Um mundo de deuses e de nada

Precisamos da tábua rasa. É a única maneira de sair da crise, essa máquina que mantém vivo por mais algum tempo o morto-vivo, o doente terminal que é esta civilização.

João Barrento, O Mundo Está Cheio De Deuses

/Vamberto Freitas

 Um livro de ensaios como este O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, de João Barrento, raramente se dirige tão directa e profundamente ao tempo presente em que vivemos (que sofremos, melhor dito), simultaneamente um tempo muito português e do mundo, conjugando em si uma magnífica síntese dos melhores filósofos e outros pensadores da actualidade com a própria crítica e posicionamento estético e ético do próprio autor ante a nossa época. Com toda a justeza literária, este livro recebeu o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho 2012, precisamente da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Refira-se aqui que vencedores prévios deste prémio incluem nomes como o ensaísta Victor Aguiar e Silva e o poeta Manuel Gusmão, assim como há muitos anos, e com outra designação, a açoriana Rosa Goulart pelo seu estudo da obra de Vergílio Ferreira. É certo João Barrento, professor de literatura na Universidade de Lisboa e o mais distinto tradutor em Portugal de autores germânicos, não necessita de qualquer introdução para além desta, mas se convoco para aqui outros nomes da nossa melhor escrita nas suas várias formas e temática será simplesmente para relembrar a todos que no nosso pais e na nossa língua não estamos condenados à mediocridade que agora nos comanda, muito pelo contrário. Que as muitas das nossas livrarias e publicações literárias sempre da moda preferem ostentar em primeiro plano todo e qualquer estrangeiro que por vezes não merece a mínima atenção para além do facto de viver em Nova Iorque, Paris ou Londres, o leitor sério tem a responsabilidade de optar por outras vias e por outras leituras. Se logo após o 25 de Abril ninguém parecia ter tempo para escrever ou sequer ler, trinta e poucos depois torna-se um dever urgente nosso tentar saber e meditar sobre o falhanço geral e estrondoso da nossa democracia, do nosso lugar na Europa, e depois no mundo. João Barrento pode não aludir sempre directamente a estas realidades nacionais — optando, e bem, por generalizar a condição humana vivida especialmente no Ocidente — mas é de nós todos, das nossas sociedades em agonia de que os seus escritos falam, contextualizam, propondo depois alternativas de pensamento e acção. Que não se deduza que Um Mundo Cheio de Deuses é um outro compêndio do pessimismo global reinante — antes,mais parece uma celebração do que o autor chama de “pirilampos “, que “continuam por aí”, pois nem chegámos ao que há uns anos Fukuyama dizia ser “o fim da história”, nem a humanidade se acomoda aos diktat dos barões das finanças e economia mundiais, nem hoje nem no passado. A “responsabilidade” e o lugar histórico das artes (“a repolitização da arte”) ante estes cenários apocalípticos constituem o fundo da argumentação serena do autor.

O Mundo Está Cheio de Deuses abre com um longo ensaio sob o título geral, e de todo significante aqui, “O Jardim Devastado E O Perfil Da Esperança”, e termina com algumas das crónicas-ensaio publicadas no diário Público e no seu blogue Escrito a Lápis. Pelo meio, a secção sobre o desejado regresso à literatura e a um possível novo lugar do intelectual público na nossa sociedade creio estarem no centro das maiores preocupações intelectuais e cívicas do autor, pois é na recuperação da memória colectiva, da memória humanista que toda grande arte contém em si, que reside a regeneração das sociedades actuais, nas quais o próprio ensino das humanidades cedeu à vontade e imposta “filosofia” do utilitarismo dos grandes interesses industriais e financeiros numa globalização corrompida, os que fizeram dos povos meros servidores da riqueza pela riqueza dos que tudo dominam e tudo querem. João Barrento em parte desconstrói ainda o pântano sem respiração em que todos os povos vivem actualmente, ou a ideia sustentada por outros de um mundo comum, o todo universalizado permitindo e até requerendo o homem e a mulher com multidões dentro de si (o indivíduo contendo “multidões” dentro de si do americano Walt Whitman significa outra e bem diferente humanidade), “uma multidão de singularidades” comandada por um exterior sem face e supostamente imaterial, sem mais referências, deduz-se, de proximidade e de simbolismo humanizante, “uma utopia insustentável” a que o autor contrapõe a essa impossibilidade, nunca desejada, de qualquer modo, a busca incessante através da palavra e do simbólico, uma vez mais, o regresso da memória dos povos e do que realmente os distingue, humaniza, e nega radicalmente o reino da desumanização, do pós-humano, em curso.

