Adelaide Freitas: da Literatura Açoriana e Norte Americana

 /Teresa Martins Marques

  Adelaide Freitas é um nome muito conhecido nos Açores, mas outro tanto não poderá dizer-se no continente. Tendo nascido em 1949, na Achadinha do Nordeste, a mesma localidade da ilha de São Miguel em que nascera, dois meses antes, João de Melo, que haveria de ser seu companheiro na escola primária e, mais tarde, objecto dos seus trabalhos ensaísticos,[1] terminado o liceu em Ponta Delgada, vai  graduar-se na Southeastern Massachusetts University, em Darmouth, bem como na City University of New York, regressando, mais tarde, aos Açores onde completará o doutoramento sobre a obra de Hermann Melville em 1987. Pode dizer-se que desde essa altura a Baleia Branca não mais a abandonou.

No seu livro Nas Duas Margens da Literatura Norte-Americana e Açoriana [2] muito justamente comportando textos em português e em inglês), a ensaísta continua a enfrentá-la em estimulantes  ensaios como «Moby Dick e a recuperação da Memória: Portugal na sua atlanticidade», «Os açorianos em Moby Dick» e sobretudo no admirável e fastasmático texto que encerra o livro: «Uma baleia vê os homens: o reacordar da humanidade» onde Adelaide aflora o mito da Atlântida, das Ilhas Afortunadas, bafejadas pelo Espírito Santo, cruzando-o com mestria às  lições de Jung e Eliade e Edgar Morin, mas também do Pessoa da Mensagem, de  Nemésio e Natália Correia e ainda de António Tabucchi, Fernando Aires e João de Melo.

Conforme nos diz Vamberto Freitas, na nota de apresentação do livro, este foi organizado pela autora numa fase da sua saúde já muito problemática, todavia os textos foram escritos em anos de grande produtividade criativa.  Digno de figurar entre os mais exigentes estudos de género é justamente o ensaio «Para uma sensibilização ao universo feminino – e o grito se fez fala e a fala fez-se mulher», em que a autora  parte de Minoo Farhangmeh, das Novas Cartas Portuguesas para se deter com minúcia num trecho decisivo d’ A Melancolia do Geógrafo de  Brigitte Paulino-Neto: “ Ela está de gatas, descalça, despenteada a suar. O outro, na moldura da porta, ocupa o lugar do Sol. Só pode ser ele. Ela endireita-se bruscamente, senta-se nos calcanhares, olha-o como se se tratasse de Deus Pai. Fica assim entre o balde e o pano, muito direita diante do homem que se ergue nas suas botas, em contraluz de pernas afastadas, radioso enquanto ela permanece ajoelhada.” Esta mulher ainda não conquistou o seu lugar, ainda não se libertou da condição de objecto-trapo, mas uma revoada de mulheres voa para fora da via crucis e encontra a via certa, o fim do cativeiro. Encontramo-las na Madona de Natália, mas também nas obras de Fátima Borges, Madalena Caixeiro, Judite Jorge ou Lúcia Costa Melo. A Cor do Ciclame dos Desertos de Fátima Borges é a medida certa da procura que confunde tempo e lugar porque sabe que tempo e lugar são uma díade inseparável, como não o sabem os gramáticos que tudo catalogam e separam: “ Aqui é um advérbio de tempo contra o que tão categoricamente sempre afirmaram os fazedores de gramáticas.” Aqui é o lugar da mulher que procura o que lhe falta e que sempre acaba encontrando o que não procura. Voz de silêncio, que grita mais alto que a trombeta em dia de Juízo, o ajuste de contas, a seu tempo, chegará. Do silêncio que se faz voz nos fala ainda um dos mais brilhantes ensaios do livro – «Língua/linguagens, ou a ética da sobrevivência, em Saudade», também em versão inglesa «Saudade, de Katherine Vaz: Language as survival», no qual Adelaide aponta a insistência da autora na criação de personagens “que «perdem» alguns dos cinco sentidos, ora calando-os, ora recuperando-os ou reinventando-os.” É o caso de Clara, que intermitentemente perde e recupere a fala, em situações traumáticas associado a morte, o mesmo se passando com o seu companheiro, Hélio, que por morte da filha «fechara os olhos para o mundo».

