As duas almas de um escritor

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… As misteriosas empatias que, nos casos felizes como o meu, levam gradualmente o estrangeiro a dar-se conta de que é possível ter duas pátrias, duas línguas, talvez até duas almas.

J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado/Diário

 

                      Vamberto Freitas

Que o diário Tempo Contado, de J. Rentes de Carvalho, recebeu este ano o Grande Prémio APE (Biografia) só nos poderá alegrar a todos, em especial os seus leitores, assim como os que, pelo menos, já sabem do lugar proeminente que o autor ocupa entre nós, e ainda valorizam o fazer-se justiça literária ao autor de toda uma grande obra, mesmo que tardiamente. Rentes de Carvalho é um dos mais enigmáticos — ou talvez não, dado uma cultura como a nossa, que tanto eleva ao sétimo céu qualquer escriba que em Paris ou Nova Iorque seja proclamado o grande mestre do momento, como sempre olhou para os nossos grandes escritores expatriados ou emigrantes perfeitamente ao contrário — da literatura portuguesa contemporânea, ou, mais vastamente, de toda a literatura de língua portuguesa na nossa época, pois o seu referencial, quer como cidadão quer como homem de letras, atravessa fronteiras desde sempre, pela imaginação e pela sua identidade, ou identidades múltiplas. Mas o autor de A Amante Holandesa, ou de qualquer outro dos seus títulos no romance ou nos contos que possamos mencionar do seu cânone pessoal, só poderá agradecer aos deuses essa sua sorte: está e estará para sempre na companhia do mais distinto grupo de escritores, ensaístas e poetas do século XX português, ou talvez mesmo o grupo de escritores que a partir de Eça de Queirós, (recorrendo aqui a um tempo quase já esquecido, mas que marca um ponto de partida e de regressos), fizeram do além-fronteiras o seu miradouro virado para a pátria, olhando assim não a árvore supostamente singular mas a floresta toda num contexto muito mais vasto do que o pequeno rectângulo à beira do Atlântico. Uns por opção pessoal, outros pelas circunstâncias ibéricas da política (o caso do presente autor, que chega à Holanda em 1956, e lá permanece até hoje) rumaram para a Europa mais a norte ou para o Brasil e os Estados Unidos, desde Adolfo Casais Monteiro a Eugénio Lisboa, tendo sido só através deles que Portugal como que se deitou num divã e ouviu as mais cruéis verdades relacionadas com todas as esferas e etapas da sua existência como espaço simultaneamente comum, desejado e amado, mas de resto sofrido até à morte.

Tempo Contado vai de 15 de Maio de 1994 a 15 de Maio de 1995. Um ano, pois, na vida do autor, mas que depressa o leitor se dá conta de que é um curto espaço de tempo que metonimicamente representa a sua vida adulta, a sua caminhada como homem e como escritor, as suas andanças íntimas entre a Holanda de Amesterdão e o Portugal de Trás-os-Montes (Lisboa aqui é apenas uma esporádica diversão ou desvio intelectual, nem sempre agradável, como aliás diz o autor em determinado momento dos próprios tempos em que lá viveu), o seu percurso de vida e enraizamento em dois países em tudo, mesmo tudo, distintos, a sua solidão como escritor conhecido e apreciado na sua segunda pátria e quase totalmente ignorado na primeira, o Fado de outra consequente vida lusa mais uma vez a cumprir-se. Só que, como um doente que já não nos conhece, conhecemo-lo nós, quando já não tem capacidade ou sentido de nos amar, amamo-lo nós. Creio ser esta a melhor analogia para explicar não só o relacionamento de J. Rentes de Carvalho — como cidadão em “viagem” perpétua e como escritor de uma língua que só através da tradução chega aos seus primeiros leitores — com o nosso e seu país natal, com a presença-ausência de uma das mais belas obras da nossa literatura moderna. Existem aqui dois tempos no “tempo contado”: a sua vida quotidiana em família holandesa à beira de um canal, com o autor sentado à frente de um ecrã em busca da palavra ou da frase precisa numa língua que por ali poucos mais conhecem a esse nível da criação, e a necessidade absoluta dos seus regressos quase constantes à sua aldeia natal, onde ainda, no decurso deste diário, vive a mãe na solidão de quem está prestes a encerrar, sem qualquer continuidade em território pátrio, o ciclo das gerações e a porta de todas as memórias. São nesses momentos da sua estadia entre os seus compatriotas mais chegados, os que com ele nasceram mas que só nos nossos dias — tal como a grande maioria dos leitores por cá, e até críticos eruditos — ficam a saber pela televisão que ele é um escritor lido e prestigiado, agora  finalmente também em Portugal. Tempo Contado, como diria um outro escritor nosso no estrangeiro num contexto semelhante, nunca se ri de, mas sim com, num gesto em que o cosmopolitismo autêntico do autor nunca subestima ou marginaliza a humanidade que ainda se transporta sobre quatro patas ou guia um rebanho bovino para a pastagem numa rua ladeada pelas casas do vizinhos, senta-se à soleira da porta ou num Café de todos os mexericos, comédias e queixas, cada ser humano com uma história e dignidade próprias, a loucura real em convivência com a inocência aparente de quem sabe que mais mundo existe através dos seus que um dia partiram em fuga à miséria, ou então não quer nem sente necessidade de transpor as fronteiras delineadas por um estradão de terra ou por uma serra altiva. Trata-se, aqui, de um dos poucos diários tão bem construídos que quase vira romance, com protagonistas e personagens que nos mostram, explicam e de facto representam um outro país: o nosso, o Portugal profundo intocado pelos milhões que agora pagamos com juros acrescidos, e ainda mais intocado pela pretensiosidade das classes dominantes ou ditas cultas. É este, também, o país que o resto Europa vê e entende em nós. Na arte, não há nem tem de haver desgostos, há mentiras verdadeiras, retratos únicos da alma humana universalizada, e sobretudo ante as muitas contingências do seu isolamento, real ou metafórico. Modernidade e pré-modernidade, não só em observação mútua, mas numa convivência possível, se não fácil.

