As narrativas de outra modernidade lusa

Um realismo de novo tipo reinstaura as grandes narrativas… possuindo legitimidade estética própria o cruzamento de fases, estádios, civilizações, épocas, momentos em costumes temporais diferentes em cada romance.

Miguel Real, O Romance Português Contemporâneo

/Vamberto Freitas

 

Desde há muito que não lia antologias da literatura portuguesa tipo “canónicas”, pois a partir de certa altura cada leitor tem de se orientar a si próprio, fazer as suas escolhas, ler por critérios só por ele definidos e assimilados, naturalmente prestando atenção aos seus autores de eleição e seguindo dentro do possível a crítica diária ou semanal nalgumas das nossas melhores publicações. Por outro lado, não abundam os ensaios de fôlego que se debruçam sobre toda uma época, congregando vastamente noções teóricas e históricas, nomes e obras que retratam um determinado período criativo numa língua e/ou cultura. Como leitor situado histórica e culturalmente nos Açores, a minha aversão a essas obras foi sempre dupla: onde paravam as obras que durante este século partiram de cá, e que por direito próprio, sem qualquer favor de ninguém, deveriam estar presentes e pertencer ao cânone literário nacional? Ainda hoje são pouquíssimos os que a leste de nós sabem de um grande poeta como Roberto de Mesquita ou Emanuel Félix (só para citar dois nomes de grande proeminência entre alguns outros), e quanto aos que mais se evidenciaram no romance, como João de Melo ou Cristóvão de Aguiar, bom, esquecia-se que as suas obras, quer eles próprios ou o aceitem ou não, só poderiam ter nascido de um passado e presente únicos adentro do país português, requerendo de imediato não uma separação antológica, isso nunca, antes a sua inclusão na literatura do seu país, com a devida contextualização. Um grande texto literário será parte da identidade de um povo, e a nossa literatura é riquíssima nessa sua tarefa, um espelho sem igual de todo um percurso a meio mar que nunca deixou de ser fiel às origens ibéricas. Não, não vou discutir, pela milésima vez, como é que um mero rótulo classificativo não anula o outro: a literatura açoriana é parte integral da literatura portuguesa, como a sulista nos EUA é parte inseparável do resto da nação em que está integrada, e a nordestina no Brasil parte do resto que se escreve em qualquer região daquela vasto país e suas culturas. Relembro aqui que o distinto professor da Universidade do Porto e conhecido ensaísta Arnaldo Saraiva em tempos publicou uma colectânea de textos a que deu o título de, imaginem, Escritores modernos das Beiras, que incluía nomes tão conhecidos e “nacionais” como José Cardoso Pires, e A Poesia das Beiras. Ninguém, que eu saiba, teve algo a opor, e isso ficou bem a todos. Só quando chega a nós açorianos é que cai o céu, e suspeita-se logo de “projectos” tenebrosos que vão além da nossa própria literatura identitária, supostamente “ameaçam” a integridade da própria nação. Já não há paciência para tanta ignorância. Pobre e triste nação, a que se sente ameaçada por um mero conceito literário, devidamente teorizado.

