Literatura e história: sobre esta coluna e algo mais

A história das ideias e a criação imagética da humanidade no meio e nas circunstâncias que as moldaram.

Edmund Wilson, Axel’s Castle

 /Vamberto Freitas

 Paulo Simões, o director do Açoriano Oriental, insistiu comigo durante algum tempo para que eu ressurgisse com a minha coluna literária e cultural no seu jornal, o que viria a acontecer há quase dois anos. Circunstâncias da minha vida familiar tinham impedido a minha presença na imprensa de um modo regular e sistemático. Eu continuava a escrever ensaios, mas dirigidos a colóquios no nosso país e no estrangeiro, ou então a revistas universitárias ou da especialidade, tudo de pouca ou nenhuma circulação entre o grande público. Sentia que o Paulo tinha razão, pois eu via a escrita dos meus colegas aqui nos Açores e na Diáspora cair no esquecimento, ou sem uma apreciação contextualizante. Eu já tinha saudades da disciplina que é ter de escrever todas as semanas e de ler interminavelmente com um bem definido objectivo em mente para cada palavra ou linha que sublinho e comento nas margens de cada um desses livros. A generosidade do jornal foi-me irrecusável quando me ofereceram todo o espaço necessário ao diálogo prolongado com os nossos leitores. BorderCrossings — agora também livro — nasce desse meu compromisso semanal.

Como já tinha ensaiado nos suplementos que coordenei durante uns bons anos aqui em S. Miguel, decidi que era essencial alargar a visão do nosso mundo, trazendo ao conhecimento dos leitores o que outros, para além dos autores açorianos, escreveram e escrevem de ou sobre nós, desde escritores brasileiros (como Luiz António de Assis Brasil) aos norte-americanos e luso-descendentes de língua inglesa, que estão a cavar fundo e frutiferamente um lugar de destaque na cultura literária dos Estados Unidos e do Canadá. Tenho quase sempre os Açores como ponto de partida ou unificador de temáticas, ou então a representação artística da experiência imigrante portuguesa em geral, a sua história e as comunidades que construíram para si em variadíssimas sociedades de acolhimento. Para os provincianos incorrigíveis entre nós: a grande literatura contemporânea mundial continua a cultivar os temas de sempre, agora ainda mais na atribulada idade pós-moderna, uma outra espécie de totalitarismo societal imposto e comandado pelos chamados mercados e a especulação criminosa em geral, ante governantes sem memória histórica: a arte literária como acto identitário, o outro em movimento universal entre todos os povos do mundo, tentando reinventar-se sem perder a sua dignidade pessoal ou a honra das suas raízes ancestrais.

Literatura e sociedade são naturalmente indissociáveis. Não quer isto dizer que não possa ser muito mais, ou algo mais do que isto. Por mais narcisista que seja um texto, por mais fechado ou isolado que esteja qualquer criação poética no seu nicho ou supostamente inacessível torre de marfim, terá sempre de representar o personagem na sua contingência muito pessoal, mas nunca desligado do meio em que está inserido, terá de ser um outro retrato do seu tempo e da sua historicidade, ou de um tempo-outro imaginado e reinventado nesse texto ou nesse poema. Ainda muito recentemente citei num ensaio meu intitulado “Sociedade e crítica: Irving Howe e os Intelectuais de Nova Iorque” que para estes escritores (o que evidentemente também define o que penso) “o formalismo, para todos eles, seria necessariamente relegado para um segundo lugar, pois a sua escrita visava estabelecer a ficção como representação, nos seus sublimes momentos, da época a que pertenciam, dos anseios de liberdade, justiça e igualdade”. Bem sei que estes postulados estão, ou estiveram, fora de moda em tempos recentes, que mais pareciam de uma perpétua e acéfala festa, mas não estão ultrapassados. Vem aí de novo, pelo que parece quando milhões de cidadãos desempregados já vivem o estrangulamento também na Europa, a degradação generalizada que coloca os povos e as suas veneráveis nações de joelhos e em obediência aos canalhas de sempre, tal como acontece já com a Grécia, o berço de tudo que é bom no ocidente — Democracia, Filosofia e Arte. É por isso que numa ditadura, seja ela de esquerda ou de direita, juntamente com os políticos opositores mais conhecidos, os primeiros cidadãos a serem perseguidos e presos são os escritores e os jornalistas. São eles que carregam e perpetuam em si a memória colectiva e identitária de um povo.