De resto, Tempo Contado é feito de prosa carregadíssima de estória e sentido, muitas das entradas parecendo mais um conto do que uma confissão (essa tendência frequentemente associada a este género de escrita), em que as comunidades em foco, em Amesterdão ou em Trás-os-Montes, vivem todas as certezas que o autor gostaria fossem as suas, mas está sempre longe disso. Se um escritor questiona necessariamente o mundo que o rodeia, em qualquer uma das suas versões, é também forçosamente levado a questionar-se implacavelmente sobre o que ele próprio tem sido, ou é, ou julga ser. O virar-se para dentro torna-se inescapável a quem vive repartido entre dois mundos em tudo distantes, desde a língua aos seus mais arreigados valores, e chamou a si o projecto de representar em palavras o que vê e imagina, a condição humana que lhe liberta ou aprisiona. Aliás, a questão da identidade — colectiva e pessoal — nunca esmorece ante a rapidez dos dias citadinos ou o mormaço serrano. Quem fui, quem sou, e o que faço aqui, mesmo quando o autor passa os dias de visita à mãe e à aldeia, ele próprio já na chamada terceira idade, parece nunca ter resposta satisfatória; poderá  também querer dizer que estar-se vivo e perfeitamente consciente da sempre irónica comédia humana requer nunca receber respostas ou quedar-se em qualquer “certeza”. J. Rentes de Carvalho limita-se, no fim, ao único desejo que, sem necessitar de o explicar a si ou ao leitor, mantém: ser um dia enterrado na sua aldeia de nascimento, em homenagem, supõe-se, aos seus e ao passado que fizeram dele o homem e mesmo o escritor que é, o lugar e as circunstâncias que traçaram o seu rumo até chegar assim ao presente.

Para além do mais, Tempo Contado tem algumas das mais deliciosas páginas de “castigo”, por assim dizer, ao mundo literário nos dois países, sempre falso e guiado por superegos mais ou menos doentios, como nos passos em itálico que o autor chama de Instantâneo a preto e branco, e nos quais quase sempre a crítica literária apanha com a sua justa ira, ou então a classe bem-pensante a delirar falsamente e a passear-se entre comes e bebes num qualquer acontecimento “cultural” em ambientes citadinos ou “cosmopolitas”. Apesar disso, refere J. Rentes de Carvalho, é só nessa urbanidade em que consegue escrever.

Pudera, a “realidade” de uma aldeia nossa, como a que ele visita duas vezes por ano, supera de longe um romance ou qualquer outro escrito.

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J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado/Diário, Lisboa, Quetzal, 2010.

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A Arte da Entrevista Literária

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                                                                  Vamberto Freitas

A partir do momento em que a escrita se tornou o nosso maior vício e o nosso maior prazer, só a morte pode travá-la.

 

Ernest Hemingway, The Paris Review

 

 

 

Estou quase certo de que a maior ambição de reconhecimento público de um escritor norte-americano, para além do Pulitzer ou do Prémio Nobel, será um dia ser entrevistado pela The Paris Review, a mais histórica, irreverente, e mesmo assim, canónica das revistas literárias do seu país. Agora, através de traduções e compilações das suas nada menos famosas entrevistas, sem dúvida que a revista desperta um alargado interesse em muitos outros países. Desde sempre atenta ao que se passava nas literaturas internacionais mais influentes, as suas entrevistas foram muito além dos escritores anglo-americanos, trazendo aos seus leitores nacionais, supõe-se, os imaginários das mais variadas culturas e línguas pelas páginas dos autores mais conhecidos ou projectados no estrangeiro. Creio que José Saramago, após receber o Prémio Nobel, foi o único escritor de língua portuguesa entrevistado pela The Paris Review. Esse facto de modo nenhum pode ser interpretado como um menosprezo das nossas literaturas, nem sobre elas lança qualquer preconceito quanto a quantidade e qualidade; demonstra só, talvez, que na modernidade tardia temos levado bastante tempo a ultrapassar barreiras e o esquecimento entre outros, situação imposta por um longo enclausuramento ditatorial. De todas as memórias ou registos em forma de livro de autores portugueses que visitaram a América durante a segunda metade do século passado, estranhamente nenhum deles menciona sequer de passagem uma revista literária tão distinta e intelectualmente consequente como esta.

 

Chegou a vez, também, dos leitores portugueses saborearem uma ínfima mas importante fatia dessas conversas ou diálogos literários sem fronteiras com a recente publicação de Entrevistas Da Paris Review, seleccionadas e traduzidas por Carlos Vaz Marques e com ilustrações Vera Tavares. Trata-se de uma preciosa edição em conteúdo, grafismo e arte, naturalmente seguindo mais ou menos o formato inicial da primeira fase da própria revista. Não quero aqui repetir o prefácio contextualizante de Carlos Vaz Marques, bastará lembrar que a The Paris Review iniciou a sua publicação a princípio dos anos 50, tendo até hoje conhecido apenas três directores: George Plimpton, Philip Gourevitch, e, desde há poucos meses, Lorin Stein, a quem o The New York Times dedicou um longo artigo na sua edição de 25 de Fevereiro deste ano. Escreveu Judie Bosman: “Ninguém poderá ser o Mr. Plimpton (…) mas ele é visto (o director actual) como alguém capaz de devolver à revista uma boa e necessária dose do seu cool original”. Plimpton de facto tornou-se um literato lendário. É ele quem assina a entrevista com Hemingway (1954), incluída agora nesta edição portuguesa. Durante anos, as entrevistas publicadas (quase sempre duas em cada número da revista, e sob as rubricas “The Art of Fiction”, “The Art of Non-Ficiton” ou “The Art of Poetry”) eram depois reeditadas numa série de colectâneas a que deram o título The Paris Review Interviews: Writers at Work. Esses volumes são uma autêntica mina intelectual, inesgotável na geografia das ideias, obras e processos de criação literária em todas as suas formas.

