Na Apresentação de “borderCrossings”: leituras transatlânticas

/Carlos Cordeiro

            É sempre um momento de especial relevo cultural o lançamento de um livro. Num tempo, como o que aí está, publicar-se um livro é, talvez, um acto de coragem, pode dizer-se, cultural e cívica. Escasseiam os leitores de obras que impliquem uma leitura menos imediatista e convidem, antes, à reflexão ou, ao menos, a uma leitura mais pausada. O meu amigo Vamberto sabe bem, é o primeiro a saber, que, financeiramente não ganhará nada com a publicação desta obra. Dá-a à estampa num “atravessar de fronteiras em busca de beleza e verdade literária de quem — como sublinha — nos diz, rediz e nos reinventa numa já longa história de andanças no outro lado do Atlântico” (p. 13). Mas também do lado de cá, num regresso à literatura açoriana dos nosso dias. Este borderCrossings: leituras transatlânticas divide-se em três partes: “Em Casa nos Açores”, “Memória do Brasil” e “A Diáspora em Mim”. Uma divisão bem de acordo com o percurso cultural e afectivo de Vamberto Freitas: o regresso a casa, de onde, afinal, nunca chegou a sair completamente. Mas um regresso salpicado de diáspora por todos os lados — uma diáspora que assume na sua riqueza vivencial e formação intelectual. Pelo meio, fruto das circunstâncias e num regresso aos seus estudos universitários, o interesse pela literatura brasileira que, como diz, “nos completa a nós portugueses em geral e, neste caso, uma vez mais, a nós, açorianos em particular” (13).

Trata-se de uma obra que reúne ensaios no âmbito da literatura açoriana escrita nos Açores ou na outra margem do Atlântico, mais a Norte ou em latitudes bem a Sul, por açorianos de origem ou das gerações seguintes e ainda por gente de outras nacionalidades que refere os Açores e/ou o seu povo. No fundo, e na sequência da sua vasta obra ensaística, Vamberto Freitas, como interventor cultural de elevado prestígio, referenciado e citado em qualquer trabalho sério sobre a literatura açoriana ou da diáspora insular – e este livro mais uma vez o demonstra – tem desenvolvido sistematicamente uma obra fundamental para uma reflexão sobre o papel da literatura para o autoconhecimento deste povoque constituímos, por muito que, politicamente, nos queiram dizer que não existimos como povo:

“Um povo historicamente andarilho como o nosso só poderá ser entendido e apreciado na multiplicidade de textos em qualquer língua — esses textos que recuperam e integram os nossos arquivos criativos, a memória indelével de termos sido e pertencido às mais distantes e díspares geografias dos nossos destinos e afectos (14)”.

É, pois, com base neste pressuposto que Vamberto Freitas alimentou, no Açoriano Oriental e noutros jornais, mas também em revistas da especialidade, o seu trabalho de crítica literária e, digamos, de intervenção cultural, numa prosa, como acentua Eugénio Lisboa na contracapa, onde “não há trapaça – há só músculo, e nervo e inteligência, tudo alimentado numa vigorosa cultura”.

“Nervo e inteligência”, mas também a ética do crítico literário no respeito pelo trabalho do escritor:

“Sem este trabalho constante de comentar, criticar e apreciar mesmo com alguma brevidade um livro (…) esse esforço criativo dificilmente fará parte da cultura literária de um povo, o seu autor ou autores quedando-se na solidão e na incerteza do valor ou aceitação das páginas que quase sempre são inventadas entre a dor, solidão, e a maior disciplina (…). O acto crítico — crê o autor — deve incluir de quando em quando estas e outras reflexões, e do mesmo modo tentar [saber-se] o que significam nalguns casos palavras demolidoras contra um livro ou, pior ainda, ante o seu autor. E conclui: A crítica negativa raramente perdura no tempo; a comunhão de prazeres da leitura e dos seus conteúdos, esses sim, permanecem (223)”.

           

O que não é perene é a ignorância que, tantas vezes, recobre o ambiente cultural, num afã doutrinário que pretende fazer passar como “novidade” aquilo que, afinal, sempre foi.

Vamberto Freitas não se esconde atrás do papel de crítico para evitar os escolhos que as tomadas de posição “musculadas”, sem quaisquer “maneirismos” – sirvo-me novamente das palavras de Eugénio Lisboa – sempre acarretam. Nestes seus ensaios isto está bem patente, por exemplo, quando se refere à ideia de universalismo, que entrou no vocabulário de certos círculos culturais e que seria o contraponto do que consideram serem características da literatura açoriana: uma literatura caseira, ensimesmada, sem passado nem futuro, escasseando-lhe, por um lado, a concepção do “homem universal” e, por outro, a projecção para círculos que ultrapassem as fronteiras das ilhas.

