A poesia açoriana de Manuel Alegre

Mas um dia cheguei. E vi: as ilhas escritas, inscritas no mar.
Manuel Alegre, Escrito no mar: Livro dos Açores

 /Vamberto Freitas

 

Não será surpresa para ninguém que um dos maiores nomes da literatura portuguesa contemporânea, Manuel Alegre, sempre foi um apaixonado dos Açores. Visita-nos de quando em quando, e mesmo quando cá vem como político olha sempre para além do momento, revive a mítica das suas ilhas-pátria, presta homenagem à Tradição literária e à nossa história quase mágico-realista que ele sabe, como poucos escritores nossos em qualquer parte, que definem os Açores com o mesmo mistério com que as nuvens nos afogam e a terra se movimenta de modos vários e em todas as direcções, sem prelúdio nem piedade. Para cada escritor continental ignorante sobre o nosso arquipélago existirá um outro que só não conhece todo o seu país nas suas fronteiras recortadas, como está consciente de que a arte toma sempre as suas formas consoante a terra e a comunidade de onde parte e a qual, inevitavelmente, retrata. Aqui há tempos um outro poeta de renome nacional afirmou que a “geografia” nestas partes era sempre o ponto de partida para “os poetas medíocres”. Poderá ser, em certos casos, como poderá ser ainda mais que muitos escritores contemporâneos considerados “geniais” dependem em primeiro lugar do jogo de influências extra-literárias nas publicações ditas nacionais dominadas por quem os projectam incessantemente ante os seus leitores sem necessariamente perceber as teias que em toda a parte enredam e distorcem a “fama” temporária de muitos e a marginalização provisória de outros, alguns dos quais depois permanecem na memória das gerações. Um dos ditos de Nemésio deveria estar escrita logo à saída de cada um dos nossos aeroportos: A geografia, para nós, vale tanto quanto a história. Quem não souber o que isso quer dizer, leia um dos nossos escritores, ou pergunte a qualquer açoriano medianamente informado sobre as origens e os condicionalismos da vida nos Açores. Ou então leia, antes de cá chegar, Escrito no mar: Livro dos Açores.

Manuel Alegre não merece que eu utilize esta sua magnífica sequência de poemas açorianos para enviar mensagens a outros, mas desta vez não resisti à oportunidade que me ofereceu. Escrito no mar inclui todos os poemas que foram publicados já há alguns anos numa edição-albúm destinada a ofertas do Governo Regional, e por isso desconhecidos da maioria dos nossos leitores, talvez os que mais os mereciam. O presente volume traz um inédito, “Antero”, e outros que haviam saído no jornal Ilha Maior (Madalena) mas nunca incluídos em livro até agora. Ilustrado com fotos de outro continental desde há muito também agarrado pelos Açores, Jorge Barros, Escrito no mar permanece uma das melhores obras poéticas dos nossos dias que têm os Açores como referência ou tema principal por parte de quem cá não nasceu mas tudo interiorizou, quase sempre com mais profundidade do que nós próprios, sendo a sua “narrativa” simultaneamente dominada, protagonizada, melhor dito, pela misteriosa imponência do lugar e pelo estado de espírito do poeta em cada olhar ou em cada redescoberta que faz numa viagem sem fim à vista, como que em procura da mítica ilha em frente, mas a que inventamos na nossa imaginação na ânsia de perpetuar a epopeia que aqui nos trouxe nos tempos também já nebulosos dos séculos idos. Em praticamente todos estes poemas, é essa “geografia” das ilhas, meio visível meio submersa nos escondidos paraísos azuis de onde se ergue, que provoca tudo quanto sente e pensa o poeta numa intemporalidade que parece sem génese nem futuro algum, o momento presente sugerindo, só, a incerteza de quem somos e onde estamos, ou provocando a vontade, que aqui parece genética, de viajar rumo sempre ao desconhecido em busca de nós próprios. O outro, aqui, somos nós ante os deuses ora implacáveis ora ternurentos que fazem dos Açores tanto um violento acidente vulcânico como um altar ofertado aos que se aventuraram e aventuram na sua ocupação — “Tanto mar”, “O Deus”, “Ilha de Bruma”, “Ascensão” contêm a significação primeira de como a terra surpreende o homem a cada instante, de como lhe pede para ficar e para partir num ciclo de infindável vida cujo outro significado primordial parecer ser a exigência, uma vez mais, de navegação perpétua rumo ao que permanece desconhecido, de partidas sem outro propósito que não seja a descoberta do que nos escondem deuses encobertos num gozo tão infantil como destemido na sua risonha sugestão de que mais nada nos deveria seduzir: Passarei como Gil Eanes além da espuma/morrerei como Magalhães na praia de Mazaguá/Navegarei em busca de Gaspar/o que chegou à América e não voltou. A estrofe aqui citada é de “Os Quatro Sonetos de Miguel Corte-Real”, dando seguimento ao poema de abertura, “Açores à Vista”, no qual o autor presta a sua primeira vénia na chegada às ilhas, recebendo e integrando-se na humanidade plantada e sobrevivente na maior solidão contemplativa do Atlântico, mar-símbolo dos mais dramáticos triunfos e tragédias de uma nação que nunca deixou de navegar: Começa em ti um tempo em que ajoelho/tempo de amar ou templo: terra e mar./Meus olhos deslumbrados com Açores.

