Sobre borderCrossings – Conversa com Micaela Santos

Conta com vários livros publicados, nomeadamente ensaios e estudos críticos, faz algumas traduções e ainda colabora em vários periódicos do arquipélago e do Brasil. Como consegue articular todo este trabalho com a docência na Universidade dos Açores?
Com muita disciplina. Aliás, não haverá, para além do jornalismo, uma relação tão natural como a docência e a escrita e publicação em qualquer uma das suas formas. Adicione-se a tudo isto uma ou outra participação em congressos ou simpósios ligados à nossa área de estudo ou intervenção literária e cultural.
Qual a sua perspectiva sobre a crítica?
No meu caso, e nas tradições açoriana e norte-americana em que me integro, a crítica deve dirigir-se a um público leitor — aos que constituem em qualquer sociedade ou comunidade, nas palavras do ensaísta Lionel Trilling, “a classe culta” — atento ao que se escreve e publica na sua esfera de interesses culturais. Acima de tudo, essa crítica tem de associar a literatura à grande Tradição em que está inserida, numa redefinição identitária constante num meio em perpétua evolução.
O interesse pela literatura norte-americana e pela diáspora açoriana deve-se ao facto de ter vivido no estrangeiro?
Absolutamente. Os anos mais marcantes da minha vida foram vividos nos EUA. Toda a minha formação superior foi feita naquele país, a minha outra pátria.
O que o levou a escrever borderCrossings? Porquê este título e qual a razão de a obra estar dividida em três partes?
BorderCrossings resultou de um insistente convite de Paulo Simões para que eu regressasse com a minha coluna literária ao Açoriano Oriental. Desde logo, pensei num livro de mini-ensaios que abordasse os textos – ficção, poesia, ensaio — que julgo serem os mais relevantes para uma redefinição da nossa identidade ou identidades açorianas num contexto muito mais vasto do que as próprias ilhas, partindo do arquipélago para a sua diáspora, que se estende principalmente do Continente Português até aos Estados Unidos, Canadá e Brasil. A expressão “border crossings” é muito utilizada no mundo anglo-saxónico para definir a literatura de qualquer grupo nacional que vive permanentemente entre dois ou mais países ou culturas.
A divisão do meu livro em três partes tem a ver com o facto de eu abordar a literatura açoriana propriamente dita seguida pela que se produz na nossa diáspora. Em qualquer um dos capítulos do livro vou interligando os textos, demonstrando o diálogo desses mesmos textos no contexto, uma vez mais, da nossa Tradição literária e intelectual.
A terceira secção denomina-se “A Diáspora Em Mim”. Tratam-se de textos autobiográficos, uma vez que viveu de perto a realidade dos emigrantes?
Poderão ser considerados “autobiográficos” na medida em que a minha aproximação aos textos dos outros vai além do acto crítico ou apreciativo propriamente dito, em que interligo interpretação com a minha experiência de vida na diáspora. Vou construindo a minha própria narrativa através desses textos.
Na qualidade de ensaísta, crítico da literatura norte-americana e açoriana e colaborador da imprensa brasileira, qual a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico?
Não tenho nada contra, se bem que ainda não me habituei a obedecer às novas regras. Mas no Açoriano Oriental deixo que passem os meus textos pelo dicionário actualizado. No Brasil, fazem-me o mesmo.
Quais os seus autores preferidos?
Na crítica e no ensaísmo literário, Edmund Wilson, que viveu boa parte da sua vida numa comunidade luso-americana em Cape Cod, e foi o amigo indefectível de John Dos Passos, um outro modernista norte-americano das minhas preferências. Em Portugal, Eugénio Lisboa, autor já canónico de uma outra e distinta diáspora nossa, que teve ao seu lado Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Casais Monteiro, Alberto Lacerda e Rui Knopfli. Todos eles são parte das minhas afinidades electivas. Depois, tenho na minha intimidade literária muitos autores açorianos, incluindo os que estão imigrados na América do Norte, e alguns luso-descendentes. Falei aqui somente nalguns escritores que são os meus outros significant others. As nossas estantes aqui em casa incluem milhares de volumes da literatura canónica norte-americana e em língua portuguesa.
Tem em vista mais alguma publicação para breve?
Tenho em preparação um segundo volume de borderCrossings.
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Entrevista publicada no suplemento (Sem)Rede do Açoriano Oriental a 6 de Agosto de 2012.

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