O autor, com a vasta cultura que foi cimentando com trabalho árduo, responde lapidarmente a estes profetas da desgraça de novas e velhas questões e gerações:

“Enquanto entre nós a insistência numa suposta ‘universalidade’ se torna paralisante (é apregoada mas nunca praticada, pois quem é que pode ter a pretensão de escrever para o ‘mundo’?), os que de facto vivem e estão perfeitamente em casa em toda e qualquer parte recuperam a arte que retrata e reafirma, por assim dizer, a condição humana nas suas infindáveis originalidades, excentricidades, tudo o que enriquece sermos e fazermos parte da comunidade humana numa geografia global que felizmente cada vez mais se torna irrelevante, mas que não anula o direito tanto à diferença dos povos como ao que une a todos (220)”.

           

Mas a ignorância também tem a sua faceta de universalidade. Há certamente “universalistas” que desconhecem que a literatura açoriana se projecta noutras geografias, por exemplo, através de traduções no Japão, Estados Unidos, Inglaterra, Eslováquia e que aspectos ligados à literatura e cultura açorianas são apresentados e debatidos em provas académicas em prestigiadas universidades como a da Sorbonne ou a de Poitiers, entre outras. Por outro lado, e citando o autor, “uma literatura sem raízes geográficas precisas e cultura própria só diz respeito aos extraterrestres, supõe-se”, pois “ninguém parte para lado nenhum sem primeiro perceber as origens do seu berço natal, e o seu respectivo lugar no conjunto global dos povos, ninguém mais entre os outros se interessa ou quer saber de quem não se conhece a si próprio” (53).

Ora, Vamberto Freitas insere-se numa tradição cultural açoriana que sobressai, pelo menos, a partir dos inícios do século XX, mas com raízes mais antigas. Uma tradição do debate sobre o papel da cultura, e em especial da literatura, no processo de afirmação identitária do povo açoriano. Mas vai mais além dos debates conjunturais e episódicos, impondo-se, num trabalho sistemático, incansável mesmo, como um dos intelectuais desta geração que mais tem feito pelo conhecimento, divulgação e expansão da literatura açoriana, na diversidade dos seus géneros, estilos, quer dentro de portas, quer na “outra margem”. Assume com orgulho a sua pertença a uma geração de escritores, artistas e intelectuais “de outras artes” que, após a implantação da democracia e da vigência da autonomia, libertaram as asas da criação literária e artística e da intervenção cultural aos mais diversos níveis. O seu encontro directo face a face com essa geração nova, que respeitava a anterior — a do grupo de A Ilha ou a do Bar Jade — deu-se nos encontros da Maia, a partir de 1988, num ambiente descontraído: “a informalidade dos debates — refere-nos Vamberto Freitas — era algo absolutamente novo num meio tradicionalmente sisudo e formalista como o nosso (…) facilitando uma desejável e viva troca de ideias entre um grupo tão disperso e diversificado”, em que se destacava o objectivo de trabalhar para que “as vozes literárias de um povo continuassem e atravessassem outras fronteiras” (18). A partir desses encontros, refere-nos, “todo um corpo literário começou a ser reconhecido com maior atenção e interesse tanto no nosso próprio país como noutros onde os estudos portugueses em geral ocupam algum nicho universitário ou comunitário” (19-20).

Vamberto Freitas e alguns dos presentes e outros que aqui não estão souberam bem compreender o valor da dinâmica cultural que então fervilhava. Entre a crítica literária, o ensaísmo histórico-cultural ou os projectos consistentes de suplementarismo cultural, esse grupo, que não tem lideranças mas gente dedicada e empenhada, trouxe, sem dúvida, uma outra projecção à literatura açoriana, que ultrapassou o nível das pequenas tertúlias culturais ou os muros das academias. Ora, nesta perspectiva, Vamberto Freitas desempenha papel essencial: sem deixar de intervir nos círculos académicos formais, transporta também o seu labor crítico e ensaístico para públicos vastos, através da imprensa de cá, do Continente e da diáspora, sem contudo — e este seu borderCrossings: leituras transatlânticas mais uma vez o vem demonstrar — ceder às tentações da superficialidade ou aos ditames da política ou do academicamente correcto.

Mais uma excelente obra de Vamberto Freitas, na senda, aliás, de todo este percurso que tem desenvolvido em prol da literatura açoriana.

__________

Livraria SolMar, Ponta Delgada, 31 de Maio de 2012. O Prof. Doutor Carlos Cordeiro é historiador da Universidade dos Açores.

borderCrossings: leituras transatlânticas, Letras Lavadas Edições, Ponta Delgada, 2012.

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