“No entanto, a vivência actual do tempo — escreve João Barrento em referência a determinadas leituras de outros autores do momento — não é a da consciência de uma precariedade existencial de raiz… É antes a de uma cultura que tende cada vez mais a ignorar o passado (não tem consciência histórica) e vive um futuro incerto ou inexistente, sob permanentes ameaças, do emprego à segurança social, da ‘guerra infinita’ à catástrofe ecológica. E que se ausentou do espaço natural e social para o virtual,  vivendo grande parte do seu tempo em ‘não-lugares’ (Marc Augé), espaços homogeneizados destituídos de memória, ou naquela alienação do mundo a que Peter Sloterdijk dá o nome, muito alemão, de Weltfremdheit (alheamento do mundo), para referir a situação de algumas minorias antigas (anacoretas, místicos) e maiorias modernas (adeptos das drogas ou do virtual)”.

Uma das grandezas de Um Mundo Cheio de Deuses é que, para além de nos colocar em diálogo directo — ou, pelo menos, “ouvindo-os” — com alguns dos mais importantes pensadores, escritores e poetas europeus da nossa e de outras  épocas e com o próprio autor, todos eles debruçados sobre a catástrofe sócio-económica, política e cultural desde há décadas por eles prevista, e mais ainda a que agora nós todos vivemos, é que nos obriga a reflectirmos sobre a nossa própria condição, individualizada e íntima, num regresso muito saudável ao nosso próprio interiorismo, e a valores incutidos noutros tempos e por outras gerações, ante um quotidiano sem rumo nem sentido, ante o desmoronamento das mais enraizadas instituições, que poderiam nos restringir comportamentos ou silenciar pensamentos, mas davam-nos o conforto de ordenamento na comunidade imediata, na grande sociedade-nação circundante, ou mesmo imaginária. Todos estes ensaios foram escritos antes da presente governação em Portugal, mas durante o que já era a crise generalizada, mais do que anunciada, já sentida e temida. Quanto à ausência das humanidades a todos os níveis da escola ou universidade, era já um dos mais dramáticos sintomas do que estava a ser pensado pelos novos donos do mundo. Quanto menos sensibilidade crítica e pensamento autónomo do cidadão, quanto menos noções de estética e ética (palavras recorrentes na prosa de João Barrento), mais facilmente a massa humana se dobra aos bravos e novos desígnios dos usurpadores das nossas vidas, dos que delas se apoderaram através da chantagem e agiotagem perante a colaboração de governos que mais não são do que as suas testas de ferro pretensamente “ideológicas”. Eis a nova governação e escravidão enroupadas, também descaradamente, em linguagens de “liberdade”, a vivência de tudo carente mas dentro das nossas “possibilidades”, como se não fossem eles os passageiros de carros topos de gama, casarões, subsídios milionários, e absoluta segurança dentro de um mundo político profissionalizado, no qual só eles cabem e entram nas suas portas giratórias.

Um Mundo Cheio de Deuses: crise e crítica e do contemporâneo ora declara tudo isto abertamente, ora leva o leitor a pensá-lo. É disso que são feitos os grandes livros, é disso de que necessitamos em contraponto à banalização das artes, e da literatura em particular, esse inigualável repositório da memória individual e colectiva, da memória e da tragédia humana globais, ou da vida em comunidade, livre ou aprisionada. Que obras como esta aparecem neste preciso momento, não é por acaso — fazem parte da resistência, são os tais pirilampos da esperança, são os deuses-outros que anunciam e prescrevem a retomada da nossa dignidade.

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João Barrento, O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011.

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A América vista e vivida de perto e de longe

Nietzsche, que adorava o poema de Poe (O Corvo), ficou um dia muito deprimido ao saber que o mesmo era imensamente popular nos bordéis americanos.

