Literatura e história: sobre esta coluna e algo mais

A história das ideias e a criação imagética da humanidade no meio e nas circunstâncias que as moldaram.

Edmund Wilson, Axel’s Castle

 /Vamberto Freitas

 Paulo Simões, o director do Açoriano Oriental, insistiu comigo durante algum tempo para que eu ressurgisse com a minha coluna literária e cultural no seu jornal, o que viria a acontecer há quase dois anos. Circunstâncias da minha vida familiar tinham impedido a minha presença na imprensa de um modo regular e sistemático. Eu continuava a escrever ensaios, mas dirigidos a colóquios no nosso país e no estrangeiro, ou então a revistas universitárias ou da especialidade, tudo de pouca ou nenhuma circulação entre o grande público. Sentia que o Paulo tinha razão, pois eu via a escrita dos meus colegas aqui nos Açores e na Diáspora cair no esquecimento, ou sem uma apreciação contextualizante. Eu já tinha saudades da disciplina que é ter de escrever todas as semanas e de ler interminavelmente com um bem definido objectivo em mente para cada palavra ou linha que sublinho e comento nas margens de cada um desses livros. A generosidade do jornal foi-me irrecusável quando me ofereceram todo o espaço necessário ao diálogo prolongado com os nossos leitores. BorderCrossings — agora também livro — nasce desse meu compromisso semanal.

Como já tinha ensaiado nos suplementos que coordenei durante uns bons anos aqui em S. Miguel, decidi que era essencial alargar a visão do nosso mundo, trazendo ao conhecimento dos leitores o que outros, para além dos autores açorianos, escreveram e escrevem de ou sobre nós, desde escritores brasileiros (como Luiz António de Assis Brasil) aos norte-americanos e luso-descendentes de língua inglesa, que estão a cavar fundo e frutiferamente um lugar de destaque na cultura literária dos Estados Unidos e do Canadá. Tenho quase sempre os Açores como ponto de partida ou unificador de temáticas, ou então a representação artística da experiência imigrante portuguesa em geral, a sua história e as comunidades que construíram para si em variadíssimas sociedades de acolhimento. Para os provincianos incorrigíveis entre nós: a grande literatura contemporânea mundial continua a cultivar os temas de sempre, agora ainda mais na atribulada idade pós-moderna, uma outra espécie de totalitarismo societal imposto e comandado pelos chamados mercados e a especulação criminosa em geral, ante governantes sem memória histórica: a arte literária como acto identitário, o outro em movimento universal entre todos os povos do mundo, tentando reinventar-se sem perder a sua dignidade pessoal ou a honra das suas raízes ancestrais.

Literatura e sociedade são naturalmente indissociáveis. Não quer isto dizer que não possa ser muito mais, ou algo mais do que isto. Por mais narcisista que seja um texto, por mais fechado ou isolado que esteja qualquer criação poética no seu nicho ou supostamente inacessível torre de marfim, terá sempre de representar o personagem na sua contingência muito pessoal, mas nunca desligado do meio em que está inserido, terá de ser um outro retrato do seu tempo e da sua historicidade, ou de um tempo-outro imaginado e reinventado nesse texto ou nesse poema. Ainda muito recentemente citei num ensaio meu intitulado “Sociedade e crítica: Irving Howe e os Intelectuais de Nova Iorque” que para estes escritores (o que evidentemente também define o que penso) “o formalismo, para todos eles, seria necessariamente relegado para um segundo lugar, pois a sua escrita visava estabelecer a ficção como representação, nos seus sublimes momentos, da época a que pertenciam, dos anseios de liberdade, justiça e igualdade”. Bem sei que estes postulados estão, ou estiveram, fora de moda em tempos recentes, que mais pareciam de uma perpétua e acéfala festa, mas não estão ultrapassados. Vem aí de novo, pelo que parece quando milhões de cidadãos desempregados já vivem o estrangulamento também na Europa, a degradação generalizada que coloca os povos e as suas veneráveis nações de joelhos e em obediência aos canalhas de sempre, tal como acontece já com a Grécia, o berço de tudo que é bom no ocidente — Democracia, Filosofia e Arte. É por isso que numa ditadura, seja ela de esquerda ou de direita, juntamente com os políticos opositores mais conhecidos, os primeiros cidadãos a serem perseguidos e presos são os escritores e os jornalistas. São eles que carregam e perpetuam em si a memória colectiva e identitária de um povo.