A literatura, admitamos, poderá ser muita outra coisa para outros. Para mim, de igual modo, é muito mais do que as suas temáticas, mas a sua “função” na sociedade continua a existir, a mover e comover mentes e corações. Continua a estar na base da minha escrita crítica a literatura transfronteiriça como representação identitária de um povo ou país. O meu diálogo literário e cultural foi sempre com uma minoria pertencente à nossa classe culta, desde os Açores aos que estão espalhados um pouco por toda a parte no nosso mundo diaspórico, uns nossos conterrâneos, outros luso-descendentes e ainda outros estudiosos da cultura portuguesa, incluindo a sua vertente açoriana.

As limitações cá de quem escreve e publica livros são praticamente as mesmas de que  falariam a maioria dos escritores em Lisboa: muitos livros para poucos leitores. Não ignoro as dificuldades de se viver e publicar numa ilha, pois estamos fora dos grandes circuitos comerciais e das máquinas publicitárias de maior projecção. Vou-lhe dar dois exemplos, no que respeita à circulação geral de livros. Um dos poetas portugueses mais prestigiados e famosos do nosso tempo, segundo me constou há pouco tempo, não conseguirá vender mais do que mil exemplares de um livro seu, ou nem sequer chegar lá perto em certos casos. Nos Estados Unidos, Edmund Wilson, o crítico canónico do século passado já aqui referido, o mesmo que hoje continua a ser biografado e analisado em obras que saem ano a ano, ele, que publicava os seus ensaios em revistas tão prestigiadas como a Vanity Fair, The New Republic, The New Yorker e a The New York Review of Books, não vendia mais do que dois mil exemplares de cada um dos seus livros. O seu único livro que ia a caminho de se tornar um best-seller, Memoirs of Hecate County, foi proibido de circular a meados dos anos 40 por um tribunal em São Francisco (São Francisco!) pela sua suposta sexualidade pornográfica, gesto hipócrita e puritano que hoje nos faria rir e abanar a cabeça em descrença e gozo. Creio que isso diz muito, senão tudo. Só que os seus livros, que pouco venderam, pelo menos durante a sua vida, foram exactamente dos que mais marcariam a cultura literária no seu país.

Quanto aos Açores, existe ainda a distância da maioria das livrarias nacionais e o custo adicional de os fazer chegar a esses potenciais destinos. Mesmo assim, essas livrarias estão só interessadas em dois ou três escritores do nosso país, por assim dizer, e em primeiro lugar interessadas nos mais vendidos e badalados escritores populares internacionais. Foi sempre assim, aliás. Quem por cá anda a vangloriar-se de ter publicado fora do arquipélago, esquece-se ou é mesmo ignorante do facto de que até há poucos anos alguns dos escritores açorianos publicaram em Lisboa durante mais de uma década, e estavam presentes em muitas das livrarias do país, mesmo que alguns deles não vendessem muito devido às suas temáticas; e ser publicado “lá fora” não garante maior sucesso em nada. Com a facilidade que a net agora nos proporciona, blogues e redes sociais, toda essa questão está a ser ultrapassada. Hoje, um livro publicado nos Açores será de imediato conhecido em qualquer parte do mundo, e quem estiver interessado poderá adquiri-lo com toda a facilidade. Temos leitores no mundo inteiro, desde Riga a Tóquio, para não falar de países como os Estados Unidos e o Brasil, onde figuramos já em inúmeras teses universitárias e noutros estudos ou ensaios eruditos. Toda e qualquer literatura dirige-se, hoje, a comunidades de leitores internacionais que se interessam por um determinado país, língua ou temática.

Entre nós, nos Açores, a ignorância foi sempre singularmente atrevida. A grandeza ou legitimidade literária e intelectual de um livro medem-se pelo lugar onde foi publicado?

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Esta coluna foi em parte retirada de uma recente entrevista que concedi a Sandra Pacheco Tejo do semanário micaelense Terra Nostra. Foto: um grupo de escritores que participaram num dos primeiros encontros Filamentos da Herança Atlântica, em Tulare, Califórnia, a principio dos anos 90.

