Nós e eles: um encontro com os holandeses

Não é impunemente que se vivem tantos anos no meio de uma sociedade a que não pertencemos.
J. Rentes de Carvalho, Com os Holandeses

/Vamberto Freitas

Com os Holandeses, de J. Rentes de Carvalho, finalmente publicado em Portugal em 2009, indo já numa merecida terceira edição, foi desde a sua publicação na Holanda nos 80 um livro mítico entre os escritores e leitores da nossa Diáspora em toda a parte. Poucos entre nós liam o autor na América do Norte, e muito menos ainda no país natal, mas a sua existência era-nos conhecida pela comunicação que dos Países Baixos nos chegava principalmente através do escritor e crítico Fernando Venâncio, lá também residente desde há muito, e depois através de Onésimo T. Almeida, que foi um dos primeiros entre nós a ler o presente volume (ainda em manuscrito) e a comentá-lo, se não extensa ou publicamente na sua escrita, pelo menos em conversas formais e informais sobre a nossa grande literatura transfronteiriça. Não haverá pior sorte para uma obra, apesar do que geralmente se pensa, do que tornar-se “mítica”: todos saberão da sua existência, mas poucos a conhecerão em directo. Não foi só o que aconteceu com este livro de J. Rentes de Carvalho, mas com toda sua escrita, integrada por ensaio, ficção romanesca e contista, memórias de toda espécie, cada livro seu fazendo parte temática de um todo íntegro. Não só leccionou durante largos anos Literatura Portuguesa nas universidades do seu país de acolhimento, como dedicou toda uma vida a escrever para jornais e revistas literárias nossas, e de outros países como o Brasil, a Bélgica e, naturalmente, a Holanda, tendo ainda vivido o exílio político em cidades tão distantes como Paris, Rio de Janeiro, S. Paulo e Nova Iorque. Que um dos maiores autores portugueses do século passado ia passando despercebido no seu próprio país até há poucos anos (Rentes de Carvalho, natural de Vila Nova de Gaia, tem mais de oitenta anos idade, mas ainda bem vivo e actuante, como aliás demonstrou há poucos dias numa vivíssima entrevista sobre como Portugal é visto de fora ao Jornal de Negócios) não deverá ser grande surpresa — eis o que acontece num país literário cheio de si e “controlado” desde sempre por meia dúzia de figuras que dominam editoras, imprensa, e particularmente todos os preconceitos que alimentavam sobre os que tiveram a coragem de abandonar um país como o nosso, que nem um fiel cidadão como foi Jorge de Sena tolerava ou desculpava quando abalou para o Brasil em 1959, e de seguida para os Estados Unidos, onde viria a falecer totalmente desgostoso com a pátria. Não será nada descabido aqui agradecer à editora Quetzal a coragem de finalmente (re)publicar e divulgar competentemente este como outros escritores que nos retrataram e retratam o mundo como poucos outros, os mais essenciais ao nosso entendimento do mosaico globalizado em que actualmente vivemos, ao contrário de muitos outros que, por enquanto, permanecem no centro das nossas incompletas e tendenciosas antologias.