 

A estabilidade da Paris Review, pouco habitual a publicações deste género, diz tudo sobre o seu inigualável prestígio no mundo de língua inglesa, contando hoje com dez mil assinantes, e recebendo desde sempre doações substanciais de indivíduos e instituições que garantem a sua existência numa invejável (e não só imaginada) torre de marfim nova-iorquina. Os seus directores têm ficado conhecidos pelo estilo de vida boémio, o seu quotidiano em Nova Iorque tornando-se numa festa redonda e imparável entre eventos de vária natureza social e festas literárias por entre o trabalho de seleccionar o conteúdo trimestral da revista, que nunca compromete a sua qualidade ou expectativas dos mais sofisticados leitores em toda a parte. Ficção, poesia, ensaio e portefólios fotográficos ou artísticos, em todas essas secções a The Paris Review aventura sempre o que é novo, ou reafirma o já canónico — mas são definitivamente as suas longas e trabalhadas entrevistas o que mais projectou a distintíssima publicação, o que mais tornou as suas páginas num espaço de consagração antes ou depois de um qualquer prémio literário, ou na total ausência destes, como se poderá confirmar na consulta geral sobre quem foi ou não foi entrevistado nas suas páginas.

 

Carlos Vaz Marques faz um historial e resumo de como são conduzidas as entrevistas da Paris Review: técnica jornalística aparentemente primeiro utilizada nos EUA a meio do século XIX, a entrevista estritamente literária foi aperfeiçoada pela publicação aqui em foco. Tentando apanhar o escritor desprevenido ou apto a abrir um jogo extremamente complexo nos seus processos de trabalho e referenciais em geral, não é pelo “combate” entre os dois interlocutores que a revista tenta tirar tudo quanto pode acerca da obra e dos processos quotidianos e únicos na sua criação. A conversa pode estender-se por horas e dias e em lugares diferentes, quase sempre à escolha do próprio escritor. Por certo que cada entrevistador leva para o encontro uma bagagem intelectual pouco comum, e ainda um conhecimento profundo de cada livro e seu tempo sob discussão. No fim, o entrevistado tem direito a rever toda a entrevista, sem que lhe modifique as nuances do momento em que foi registada. O objectivo primeiro é deixar um documento em que o autor melhor se retrata, falando de si, da sua própria obra, dos seus contemporâneos ou de livros e autores que mais o comoveram e influenciaram ao longo da sua carreira. O que resulta é muitas vezes literatura biográfica ou autobiográfica pura, manifestando as coordenadas singulares do acto de criação na sua globalidade e definições-chave de toda a obra do autor até então publicadas. Carlos Vaz Marques optou pelas entrevistas a dez escritores já falecidos, entre norte-americanos, argentinos, russos e ingleses. O resultado é sumariamente uma magnífica amostra da literatura modernista e pós-modernista em várias línguas, culturas e contextos históricos, acompanhando desse modo o movimento e mutação artística da maior parte dos tempos ainda recentes ou vividos e registados para sempre na nossa memória. 

 

“A nova revista literária trimestral — escreve Carlos Vaz Marques na conclusão da sua introdução a este volume, depois de nos falar do que existia e se fazia antes — é evidentemente a Paris Review. Sem elateríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges (…) mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para arte literária no século XX”.

 

Quando o escritor luso-americano Frank X. Gaspar visitou os Açores há poucos meses para falar da sua obra, perguntou-me o que queria eu que ele me trouxesse na mala. Não hesitei: o último número da Paris Review. Trouxe-me os três mais recentes, sabe que fazem parte de uma colecção aqui em casa de que muito me orgulho. Olhei para a capa reformulada, pois não a tinha visto nas suas transformações gráficas (tamanho, cor de papel, felizmente só algumas outras modernices mínimas), e torci o nariz ao Frank. I understand, disse-me ele. Mas já me habituei, pois o seu conteúdo sem igual permanece. Ao Onésimo T. Almeida agradeço-lhe sempre trazer-me montes do suplemento semanal The New York Times Book Review, que ele lê todos os domingos e mos guarda. A revista aqui em foco e o suplemento do diário nova-iorquino estão em dois extremos na abordagem que fazem à literatura americana e internacional dos nossos dias. São ambos, no entanto, focos de luz tão perturbante como linda na escuridão da nossa época.

 

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Entrevistas Da Paris Review (Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques), Lisboa, Tinta-Da-China, 2009.

 

Crise e cultura

Ter Braak não se mostra surpreendido com o papel dos intelectuais, muitos dos quais personificam a falta de cultura: podem ter lido imenso, mas há muito perderam todo o sentido crítico.

Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo

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Vamberto Freitas

Por certo que sobre a crise civilizacional em que todos vivemos tem suscitado inúmeros volumes de análise sob os mais variados pontos de vista históricos e culturais, mas a sensação prevalente é que o desaparecimento do “intelectual público” leva a que o debate esteja quase exclusivamente centrado nas discussões económicas e políticas, das quais foram decididamente arredados todo os que não são considerados “especialistas” ou “politólogos”. Se uma sociedade supostamente aberta à Karl Popper está reduzida a esta fala críptica que inunda os nossos ecrãs todos os dias e todas as noites, assim como algumas páginas de jornais de grande projecção ou especializados, o cidadão comum naturalmente só poderá sentir-se alienado de tudo o que, mesmo assim, lhe diz respeito e deveria ser parte da sua esclarecida noção ou acto quotidiano de cidadania. O resultado está á vista: o descrédito absoluto da classe política subversivamente profissionalizada, o embate de ideias arredado fora dos pequenos círculos que constituem as chamadas elites, a Democracia correndo já sérios perigos de ser substituída — ainda mais — pelos que acreditam que a Humanidade se reduz à produção de bens num sistema de “crescimento” perpétuo. O totalitarismo do século XX alimentou-se deste evangelho profano, como sabem os que leram um mínimo de história e narrativas diversas sobre a época da morte em massa, da mentira como verdade, do sofrimento como anunciada redenção para a maioria — nunca para os “engenheiros de almas” que, tal como hoje, sugaram sangue e vida para benefício muito próprio. Qualquer contestação séria e sistemática a este velho modelo de sociedade, não é levada a sério — vem daqueles que nada “percebem”, vem daqueles que ainda não sabem que, afinal, chegámos ao “fim da História”, mesmo após a retracção do seu cérebro chamado Francis Fukuyama, e nada mais haverá do que nos conformarmos a todos, trabalharmos sem regras nem compensação justa para a santidade de uma sociedade ironicamente coisificada, teconologizada, e ao serviço, sempre, das ubíquas e disfarçadas multinacionais, dos “políticos” “democráticos”,  e sobretudo dos seus acólitos usurários à grande escala.

