De Sam Pereira e da nossa memória poética

Finalmente, reconheço que a minha força vem dos meus antepassados da Terceira. Eu não sou eles; não posso ser eles, mas a minha gratidão é a mesma.
Sam Pereira, The Marriage of the Portuguese

 /Vamberto Freitas

O poeta Sam Pereira nasceu na cidade de Los Banos em 1949 (onde viveu e escreveu durante a sua vida adulta o florentino Alfred Lewis, que seria na Califórnia o grande pioneiro da “nossa” literatura em língua inglesa), e é formado pela California State University, Fresno, onde estudou com o poeta canónico Philip Levine, e depois receberia o seu mestrado em Belas Artes pela University of Iowa, tendo estudado ainda no famoso e muito prestigiado Iowa Writers’ Workshop. Menciono brevemente estes factos biográficos porque creio que o seu nome nunca foi conhecido e muito menos falado entre nós. Trata-se de um dos melhores poetas norte-americanos, residente ainda hoje nos arredores da sua terra nascença, numa zona de imediato identificada com a nossa gente, tendo crescido entre avós que não falavam inglês mas já lhe incutiam a seu modo a açorianidade exilada, o portuguesismo que aparentemente ele ignoraria durante a sua formação superior, — ou nem tanto, pois fala de Fernando Pessoa com todo o entusiasmo de outros escritores luso-descendentes — mas cuja força das vivências passadas e na memória viva de todo o seu percurso literário fazer-se-ia sentir em muita da sua poesia. Aliás, The Marriage of the Portuguese, originalmente publicado em 1978, acaba de ser reeditado numa versão expandida, trazendo agora, muito significativamente, um prefácio do poeta Frank X. Gaspar. Será mais do que um outro regresso a casa – este de Sam Pereira, autor também da magnífica poesia de Brittle Water e A Café in Boca. As suas comovidas palavras reproduzidas por mim em epígrafe estão inteiramente justificadas, poderão referir-se tanto a alguns dos seus poemas dispersos pelos referidos três livros, como aos próprios subtextos, estou em crer, de cada um dos seus versos inventados durante toda uma carreira marcada essencialmente por uma postura calma e um tanto retraída. Gaspar diz no seu texto introdutório que Sam Pereira é um writer’s writer/escritor de escritores. Para mim, não haverá elogio mais profundo do que este. Mestre entre mestres.

The Marriage of the Portuguese abre com o poema do mesmo título, e não se refere a um “casamento” de um tempo longínquo e mítico nos Açores, terá muito mais ver com a união fatal de um povo com o mar do seu destino. Em poucas estrofes, sintetiza toda a sua temática e poética: a brevidade da vida seguida naturalmente do fim absoluto, a saudade do corpo e da alma que foi nossa e dos nossos amados, o Fado da caminhada e irreversibilidade da tragédia humana, a natureza sempre presente e indiferente à nossa sorte, primeiro e último sustento das nossas vidas e memória. O mais notável tropo na poesia de Sam Pereira é como que uma insistência obsessiva nas suas origens atlânticas, ou pelo menos oceânicas, a génese da vida universal. Poeta oriundo do interior quente e seco do Vale de San Joaquin, ligado, nem que tenha sido só como testemunha presente, desde a infância ao trabalho da terra de vastas dimensões, é raro o poema neste como em outros volumes seus que não recai no desejo ou chamamento directo ao mar, à viagem de descoberta sem fim, o regresso, insista-se, às origens sem forma definida e à memória de outros povos e circunstâncias, a busca incessante da companhia, frequentemente de uma mulher, que desfaça a solidão sem sentido, que contrarie o contínuo recurso aqui quase bukowskiano da garrafa nas horas solitárias de hotel, ou de mais uma cidade perdida algures no continente sem fim. A linguagem poética de Sam Pereira oscila entre o formalismo e o verso livre, sem nunca perder o ritmo perfeito e improvisado, jazzístico, parecendo mais um sussurro para além de qualquer emoção sentimental, mas de dor por parte de quem antevê um destino amargo, sem pânico nem medo algum. Na capa do presente volume vem a pintura de Almada Negreiros, “A sesta”, toda a sensualidade inconsciente da mulher linda em repouso; nos poemas de A Café in Boca, a colectânea anterior, temos a foto estilizada de Jorge Botero Lujan: à porta do dito Café, um boémio tipo latino de outras eras, de chapéu e cigarro na boca, lá dentro um guitarrista sentado por detrás de uma linda mulher da noite que parece desafiar o seu cliente a entrar no reduto nocturno de prazer puro. No poema “The Gloxina in Her Glass”, ainda em The Marriage of the Portuguese, escreve Sam Pereira: I remember/I still considered myself Portuguese/Back then/Recordo/que então ainda me considerava português/Naquele tempo.