Com os Holandeses, já um clássico do seu género, não poderia vir até nós num momento “europeu” mais propício do que este, sendo ainda muito mais do que um ensaio sobre uma só nação estrangeira: poderá ser lido no nosso país como uma espécie de compêndio das atitudes historicamente cultivadas a norte sobre os povos do sul, as mais velhas nações que civilizaram a “Europa”, mas que hoje estão desgraçadamente no olho do furacão financeiro e económico, e sobretudo olhados com a suspeita de sempre — malandros, esbanjadores, indisciplinados e vivendo segundo valores sociais suspeitos. Não creio tratar-se de um retrato cruel de um dos países mais pacíficos dos tempos modernos, a Holanda, mas sim uma espécie de ajuste de contas por parte de um grande autor português após anos e anos de ter sido, em todos os sentidos humanos e culturais, o outro. Eu lia avidamente Rentes de Carvalho, e revia de imediato a minha própria experiência de imigrante nos Estados Unidos, com as devidas e grandes ressalvas do lugar e tempo. Uma das atitudes mais inquietantes dessas vivências é ter de tolerar a uma ignorância quase orgulhosa sobre os nossos países e culturas por parte das forças dominantes naquelas sociedades, enquanto nunca se tem o mínimo pudor em verbalizar meros estereótipos e preconceitos de todo o género sobre os mesmos povos. O autor aqui nunca perde o seu equilíbrio emocional ou a inteligência com que desmonta o “carácter” colectivo —  conceito sociológico desde há muito desacreditado, mas que ainda poderá servir de paradigma analítico, nem que seja só para gozo literário — dos seus anfitriões. Mais do que castigar os holandeses, Rentes de Carvalho simplesmente aponta-lhes o dedo na cara, e recorda-lhes amenamente que há outras maneiras de pensar e estar na vida, ou que uma suposta “virtude” cultural ou social sua poderá muito bem ser considerada “defeito” pelos outros, mesmo que vivendo a dois passos na mesma pequena península asiática. O humor destas páginas é imparável, como que a dizer aos próprios leitores daquele país: olhem cá, nada disto me mata ou me retém na minha caminhada de cidadão consciente, mas esses ares de superioridade generalizada e indefinida incomodam imigrantes como eu, que muito mais mundo têm visto e vivido ao longo de toda a História. Desde a ética comercial do dia a dia à santidade da religião, desde a dedicação às mais estranhas e banais causas em suposta defesa de um bairro residencial seu à salvação dos povos menos felizes a milhares de quilómetros nos continentes menos desenvolvidos do que a terra das tulipas e abaixo do mar, Rentes de Carvalho mantém a sua discursividade serena, nunca abandonando ou renegando ser, uma vez mais, o outro, nunca aceitando, do mesmo modo, um estatuto de inferiorização da sua ancestralidade. Frequentemente, como seria de esperar, Com os Holandeses refere-se a um Portugal então sob a ditadura, deprimida e pobre, ou na confusão kafkiana, nas palavras de outro autor, que foram os primeiros anos da nossa libertação, nada escondendo, nada negando. A aceitação deste espantoso livro em tradução pelos próprios leitores holandeses terá um pouco a ver com isso, como terá a ver com a sua indiscutível justeza crítica. No entanto, Rentes de Carvalho nunca rebaixa Portugal nem elogia cegamente a Holanda — constata o que vê e entende, deixando aos seus leitores qualquer juízo pessoal ou final. Grandes e riquíssimos comerciantes, construtores de cidades e aldeias literalmente protegidas do mar por comportas gigantescas, pequenos em quase todo o resto, mas convencidos sempre da sua inata distinção “virtuosa”.

“Porque os holandeses — escreve o autor numa nota final, na qual revisita o seu próprio livro e as possíveis mudanças no país desde então — têm essa outra qualidade muito sua: curvam-se obedientes e atentos ao que lhes diz o perito, mas apenas quando o perito sai do mesmo solo e lhes pertence. Os restantes, por mais competentes e argutos, são olhados com a desconfiança que se reserva aos produtos sem selo de garantia”.

Eis aí, pois, uma grande diferença entre nós e eles. A nossa desconfiança, como se sabe, é guardada, toda ela, para o perito de casa, nada se legitimando enquanto do estrangeiro — ou do estranho — não chegar o sim ou o não. Por outras palavras, a sua confiança absoluta portas adentro permite-lhes a segurança e a competência no que à superstrutura da sua sociedade diz respeito; a nossa desconfiança a garantia igual de que nada se inventa, ou pelo menos pouco se arrisca, fora dos nossos cânones comportamentais, se assim se pode dizer. Uma leitura atenta de J. Rentes de Carvalho será muito mais do um simples mergulho naquele país e povo: é sobretudo esclarecedora, mesmo que por inferência só, de duas culturas bem distantes na sua ética, nos modos de vida quotidiana e criativa, nos seus procedimentos generalizados. Nos nossos dias, repita-se, Com os Holandeses é tanto sobre eles como é sobre nós.

Resta-nos dois factos agradáveis, quanto aos holandeses: após trinta e tal anos de pirataria na nossa então colónia do Brasil, expulsamo-los em Seiscentos de Pernambuco; aqui há dias, um outro ilhéu de nome Ronaldo expulsou-os da Ucrânia. Cada povo tem a consolação que merece.

___________

J. Rentes de Carvalho, Com os Holandeses (3ª edição), Lisboa, Quetzal Editores, 2011.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s