A poesia açoriana de Manuel Alegre

Mas um dia cheguei. E vi: as ilhas escritas, inscritas no mar.
Manuel Alegre, Escrito no mar: Livro dos Açores

 /Vamberto Freitas

 

Não será surpresa para ninguém que um dos maiores nomes da literatura portuguesa contemporânea, Manuel Alegre, sempre foi um apaixonado dos Açores. Visita-nos de quando em quando, e mesmo quando cá vem como político olha sempre para além do momento, revive a mítica das suas ilhas-pátria, presta homenagem à Tradição literária e à nossa história quase mágico-realista que ele sabe, como poucos escritores nossos em qualquer parte, que definem os Açores com o mesmo mistério com que as nuvens nos afogam e a terra se movimenta de modos vários e em todas as direcções, sem prelúdio nem piedade. Para cada escritor continental ignorante sobre o nosso arquipélago existirá um outro que só não conhece todo o seu país nas suas fronteiras recortadas, como está consciente de que a arte toma sempre as suas formas consoante a terra e a comunidade de onde parte e a qual, inevitavelmente, retrata. Aqui há tempos um outro poeta de renome nacional afirmou que a “geografia” nestas partes era sempre o ponto de partida para “os poetas medíocres”. Poderá ser, em certos casos, como poderá ser ainda mais que muitos escritores contemporâneos considerados “geniais” dependem em primeiro lugar do jogo de influências extra-literárias nas publicações ditas nacionais dominadas por quem os projectam incessantemente ante os seus leitores sem necessariamente perceber as teias que em toda a parte enredam e distorcem a “fama” temporária de muitos e a marginalização provisória de outros, alguns dos quais depois permanecem na memória das gerações. Um dos ditos de Nemésio deveria estar escrita logo à saída de cada um dos nossos aeroportos: A geografia, para nós, vale tanto quanto a história. Quem não souber o que isso quer dizer, leia um dos nossos escritores, ou pergunte a qualquer açoriano medianamente informado sobre as origens e os condicionalismos da vida nos Açores. Ou então leia, antes de cá chegar, Escrito no mar: Livro dos Açores.

Manuel Alegre não merece que eu utilize esta sua magnífica sequência de poemas açorianos para enviar mensagens a outros, mas desta vez não resisti à oportunidade que me ofereceu. Escrito no mar inclui todos os poemas que foram publicados já há alguns anos numa edição-albúm destinada a ofertas do Governo Regional, e por isso desconhecidos da maioria dos nossos leitores, talvez os que mais os mereciam. O presente volume traz um inédito, “Antero”, e outros que haviam saído no jornal Ilha Maior (Madalena) mas nunca incluídos em livro até agora. Ilustrado com fotos de outro continental desde há muito também agarrado pelos Açores, Jorge Barros, Escrito no mar permanece uma das melhores obras poéticas dos nossos dias que têm os Açores como referência ou tema principal por parte de quem cá não nasceu mas tudo interiorizou, quase sempre com mais profundidade do que nós próprios, sendo a sua “narrativa” simultaneamente dominada, protagonizada, melhor dito, pela misteriosa imponência do lugar e pelo estado de espírito do poeta em cada olhar ou em cada redescoberta que faz numa viagem sem fim à vista, como que em procura da mítica ilha em frente, mas a que inventamos na nossa imaginação na ânsia de perpetuar a epopeia que aqui nos trouxe nos tempos também já nebulosos dos séculos idos. Em praticamente todos estes poemas, é essa “geografia” das ilhas, meio visível meio submersa nos escondidos paraísos azuis de onde se ergue, que provoca tudo quanto sente e pensa o poeta numa intemporalidade que parece sem génese nem futuro algum, o momento presente sugerindo, só, a incerteza de quem somos e onde estamos, ou provocando a vontade, que aqui parece genética, de viajar rumo sempre ao desconhecido em busca de nós próprios. O outro, aqui, somos nós ante os deuses ora implacáveis ora ternurentos que fazem dos Açores tanto um violento acidente vulcânico como um altar ofertado aos que se aventuraram e aventuram na sua ocupação — “Tanto mar”, “O Deus”, “Ilha de Bruma”, “Ascensão” contêm a significação primeira de como a terra surpreende o homem a cada instante, de como lhe pede para ficar e para partir num ciclo de infindável vida cujo outro significado primordial parecer ser a exigência, uma vez mais, de navegação perpétua rumo ao que permanece desconhecido, de partidas sem outro propósito que não seja a descoberta do que nos escondem deuses encobertos num gozo tão infantil como destemido na sua risonha sugestão de que mais nada nos deveria seduzir: Passarei como Gil Eanes além da espuma/morrerei como Magalhães na praia de Mazaguá/Navegarei em busca de Gaspar/o que chegou à América e não voltou. A estrofe aqui citada é de “Os Quatro Sonetos de Miguel Corte-Real”, dando seguimento ao poema de abertura, “Açores à Vista”, no qual o autor presta a sua primeira vénia na chegada às ilhas, recebendo e integrando-se na humanidade plantada e sobrevivente na maior solidão contemplativa do Atlântico, mar-símbolo dos mais dramáticos triunfos e tragédias de uma nação que nunca deixou de navegar: Começa em ti um tempo em que ajoelho/tempo de amar ou templo: terra e mar./Meus olhos deslumbrados com Açores.