A literatura, admitamos, poderá ser muita outra coisa para outros. Para mim, de igual modo, é muito mais do que as suas temáticas, mas a sua “função” na sociedade continua a existir, a mover e comover mentes e corações. Continua a estar na base da minha escrita crítica a literatura transfronteiriça como representação identitária de um povo ou país. O meu diálogo literário e cultural foi sempre com uma minoria pertencente à nossa classe culta, desde os Açores aos que estão espalhados um pouco por toda a parte no nosso mundo diaspórico, uns nossos conterrâneos, outros luso-descendentes e ainda outros estudiosos da cultura portuguesa, incluindo a sua vertente açoriana.

As limitações cá de quem escreve e publica livros são praticamente as mesmas de que  falariam a maioria dos escritores em Lisboa: muitos livros para poucos leitores. Não ignoro as dificuldades de se viver e publicar numa ilha, pois estamos fora dos grandes circuitos comerciais e das máquinas publicitárias de maior projecção. Vou-lhe dar dois exemplos, no que respeita à circulação geral de livros. Um dos poetas portugueses mais prestigiados e famosos do nosso tempo, segundo me constou há pouco tempo, não conseguirá vender mais do que mil exemplares de um livro seu, ou nem sequer chegar lá perto em certos casos. Nos Estados Unidos, Edmund Wilson, o crítico canónico do século passado já aqui referido, o mesmo que hoje continua a ser biografado e analisado em obras que saem ano a ano, ele, que publicava os seus ensaios em revistas tão prestigiadas como a Vanity Fair, The New Republic, The New Yorker e a The New York Review of Books, não vendia mais do que dois mil exemplares de cada um dos seus livros. O seu único livro que ia a caminho de se tornar um best-seller, Memoirs of Hecate County, foi proibido de circular a meados dos anos 40 por um tribunal em São Francisco (São Francisco!) pela sua suposta sexualidade pornográfica, gesto hipócrita e puritano que hoje nos faria rir e abanar a cabeça em descrença e gozo. Creio que isso diz muito, senão tudo. Só que os seus livros, que pouco venderam, pelo menos durante a sua vida, foram exactamente dos que mais marcariam a cultura literária no seu país.

Quanto aos Açores, existe ainda a distância da maioria das livrarias nacionais e o custo adicional de os fazer chegar a esses potenciais destinos. Mesmo assim, essas livrarias estão só interessadas em dois ou três escritores do nosso país, por assim dizer, e em primeiro lugar interessadas nos mais vendidos e badalados escritores populares internacionais. Foi sempre assim, aliás. Quem por cá anda a vangloriar-se de ter publicado fora do arquipélago, esquece-se ou é mesmo ignorante do facto de que até há poucos anos alguns dos escritores açorianos publicaram em Lisboa durante mais de uma década, e estavam presentes em muitas das livrarias do país, mesmo que alguns deles não vendessem muito devido às suas temáticas; e ser publicado “lá fora” não garante maior sucesso em nada. Com a facilidade que a net agora nos proporciona, blogues e redes sociais, toda essa questão está a ser ultrapassada. Hoje, um livro publicado nos Açores será de imediato conhecido em qualquer parte do mundo, e quem estiver interessado poderá adquiri-lo com toda a facilidade. Temos leitores no mundo inteiro, desde Riga a Tóquio, para não falar de países como os Estados Unidos e o Brasil, onde figuramos já em inúmeras teses universitárias e noutros estudos ou ensaios eruditos. Toda e qualquer literatura dirige-se, hoje, a comunidades de leitores internacionais que se interessam por um determinado país, língua ou temática.

Entre nós, nos Açores, a ignorância foi sempre singularmente atrevida. A grandeza ou legitimidade literária e intelectual de um livro medem-se pelo lugar onde foi publicado?

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Esta coluna foi em parte retirada de uma recente entrevista que concedi a Sandra Pacheco Tejo do semanário micaelense Terra Nostra. Foto: um grupo de escritores que participaram num dos primeiros encontros Filamentos da Herança Atlântica, em Tulare, Califórnia, a principio dos anos 90.

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