José, ou a grande arte de José Rubem Fonseca

Uma aliada do esquecimento, isso é a memória.
Rubem Fonseca, José Rubem Fonseca

 /Vamberto Freitas

Poderá vir classificado como sendo uma novela, mas José, do escritor carioca Rubem Fonseca, publicado no Brasil o ano passado, é um pequeno e precioso volume das suas “memórias” mais ou menos ficcionadas, que nos reinventa o seu começo como moço nascido no Rio de Janeiro (1925) de pais portugueses lá imigrados, comerciantes de grande sucesso e depois falhados e remediados, educado durante os seus primeiros oito anos de idade na cidade Juiz de Fora, de Minas Gerais, e depois o seu percurso de escritor de romances “policiais”, novelas, contos, e alguns ensaios literários que seriam reunidos em O romance morreu (título obviamente irónico, e um discurso de magnífica erudição, sem igual em língua portuguesa, sobre a literatura mundial e a que mais o influenciaria), guionista, vencedor de vários prémios Jabuti no seu país e, finalmente, no estrangeiro, recebedor dos Prémio Juan Rulfo e do Prémio Camões, ambos em 2003. A sua grande arte — título de um dos seus mais famosos romances – são as narrativas que giram sempre em volta da urbanidade moderna do Rio de Janeiro, a escuridão da alma humana no centro de cada trama que nos conta, a sua cidade natal e a marginalidade absoluta do mais baixo ao mais alto escalão social tornadas metáforas brilhantes, assustadoras e de todo universais da nossa capacidade para o Bem e, sobretudo, para o Mal. Ler qualquer romance, conto ou ensaio de Rubem Fonseca é, no entanto, mergulhar numa linguagem tão viva, escorreita, simultaneamente popular e erudita, de todo significante na sua pluralidade imagética e descritiva, que depressa nos esquecemos da fealdade e traição do “coração humano em conflito consigo próprio”, quando menos esperamos ou suspeitamos em qualquer uma das suas páginas. Ora, José parece-me agora o seu contraditório — contraditório redentor e em paz de alma —  dessa vasta obra sem par na nossa língua. Leio José como uma celebração da vida, de dádivas presentes e ancestrais, viramos as suas páginas como quem, suponho, daria na companhia de Rubem Fonseca um dos seus passeios diários à beira mar, circulando depois com ele na Praça Antero de Quental, falando sobre a beleza da nossa língua que hoje tanto continua a expressar a agonia lusitana no velho continente como a exuberância tropical do maior país na América Latina, ou ainda relembra com a mesma eloquência e criatividade a africanidade dos que naquele outro continente comungam ou connosco sofreram e sofrem uma longa história.

José Rubem Fonseca vem em forma de novela, narrada na terceira pessoa, porque o autor sabe muito bem, e redi-lo várias vezes aqui, que o nosso passado é sempre mais uma reinvenção da memória, que inevitavelmente nos falha, nos “trai”. Como um dos seus muitos personagens em interrogatório implacável, em que o sentimento de prováveis “culpas” se esvazia na tentativa de justificar qualquer acção ou movimento incriminatório e na tentativa de readquirir a sua humanidade temporária ou permanentemente perdida, lembramos o que de melhor passou pelas nossas vidas e esquecemos o que contraria a nossa auto-noção da bondade ou virtualidade. Entre a realidade e a ficção, pois, a linha é mais ténue ou fina do que habitualmente pensamos, um romance poderá conter todas as nossas verdades em contextos complicados, como uma autobiografia poderá tornar-se, como nos relembra o autor, um rol de mentiras involuntárias na reconstrução do ser, ou do que gostaríamos ter sido. Rubem Fonseca cita inúmeros escritores da literatura canónica mundial justificando a essencial criatividade com que reavivamos o nosso passado individual ou colectivo, como que a dizer, uma vez mais, que só na Arte reside a verdade das coisas e gentes, a “realidade” tal como a “vemos” ou a “entendemos”. É a sua infância, em primeiro plano, que o autor revisita em José, seguida por umas breves palavras sob a designação de “O autor”, nas quais uma outra voz, supõe-se que a de um editor, nos traz até ao início da sua carreira de escritor, depois de ter exercido várias actividades, inclusive a sua formação em questões policiais e de Direito, a área da sua formação.