João Medina, A Minha América

/Vamberto Freitas

A epígrafe acima vai ser justificada em poucas linhas, mas por agora relembremos que João Medina, professor de História jubilado da Universidade de Lisboa e autor de uma extensa obra historiográfica e literária, pertence àquele grupo de escritores e intelectuais da modernidade portuguesa que de quando em quando menciono nestas páginas: os que nasceram, emigraram ou se exilaram ao longo do século passado (Eugénio Lisboa, Jorge de Sena, José Rodrigues Miguéis, Adolfo Casais Monteiro, Rui Knopfli, et al) mas que nunca deixaram de cultivar na nossa melhor literatura tanto a sua própria e repartida essência diaspórica como a sua condição de cidadãos lusos por inteiro, que na língua portuguesa, mais do que no território, encontraram a sua verdadeira pátria. É claro que se Pessoa com eles tivesse vivido, não negaria o seu passado nem, provavelmente, rejeitaria uma cumplicidade que o levaria muito para além dos seus poucos amigos e colegas numa Lisboa que hoje raramente se recorda que foi do seu seio que partiram, e depois alguns regressavam, os desbravadores de novos e longínquos mundos, trazendo a notícia de que outros povos, línguas e culturas existiam, e bem, para além da pequena mas desde sempre etnocêntrica península asiática, essa que, ao contrário do nosso país e de Espanha, permanecia  fechada na maior selvajaria e ignorância. É também preciso dizer que João Medina não é um recente apaixonado pela América, ao contrário de alguns que a descobriram aqui há dias, e quase sempre julgando que a Quinta Avenida é onde começa e acaba tudo, pontificando semana a semana nas mais diversas publicações da capital. O carinho que João Medina cultiva para com a América vem muito de trás, e tem a ver com a sua nascença e adolescência em Lourenço Marques e Joanesburgo, onde a cultura anglo-saxónica chegava muito antes de ser projectada nos cinemas da nossa capital, ou conhecida através de alguma literatura por uma minoria intelectual. Diga-se também desde já que A Minha América, aqui em foco, é de longe superior em conteúdo e astúcia crítica a quase tudo que no nosso país foi publicado por visitantes ocasionais ao grande continente a oeste, desde o pomposamente intitulado Descobri Que Era Europeia, de Natália Correia, à Cavalgada Cinzenta, de Fernando Namora, entre alguns outros escondidos na minha estante. Este livro só poderá ser comparado aos que ao longo dos anos vêm publicando em língua portuguesa escritores e intelectuais nossos imigrados nos EUA, entre os quais devemos contar América, América, de Jorge de Sena, América do Norte de Alfredo Mesquita, e quase todos os livros de Onésimo T. Almeida, Francisco Cota Fagundes e Diniz Borges.

Perdoem-me a lista de acima, mas desatenções não são permitidas nestes instantes de informação e apreciação de uma obra tão vasta na sua temática, tão pungente na sua respiração crítica e de proximidade como A Minha América. João Medina começa por lembrar a influência do cinema americano ainda em África, seguida pelas sua leituras de muitos autores norte-americanos agora, ou desde sempre, canónicos, até às suas visitas a várias partes do país como professor universitário visitante nos anos 90, incluindo a sua marcante passagem pela Brown University, à qual, assim como à cidade de Providence (a própria capa do livro é como que uma declaração de amor), presta homenagem não só pelo seu fulgor académico-intelectual como pela sua beleza tranquila, florida e acolhedora. Boa parte deste livro de mais de quatrocentas páginas está preenchida precisamente com a sua apreciação do cinema e actores americanos da sua preferência e num contexto histórico e cultural muito próprio, abrindo-nos as mais inesperadas perspectivas para uma revisitação aos clássicos dos vários géneros, que ele conhece como poucos entre nós. De resto, o livro inclui também ensaios literários ou historiográficos (desde a génese do país à sua expansão imperialista no século XIX, nos quais não faltam abordagens à melhor poesia e ficção), crónicas publicadas no Diário de Notícias e no JL, assim como um diário escrito durante a sua estadia lá como professor numa das maiores e mais prestigiadas universidades do mundo, já mencionada aqui. A sua linguagem analítica e descritiva do país e do seu povo imensamente diversificado tanto aborda virtudes como castiga o que o autor entende dever ser castigado, a política estrangeira ianque recebendo a primazia dos seus reparos e distanciamento. Não se trata aqui de mais um livro sobre a América: é um autêntico compêndio (sem nunca perder a sua criatividade, subjectividade e viveza, mesmo que o autor renegue por completo, no seu Preâmbulo, este outro estatuto do seu livro) para quem se quiser educar ou informar, pois entre nós não existe nada de igual em abrangência de temas e contextualização, uma vez mais, histórica, literária e política. Não se lê A Minha América, no entanto, só por dever, mas em primeiro lugar pelo imenso prazer que nos invade página a página. Desde quando temos de seguida uma análise do hino americano, das origens constitucionais e a figura de Thomas Jefferson, de ensaístas lendários como H. L. Mencken, Edmund Wilson e Alfred Kazin, ou romancistas como Ernest Hemingway e Carson McCullers, a comédias televisivas como Uma Família às Direitas e ALF, ao significado freudiano de Kim Novak e de Marilyn Monroe, “bela das belas”?

