Adelaide Freitas: da Literatura Açoriana e Norte Americana

 /Teresa Martins Marques

  Adelaide Freitas é um nome muito conhecido nos Açores, mas outro tanto não poderá dizer-se no continente. Tendo nascido em 1949, na Achadinha do Nordeste, a mesma localidade da ilha de São Miguel em que nascera, dois meses antes, João de Melo, que haveria de ser seu companheiro na escola primária e, mais tarde, objecto dos seus trabalhos ensaísticos,[1] terminado o liceu em Ponta Delgada, vai  graduar-se na Southeastern Massachusetts University, em Darmouth, bem como na City University of New York, regressando, mais tarde, aos Açores onde completará o doutoramento sobre a obra de Hermann Melville em 1987. Pode dizer-se que desde essa altura a Baleia Branca não mais a abandonou.

No seu livro Nas Duas Margens da Literatura Norte-Americana e Açoriana [2] muito justamente comportando textos em português e em inglês), a ensaísta continua a enfrentá-la em estimulantes  ensaios como «Moby Dick e a recuperação da Memória: Portugal na sua atlanticidade», «Os açorianos em Moby Dick» e sobretudo no admirável e fastasmático texto que encerra o livro: «Uma baleia vê os homens: o reacordar da humanidade» onde Adelaide aflora o mito da Atlântida, das Ilhas Afortunadas, bafejadas pelo Espírito Santo, cruzando-o com mestria às  lições de Jung e Eliade e Edgar Morin, mas também do Pessoa da Mensagem, de  Nemésio e Natália Correia e ainda de António Tabucchi, Fernando Aires e João de Melo.

Conforme nos diz Vamberto Freitas, na nota de apresentação do livro, este foi organizado pela autora numa fase da sua saúde já muito problemática, todavia os textos foram escritos em anos de grande produtividade criativa.  Digno de figurar entre os mais exigentes estudos de género é justamente o ensaio «Para uma sensibilização ao universo feminino – e o grito se fez fala e a fala fez-se mulher», em que a autora  parte de Minoo Farhangmeh, das Novas Cartas Portuguesas para se deter com minúcia num trecho decisivo d’ A Melancolia do Geógrafo de  Brigitte Paulino-Neto: “ Ela está de gatas, descalça, despenteada a suar. O outro, na moldura da porta, ocupa o lugar do Sol. Só pode ser ele. Ela endireita-se bruscamente, senta-se nos calcanhares, olha-o como se se tratasse de Deus Pai. Fica assim entre o balde e o pano, muito direita diante do homem que se ergue nas suas botas, em contraluz de pernas afastadas, radioso enquanto ela permanece ajoelhada.” Esta mulher ainda não conquistou o seu lugar, ainda não se libertou da condição de objecto-trapo, mas uma revoada de mulheres voa para fora da via crucis e encontra a via certa, o fim do cativeiro. Encontramo-las na Madona de Natália, mas também nas obras de Fátima Borges, Madalena Caixeiro, Judite Jorge ou Lúcia Costa Melo. A Cor do Ciclame dos Desertos de Fátima Borges é a medida certa da procura que confunde tempo e lugar porque sabe que tempo e lugar são uma díade inseparável, como não o sabem os gramáticos que tudo catalogam e separam: “ Aqui é um advérbio de tempo contra o que tão categoricamente sempre afirmaram os fazedores de gramáticas.” Aqui é o lugar da mulher que procura o que lhe falta e que sempre acaba encontrando o que não procura. Voz de silêncio, que grita mais alto que a trombeta em dia de Juízo, o ajuste de contas, a seu tempo, chegará. Do silêncio que se faz voz nos fala ainda um dos mais brilhantes ensaios do livro – «Língua/linguagens, ou a ética da sobrevivência, em Saudade», também em versão inglesa «Saudade, de Katherine Vaz: Language as survival», no qual Adelaide aponta a insistência da autora na criação de personagens “que «perdem» alguns dos cinco sentidos, ora calando-os, ora recuperando-os ou reinventando-os.” É o caso de Clara, que intermitentemente perde e recupere a fala, em situações traumáticas associado a morte, o mesmo se passando com o seu companheiro, Hélio, que por morte da filha «fechara os olhos para o mundo».

Estamos num universo humano complexo e intrigante, e deveras perturbador já que Adelaide luta contra uma doença que lhe perturba a linguagem, tendo dedicado os seus últimos anos com saúde à escrita de um romance – Sorriso por Dentro da Noite, [3] obra originalíssima no contexto da literatura açoriana, recebido com aplauso generalizado nos meios literários dos Açores e da diáspora, mostrando a emigração do ponto de vista de uma criança que os pais  deixam para trás, ao cuidado de uma avó.