Manuel Alegre percorre várias ilhas, mas é na altivez e centralidade geográficas do Pico que centra a sua visão “em tanto mar” e na “ilha em frente”, dando assim continuidade e homenageando os outros poetas e escritores de cá e os de “fora”, Raul Brandão e Nemésio nada ensombrando mas sim reconfirmados nas suas próprias viagens interiores e sobre as águas agitadas que seguram e ao mesmo tempo ameaçam fazer desabar o templo imaginário de que se tem falado ao longo da história. Que é o “lugar” que sempre se sobrepõe a qualquer ideia ou noção artística previamente formuladas que cada um poderá trazer consigo numa visita aos Açores, fica uma vez mais esclarecido nesta obra. Para além dos dois nomes canónicos já mencionados, muita desta poesia faz lembrar, mesmo que não se tenham lido mutuamente, as páginas tanto nemesianas como mágico-realistas do romance Saudade, de Katherine Vaz, os melhores passos poéticos entre a realidade e fantasia pura de The Undiscovered Island, do também açor-americano Darrell Kastin, e mais perto de casa, O Meu Mundo Não É Deste Reino, de João de Melo. Do mesmo modo, “fogo submerso”, que tudo permitiu numa génese muito longínqua no tempo e continua a dar de si em sinais constantes de fim-de-mundo, de que nos relembra Manuel Alegre, tem o seu correlativo no mais recente e notável livro de poesia de Vasco Pereira da Costa, este que nos aponta a presença ora visível ora imaginada de um “fogo oculto”. Não interessa as origens de cada um destes escritores ou poetas — América do Norte, Continente Português ou Açores. Das mais distantes geografias, é no assumir da sua ancestralidade e Tradição comuns que se reencontram todos eles no nosso arquipélago, forçosamente recriando e tentando perceber a natureza do “templo” numa linguagem e referenciais histórico-poéticos que estão para além da fala natal, e até dobram a língua inglesa aos seus propósitos e ritualidade atlântica. Os Açores, na literatura, obrigam esse outro, vindo de onde vier, a curvar-se à sua geografia, e, consequentemente, pré-determinando que o visitante, quando artista da palavra, em busca da ilha sonhada, do paraíso perdido, passe a fazer parte integrante das suas memórias gravadas e do sonho de todas e novas descobertas, feito filho da casa comum. Por outras palavras, são páginas, estas, que passam a fazer parte da nossa memória ou mítica colectiva, nada menos das que as que foram ou são escritas pelos escritores e poetas cá nascidos ou residentes.

Aliás, o próprio título de Manuel Alegre, Escrito no mar: Livro dos Açores, intencionalmente ou não, significa essa inevitável dualidade: é o livro “dos Açores”, inteiramente pertencente ao seu autor, mas é sobretudo o livro, mais um livro, açoriano. É certo que pertencemos todos, por direito histórico e opção mútua nos dois lados do mar, ao mesmo país. Só que dentro desse mesmo país, as nossas terras e experiências de vida em pouco se assemelham num suposto todo, uno e indiferenciado. A melhor literatura açoriana tem-se encarregado, sempre, dessas representações da vida lusitana que, transportada nas caravelas, se reinventaria livremente e conforme a vontade destes outros deuses aqui (re)encontrados em Quatrocentos.

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Manuel Alegre, Escrito no mar: Livro dos Açores (2ª edição, com fotografia de Jorge Barros), Lisboa, Sextante Editora/Poesia, 2008.

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