Estamos num universo humano complexo e intrigante, e deveras perturbador já que Adelaide luta contra uma doença que lhe perturba a linguagem, tendo dedicado os seus últimos anos com saúde à escrita de um romance – Sorriso por Dentro da Noite, [3] obra originalíssima no contexto da literatura açoriana, recebido com aplauso generalizado nos meios literários dos Açores e da diáspora, mostrando a emigração do ponto de vista de uma criança que os pais  deixam para trás, ao cuidado de uma avó.

Este trabalho ensaístico era, afinal, antecâmara da ficcionista, sem que deixe de ser aquilo que primacialmente é: trabalho de indagação e de iluminação dos textos. Diálogo implícito com o leitor, mediação de um a um Outro. Voyage au Bout de la Nuit, segundo Céline, ou Sorriso por Dentro da  Noite, segundo Adelaide Freitas. Kafka entendia queum livro tem de ser o machado para quebrar o mar gelado dentro de nós. Poucos serão os livros aos quais se aplicam tão ajustadamente, como ao romance de Adelaide Freitas, aquelas palavras, retiradas de uma carta ao amigo Oskar Pollak (1904). Este livro adquire para o sujeito-leitor  essa a função salvífica abrindo, por esta forma, uma porta de acesso ao mundo da infância. Neste universo até a esperança é cruel como o mês de Abril, não por acaso o mês do nascimento de Xana – a personagem-protagonista (e também da autora), e bem assim  o mês em que parte a mãe da criança, e não por acaso uma das epígrafes do romance retirada de  T.S. Eliot: “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of dead land, mixing/ Memory and desire, stirring/ Dull roots with spring rain(…)” retomado explícitamante no incipit: “ Tudo ali aconteceu, quando a Xana balbuciou maamãã…// Estava-se na Primavera. Gota a gota caíam as primeiras chuvas de Abril – the cruellest month. Cruel também era o que a minha avó acabava de ouvir.”(p.13)

O tema centralizador da romance será a idealização da figura materna e a consequente dificuldade de vinculação. A criança inaugura a linguagem sob o signo do equívoco, trocando as referências das figuras vinculativas. Equívoco e castigo, penoso prefigurado em Sísifo: “Pacientemente, e com esforço colossal, a vovó pegava na menina ao colo como pedra de Sísifo.”(p.13). E desde logo se demarca a figura da ausência, a mãe em efígie: “ o belo retrato da minha mãe” a que chama “ mulher emoldurada” . Distante, inatingível. Como no romance de Katherine Vaz também em Adelaide funciona o silêncio como marcador de decepção, fuga ao real, diluição:“ Sempre que se sentia traída ou magoada, punha as mãos atrás das costas, e recuava, recuava, até tocar na parede. Entrava para dentro dela e pemanecia, assim, entre os tabiques (…) Por entre as ripas só se viam os olhos pretos, pretos, como as noites sem luar nem estrelas.” (p.16)

Buscam-se estratégias securitárias na  ritualização do comportamento criando-se uma realidade paralela contra o marasmo ilhado, os sonhos “trancados” das mulheres, como  nos ensaios de Adelaide Freitas, sobre a condição feminina:

“ As mulheres, por seu lado, rostos encolhidos, roupas acinzentadas em corpos vergados, e sonhos trancados, recolhiam-se a casa, de certa forma receosas e pasmadas…” (p.18) Estamos perante um ferrete do destino, uma herança com marca de diferença: “ Seria louca aquela menina?- perguntavam as mulheres umas às outras: Teria o demónio consigo, ou herdado a asa que transportou para o outro mundo a irmã Serafina morta aos catorze meses…” (p.19)