Manuel Alegre percorre várias ilhas, mas é na altivez e centralidade geográficas do Pico que centra a sua visão “em tanto mar” e na “ilha em frente”, dando assim continuidade e homenageando os outros poetas e escritores de cá e os de “fora”, Raul Brandão e Nemésio nada ensombrando mas sim reconfirmados nas suas próprias viagens interiores e sobre as águas agitadas que seguram e ao mesmo tempo ameaçam fazer desabar o templo imaginário de que se tem falado ao longo da história. Que é o “lugar” que sempre se sobrepõe a qualquer ideia ou noção artística previamente formuladas que cada um poderá trazer consigo numa visita aos Açores, fica uma vez mais esclarecido nesta obra. Para além dos dois nomes canónicos já mencionados, muita desta poesia faz lembrar, mesmo que não se tenham lido mutuamente, as páginas tanto nemesianas como mágico-realistas do romance Saudade, de Katherine Vaz, os melhores passos poéticos entre a realidade e fantasia pura de The Undiscovered Island, do também açor-americano Darrell Kastin, e mais perto de casa, O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo. Do mesmo modo, “fogo submerso”, que tudo permitiu numa génese muito longínqua no tempo e continua a dar de si em sinais constantes de fim-de-mundo, de que nos relembra Manuel Alegre, tem o seu correlativo no mais recente e notável livro de poesia de Vasco Pereira da Costa, este que nos aponta a presença ora visível ora imaginada de um “fogo oculto”. Não interessa as origens de cada um destes escritores ou poetas — América do Norte, Continente Português ou Açores. Das mais distantes geografias, é no assumir da sua ancestralidade e Tradição comuns que se reencontram todos eles no nosso arquipélago, forçosamente recriando e tentando perceber a natureza do “templo” numa linguagem e referenciais histórico-poéticos que estão para além da fala natal, e até dobram a língua inglesa aos seus propósitos e ritualidade atlântica. Os Açores, na literatura, obrigam esse outro, vindo de onde vier, a curvar-se à sua geografia, e, consequentemente, pré-determinando que o visitante, quando artista da palavra, em busca da ilha sonhada, do paraíso perdido, passe a fazer parte integrante das suas memórias gravadas e do sonho de todas e novas descobertas, feito filho da casa comum. Por outras palavras, são páginas, estas, que passam a fazer parte da nossa memória ou mítica colectiva, nada menos das que as que foram ou são escritas pelos escritores e poetas cá nascidos ou residentes.

Aliás, o próprio título de Manuel Alegre, Escrito no mar: Livro dos Açores, intencionalmente ou não, significa essa inevitável dualidade: é o livro “dos Açores”, inteiramente pertencente ao seu autor, mas é sobretudo o livro, mais um livro, açoriano. É certo que pertencemos todos, por direito histórico e opção mútua nos dois lados do mar, ao mesmo país. Só que dentro desse mesmo país, as nossas terras e experiências de vida em pouco se assemelham num suposto todo, uno e indiferenciado. A melhor literatura açoriana tem-se encarregado, sempre, dessas representações da vida lusitana que, transportada nas caravelas, se reinventaria livremente e conforme a vontade destes outros deuses aqui (re)encontrados em Quatrocentos.

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Manuel Alegre, Escrito no mar: Livro dos Açores (2ª edição, com fotografia de Jorge Barros), Lisboa, Sextante Editora/Poesia, 2008.