“Sim, estes cemitérios americanos, — escreve João Medina num curioso passo no seu diário que encerra o livro, intitulado “Dias calmos em Rhode Island”, mas cujo tema já levou um famoso escritor britânico a escrever um romance inteiro — sempre verdes e agradáveis, integrados no meio da paisagem, visitados com naturalidade pelo coro dos sobreviventes sem remorsos, têm qualquer coisa de único, de belo e de apaziguador: mostram-nos uma morte quase feliz à força de ser naturalmente integrada no quotidiano dos vivos, sem a barroca pompa e convulsão moral que os católicos põem nestes negócios de túmulos, lágrimas, tremebundos além-mundos e fúnebres eternidades escancaradas”.

Por detrás de toda esta prosa claríssima sobre uma América por ele feita íntima e que nos aparece com o brilhantismo florido do arvoredo outonal da Nova Inglaterra, — quase uma segunda pátria sentimental para o autor — está sempre implícito o contraditório, que será o nosso país no seu pior, amado mas sofrido durante todo o século passado, sem sequer falarmos dos opressivos dias presentes. Curiosamente, João Medina visita uma associação do Divino Espírito Santo numa pequena comunidade lusa em Connecticut, e sai de lá absolutamente deprimido por ver no nosso “exílio” um corte definitivo com a pátria, sem nunca assimilarmos por inteiro o melhor do Novo Mundo. Vê a nossa bandeira nacional, ao lado da americana, “enrolada sobre si mesma, envelhecida e triste, verdadeiro pendão do Exílio…” Nunca vi as coisas do mesmo modo no meu longo estado de pertença e cidadania na Diáspora norte-americana, mas entendo o desgosto do autor: a melancolia de pertencermos ao país que é nosso, e cujo único feito para além das elegantes e gloriosas caravelas foi atirar para fora os seus cidadãos, enquanto a elite, no seu histórico desrespeito pelo seu povo e nas suas corrupções sem fim, se deleita com moralismos e, sempre, com a fingida democracia lusitana.

Nietzche desgostou-se com o facto de o grande poema de Poe ser recitado nos bordéis americanos? Não haverá, creio, maior glória para um genial poeta da desgraça humana. O grande filósofo alemão que, melhor do que qualquer um dos seus contemporâneos, conhecia o marasmo e a falsidade europeia, deveria ter sorrido à genialidade da vida reencontrada no outro lado do Atlântico — uma literatura que tem, depois de Edgar Allan Poe, um Walt Whitman, só pode e deve sair à rua, e ainda mais aos antros do maior prazer humano.

A Minha América é essa celebração, inteligente e crítica, do melhor e mais humano que o ainda reinante império mundial nos deu.

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João Medina, A Minha América, Guimarães, Opera Omnia, 2012.

Vamberto Freitas – cruzando e alargando fronteiras

 /Onésimo Teotónio Almeida

 

