa Lisboa de movimento fútil e felicidade fingida. Toda a trama de Os Sítios Sem Resposta gira em volta desse quotidiano e dos regressos quase indiferentes do protagonista de visita à família nos Açores, a uma freguesia próxima de Angra do Heroísmo, também já vivendo o “realismo” do nosso tempo, em que a disfuncionalidade familiar e societal em geral é o que mais sobressai na narrativa. Sim, os Açores continuam a chamar a si estes seus ausentes agora em mundos que um dia tudo prometiam, só que os reencontros são quase tão dolorosos como a dia a dia na deprimida metrópole no outro lado do mar. Todas as forças que assolam um grande meio cercam, naturalmente noutra dimensão, a vida quotidiana de uma pequena ilha: pais que vivem alienados sob o mesmo teto, irmãos na luta contra a dependência química e sujeitos ao apoio familiar onde se refugiam os mais fracos, um jogo entre Benfica e Sporting o momento mais solene da comunidade. Será este talvez o primeiro romance da crise global em que o nosso país, em todos os seus recantos, está mergulhado, o romance em que todas as gerações juntam a sua infelicidade do passado ao presente. Há muito tempo que esta geração a meio da ponte e da vida não nos presenteava com um romance tão abrangente e significante.

Ernest Hemingway disse um dia que o treino jornalístico era muito útil ao escritor de ficção — se abandonado a tempo. Não conheço nem tento conhecer o que pensa Joel Neto da sua vida profissional e de escritor. Só lhe pedia, se me for permitido, que mantenha agora o rumo na sua escrita criativa (nunca deixando as suas leves e deliciosas crónicas jornalísticas) a bem da literatura portuguesa da sua geração, e ainda mais a bem da grande literatura que continua a ter os Açores e a nossa “vida em ilha” como referências inescapáveis.

______________

Joel Neto, Os Sítios Sem Resposta, Porto Editora, Lisboa, 2012.

De Sam Pereira e da nossa memória poética

Finalmente, reconheço que a minha força vem dos meus antepassados da Terceira. Eu não sou eles; não posso ser eles, mas a minha gratidão é a mesma.
Sam Pereira, The Marriage of the Portuguese

 /Vamberto Freitas

O poeta Sam Pereira nasceu na cidade de Los Banos em 1949 (onde viveu e escreveu durante a sua vida adulta o florentino Alfred Lewis, que seria na Califórnia o grande pioneiro da “nossa” literatura em língua inglesa), e é formado pela California State University, Fresno, onde estudou com o poeta canónico Philip Levine, e depois receberia o seu mestrado em Belas Artes pela University of Iowa, tendo estudado ainda no famoso e muito prestigiado Iowa Writers’ Workshop. Menciono brevemente estes factos biográficos porque creio que o seu nome nunca foi conhecido e muito menos falado entre nós. Trata-se de um dos melhores poetas norte-americanos, residente ainda hoje nos arredores da sua terra nascença, numa zona de imediato identificada com a nossa gente, tendo crescido entre avós que não falavam inglês mas já lhe incutiam a seu modo a açorianidade exilada, o portuguesismo que aparentemente ele ignoraria durante a sua formação superior, — ou nem tanto, pois fala de Fernando Pessoa com todo o entusiasmo de outros escritores luso-descendentes — mas cuja força das vivências passadas e na memória viva de todo o seu percurso literário fazer-se-ia sentir em muita da sua poesia. Aliás, The Marriage of the Portuguese, originalmente publicado em 1978, acaba de ser reeditado numa versão expandida, trazendo agora, muito significativamente, um prefácio do poeta Frank X. Gaspar. Será mais do que um outro regresso a casa – este de Sam Pereira, autor também da magnífica poesia de Brittle Water e A Café in Boca. As suas comovidas palavras reproduzidas por mim em epígrafe estão inteiramente justificadas, poderão referir-se tanto a alguns dos seus poemas dispersos pelos referidos três livros, como aos próprios subtextos, estou em crer, de cada um dos seus versos inventados durante toda uma carreira marcada essencialmente por uma postura calma e um tanto retraída. Gaspar diz no seu texto introdutório que Sam Pereira é um writer’s writer/escritor de escritores. Para mim, não haverá elogio mais profundo do que este. Mestre entre mestres.