Nós e eles: um encontro com os holandeses

Não é impunemente que se vivem tantos anos no meio de uma sociedade a que não pertencemos.
J. Rentes de Carvalho, Com os Holandeses

/Vamberto Freitas

Com os Holandeses, de J. Rentes de Carvalho, finalmente publicado em Portugal em 2009, indo já numa merecida terceira edição, foi desde a sua publicação na Holanda nos 80 um livro mítico entre os escritores e leitores da nossa Diáspora em toda a parte. Poucos entre nós liam o autor na América do Norte, e muito menos ainda no país natal, mas a sua existência era-nos conhecida pela comunicação que dos Países Baixos nos chegava principalmente através do escritor e crítico Fernando Venâncio, lá também residente desde há muito, e depois através de Onésimo T. Almeida, que foi um dos primeiros entre nós a ler o presente volume (ainda em manuscrito) e a comentá-lo, se não extensa ou publicamente na sua escrita, pelo menos em conversas formais e informais sobre a nossa grande literatura transfronteiriça. Não haverá pior sorte para uma obra, apesar do que geralmente se pensa, do que tornar-se “mítica”: todos saberão da sua existência, mas poucos a conhecerão em directo. Não foi só o que aconteceu com este livro de J. Rentes de Carvalho, mas com toda sua escrita, integrada por ensaio, ficção romanesca e contista, memórias de toda espécie, cada livro seu fazendo parte temática de um todo íntegro. Não só leccionou durante largos anos Literatura Portuguesa nas universidades do seu país de acolhimento, como dedicou toda uma vida a escrever para jornais e revistas literárias nossas, e de outros países como o Brasil, a Bélgica e, naturalmente, a Holanda, tendo ainda vivido o exílio político em cidades tão distantes como Paris, Rio de Janeiro, S. Paulo e Nova Iorque. Que um dos maiores autores portugueses do século passado ia passando despercebido no seu próprio país até há poucos anos (Rentes de Carvalho, natural de Vila Nova de Gaia, tem mais de oitenta anos idade, mas ainda bem vivo e actuante, como aliás demonstrou há poucos dias numa vivíssima entrevista sobre como Portugal é visto de fora ao Jornal de Negócios) não deverá ser grande surpresa — eis o que acontece num país literário cheio de si e “controlado” desde sempre por meia dúzia de figuras que dominam editoras, imprensa, e particularmente todos os preconceitos que alimentavam sobre os que tiveram a coragem de abandonar um país como o nosso, que nem um fiel cidadão como foi Jorge de Sena tolerava ou desculpava quando abalou para o Brasil em 1959, e de seguida para os Estados Unidos, onde viria a falecer totalmente desgostoso com a pátria. Não será nada descabido aqui agradecer à editora Quetzal a coragem de finalmente (re)publicar e divulgar competentemente este como outros escritores que nos retrataram e retratam o mundo como poucos outros, os mais essenciais ao nosso entendimento do mosaico globalizado em que actualmente vivemos, ao contrário de muitos outros que, por enquanto, permanecem no centro das nossas incompletas e tendenciosas antologias.