Quem segue mais ou menos de perto a vida cultural açoriana conhece a intervenção de Vamberto Freitas e a sua presença regular e actuante, atento ao que de literário se vai produzindo no pequeno-imenso universo insular. Este “pequeno-imenso” não é paradoxo fácil nem grácil, mas uma alusão ao facto de um arquipélago com menos de um quarto de milhão de habitantes persistir e insistir no cultivo de uma dominante histórica sua, a da publicação de livros. O “pequeno-imenso” tem ainda outra vertente. É que, cada vez menos, os Açores são o espaço geográfico limitado pelas águas atlânticas, pois alargam-se sobretudo para o continente norte-americano, desde os Estados Unidos e Canadá até ao Brasil, além de que desde sempre se estenderam a Portugal Continental, para lá remetendo gente sua que por regra escreveu pensando as e nas suas ilhas. É também do domínio comum que Vamberto Freitas é um produto e exemplo desse alargamento do território cultural açoriano, que ele próprio tem ajudado a construir, quanto mais não seja por procurar torná-lo conscientemente presente no imaginário insular. Tendo vivido 27 anos na Califórnia e regressado aos Açores em 1991, nunca mais se esqueceu dessa dimensão alargada que as ilhas hoje têm e que imensamente as expandiu. Ao longo de um quartel, Vamberto tem mantido altamente activo o seu radar, pouco escapando à sua sensibilidade de leitor e crítico. A sua mais de dezena de livros publicados está aí a demonstrar à saciedade quanta leitura, quanto labor, quanto entusiasmo, quanta sagacidade vão na mente e na pena deste crítico, cujo fôlego e garra ressaltam logo que, ao acaso, se abra qualquer das obras de sua autoria.

Depois de onze volumes de recolhas de actividade crítica, surge agora o décimo segundo intitulado BorderCrossings. Leituras transatlânticas (Ponta Delgada: Terras Lavadas, 2012), 300 páginas de informação reflectindo uma crescente coerência em termos teóricos, bem como de visão do mundo e da literatura. Vamberto tem acerca da literatura uma visão dinâmica, de verdadeiro fã. Adora uma boa obra literária, vibra ao lê-la, e depois sente-se impelido a arrastar os amigos (os leitores para ele são uma cadeia de amigos), procurando convencê-los a atirarem-se também à leitura com o entusiasmo que ele pôs na sua, compulsiva e contagiante se um livro para ele o é.

Este último volume navega, como as leituras do crítico, nos mares privilegiados de entre continentes. De periscópio em punho, a partir de uma ilha do Atlântico – S. Miguel – vai atentamente detectando o que se publica tanto na lusa-América como no outro lado, no velho Rectângulo, onde também vivem tantos açorianos. Escrevi ‘lusa-América”, sem precedê-la de ‘Norte’, porque o Brasil tem aqui uma presença igualmente significativa – Luiz António Assis Brasil, Lélia Nunes e Cecília Meireles, entre outros – que inclui até obras de John dos Passos e John Updike, cada qual sobre o seu Brasil. Porque é fundamentalmente sobre a escrita de matriz açoriana que incide o seu olhar, se bem que longe de em exclusivo. Alguns dos autores serão já hoje nomes mais ou menos familiares ao leitor de radar mais abrangente, outros nem tanto, e ainda sobre outros, bem apesar da sua qualidade, poucos terão vislumbres da sua existência. Tudo gente do imenso network insular, quer vivam na Califórnia, Canadá, Brasil, ou Lisboa: Fernando Aires, Frank Gaspar, Urbano Bettencourt, Antero, Julian Silva, Daniel de Sá, Victor Rui Dores, Darrell Kastin, Alfredo de Mesquita, Álamo Oliveira, Anthony De Sá, Emily Daniels, José Francisco Costa, Paula de Sousa Lima, José Medeiros Ferreira, J. H. Santos Barros, Vasco Pereira da Costa, Angela Dutra Menezes, João Brum, Millicent Borges Accardi, Francisco Cota Fagundes, Katherine Vaz, Diniz Borges, Manuel Pereira Medeiros, Joel Neto, alargado entretanto ainda a outra gente que habita, ou pelo menos frequenta, esse universo – José Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, Paulo da Costa, Eugénio Lisboa, Urbino de San-Payo,  Nancy T. Baden,  John Kinsella, Gregory Rabassa e o ever present Edmund Wilson – o grande tema da tese que Vamberto nunca escreveu em volume académico mas anda sempre escrevendo em recensões espalhadas por aqui e por ali temporariamente reunindo-as em volume, como agora.

Vasto mundo, nosso mundo este, deslocado do epicentro de Lisboa para uma ilha do meio do Atlântico escapando ao paradigma tradicional, e com referentes distintos, provenientes do inevitável contágio americano. Não é impunemente que se regressa às ilhas para ir leccionar na Universidade dos Açores, nem se pode despejar essa carga sobre o mar. Vamberto fixou-se, em verdade, no meio do rio Atlântico, a grande (e creio que mais singular) deslocação do eixo central das letras pátrias. Não pretende ser uma jangada de basalto a emigrar para as Américas, tanto assim que de lá regressou. Mas fê-lo de portas e janelas abertas para horizontes que só enriquecem o poroso, osmótico universo luso – como uma simples viagem pelos nomes atrás mencionados deixa entrever. A pátria só beneficia com isso. E deveria agradecer.