O Romance Português Contemporâneo 1950-2000, do escritor e ensaísta Miguel Real, quebra com toda esta confusão, parte finalmente para um rumo que muitos de nós desde há muito esperávamos. Na sua legível linguagem sem subterfúgios lexicais ou teóricos, a sua escorreiteza nem nega um essencial academismo — “cientificidade”, como ainda insistem alguns — nem os seus vastos conhecimentos da cultura do seu país, não esconde essa erudição de um leitor absolutamente comprometido com o que pensa ser essencial aos que procuram informação esclarecedora, ou o texto crítico que permita ao leitor formular as suas próprias ideias ante a cultura literária do seu país. Neste caso, Miguel Real dá continuidade a nomes incontornáveis neste tipo de escrita e intervenção, como Óscar Lopes, António José Saraiva, e mesmo João Gaspar Simões (que nada conhecia da literatura açoriana, mas não se inibia de sobre ela expressar opiniões muitos fortes) ou, ainda hoje, Teresa Martins Marques e Eugénio de Lisboa, estes em ensaios dispersos ou reunidos em livros, dois nomes continentais que bem conhecem e muito apreciam a literatura do ou ao nosso arquipélago associada. O presente livro leva-nos, como indica o título, a 60 anos da melhor ficção portuguesa, ou à que, de um modo ou outro, influenciou a nossa visão da arte literária em Portugal, sempre necessariamente ligada aos momentos históricos, e até políticos, do país. Nenhuma obra literária nasce num vácuo ou por capricho isolado de um autor, antes vive, sente ou entende o seu momento numa determinada comunidade ou sociedade, uma geração quase sempre respondendo à outra, aderindo ou não a escolas de pensamento de cada época em que se insere. Tudo isto foi sempre sabido por quem estuda a arte literária de qualquer língua ou país, mas andava esquecido por entre a fúria teórica — e quase sempre inútil, quando não directamente responsável pela aparente aversão à leitura por toda uma geração que a sofreu a nível superior — das academias em todo o Ocidente. Era como se a criação artística tivesse perdido toda a sua beleza e relevância, a sua primazia dando agora lugar e proeminência aos seus teorizadores carreiristas. Com Miguel Real estamos, sempre, de regresso ao “prazer do texto”.

Eia a segunda razão da minha (feliz) leitura de O Romance Português Contemporâneo: a presença açoriana vai, finalmente, além de Vitorino Nemésio e de Mau Tempo no Canal, restando agora o espaço que nos faltava para o evidente grande contributo às letras lusas das obras ficcionais de João de Melo, Cristóvão de Aguiar e Onésimo T. Almeida, mencionando, ainda que só de passagem, o mais recente romance de Paula de Sousa Lima, de Carlos Enes, assim como várias obras de Dias de Melo e de Norberto Ávila, e ainda os contos de Ana Ferraz da Rosa, Crónica das Visitas. Não é pouco, entenderão todos, para quem vinha do zero neste género de análise e divulgação da literatura do nosso tempo, demonstrando também que já não será preciso residir no Continente para que nos conheçam, apesar de alguns outros nomes permanecerem ausentes, mas cujos romances ou contos são absolutamente merecedores de atenção nesta como noutras obras do género. Só que o sinal aos leitores — e à própria Universidade — fica dado na presente obra de Miguel Real, e podemos congratularmo-nos com esse facto. O autor dedica um número de linhas substancial especialmente no que diz respeito a Onésimo T. Almeida, Cristóvão de Aguiar e João de Melo, estes dois nomes “considerados consensualmente os dois melhores romancistas açorianos vivos (cronista e contista Onésimo Teotónio Almeida), herdeiros e continuadores do espírito de Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio”.

“Concentrando a realidade de 500 anos dos Açores —  escreve num dado passo Miguel Real a propósito dos mais conhecidos romances de João de Melo — como metonímia do todo de Portugal… Simetria, proporção, harmonia como unidade das múltiplas proporções, ordem, medida, são categorias de que a prosa de João de Melo não padece. Pelo contrário, tudo nela se constitui como um exuberante jorro de palavras saído de um gigantesco caudal disforme, que, no seu todo, desafiando as normas, subvertendo-as, explorando-as desfigurativamente, sintetiza na literatura a sociedade fechada, dogmática e ditatorial, tecida de falsidade, hipocrisia e autoritarismo, de fanatismo e de credulidade, de que se tem secularmente tecido a história açoriana e portuguesa. Tal o estilo, tais as personagens, do mesmo modo excessivas na sua personalidade”.

Fica assim demonstrado em O Romance Português Contemporâneo 1950-2010 que tanto a crassa ignorância continental e alguns dos seus mais arreigados preconceitos de vária natureza no que à literatura das ilhas, ou elas referente, diz respeito podem e devem ser ultrapassados. Que fique também como lição a alguns espíritos entre nós de que não é necessário rejeitar nem categorias nem rótulos que meramente explicam a sua originalidade no campo mais vasto que é a literatura portuguesa de sempre, para que chegue o reconhecimento, tanto mais digno quanto mais se persiste no direito à originalidade literária de que os Açores sempre foram  um rico viveiro.

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Miguel Real, O Romance Português Contemporâneo 1950-2010, Alfragide, Editorial Caminho, SA, 2012.

 

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