The Marriage of the Portuguese abre com o poema do mesmo título, e não se refere a um “casamento” de um tempo longínquo e mítico nos Açores, terá muito mais ver com a união fatal de um povo com o mar do seu destino. Em poucas estrofes, sintetiza toda a sua temática e poética: a brevidade da vida seguida naturalmente do fim absoluto, a saudade do corpo e da alma que foi nossa e dos nossos amados, o Fado da caminhada e irreversibilidade da tragédia humana, a natureza sempre presente e indiferente à nossa sorte, primeiro e último sustento das nossas vidas e memória. O mais notável tropo na poesia de Sam Pereira é como que uma insistência obsessiva nas suas origens atlânticas, ou pelo menos oceânicas, a génese da vida universal. Poeta oriundo do interior quente e seco do Vale de San Joaquin, ligado, nem que tenha sido só como testemunha presente, desde a infância ao trabalho da terra de vastas dimensões, é raro o poema neste como em outros volumes seus que não recai no desejo ou chamamento directo ao mar, à viagem de descoberta sem fim, o regresso, insista-se, às origens sem forma definida e à memória de outros povos e circunstâncias, a busca incessante da companhia, frequentemente de uma mulher, que desfaça a solidão sem sentido, que contrarie o contínuo recurso aqui quase bukowskiano da garrafa nas horas solitárias de hotel, ou de mais uma cidade perdida algures no continente sem fim. A linguagem poética de Sam Pereira oscila entre o formalismo e o verso livre, sem nunca perder o ritmo perfeito e improvisado, jazzístico, parecendo mais um sussurro para além de qualquer emoção sentimental, mas de dor por parte de quem antevê um destino amargo, sem pânico nem medo algum. Na capa do presente volume vem a pintura de Almada Negreiros, “A sesta”, toda a sensualidade inconsciente da mulher linda em repouso; nos poemas de A Café in Boca, a colectânea anterior, temos a foto estilizada de Jorge Botero Lujan: à porta do dito Café, um boémio tipo latino de outras eras, de chapéu e cigarro na boca, lá dentro um guitarrista sentado por detrás de uma linda mulher da noite que parece desafiar o seu cliente a entrar no reduto nocturno de prazer puro. No poema “The Gloxina in Her Glass”, ainda em The Marriage of the Portuguese, escreve Sam Pereira: I remember/I still considered myself Portuguese/Back then/Recordo/que então ainda me considerava português/Naquele tempo.

Para um poeta que vem de uma das mais expansivas, luminosas e alegres geografias do mundo, o sol raramente espreita aqui, é a noite que predomina, assim como a neve de outras cidades e pradarias à distância cujo brilho é tão assustador como o frio que dela emana, a cor do nada ou da morte. Na “ruralidade” significante destes poemas, encontramos o poeta contradizendo tudo o que era suposto ser a sua vida a oeste, a sua busca existencialista tem a ver com a imaginação magoada, com imaginários interiores onde impera a escuridão da consciência inteligente, conhecedora mais do que poderá ser o fim do que as fingidas felicidades de cada momento. Os seus narradores ou personagens de poema em poema parecem vozes pessoanas tentando equilibrar ou entender as várias faces da existência, negando sempre a “verdade” das evidências em sua volta, recorrendo no fim à sabedoria própria e intransmissível. É como se Sam Pereira estivesse condenado – ou salvo — pela sua genética ancestral, onde o cerrado do seu passado dá sempre lugar aos peixes oceânicos da memória mítica, mas nunca inteiramente esquecida, a imagística insistente, repita-se, do mar e do negrume das origens enredadas no simbolismo que nos sugere a natureza de cada instante narrado pelo poeta, a sua condição de navegador perdido sem que deixe de avistar, de querer imaginar, a luz da salvação. Como num Roberto de Mesquita, eis a melancolia de se saber só, restando unicamente a palavra e a estória urdida ao ritmo de música interior reafirmando uma vida inteiramente vivida, a religiosidade, a crença implícita, de que não há mais nada para além da nossa integridade, da verdade de cada encontro ou partilha com quem se atravessa nos nossos percursos. Nos poemas da sua ansiedade ancestral, ostentando títulos ou mesmo dedicatórias que condicionam de imediato uma leitura deste lado do Atlântico, pressentimos a saudade de tudo ou de algo não dito, como num fado de dor desejada ou irreprimível, uma avó oferecendo aos netos bolachas de sabor único e secreto (“The Sugars of Terceira/Os Doces da Terceira”), um pai ouvindo fados a alto som, um luxuoso brandy luso a ser tragado: Then in the same voice, since there is only one:/To a writer; this drunk; this son,/With His father’s soul/Depois na mesma voz/porque há só uma/Para um escritor; este bêbado/este filho/Com a alma de seu pai.

Li pela primeira vez já há alguns bons anos o poema que dá o título ao presente volume de Sam Pereira numa antologia que reúne nas suas páginas os mais importantes nomes da poesia contemporânea californiana, How Much Earth: The Fresno Poets (2001). Foi o suficiente para me dar conta da sua importância, pois a companhia em que se encontrava não dava espaço para dúvida alguma, e já então o associava ao grupo de escritores de ancestralidade portuguesa a cujas obras dedicava grande parte da minha leitura. The Marriage of the Portuguese não pode nem deve ser lido como poesia colectivamente “identitária”, a não ser que o leitor considere o termo estritamente pessoal e significando tão-só a sua condição interior, os anseios únicos do próprio poeta. Trata-se de uma poesia que se enquadra naturalmente na Tradição norte-americana, e só nesse sentido poderemos reclamar como sendo “nossos” os seus chamamentos ao passado, ou como algo comum numa literatura caracterizada desde sempre pela interrogação de como se chegou ao novo país, à instabilidade de uma perpétua “construção” de alma, ou, agora sim, de um colectivo e sentido de pertença do individuo, de lealdades nem sempre pacíficas.

Parece mesmo incrível que esta grande literatura nos tenha dado no nosso tempo, só na Califórnia, poetas tão significantes como Sam Pereira, Frank X. Gaspar, David Oliveira, Art Coelho, Lara Gularte e Millicent Borges Accardi.

____________

Sam Pereira, The Marriage of the Portuguese, Dartmouth, Tagus Press/University of Massachusetts, Dartmouth, 2007. Todas as traduções aqui são minha responsabilidade.