As narrativas de outra modernidade lusa

Um realismo de novo tipo reinstaura as grandes narrativas… possuindo legitimidade estética própria o cruzamento de fases, estádios, civilizações, épocas, momentos em costumes temporais diferentes em cada romance.

Miguel Real, O Romance Português Contemporâneo

/Vamberto Freitas

 

Desde há muito que não lia antologias da literatura portuguesa tipo “canónicas”, pois a partir de certa altura cada leitor tem de se orientar a si próprio, fazer as suas escolhas, ler por critérios só por ele definidos e assimilados, naturalmente prestando atenção aos seus autores de eleição e seguindo dentro do possível a crítica diária ou semanal nalgumas das nossas melhores publicações. Por outro lado, não abundam os ensaios de fôlego que se debruçam sobre toda uma época, congregando vastamente noções teóricas e históricas, nomes e obras que retratam um determinado período criativo numa língua e/ou cultura. Como leitor situado histórica e culturalmente nos Açores, a minha aversão a essas obras foi sempre dupla: onde paravam as obras que durante este século partiram de cá, e que por direito próprio, sem qualquer favor de ninguém, deveriam estar presentes e pertencer ao cânone literário nacional? Ainda hoje são pouquíssimos os que a leste de nós sabem de um grande poeta como Roberto de Mesquita ou Emanuel Félix (só para citar dois nomes de grande proeminência entre alguns outros), e quanto aos que mais se evidenciaram no romance, como João de Melo ou Cristóvão de Aguiar, bom, esquecia-se que as suas obras, quer eles próprios ou o aceitem ou não, só poderiam ter nascido de um passado e presente únicos adentro do país português, requerendo de imediato não uma separação antológica, isso nunca, antes a sua inclusão na literatura do seu país, com a devida contextualização. Um grande texto literário será parte da identidade de um povo, e a nossa literatura é riquíssima nessa sua tarefa, um espelho sem igual de todo um percurso a meio mar que nunca deixou de ser fiel às origens ibéricas. Não, não vou discutir, pela milésima vez, como é que um mero rótulo classificativo não anula o outro: a literatura açoriana é parte integral da literatura portuguesa, como a sulista nos EUA é parte inseparável do resto da nação em que está integrada, e a nordestina no Brasil parte do resto que se escreve em qualquer região daquela vasto país e suas culturas. Relembro aqui que o distinto professor da Universidade do Porto e conhecido ensaísta Arnaldo Saraiva em tempos publicou uma colectânea de textos a que deu o título de, imaginem, Escritores modernos das Beiras, que incluía nomes tão conhecidos e “nacionais” como José Cardoso Pires, e A Poesia das Beiras. Ninguém, que eu saiba, teve algo a opor, e isso ficou bem a todos. Só quando chega a nós açorianos é que cai o céu, e suspeita-se logo de “projectos” tenebrosos que vão além da nossa própria literatura identitária, supostamente “ameaçam” a integridade da própria nação. Já não há paciência para tanta ignorância. Pobre e triste nação, a que se sente ameaçada por um mero conceito literário, devidamente teorizado.