Entre nós, é de tudo isto que nos fala o recentemente publicado O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, de João Barrento (já comentado nestas páginas), é de tudo isto que nos fala agora o pequeno mas sólido livro O Eterno Retorno do Fascismo, do holandês Rob Riemen, ensaísta e filósofo que dirige uma fundação no seu país dedicada “à reflexão intelectual e inspiração do debate cultural e filosófico ocidental”. Significativamente, o seu ensaio abre com uma revisitação ao romance A Peste, de Albert Camus, em que os ratos aparecem subitamente mortos por todos os lados, fazendo regressar a devastação mórbida à cidade de Orão. Não foi inocentemente que o genial autor de O Homem Revoltado encerraria a sua estória com os ratos servindo de metáfora aos nazis que então haviam assassinado a humanidade nos seus fornos e na sua alma. Como os irreprimíveis ratos, quer agora dizer Riemen, a tentação fascista como que está impressa no ADN europeu — regressa sempre, mesmo variando nas suas aparições ao longo dos tempos. Diria um dia Sinclair Lewis, referindo-se Estados Unidos, num livro de 1935 com o irónico título de It Can’t Happen Here: quando o fascismo aparecer virá de fato e gravata, ostentando uma cruz e pregando obediência ao Capitalismo, como já interpretaram outros ao ler o texto original do autor. Adicione-se aqui: e virá de pasta na mão, com falas mansas hiper-técnicas (“científicas”), marginalizando assim a voz inteligente e razoável do cidadão comum, depressa mergulhado no desespero paralisante. Quebra-se nesse processo, meio escondido, o diálogo cívico-político, ficando esse cidadão (nós todos) indefeso ante as forças avassaladoras que o governam, a ausência de ideias alastrando o deserto imundo de onde nascem e se espalham os roedores contaminados. Riemen analisa vários fenómenos da actualidade que apontam de novo nessa direcção, inclusive numa Holanda tida até hoje como pacífica, mas ressentida pela crise generalizada, procurando o bode expiatório mais próximo, que são os imigrantes de cor, particularmente os muçulmanos. A “negação” dos factos da epidemia, tal como no livro canónico do trágico Camus — repete o autor — é uma das tácticas dos dominadores, a linguagem corrompe-se (como já tinha avisado George Orwell, o grande e inesquecível romancista anti-totalitário ou distópico, em 1984, e noutros escritos) para significar algo que não a realidade injusta em que vivemos.

“Uma variante do fenómeno — afirma Rob Riemen — da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos. Para os Americanos, a palavra ‘problem’ é tabu. Presentemente, chama-se ‘desafio’ a qualquer situação que antes mereceria a primeira designação. Problemas, é coisa que não existe, pelo menos nos Estados Unidos. A palavra ‘fascismo’ também é tabu na Europa no que diz respeito aos movimentos políticos actuais. Há a extrema-direita, o conservadorismo radical, o populismo, o populismo de direita, mas o fascismo… não! Não, é impossível, já não temos disso, vivemos em democracia, parem de ser alarmistas e de ofender as pessoas!”

O falhanço ou, pelo menos, a retirada e o silêncio de muitos intelectuais no debate público têm duas consequências gravosas: deixa o campo aberto aos que escondem na sua linguagem política os seus objectivos de natureza anti-democrática, elitista, no sentido mais negativo, e que se apresentam, como já foi referido, com diversas roupagens e discursos, criando assim o vazio ideológico que será preenchido pelos que espreitam na brecha e utilizam a crise para avançar com os seus projectos, amedrontando toda a sociedade ou sociedades em questão. É claro que o ensino das Humanidades a todos os níveis resulta em sensibilidades críticas e fundamentadas no melhor das tradições ocidentais, reforçam valores comunitárias e, uma vez mais, de cidadania, despertam a memória colectiva no que se relaciona com a sociedade e nação no seu todo. Por outras palavras, e ao contrário do postulado marxista clássico — e não só, recordando a insistência com que nos massacra a retórica oca das actuais forças económicas, e dos políticos ao seu serviço numa exclusividade descarada — não serão só os meios de produção que criam ou condicionam os nossos destinos, mas sim os nossos mais arreigados valores culturais e civilizacionais a determinarem o que fazer com a prosperidade, ou pobreza, de um povo. Por outro lado, a massificação das populações mundiais em curso através dos média e das mais sofisticadas tecnologias espalham brutalmente a ignorância, legitimando os piores instintos dos que consomem diariamente o seu lixo: a ganância generalizada, e a consequente a inveja do vizinho ao lado, a crença de que o sagrado “sucesso” depende só do esforço individual, a definição do mal e do bem invertida em tudo o que passa por entretenimento popular, desde os canais de televisão aos estádios de futebol, toda identidade de um povo, toda a sua cultura menosprezada, quando não condenada, naturalmente e em primeiro plano pelos próprios sugadores da nossas vidas e sonhos, os que inventam o novo e degradante vocabulário para classificar países inteiros dominados, subjugados e ao seu inteiro serviço. A vítima abraça, é levada a abraçar assim, o seu carrasco.

A meio de O Eterno Retorno do Fascismo, Riemen convoca no capítulo “Deveríamos aprender com a História” algumas das mais autorizadas vozes literárias, politicas e éticas do anti-fascismo europeu, todas elas testemunhas directas ou sofredoras do que um continente deprimido e ressentido (o ressentimento das classes deserdadas, Riemen citando a dada altura A Rebelião das Massas do espanhol Ortega y Gasset, como outro sinal de alerta) viveu e provocou por toda a parte — Primo Levi, Theodor Adorno, Winston Churchill, Thomas Mann e Albert Camus. O desespero colectivo tornou-se uma das primeiras causas do descalabro societal ao longo dos tempos, resultando inevitavelmente em regimes assassinos. Os intelectuais – entenda-se todos os que fazem das ideias em qualquer esfera da vida e/ou da arte o seu reduto de resistência, e descontando os que sempre também aderiram ao totalitarismo em qualquer uma das suas faces — poderão ser a outra e essencial face da resistência. Quando entram em campo, e cumprem o seu dever.