Com os Holandeses, já um clássico do seu género, não poderia vir até nós num momento “europeu” mais propício do que este, sendo ainda muito mais do que um ensaio sobre uma só nação estrangeira: poderá ser lido no nosso país como uma espécie de compêndio das atitudes historicamente cultivadas a norte sobre os povos do sul, as mais velhas nações que civilizaram a “Europa”, mas que hoje estão desgraçadamente no olho do furacão financeiro e económico, e sobretudo olhados com a suspeita de sempre — malandros, esbanjadores, indisciplinados e vivendo segundo valores sociais suspeitos. Não creio tratar-se de um retrato cruel de um dos países mais pacíficos dos tempos modernos, a Holanda, mas sim uma espécie de ajuste de contas por parte de um grande autor português após anos e anos de ter sido, em todos os sentidos humanos e culturais, o outro. Eu lia avidamente Rentes de Carvalho, e revia de imediato a minha própria experiência de imigrante nos Estados Unidos, com as devidas e grandes ressalvas do lugar e tempo. Uma das atitudes mais inquietantes dessas vivências é ter de tolerar a uma ignorância quase orgulhosa sobre os nossos países e culturas por parte das forças dominantes naquelas sociedades, enquanto nunca se tem o mínimo pudor em verbalizar meros estereótipos e preconceitos de todo o género sobre os mesmos povos. O autor aqui nunca perde o seu equilíbrio emocional ou a inteligência com que desmonta o “carácter” colectivo —  conceito sociológico desde há muito desacreditado, mas que ainda poderá servir de paradigma analítico, nem que seja só para gozo literário — dos seus anfitriões. Mais do que castigar os holandeses, Rentes de Carvalho simplesmente aponta-lhes o dedo na cara, e recorda-lhes amenamente que há outras maneiras de pensar e estar na vida, ou que uma suposta “virtude” cultural ou social sua poderá muito bem ser considerada “defeito” pelos outros, mesmo que vivendo a dois passos na mesma pequena península asiática. O humor destas páginas é imparável, como que a dizer aos próprios leitores daquele país: olhem cá, nada disto me mata ou me retém na minha caminhada de cidadão consciente, mas esses ares de superioridade generalizada e indefinida incomodam imigrantes como eu, que muito mais mundo têm visto e vivido ao longo de toda a História. Desde a ética comercial do dia a dia à santidade da religião, desde a dedicação às mais estranhas e banais causas em suposta defesa de um bairro residencial seu à salvação dos povos menos felizes a milhares de quilómetros nos continentes menos desenvolvidos do que a terra das tulipas e abaixo do mar, Rentes de Carvalho mantém a sua discursividade serena, nunca abandonando ou renegando ser, uma vez mais, o outro, nunca aceitando, do mesmo modo, um estatuto de inferiorização da sua ancestralidade. Frequentemente, como seria de esperar, Com os Holandeses refere-se a um Portugal então sob a ditadura, deprimida e pobre, ou na confusão kafkiana, nas palavras de outro autor, que foram os primeiros anos da nossa libertação, nada escondendo, nada negando. A aceitação deste espantoso livro em tradução pelos próprios leitores holandeses terá um pouco a ver com isso, como terá a ver com a sua indiscutível justeza crítica. No entanto, Rentes de Carvalho nunca rebaixa Portugal nem elogia cegamente a Holanda — constata o que vê e entende, deixando aos seus leitores qualquer juízo pessoal ou final. Grandes e riquíssimos comerciantes, construtores de cidades e aldeias literalmente protegidas do mar por comportas gigantescas, pequenos em quase todo o resto, mas convencidos sempre da sua inata distinção “virtuosa”.

“Porque os holandeses — escreve o autor numa nota final, na qual revisita o seu próprio livro e as possíveis mudanças no país desde então — têm essa outra qualidade muito sua: curvam-se obedientes e atentos ao que lhes diz o perito, mas apenas quando o perito sai do mesmo solo e lhes pertence. Os restantes, por mais competentes e argutos, são olhados com a desconfiança que se reserva aos produtos sem selo de garantia”.

Eis aí, pois, uma grande diferença entre nós e eles. A nossa desconfiança, como se sabe, é guardada, toda ela, para o perito de casa, nada se legitimando enquanto do estrangeiro — ou do estranho — não chegar o sim ou o não. Por outras palavras, a sua confiança absoluta portas adentro permite-lhes a segurança e a competência no que à superstrutura da sua sociedade diz respeito; a nossa desconfiança a garantia igual de que nada se inventa, ou pelo menos pouco se arrisca, fora dos nossos cânones comportamentais, se assim se pode dizer. Uma leitura atenta de J. Rentes de Carvalho será muito mais do um simples mergulho naquele país e povo: é sobretudo esclarecedora, mesmo que por inferência só, de duas culturas bem distantes na sua ética, nos modos de vida quotidiana e criativa, nos seus procedimentos generalizados. Nos nossos dias, repita-se, Com os Holandeses é tanto sobre eles como é sobre nós.

Resta-nos dois factos agradáveis, quanto aos holandeses: após trinta e tal anos de pirataria na nossa então colónia do Brasil, expulsamo-los em Seiscentos de Pernambuco; aqui há dias, um outro ilhéu de nome Ronaldo expulsou-os da Ucrânia. Cada povo tem a consolação que merece.

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J. Rentes de Carvalho, Com os Holandeses (3ª edição), Lisboa, Quetzal Editores, 2011.