O Romance Português Contemporâneo 1950-2000, do escritor e ensaísta Miguel Real, quebra com toda esta confusão, parte finalmente para um rumo que muitos de nós desde há muito esperávamos. Na sua legível linguagem sem subterfúgios lexicais ou teóricos, a sua escorreiteza nem nega um essencial academismo — “cientificidade”, como ainda insistem alguns — nem os seus vastos conhecimentos da cultura do seu país, não esconde essa erudição de um leitor absolutamente comprometido com o que pensa ser essencial aos que procuram informação esclarecedora, ou o texto crítico que permita ao leitor formular as suas próprias ideias ante a cultura literária do seu país. Neste caso, Miguel Real dá continuidade a nomes incontornáveis neste tipo de escrita e intervenção, como Óscar Lopes, António José Saraiva, e mesmo João Gaspar Simões (que nada conhecia da literatura açoriana, mas não se inibia de sobre ela expressar opiniões muitos fortes) ou, ainda hoje, Teresa Martins Marques e Eugénio de Lisboa, estes em ensaios dispersos ou reunidos em livros, dois nomes continentais que bem conhecem e muito apreciam a literatura do ou ao nosso arquipélago associada. O presente livro leva-nos, como indica o título, a 60 anos da melhor ficção portuguesa, ou à que, de um modo ou outro, influenciou a nossa visão da arte literária em Portugal, sempre necessariamente ligada aos momentos históricos, e até políticos, do país. Nenhuma obra literária nasce num vácuo ou por capricho isolado de um autor, antes vive, sente ou entende o seu momento numa determinada comunidade ou sociedade, uma geração quase sempre respondendo à outra, aderindo ou não a escolas de pensamento de cada época em que se insere. Tudo isto foi sempre sabido por quem estuda a arte literária de qualquer língua ou país, mas andava esquecido por entre a fúria teórica — e quase sempre inútil, quando não directamente responsável pela aparente aversão à leitura por toda uma geração que a sofreu a nível superior — das academias em todo o Ocidente. Era como se a criação artística tivesse perdido toda a sua beleza e relevância, a sua primazia dando agora lugar e proeminência aos seus teorizadores carreiristas. Com Miguel Real estamos, sempre, de regresso ao “prazer do texto”.

Eia a segunda razão da minha (feliz) leitura de O Romance Português Contemporâneo: a presença açoriana vai, finalmente, além de Vitorino Nemésio e de Mau Tempo no Canal, restando agora o espaço que nos faltava para o evidente grande contributo às letras lusas das obras ficcionais de João de Melo, Cristóvão de Aguiar e Onésimo T. Almeida, mencionando, ainda que só de passagem, o mais recente romance de Paula de Sousa Lima, de Carlos Enes, assim como várias obras de Dias de Melo e de Norberto Ávila, e ainda os contos de Ana Ferraz da Rosa, Crónica das Visitas. Não é pouco, entenderão todos, para quem vinha do zero neste género de análise e divulgação da literatura do nosso tempo, demonstrando também que já não será preciso residir no Continente para que nos conheçam, apesar de alguns outros nomes permanecerem ausentes, mas cujos romances ou contos são absolutamente merecedores de atenção nesta como noutras obras do género. Só que o sinal aos leitores — e à própria Universidade — fica dado na presente obra de Miguel Real, e podemos congratularmo-nos com esse facto. O autor dedica um número de linhas substancial especialmente no que diz respeito a Onésimo T. Almeida, Cristóvão de Aguiar e João de Melo, estes dois nomes “considerados consensualmente os dois melhores romancistas açorianos vivos (cronista e contista Onésimo Teotónio Almeida), herdeiros e continuadores do espírito de Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio”.

“Concentrando a realidade de 500 anos dos Açores —  escreve num dado passo Miguel Real a propósito dos mais conhecidos romances de João de Melo — como metonímia do todo de Portugal… Simetria, proporção, harmonia como unidade das múltiplas proporções, ordem, medida, são categorias de que a prosa de João de Melo não padece. Pelo contrário, tudo nela se constitui como um exuberante jorro de palavras saído de um gigantesco caudal disforme, que, no seu todo, desafiando as normas, subvertendo-as, explorando-as desfigurativamente, sintetiza na literatura a sociedade fechada, dogmática e ditatorial, tecida de falsidade, hipocrisia e autoritarismo, de fanatismo e de credulidade, de que se tem secularmente tecido a história açoriana e portuguesa. Tal o estilo, tais as personagens, do mesmo modo excessivas na sua personalidade”.

Fica assim demonstrado em O Romance Português Contemporâneo 1950-2010 que tanto a crassa ignorância continental e alguns dos seus mais arreigados preconceitos de vária natureza no que à literatura das ilhas, ou elas referente, diz respeito podem e devem ser ultrapassados. Que fique também como lição a alguns espíritos entre nós de que não é necessário rejeitar nem categorias nem rótulos que meramente explicam a sua originalidade no campo mais vasto que é a literatura portuguesa de sempre, para que chegue o reconhecimento, tanto mais digno quanto mais se persiste no direito à originalidade literária de que os Açores sempre foram  um rico viveiro.

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Miguel Real, O Romance Português Contemporâneo 1950-2010, Alfragide, Editorial Caminho, SA, 2012.