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Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo (tradução de Maria Carvalho), Lisboa,

O lugar do amor e das sombras

O que restava de ti era uma obra. Um corpus. Mas tu estavas morta. E as tuas cinzas espalhadas num cendrário, misturadas com a terra de Lisboa.

Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses

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            Vamberto Freitas

Por certo que Teolinda Gersão não precisa de mim para vir aqui celebrar o seu grande romance A Cidade de Ulisses, um ano e pouco depois da sua publicação, e muito depois de a obra ter recebido as mais acolhedoras recensões e os mais simpáticos comentários (Baptista Bastos, Miguel Real, Maria Alzira Seixo, por exemplo) na imprensa nacional. Só que me seria difícil ler um livro como este, sem emitir uma opinião acerca da sua grandeza formal ou estrutural, em que a sua aparente, só aparente, linearidade esconde uma espécie de regresso às grandes narrativas que andaram nas últimas décadas escondidas ante o atrevimento de experimentalismos de que ninguém já se lembra, e muito menos quererá reler, e sobretudo acerca de uma temática que sempre caracterizou a grande literatura — o amor, as relações íntimas entre homens e mulheres, amantes na cama e sobretudo amantes da vida, com um grande cenário de fundo e história colectiva que enquadram a cidade de Lisboa através dos tempos até aos nossos dias, numa narrativa que convoca ainda muito do que, a nível popular e especialmente erudito, nos moldou a vida e o centro do nosso chão-pátrio, ou melhor, nos moldou a vida precisamente por pisarmos ou ocuparmos esse chão. Como escrevo assumidamente e sem complexos — muito pelo contrário — a partir de uma geografia específica e vindo de tradições literárias e culturais que foram lançadas e cultivadas a meio atlântico, creio que certas obras falam-nos mais directamente do que outras, a condição humana nos seus infindáveis redutos e contingências, assim como a confirmação que na diversidade de olhares e vivências estamos todos na mesma jangada, ora ancorada ora em viagem perpétua em busca do “Outro” que, como nos diz o próprio narrador de A Cidade de Ulisses, “somos nós”. O regresso a casa, por assim dizer, Nostos, em grego, como faz questão o narrador de explicitar no encerramento da sua estória, essa viagem, também diz ele, à procura de nós próprios em cidades “imaginárias”, sem localização, nacionalidade ou língua precisas, antes o estado de alma de cada um.

A Cidade de Ulisses (Lisboa na sua outra mítica génese homérica, naturalmente) abre com a sua protagonista já falecida, aliás a situação que justifica toda a narrativa do antigo namorado e amante, Paulo Vaz, ele próprio artista plástico reconhecido internacionalmente, e solicitado agora a fazer uma mega exposição em Lisboa pela Fundação Gulbenkian, depois de muito ter andado no estrangeiro, desde Berlim e Nova Iorque a Los Angeles. Após uma separação traumatizante de Cecília Branco, que há anos se tinha separado dele e continuado a sua vida também em países europeus diferentes, o narrador dá-se conta de que ela havia continuado na sua vida privada a trabalhar na pintura e artes afins (escrita) e agora a sua memória impunha que se lhe fizesse justiça, pois o tema em causa tinha sido sempre dela: a cidade de Lisboa vista e interiorizada pelos olhos e pelos sentimentos daquela que fora sua companheira sofredora alguns quatro anos. É esse tempo do amor incerto e vida de luta à beira Tejo por um lugar no mundo das artes, que decorre dos destroçados anos 80 até aos nossos dias, são essas as duas vidas na cidade que são relembradas num prolongado e pormenorizado flashback, levando o leitor ao interior dos seus mais íntimos pensamentos, ao seu passado, e, sempre, a uma história paralela de Lisboa desde a sua fundação, vista principalmente, uma vez mais, através das artes e da literatura, cada bairro da cidade assinalado, toda uma cultura híbrida de gente e línguas, de convivências amenas e violentas, num caldeirão humano que nos torna irremediavelmente os navegantes do mundo, os da saudade não do passado mas de tudo o que nos liga aos outros, com a Grécia (grande ironia, nos tempos que correm) no centro das referências e valores de tudo que nos é bom e sagrado. Creio que nunca uma grande narrativa é feita de jogos linguísticos, e menos de humor e ironia fáceis. A descrição subjectiva de Lisboa (ou da Grécia antiga e moderna) vem em linguagens serenas mas apaixonadas e quase sempre assentadas na nomeação de nomes, livros, quadros que são já parte do nosso património e referência identitária aberta, os “outros” sempre presentes na construção da humanidade na versão que é a nossa. A grande ironia aqui, isso sim, será talvez a descoberta trágica de que só conhecemos ou reconhecemos o amor na morte, no sofrimento das nossas ausências sem retorno, restando a homenagem da obra e da memória ante os que tocaram e transformaram as nossas vidas. Poderá o narrador ser o grande e reconhecido artista que sobrevive, mas na arte a verdade de cada um emerge, e assim a presença de quem a criou fora da vista, por detrás de um palco de falsidades e marionetes teatrais que dependem da mão escondida. A Cidade de Ulisses não trata a inocência fingida de cada um dos seus personagens, todos eles memoráveis; é uma narrativa da redenção possível, do perdão tardio que eles buscam e que os sobreviventes concedem.

“A jangada é frágil — escreve o narrador Paulo Vaz sobre uma instalação que faz parte da grande exposição da arte da sua amada falecida, a representação de um globo “sobre a jangada de Ulisses”, metáfora de uma vida na tempestade de regresso a uma Ítaca, mas que nunca perde o rumo ou a razão — e a cada passo naufraga, submersa por ondas gigantescas, mas volta a flutuar, cada vez mais insegura. Oscilando na jangada, a Terra muda muito lentamente de cor, do azul ao negro, ao vermelho e cor de fogo como se estivesse em chamas, depois torna-se branca, parecendo reduzida a cinzas, até que surge uma débil cor verde, que se torna frouxamente brilhante. Sugerindo talvez, apesar de tudo, um sinal de esperança. (a tua alegria, Cecília, a tua incorrigível esperança)”.