Xana, a menina furtiva, não aceita a ilusão no mundo real, e como Clara, vive num mundo construído por dentro. Fora de si é o mundo do dinheiro. Na definição da pragmática irmã Carolina: “rico quer dizer que por mais asneiras que se façam se tem sempre razão” (p.26). Tão iguais no fundo tão diferentes nos processos sublimantes, Carolina resolve o abandono pela via da agressão, Xana vai tentar resolvê-lo pela fuga. Xana tem uma vinculação substitutiva na figura avó. Carolina ficará sozinha com a sua raiva e é ela a verdadeira deserdada de afectos. Deserdados até mesmo de chão, pois o peso do silêncio é ainda o do medo do terramoto:

“ O sofrimento e o medo eram de silêncio absoluto; temia-se a própria fala, não fossem as coisas piorar. E quando se pensava estar fora de perigo, o abanão veio de novo, e as paredes cederam, e a empena da casa virada a Norte desabou, em parte, como baralho de cartas. A fúria do terramoto subtraiu um quarto à nossa casa.” (p.46)

Nenhuma idealização se suporta para além de certos limites. Ela faz ruir a casa interior do ser, e nenhuma mãe real pode competir com o sonho de uma imaginária mãe. Quando esta regressa, a criança fugirá para dentro do sonho e recusá-la-á sem apelo nem agravo.

Quando tudo se subtrai, nesta aritmética da falta, alguma coisa seguramente permanece. Como apontou, em recensão no Diário de Notícias, Ana Marques Gastão, será a força expressiva do seu verbo, a fluidez da frase, a discreta modulação do ritmo, a clareza da narrativa que prevalecem nesta autora. Por isso a voz ficcional e ensaística de Adelaide Freitas não emudece e continua entre nós, através da sua escrita, para se fazer ouvir.


[1]   Reunidos em João de Melo e a Literatura Açoriana, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1993.

[2] Edição do II Congresso Internacional da Imprensa Não Diária, Ponta Delgada, 2008.

[3] Adelaide Freitas, Sorriso por Dentro da Noite, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2004.

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Vamberto Freitas e a crítica literária

/Victor Rui Dores

            Professor universitário, intelectual, ensaísta, crítico literário e cultural, cronista e tradutor, Vamberto Freitas é sinónimo de vocação ensaística cultivada com paixão, e de crítica literária séria e generosamente partilhada. São décadas de labor ensaístico que fazem dele um dos melhores estudiosos da literatura norte-americana e da literatura de expressão açoriana.

O seu último livro, borderCrossings, leituras transatlânticas (Letras Lavadas edições, 2012), que reúne um conjunto de ensaios, é prova disso mesmo. A obra, dividida em três capítulos (“Em Casa nos Açores”, “Memória do Brasil” e “A Diáspora em Mim”), lança olhares, argutos e perspicazes, sobre escritores açorianos, brasileiros, norte-americanos e luso descendentes de língua inglesa.

Em jornais, em livros e em fóruns de debate, de forma contínua e continuada, Vamberto Freitas estuda autores de ambos os lados do Atlântico, (re)interpreta a tradição literária açoriana, questiona geografias, investiga e compara culturas, reflete diásporas.

E tudo isto num tempo em que a crítica literária vai rareando e em que o gosto literário vai dando espaço à moda literária… Desapareceu a crítica tipo “gosto, é excecional”, ou “não gosto, é detestável” (como nos tempos do temido e temível João Gaspar Simões), ganhando, agora, a crítica académica, pouco ou nada acessível ao leitor comum, enrolada em hermenêuticas e que vai morrendo a falar sozinha…

Serão os críticos literários uma espécie em vias de extinção? Vão rareando, é certo, e destacaria aqui aqueles de quem gosto incondicionalmente: Vamberto Freitas, Eugénio Lisboa e Miguel Real. Muitos outros existem, mas nenhum como estes três, na minha opinião, são mais consistentes e vão mais fundo nas suas recensões.