Este trabalho ensaístico era, afinal, antecâmara da ficcionista, sem que deixe de ser aquilo que primacialmente é: trabalho de indagação e de iluminação dos textos. Diálogo implícito com o leitor, mediação de um a um Outro. Voyage au Bout de la Nuit, segundo Céline, ou Sorriso por Dentro da  Noite, segundo Adelaide Freitas. Kafka entendia queum livro tem de ser o machado para quebrar o mar gelado dentro de nós. Poucos serão os livros aos quais se aplicam tão ajustadamente, como ao romance de Adelaide Freitas, aquelas palavras, retiradas de uma carta ao amigo Oskar Pollak (1904). Este livro adquire para o sujeito-leitor  essa a função salvífica abrindo, por esta forma, uma porta de acesso ao mundo da infância. Neste universo até a esperança é cruel como o mês de Abril, não por acaso o mês do nascimento de Xana – a personagem-protagonista (e também da autora), e bem assim  o mês em que parte a mãe da criança, e não por acaso uma das epígrafes do romance retirada de  T.S. Eliot: “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of dead land, mixing/ Memory and desire, stirring/ Dull roots with spring rain(…)” retomado explícitamante no incipit: “ Tudo ali aconteceu, quando a Xana balbuciou maamãã…// Estava-se na Primavera. Gota a gota caíam as primeiras chuvas de Abril – the cruellest month. Cruel também era o que a minha avó acabava de ouvir.”(p.13)

O tema centralizador da romance será a idealização da figura materna e a consequente dificuldade de vinculação. A criança inaugura a linguagem sob o signo do equívoco, trocando as referências das figuras vinculativas. Equívoco e castigo, penoso prefigurado em Sísifo: “Pacientemente, e com esforço colossal, a vovó pegava na menina ao colo como pedra de Sísifo.”(p.13). E desde logo se demarca a figura da ausência, a mãe em efígie: “ o belo retrato da minha mãe” a que chama “ mulher emoldurada” . Distante, inatingível. Como no romance de Katherine Vaz também em Adelaide funciona o silêncio como marcador de decepção, fuga ao real, diluição:“ Sempre que se sentia traída ou magoada, punha as mãos atrás das costas, e recuava, recuava, até tocar na parede. Entrava para dentro dela e pemanecia, assim, entre os tabiques (…) Por entre as ripas só se viam os olhos pretos, pretos, como as noites sem luar nem estrelas.” (p.16)

Buscam-se estratégias securitárias na  ritualização do comportamento criando-se uma realidade paralela contra o marasmo ilhado, os sonhos “trancados” das mulheres, como  nos ensaios de Adelaide Freitas, sobre a condição feminina:

“ As mulheres, por seu lado, rostos encolhidos, roupas acinzentadas em corpos vergados, e sonhos trancados, recolhiam-se a casa, de certa forma receosas e pasmadas…” (p.18) Estamos perante um ferrete do destino, uma herança com marca de diferença: “ Seria louca aquela menina?- perguntavam as mulheres umas às outras: Teria o demónio consigo, ou herdado a asa que transportou para o outro mundo a irmã Serafina morta aos catorze meses…” (p.19)

Xana, a menina furtiva, não aceita a ilusão no mundo real, e como Clara, vive num mundo construído por dentro. Fora de si é o mundo do dinheiro. Na definição da pragmática irmã Carolina: “rico quer dizer que por mais asneiras que se façam se tem sempre razão” (p.26). Tão iguais no fundo tão diferentes nos processos sublimantes, Carolina resolve o abandono pela via da agressão, Xana vai tentar resolvê-lo pela fuga. Xana tem uma vinculação substitutiva na figura avó. Carolina ficará sozinha com a sua raiva e é ela a verdadeira deserdada de afectos. Deserdados até mesmo de chão, pois o peso do silêncio é ainda o do medo do terramoto:

“ O sofrimento e o medo eram de silêncio absoluto; temia-se a própria fala, não fossem as coisas piorar. E quando se pensava estar fora de perigo, o abanão veio de novo, e as paredes cederam, e a empena da casa virada a Norte desabou, em parte, como baralho de cartas. A fúria do terramoto subtraiu um quarto à nossa casa.” (p.46)

Nenhuma idealização se suporta para além de certos limites. Ela faz ruir a casa interior do ser, e nenhuma mãe real pode competir com o sonho de uma imaginária mãe. Quando esta regressa, a criança fugirá para dentro do sonho e recusá-la-á sem apelo nem agravo.

Quando tudo se subtrai, nesta aritmética da falta, alguma coisa seguramente permanece. Como apontou, em recensão no Diário de Notícias, Ana Marques Gastão, será a força expressiva do seu verbo, a fluidez da frase, a discreta modulação do ritmo, a clareza da narrativa que prevalecem nesta autora. Por isso a voz ficcional e ensaística de Adelaide Freitas não emudece e continua entre nós, através da sua escrita, para se fazer ouvir.


[1]   Reunidos em João de Melo e a Literatura Açoriana, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1993.

[2] Edição do II Congresso Internacional da Imprensa Não Diária, Ponta Delgada, 2008.

[3] Adelaide Freitas, Sorriso por Dentro da Noite, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2004.

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2 thoughts on “Adelaide Freitas: da Literatura Açoriana e Norte Americana

  1. samanta paralta Agosto 29, 2012 / 8:32 am

    From one side of the ocean, those words never silence, they remain as echoes of wisdom transmited

    • Vamberto Freitas Agosto 29, 2012 / 7:30 pm

      Obrigado, Samanta por estares atenta à obra da tua antiga professora na Universiidade dos Açores. Que saudades das vossas trumas naqueles anos de trabalho e criatividade.

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