Algumas palavras recorrentes em A Cidade de Ulisses – assim como a menção de obras de arte em todas as tuas formas, escritas, cantadas ou visuais – não deixam dúvida sobre o outro tema aglutinador do romance: mar, viagem, ilhas, partidas e chegadas. A maresia que invade Lisboa e a identifica ante todos que a habitam ou a visitam confunde-se com a presença omnipotente do Tejo, o mar feito rio que nos leva à liberdade dos vastos espaços e de outras falas, o rio feito grande mar que nos conforta ao ser avistado entre o casario da cidade, a azáfama dos barcos e grandes navios sobre as suas águas fundas um retrato da vida em movimento, que ao longo da história contrasta em absoluto com desastres de várias natureza, o desaire público manifestado na crueldade quando o outro se torna de facto o nosso oposto imaginário, e apesar de ter sido sempre sangue do nosso sangue, a raiz do melhor em nós, tal o amor vivido nestas mesmas páginas. A descrição de Lisboa através dos tempos e das suas gentes acaba por constituir um fabuloso fresco do choro e da alegria, da tristeza e contundência de um Fado que, na visão de Cecília, tanto era um acto de queixume e acusação como de altivez e orgulho próprio, a outra nossa outra grande e persistente narrativa. Nem os navegantes nem os que ficam se livram deste destino, a hibridez das nossas origens faz parte de nós, os descobridores sofrendo sempre a saudade dos que permanecem e mantêm a sua Cidade, a que retornam sempre, como Ulisses para Penélope.

A verdadeira universalidade de um grande livro, assim como a dos que o povoam, é feita e apreendida quando também a Antiguidade fala assim com esta viveza natural às gerações séculos depois. O Atlântico e o Mediterrâneo de A Cidade de Ulisses são o berço de tudo isto, da Humanidade sem mais rótulos. As origens de Cecília estão em África, e no fim o seu amante viaja para o repouso e amor no Brasil. O ciclo de vida no mundo assim se completa. De tudo isso percebemos aqui nas ilhas – como num belo poema cabo-verdiano, o Tejo leva-nos ao mar e o mar à nossa terra, e ao contrário também. Como nas vidas de Cecília e de Paulo, necessitamos todos de regressar a casa, eventualmente.

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Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, Porto, Sextante Editora, 2011.

Um mundo de deuses e de nada

Precisamos da tábua rasa. É a única maneira de sair da crise, essa máquina que mantém vivo por mais algum tempo o morto-vivo, o doente terminal que é esta civilização.

João Barrento, O Mundo Está Cheio De Deuses

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             Vamberto Freitas

Um livro de ensaios como este O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, de João Barrento, raramente se dirige tão directa e profundamente ao tempo presente em que vivemos (que sofremos, melhor dito), simultaneamente um tempo muito português e do mundo, conjugando em si uma magnífica síntese dos melhores filósofos e outros pensadores da actualidade com a própria crítica e posicionamento estético e ético do próprio autor ante a nossa época. Com toda a justeza literária, este livro recebeu o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho 2012, precisamente da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Refira-se aqui que vencedores prévios deste prémio incluem nomes como o ensaísta Victor Aguiar e Silva e o poeta Manuel Gusmão, assim como há muitos anos, e com outra designação, a açoriana Rosa Goulart pelo seu estudo da obra de Vergílio Ferreira. É certo João Barrento, professor de literatura na Universidade de Lisboa e o mais distinto tradutor em Portugal de autores germânicos, não necessita de qualquer introdução para além desta, mas se convoco para aqui outros nomes da nossa melhor escrita nas suas várias formas e temática será simplesmente para relembrar a todos que no nosso pais e na nossa língua não estamos condenados à mediocridade que agora nos comanda, muito pelo contrário. Que as muitas das nossas livrarias e publicações literárias sempre da moda preferem ostentar em primeiro plano todo e qualquer estrangeiro que por vezes não merece a mínima atenção para além do facto de viver em Nova Iorque, Paris ou Londres, o leitor sério tem a responsabilidade de optar por outras vias e por outras leituras. Se logo após o 25 de Abril ninguém parecia ter tempo para escrever ou sequer ler, trinta e poucos depois torna-se um dever urgente nosso tentar saber e meditar sobre o falhanço geral e estrondoso da nossa democracia, do nosso lugar na Europa, e depois no mundo. João Barrento pode não aludir sempre directamente a estas realidades nacionais — optando, e bem, por generalizar a condição humana vivida especialmente no Ocidente — mas é de nós todos, das nossas sociedades em agonia de que os seus escritos falam, contextualizam, propondo depois alternativas de pensamento e acção. Que não se deduza que Um Mundo Cheio de Deuses é um outro compêndio do pessimismo global reinante — antes,mais parece uma celebração do que o autor chama de “pirilampos “, que “continuam por aí”, pois nem chegámos ao que há uns anos Fukuyama dizia ser “o fim da história”, nem a humanidade se acomoda aos diktat dos barões das finanças e economia mundiais, nem hoje nem no passado. A “responsabilidade” e o lugar histórico das artes (“a repolitização da arte”) ante estes cenários apocalípticos constituem o fundo da argumentação serena do autor.

O Mundo Está Cheio de Deuses abre com um longo ensaio sob o título geral, e de todo significante aqui, “O Jardim Devastado E O Perfil Da Esperança”, e termina com algumas das crónicas-ensaio publicadas no diário Público e no seu blogue Escrito a Lápis. Pelo meio, a secção sobre o desejado regresso à literatura e a um possível novo lugar do intelectual público na nossa sociedade creio estarem no centro das maiores preocupações intelectuais e cívicas do autor, pois é na recuperação da memória colectiva, da memória humanista que toda grande arte contém em si, que reside a regeneração das sociedades actuais, nas quais o próprio ensino das humanidades cedeu à vontade e imposta “filosofia” do utilitarismo dos grandes interesses industriais e financeiros numa globalização corrompida, os que fizeram dos povos meros servidores da riqueza pela riqueza dos que tudo dominam e tudo querem. João Barrento em parte desconstrói ainda o pântano sem respiração em que todos os povos vivem actualmente, ou a ideia sustentada por outros de um mundo comum, o todo universalizado permitindo e até requerendo o homem e a mulher com multidões dentro de si (o indivíduo contendo “multidões” dentro de si do americano Walt Whitman significa outra e bem diferente humanidade), “uma multidão de singularidades” comandada por um exterior sem face e supostamente imaterial, sem mais referências, deduz-se, de proximidade e de simbolismo humanizante, “uma utopia insustentável” a que o autor contrapõe a essa impossibilidade, nunca desejada, de qualquer modo, a busca incessante através da palavra e do simbólico, uma vez mais, o regresso da memória dos povos e do que realmente os distingue, humaniza, e nega radicalmente o reino da desumanização, do pós-humano, em curso.