Com o boom das novas tecnologias da comunicação e da informação, os jornais deixaram de ter suplementos culturais, e, salvo raríssimas exceções – por exemplo, o “Açoriano Oriental” onde Vamberto Freitas mantém uma coluna literária e cultural –, acabaram-se os espaços de referência para a crítica literária. Resultado: passaram ao ataque os “repórteres culturais”, que formam lobbies na grande imprensa e são aspirantes a gestores de opinião… Pertencem ao jet set literário lisboeta e dão sempre prioridade aos trambolhos escritos por pivots televisivos… E é óbvio que não fazem apreciação estética, limitam-se a escrever notas de leitura… Ou seja, estão preocupados com tudo, menos com intrínsecos critérios de qualidade das obras literárias.

“A boa notícia é a má notícia” – é o preceito de algum jornalismo dito “cultural” que se faz no nosso país. Alguma crítica literária, por simpatia, atinge as pessoas e não as obras, o que cria perturbações graves em quem escreve.

A crítica tem de ir sempre na esteira da literatura e nunca o contrário, isto é, não pode conter um conceito dogmático. Infelizmente há crítica literária que serve interesses mercantilistas e é interveniente e cúmplice no consumo cultural. E isto por vezes confere-lhe um sentimento ou uma ilusão de poder e impunidade que pode atingir expressões de algum terrorismo cultural…

Ora, nada disto se aplica a Vamberto Freitas, ensaísta de primeira grandeza. Para já porque é pessoa séria e homem de grande honestidade intelectual. Por outro lado, a crítica literária não é para ele um mero exercício retórico. Acontece tão simplesmente que, possuindo um compromisso de paixão para com a escrita, ele se deslumbra com os (bons) livros dos outros. E depois vem o resto: este terceirense possui sensibilidade estética e capacidade criativa, e está bem apetrechado em termos teóricos, o que lhe dá a capacidade de esclarecer, decifrar e avaliar, incorporando a sua crítica as técnicas, os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da investigação literária.

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in Açoriano Oriental e Diário Insular.

Na Apresentação de “borderCrossings”: leituras transatlânticas

/Carlos Cordeiro

            É sempre um momento de especial relevo cultural o lançamento de um livro. Num tempo, como o que aí está, publicar-se um livro é, talvez, um acto de coragem, pode dizer-se, cultural e cívica. Escasseiam os leitores de obras que impliquem uma leitura menos imediatista e convidem, antes, à reflexão ou, ao menos, a uma leitura mais pausada. O meu amigo Vamberto sabe bem, é o primeiro a saber, que, financeiramente não ganhará nada com a publicação desta obra. Dá-a à estampa num “atravessar de fronteiras em busca de beleza e verdade literária de quem — como sublinha — nos diz, rediz e nos reinventa numa já longa história de andanças no outro lado do Atlântico” (p. 13). Mas também do lado de cá, num regresso à literatura açoriana dos nosso dias. Este borderCrossings: leituras transatlânticas divide-se em três partes: “Em Casa nos Açores”, “Memória do Brasil” e “A Diáspora em Mim”. Uma divisão bem de acordo com o percurso cultural e afectivo de Vamberto Freitas: o regresso a casa, de onde, afinal, nunca chegou a sair completamente. Mas um regresso salpicado de diáspora por todos os lados — uma diáspora que assume na sua riqueza vivencial e formação intelectual. Pelo meio, fruto das circunstâncias e num regresso aos seus estudos universitários, o interesse pela literatura brasileira que, como diz, “nos completa a nós portugueses em geral e, neste caso, uma vez mais, a nós, açorianos em particular” (13).