Para um poeta que vem de uma das mais expansivas, luminosas e alegres geografias do mundo, o sol raramente espreita aqui, é a noite que predomina, assim como a neve de outras cidades e pradarias à distância cujo brilho é tão assustador como o frio que dela emana, a cor do nada ou da morte. Na “ruralidade” significante destes poemas, encontramos o poeta contradizendo tudo o que era suposto ser a sua vida a oeste, a sua busca existencialista tem a ver com a imaginação magoada, com imaginários interiores onde impera a escuridão da consciência inteligente, conhecedora mais do que poderá ser o fim do que as fingidas felicidades de cada momento. Os seus narradores ou personagens de poema em poema parecem vozes pessoanas tentando equilibrar ou entender as várias faces da existência, negando sempre a “verdade” das evidências em sua volta, recorrendo no fim à sabedoria própria e intransmissível. É como se Sam Pereira estivesse condenado – ou salvo — pela sua genética ancestral, onde o cerrado do seu passado dá sempre lugar aos peixes oceânicos da memória mítica, mas nunca inteiramente esquecida, a imagística insistente, repita-se, do mar e do negrume das origens enredadas no simbolismo que nos sugere a natureza de cada instante narrado pelo poeta, a sua condição de navegador perdido sem que deixe de avistar, de querer imaginar, a luz da salvação. Como num Roberto de Mesquita, eis a melancolia de se saber só, restando unicamente a palavra e a estória urdida ao ritmo de música interior reafirmando uma vida inteiramente vivida, a religiosidade, a crença implícita, de que não há mais nada para além da nossa integridade, da verdade de cada encontro ou partilha com quem se atravessa nos nossos percursos. Nos poemas da sua ansiedade ancestral, ostentando títulos ou mesmo dedicatórias que condicionam de imediato uma leitura deste lado do Atlântico, pressentimos a saudade de tudo ou de algo não dito, como num fado de dor desejada ou irreprimível, uma avó oferecendo aos netos bolachas de sabor único e secreto (“The Sugars of Terceira/Os Doces da Terceira”), um pai ouvindo fados a alto som, um luxuoso brandy luso a ser tragado: Then in the same voice, since there is only one:/To a writer; this drunk; this son,/With His father’s soul/Depois na mesma voz/porque há só uma/Para um escritor; este bêbado/este filho/Com a alma de seu pai.

Li pela primeira vez já há alguns bons anos o poema que dá o título ao presente volume de Sam Pereira numa antologia que reúne nas suas páginas os mais importantes nomes da poesia contemporânea californiana, How Much Earth: The Fresno Poets (2001). Foi o suficiente para me dar conta da sua importância, pois a companhia em que se encontrava não dava espaço para dúvida alguma, e já então o associava ao grupo de escritores de ancestralidade portuguesa a cujas obras dedicava grande parte da minha leitura. The Marriage of the Portuguese não pode nem deve ser lido como poesia colectivamente “identitária”, a não ser que o leitor considere o termo estritamente pessoal e significando tão-só a sua condição interior, os anseios únicos do próprio poeta. Trata-se de uma poesia que se enquadra naturalmente na Tradição norte-americana, e só nesse sentido poderemos reclamar como sendo “nossos” os seus chamamentos ao passado, ou como algo comum numa literatura caracterizada desde sempre pela interrogação de como se chegou ao novo país, à instabilidade de uma perpétua “construção” de alma, ou, agora sim, de um colectivo e sentido de pertença do individuo, de lealdades nem sempre pacíficas.

Parece mesmo incrível que esta grande literatura nos tenha dado no nosso tempo, só na Califórnia, poetas tão significantes como Sam Pereira, Frank X. Gaspar, David Oliveira, Art Coelho, Lara Gularte e Millicent Borges Accardi.

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Sam Pereira, The Marriage of the Portuguese, Dartmouth, Tagus Press/University of Massachusetts, Dartmouth, 2007. Todas as traduções aqui são minha responsabilidade.

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