“No entanto, a vivência actual do tempo — escreve João Barrento em referência a determinadas leituras de outros autores do momento — não é a da consciência de uma precariedade existencial de raiz… É antes a de uma cultura que tende cada vez mais a ignorar o passado (não tem consciência histórica) e vive um futuro incerto ou inexistente, sob permanentes ameaças, do emprego à segurança social, da ‘guerra infinita’ à catástrofe ecológica. E que se ausentou do espaço natural e social para o virtual,  vivendo grande parte do seu tempo em ‘não-lugares’ (Marc Augé), espaços homogeneizados destituídos de memória, ou naquela alienação do mundo a que Peter Sloterdijk dá o nome, muito alemão, de Weltfremdheit (alheamento do mundo), para referir a situação de algumas minorias antigas (anacoretas, místicos) e maiorias modernas (adeptos das drogas ou do virtual)”.

Uma das grandezas de Um Mundo Cheio de Deuses é que, para além de nos colocar em diálogo directo — ou, pelo menos, “ouvindo-os” — com alguns dos mais importantes pensadores, escritores e poetas europeus da nossa e de outras  épocas e com o próprio autor, todos eles debruçados sobre a catástrofe sócio-económica, política e cultural desde há décadas por eles prevista, e mais ainda a que agora nós todos vivemos, é que nos obriga a reflectirmos sobre a nossa própria condição, individualizada e íntima, num regresso muito saudável ao nosso próprio interiorismo, e a valores incutidos noutros tempos e por outras gerações, ante um quotidiano sem rumo nem sentido, ante o desmoronamento das mais enraizadas instituições, que poderiam nos restringir comportamentos ou silenciar pensamentos, mas davam-nos o conforto de ordenamento na comunidade imediata, na grande sociedade-nação circundante, ou mesmo imaginária. Todos estes ensaios foram escritos antes da presente governação em Portugal, mas durante o que já era a crise generalizada, mais do que anunciada, já sentida e temida. Quanto à ausência das humanidades a todos os níveis da escola ou universidade, era já um dos mais dramáticos sintomas do que estava a ser pensado pelos novos donos do mundo. Quanto menos sensibilidade crítica e pensamento autónomo do cidadão, quanto menos noções de estética e ética (palavras recorrentes na prosa de João Barrento), mais facilmente a massa humana se dobra aos bravos e novos desígnios dos usurpadores das nossas vidas, dos que delas se apoderaram através da chantagem e agiotagem perante a colaboração de governos que mais não são do que as suas testas de ferro pretensamente “ideológicas”. Eis a nova governação e escravidão enroupadas, também descaradamente, em linguagens de “liberdade”, a vivência de tudo carente mas dentro das nossas “possibilidades”, como se não fossem eles os passageiros de carros topos de gama, casarões, subsídios milionários, e absoluta segurança dentro de um mundo político profissionalizado, no qual só eles cabem e entram nas suas portas giratórias.

Um Mundo Cheio de Deuses: crise e crítica e do contemporâneo ora declara tudo isto abertamente, ora leva o leitor a pensá-lo. É disso que são feitos os grandes livros, é disso de que necessitamos em contraponto à banalização das artes, e da literatura em particular, esse inigualável repositório da memória individual e colectiva, da memória e da tragédia humana globais, ou da vida em comunidade, livre ou aprisionada. Que obras como esta aparecem neste preciso momento, não é por acaso — fazem parte da resistência, são os tais pirilampos da esperança, são os deuses-outros que anunciam e prescrevem a retomada da nossa dignidade.

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João Barrento, O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011.

Califórnia, ou o país de Deus

Parecia-lhe um pouco estranho estar a atravessar aquele pátio da herdade. Paul tinha caminhado inúmeras vezes por este mesmo corredor entre a casa dos pais e a dos avós, mas agora começava a sentir-se um pouco como um estrangeiro.

Anthony Barcellos, Land of Milk and Money

/Vamberto Freitas

O título deste meu texto tem a sua estranha razão de ser. Quando atravessei a América de carro rumo a Boston e depois aos Açores, a minha matrícula californiana levantava cada vez mais curiosidade à maneira que se afastava das suas origens, Numa estação de serviço, já na costa leste, um indivíduo não resistiu, depois de a olhar com visível admiração: So you’re coming from God’s country!/Então vens do país de Deus! Não estaria eu então inteiramente de acordo, mas isso teria a ver com o meu estado de espírito na mudança radical que fazia da Califórnia no regresso definitivo à minha terra natal — negação temporária do pai para melhor amar a mãe? Poderia ser, mas com a passagem do tempo aproximo-me cada vez mais à opinião do meu desconhecido interlocutor. Os paradoxos são assim: a minha aversão ao capitalismo que por aquelas bandas tinha sido levado às últimas consequências não anulava de modo nenhum o sentido de liberdade (uma coisa é precisamente a que leva à outra, gritar-me-iam de novo os neoconservadores, se eu estivesse ainda disposto a ouvi-los) que os seus estilos de vida e as suas paisagens, que vão do deserto à fantasmagórica costa que serpenteia, entre o exuberante verde das montanhas e o azul cristal do mar, o estado de norte a sul. Tudo isto tem agora a ver com a minha leitura do romance de Anthony Barcellos, Land of Milk and Money, uma magnífica e extensa tirada artística à chegada ao Novo Mundo, de mãos vazias, e depois ao triunfo e queda de gente açoriana que, sem falar uma palavra de inglês ou entender a cultura muito própria onde se havia metido, construíram ao longo de todo o vasto Vale de São Joaquim alguns dos mais sólidos impérios agrícolas, que a terceira geração, já quase inteiramente americanizada, se encarregaria de desfazer pela ganância e/ou pela vontade de usufruir de outros modos de vida, tudo o que os velhos imigrantes lhes tinham dado literalmente de mão beijada. Land of Milk and Money (o jogo de palavras tem a ver, como sabem, com a bíblica expressão land of milk and honey) tem essa qualidade dos grandes romances: na fluência das suas múltiplas linguagens e vozes, contém em si a ironia e o humor com que se olha para o mundo dos outros, que também é o do protagonista, aqui de nome Paul Francisco, este que tudo admira e castiga numa narrativa que nos transporta a fins do século dezanove até 2006. Assim, a história de uma família transfigura-se na história de todo um povo diaspórico, e especificamente californiano — o nosso.