Trata-se de uma obra que reúne ensaios no âmbito da literatura açoriana escrita nos Açores ou na outra margem do Atlântico, mais a Norte ou em latitudes bem a Sul, por açorianos de origem ou das gerações seguintes e ainda por gente de outras nacionalidades que refere os Açores e/ou o seu povo. No fundo, e na sequência da sua vasta obra ensaística, Vamberto Freitas, como interventor cultural de elevado prestígio, referenciado e citado em qualquer trabalho sério sobre a literatura açoriana ou da diáspora insular – e este livro mais uma vez o demonstra – tem desenvolvido sistematicamente uma obra fundamental para uma reflexão sobre o papel da literatura para o autoconhecimento deste povoque constituímos, por muito que, politicamente, nos queiram dizer que não existimos como povo:

“Um povo historicamente andarilho como o nosso só poderá ser entendido e apreciado na multiplicidade de textos em qualquer língua — esses textos que recuperam e integram os nossos arquivos criativos, a memória indelével de termos sido e pertencido às mais distantes e díspares geografias dos nossos destinos e afectos (14)”.

É, pois, com base neste pressuposto que Vamberto Freitas alimentou, no Açoriano Oriental e noutros jornais, mas também em revistas da especialidade, o seu trabalho de crítica literária e, digamos, de intervenção cultural, numa prosa, como acentua Eugénio Lisboa na contracapa, onde “não há trapaça – há só músculo, e nervo e inteligência, tudo alimentado numa vigorosa cultura”.

“Nervo e inteligência”, mas também a ética do crítico literário no respeito pelo trabalho do escritor:

“Sem este trabalho constante de comentar, criticar e apreciar mesmo com alguma brevidade um livro (…) esse esforço criativo dificilmente fará parte da cultura literária de um povo, o seu autor ou autores quedando-se na solidão e na incerteza do valor ou aceitação das páginas que quase sempre são inventadas entre a dor, solidão, e a maior disciplina (…). O acto crítico — crê o autor — deve incluir de quando em quando estas e outras reflexões, e do mesmo modo tentar [saber-se] o que significam nalguns casos palavras demolidoras contra um livro ou, pior ainda, ante o seu autor. E conclui: A crítica negativa raramente perdura no tempo; a comunhão de prazeres da leitura e dos seus conteúdos, esses sim, permanecem (223)”.

           

O que não é perene é a ignorância que, tantas vezes, recobre o ambiente cultural, num afã doutrinário que pretende fazer passar como “novidade” aquilo que, afinal, sempre foi.

Vamberto Freitas não se esconde atrás do papel de crítico para evitar os escolhos que as tomadas de posição “musculadas”, sem quaisquer “maneirismos” – sirvo-me novamente das palavras de Eugénio Lisboa – sempre acarretam. Nestes seus ensaios isto está bem patente, por exemplo, quando se refere à ideia de universalismo, que entrou no vocabulário de certos círculos culturais e que seria o contraponto do que consideram serem características da literatura açoriana: uma literatura caseira, ensimesmada, sem passado nem futuro, escasseando-lhe, por um lado, a concepção do “homem universal” e, por outro, a projecção para círculos que ultrapassem as fronteiras das ilhas.

O autor, com a vasta cultura que foi cimentando com trabalho árduo, responde lapidarmente a estes profetas da desgraça de novas e velhas questões e gerações:

“Enquanto entre nós a insistência numa suposta ‘universalidade’ se torna paralisante (é apregoada mas nunca praticada, pois quem é que pode ter a pretensão de escrever para o ‘mundo’?), os que de facto vivem e estão perfeitamente em casa em toda e qualquer parte recuperam a arte que retrata e reafirma, por assim dizer, a condição humana nas suas infindáveis originalidades, excentricidades, tudo o que enriquece sermos e fazermos parte da comunidade humana numa geografia global que felizmente cada vez mais se torna irrelevante, mas que não anula o direito tanto à diferença dos povos como ao que une a todos (220)”.