Rubem Fonseca será um dos pouquíssimos grandes autores brasileiros que raramente escreve em qualquer forma ou contexto sem que nos lembre da sua ancestralidade lusa (nem que seja fazer com que um dos seus personagens abra uma garrafa de tinto português) da qual muito se orgulha, inclusive da sua formação literária inicial em casa dos pais e pela mão destes, cuja colecção de livros à mão ia desde Camões e Eça de Queirós a Fernando Pessoa e Guerra Junqueiro. Aliás, a sua família imediata imigrada no Brasil nas primeiras décadas do século passado, contraia a imagem que ainda lá predomina da nossa gente — trabalhadores ou empreendedores em ramos do comércio de luxo, mas com uma sólida formação intelectual, tal como depreendemos do que o autor nos vai relatando na brevidade dos seus parágrafos, incluindo uma tia que lhe apresentou ainda em tenra idade à literatura de língua inglesa, que viria a exercer grande influência na sua carreira mais tarde, sem dúvida até na escolha romanesca que o haveria de distinguir no mundo, ultrapassando muitos desses seus supostos mestres. Não será esta atitude do escritor que faz dele o grande autor que é, mas faço questão em realçar, por ser tão pouco comum entre uma boa parte dos intelectuais brasileiros, não achar necessário fazer um ajuste de contas com a história da construção lusa do que viria a ser o seu grande país, maldizer quase em termos psiquiátricos a herança ibérica, especialmente em contraste obsessivo com a América do Norte. Rubem Fonseca nunca fala de “portugas” e nunca se refere ao que outros gostam de denominar de “terrinha”, raramente em termos afectuosos. Bem sei que, tanto de um lado como do outro, contribuímos todos para esse afastamento que só nos nossos dias está a ser ultrapassado, sem dúvida por uma educação mais sólida nos dois lados do Atlântico, e pelos contactos cada vez mais íntimos, constantes e duradouros entre portugueses e brasileiros. Rubem Fonseca não é só um dos grandes cultivadores da sua língua portuguesa — sabe como poucos, estou em crer, que a sua herança ancestral em nada é inferior à de outros povos, todo o sangue, ruína e raiva na invenção de novas nações é uma constante na caminhada universal dos povos. É desta abertura intelectual e afectiva de Rubem Fonseca que o leva ainda a ser um autor para quem toda a literatura do mundo lhe é familiar, e lhe oferece as mais díspares e ricas influências. A sua é uma obra que, a partir de um género literário para outros já formulário, consegue “retratar” não só toda uma sociedade ao mesmo tempo muito familiar e desconhecida pela maioria de nós, como a transforma em metáfora viva da feliz e infeliz condição humana em toda a parte. Reafirma ele numa destas páginas maravilhosas que prefere ser chamado um autor mineiro, e não da grande cidade de fama mundial que é a sua e lhe fornece todo o referencial humano e geográfico dos seus livros.

“A literatura feita em Portugal — escreve uma vez mais noutro passo — também teve uma participação importante nessa época em que, junto com o amor pela literatura, cresceu o seu amor pela língua portuguesa, e poderia citar dezenas de notáveis autores lusitanos, de história, ficção e poesia, que o marcaram e lhe provocaram grande enlevo e admiração. Seu pai gostava de recitar sonetos de Camões e versos de António Nobre e Guerra Junqueiro. José lembra-se dele recitando, deste último, ‘O melro’ e ‘Oração à luz’. Junqueiro não era um dos seus poetas favoritos, não obstante Fernando Pessoa tenha afirmado, em carta a um editor inglês, ao sugerir a publicação do poema ‘Oração à luz’, que Junqueiro era o ‘maior de todos os poetas portugueses …”

Quantos autores portugueses falam da grande literatura brasileira nesta linguagem apreciativa e conhecedora? Quantos anos foram necessários para as nossas editoras começarem finalmente a publicar de modo mais ou menos sistemático alguns desses grandes escritores do nosso tempo, ou mesmo os clássicos escritos desde o Nordeste de Gilberto Freyre e Euclides da Cunha ao Rio Grande do Sul de Erico Veríssimo e Luiz António de Assis Brasil? Só para ler Rubem Fonseca, qualquer um dos seus livros numa lista que conta quase três dezenas, toda a longa espera, nas mudanças mútuas de atitude em curso nas duas margens do Atlântico, valeu a pena. Saiu também ao mesmo tempo deste José os contos sob o título (delicioso e todo Rubem Fonseca) Axilas e outras histórias indecorosas.

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Rubem Fonseca, José Rubem Fonseca, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira Participações S.A., 2011.

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