Land of Milk and Money está estruturado em vários tempos, quase como num diário redigido à posteriori por meses e anos, o leitor recuando e avançando na narrativa enquanto decorre em tribunal — a trama principal do romance — a disputa de um testamento entre as famílias Francisco e Salazar. Após a morte da matriarca açoriana Teresa Maria Francisco (nascida e emigrada, tal como o seu falecido marido Paulo Cândido, da freguesia terceirense de São Bartolomeu) está tudo em causa, desde terras a vacas leiteiras às respectivas alfaias. Não será necessário repetir em detalhe que não se trata de um romance sobre isso tudo, antes é um retrato universal da ganância e amores fingidos, quase uma retomada bíblica dos mais velhos temas humanos, irmãos contra irmãos, clã contra clã: nada como as partilhas de propriedade e dinheiro para manifestar todo o nosso veneno, inveja e, uma vez mais, a ganância que comanda o mundo de negócios e prosperidade. Este é um primeiro romance que mais parece o da maturidade escritural do seu autor: em cada breve frase meramente descritiva sobressai o interiorismo de cada personagem, praticamente todas elas aqui açorianas ou descendentes, permitindo ao leitor assimilá-las e recordá-las, nunca mais as esquecendo, e esperando já de cada uma delas certas reacções aos acontecimentos que vão decorrendo na Justiça e no dia a dia. O quotidiano da vida numa dessas leitarias: filhos e netos que se dedicam com bravura gostosa às suas ritualísticas tarefas, em que um tractor no cultivo ou colheita vira brinquedo nas suas mãos, mulheres que raramente negam aos seus homens toda e qualquer colaboração (estamos aquém do feminismo, que tudo mudaria mais tarde, mas no lado de fora destas fazendas, apelidados pelos que aqui pululam, mesmo os já lá nascidos, de “americanos”), advogados também da nossa descendência que de tudo isto percebem, e alguns colegas anglos que simplesmente abanam a cabeça ante a estranheza de herdeiros e a génese heróica da sua riqueza. Por outro o lado, o narrador em terceira pessoa, vai aludindo a mais mundo nas redondezas, não deixando que esqueçamos que esta estória está perfeitamente inserida na terra que os imigrantes criaram e desenvolveram como resultado de políticas longínquas, como o New Deal de Roosevelt. Toda a ambiguidade da postura da nossa gente na sua outra pátria, quase uma hiper-protegida bolha socioeconómica rodeada de gente desconhecida por todos os lados, é extraída destes outros pormenores fulminantemente expressos. Steinbeck, que primeiro do que todos ficcionou a dinâmica ruralidade mecanizada da Califórnia, não desdenharia, muito pelo contrário, desta narrativa de Anthony Barcellos — provavelmente viria nela o seguimento por outras palavras e formas do que ele próprio tinha fundado na literatura daquelas proveniências. O desfecho testamentário em tribunal, como todo o processo, é verdadeiramente hilariante, e Land of Milk and Money encerra com uma gargalhada que tudo significa: a continuidade e inevitável rotura do nosso passado e presente, ficando o resto em aberto, a família agora dividida entre os que “ficam” e o sinal dado pelo protagonista Paul, que tudo abandona, e torna-se professor universitário.

“O seu filho do meio [pensa Paulinho, da segunda geração, acerca dos que viriam a seguir]. Três filhos e um só tinha o interesse mínimo em manter a herança da família. Paulinho aceitava essa realidade. Com toda a franqueza, era-lhe impossível imaginar Paul ou Alex tentando gerir as operações da vacaria de Francisco, mas desconsertava-lhe pensar nisso. Seria isto um sinal para o futuro?”

O narrador omnisciente elege Paulo Francisco, o neto mais criativamente rebelde dos fundadores da herdade em causa, para que seja ele os olhos e ouvidos de todo o clã, dada a sua acutilância de observador e sabedoria-outra. É com ele que vamos sendo apresentados às famílias em disputa, e a todo o seu percurso histórico. Paul é como que o dissidente entre tudo e todos. Opta desde a infância pelos livros e pela solidão, levando-o eventualmente a uma carreira longe das suas origens. De uma avó das ilhas que o queria padre católico, ele resiste sempre, sem nunca negar o amor e a admiração que cultiva por estes pioneiros que um dia chegaram aos vastos e ricos espaços no interior do Central Valley californiano. Olha com saudade para o seu passado, mas pertence já a outra América, tendo partido de uma infância em que o português aprendido em casa dos avós era ainda a sua primeira língua quando começa na escola primária de nome Pleasant Hill Elementary School. Um dia destes explico porque menciono com todas as letras esta escola nos arredores da cidade que ainda respira nostalgia dos anos 40-50, Porterville; como um dia explicarei como e quando eu conheci um autor de nome Anthony Barcellos, doutorado em matemática, professor universitário no estado da sua nascença, ex-assessor político e técnico nos corredores do poder em Sacramento.

Eis aqui um outro grande romance da mais consequente e bem sucedida saga açoriana na América do Norte. Não deveríamos esperar pela sua tradução, desta como de outras narrativas de luso-descendentes. Eis aí ainda a grande trilogia sobre a modernidade açor-californiana: The Gunnysack Castle, de Julian Silva, Saudade, de Katherine Vaz — e, agora, Land of Milk and Money, de Anthony Barcellos.

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Anthony Barcellos, Land of Milk and Money, Dartmouth, Massachusetts, Tagus Press, University Press of New England, 2012. As traduções aqui são da minha responsabilidade.