           

Mas a ignorância também tem a sua faceta de universalidade. Há certamente “universalistas” que desconhecem que a literatura açoriana se projecta noutras geografias, por exemplo, através de traduções no Japão, Estados Unidos, Inglaterra, Eslováquia e que aspectos ligados à literatura e cultura açorianas são apresentados e debatidos em provas académicas em prestigiadas universidades como a da Sorbonne ou a de Poitiers, entre outras. Por outro lado, e citando o autor, “uma literatura sem raízes geográficas precisas e cultura própria só diz respeito aos extraterrestres, supõe-se”, pois “ninguém parte para lado nenhum sem primeiro perceber as origens do seu berço natal, e o seu respectivo lugar no conjunto global dos povos, ninguém mais entre os outros se interessa ou quer saber de quem não se conhece a si próprio” (53).

Ora, Vamberto Freitas insere-se numa tradição cultural açoriana que sobressai, pelo menos, a partir dos inícios do século XX, mas com raízes mais antigas. Uma tradição do debate sobre o papel da cultura, e em especial da literatura, no processo de afirmação identitária do povo açoriano. Mas vai mais além dos debates conjunturais e episódicos, impondo-se, num trabalho sistemático, incansável mesmo, como um dos intelectuais desta geração que mais tem feito pelo conhecimento, divulgação e expansão da literatura açoriana, na diversidade dos seus géneros, estilos, quer dentro de portas, quer na “outra margem”. Assume com orgulho a sua pertença a uma geração de escritores, artistas e intelectuais “de outras artes” que, após a implantação da democracia e da vigência da autonomia, libertaram as asas da criação literária e artística e da intervenção cultural aos mais diversos níveis. O seu encontro directo face a face com essa geração nova, que respeitava a anterior — a do grupo de A Ilha ou a do Bar Jade — deu-se nos encontros da Maia, a partir de 1988, num ambiente descontraído: “a informalidade dos debates — refere-nos Vamberto Freitas — era algo absolutamente novo num meio tradicionalmente sisudo e formalista como o nosso (…) facilitando uma desejável e viva troca de ideias entre um grupo tão disperso e diversificado”, em que se destacava o objectivo de trabalhar para que “as vozes literárias de um povo continuassem e atravessassem outras fronteiras” (18). A partir desses encontros, refere-nos, “todo um corpo literário começou a ser reconhecido com maior atenção e interesse tanto no nosso próprio país como noutros onde os estudos portugueses em geral ocupam algum nicho universitário ou comunitário” (19-20).

Vamberto Freitas e alguns dos presentes e outros que aqui não estão souberam bem compreender o valor da dinâmica cultural que então fervilhava. Entre a crítica literária, o ensaísmo histórico-cultural ou os projectos consistentes de suplementarismo cultural, esse grupo, que não tem lideranças mas gente dedicada e empenhada, trouxe, sem dúvida, uma outra projecção à literatura açoriana, que ultrapassou o nível das pequenas tertúlias culturais ou os muros das academias. Ora, nesta perspectiva, Vamberto Freitas desempenha papel essencial: sem deixar de intervir nos círculos académicos formais, transporta também o seu labor crítico e ensaístico para públicos vastos, através da imprensa de cá, do Continente e da diáspora, sem contudo — e este seu borderCrossings: leituras transatlânticas mais uma vez o vem demonstrar — ceder às tentações da superficialidade ou aos ditames da política ou do academicamente correcto.

Mais uma excelente obra de Vamberto Freitas, na senda, aliás, de todo este percurso que tem desenvolvido em prol da literatura açoriana.

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Livraria SolMar, Ponta Delgada, 31 de Maio de 2012. O Prof. Doutor Carlos Cordeiro é historiador da Universidade dos Açores.

borderCrossings: leituras transatlânticas, Letras Lavadas Edições, Ponta Delgada, 2012.

Sobre borderCrossings – Conversa com Micaela Santos

Conta com vários livros publicados, nomeadamente ensaios e estudos críticos, faz algumas traduções e ainda colabora em vários periódicos do arquipélago e do Brasil. Como consegue articular todo este trabalho com a docência na Universidade dos Açores?
Com muita disciplina. Aliás, não haverá, para além do jornalismo, uma relação tão natural como a docência e a escrita e publicação em qualquer uma das suas formas. Adicione-se a tudo isto uma ou outra participação em congressos ou simpósios ligados à nossa área de estudo ou intervenção literária e cultural.
Qual a sua perspectiva sobre a crítica?
No meu caso, e nas tradições açoriana e norte-americana em que me integro, a crítica deve dirigir-se a um público leitor — aos que constituem em qualquer sociedade ou comunidade, nas palavras do ensaísta Lionel Trilling, “a classe culta” — atento ao que se escreve e publica na sua esfera de interesses culturais. Acima de tudo, essa crítica tem de associar a literatura à grande Tradição em que está inserida, numa redefinição identitária constante num meio em perpétua evolução.
O interesse pela literatura norte-americana e pela diáspora açoriana deve-se ao facto de ter vivido no estrangeiro?
Absolutamente. Os anos mais marcantes da minha vida foram vividos nos EUA. Toda a minha formação superior foi feita naquele país, a minha outra pátria.
O que o levou a escrever borderCrossings? Porquê este título e qual a razão de a obra estar dividida em três partes?
BorderCrossings resultou de um insistente convite de Paulo Simões para que eu regressasse com a minha coluna literária ao Açoriano Oriental. Desde logo, pensei num livro de mini-ensaios que abordasse os textos – ficção, poesia, ensaio — que julgo serem os mais relevantes para uma redefinição da nossa identidade ou identidades açorianas num contexto muito mais vasto do que as próprias ilhas, partindo do arquipélago para a sua diáspora, que se estende principalmente do Continente Português até aos Estados Unidos, Canadá e Brasil. A expressão “border crossings” é muito utilizada no mundo anglo-saxónico para definir a literatura de qualquer grupo nacional que vive permanentemente entre dois ou mais países ou culturas.
A divisão do meu livro em três partes tem a ver com o facto de eu abordar a literatura açoriana propriamente dita seguida pela que se produz na nossa diáspora. Em qualquer um dos capítulos do livro vou interligando os textos, demonstrando o diálogo desses mesmos textos no contexto, uma vez mais, da nossa Tradição literária e intelectual.
A terceira secção denomina-se “A Diáspora Em Mim”. Tratam-se de textos autobiográficos, uma vez que viveu de perto a realidade dos emigrantes?
Poderão ser considerados “autobiográficos” na medida em que a minha aproximação aos textos dos outros vai além do acto crítico ou apreciativo propriamente dito, em que interligo interpretação com a minha experiência de vida na diáspora. Vou construindo a minha própria narrativa através desses textos.
Na qualidade de ensaísta, crítico da literatura norte-americana e açoriana e colaborador da imprensa brasileira, qual a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico?
Não tenho nada contra, se bem que ainda não me habituei a obedecer às novas regras. Mas no Açoriano Oriental deixo que passem os meus textos pelo dicionário actualizado. No Brasil, fazem-me o mesmo.
Quais os seus autores preferidos?
Na crítica e no ensaísmo literário, Edmund Wilson, que viveu boa parte da sua vida numa comunidade luso-americana em Cape Cod, e foi o amigo indefectível de John Dos Passos, um outro modernista norte-americano das minhas preferências. Em Portugal, Eugénio Lisboa, autor já canónico de uma outra e distinta diáspora nossa, que teve ao seu lado Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Casais Monteiro, Alberto Lacerda e Rui Knopfli. Todos eles são parte das minhas afinidades electivas. Depois, tenho na minha intimidade literária muitos autores açorianos, incluindo os que estão imigrados na América do Norte, e alguns luso-descendentes. Falei aqui somente nalguns escritores que são os meus outros significant others. As nossas estantes aqui em casa incluem milhares de volumes da literatura canónica norte-americana e em língua portuguesa.
Tem em vista mais alguma publicação para breve?
Tenho em preparação um segundo volume de borderCrossings.
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Entrevista publicada no suplemento (Sem)Rede do Açoriano Oriental a 6 de Agosto de 2012.