Califórnia, ou o país de Deus

Parecia-lhe um pouco estranho estar a atravessar aquele pátio da herdade. Paul tinha caminhado inúmeras vezes por este mesmo corredor entre a casa dos pais e a dos avós, mas agora começava a sentir-se um pouco como um estrangeiro.

Anthony Barcellos, Land of Milk and Money

/Vamberto Freitas

O título deste meu texto tem a sua estranha razão de ser. Quando atravessei a América de carro rumo a Boston e depois aos Açores, a minha matrícula californiana levantava cada vez mais curiosidade à maneira que se afastava das suas origens, Numa estação de serviço, já na costa leste, um indivíduo não resistiu, depois de a olhar com visível admiração: So you’re coming from God’s country!/Então vens do país de Deus! Não estaria eu então inteiramente de acordo, mas isso teria a ver com o meu estado de espírito na mudança radical que fazia da Califórnia no regresso definitivo à minha terra natal — negação temporária do pai para melhor amar a mãe? Poderia ser, mas com a passagem do tempo aproximo-me cada vez mais à opinião do meu desconhecido interlocutor. Os paradoxos são assim: a minha aversão ao capitalismo que por aquelas bandas tinha sido levado às últimas consequências não anulava de modo nenhum o sentido de liberdade (uma coisa é precisamente a que leva à outra, gritar-me-iam de novo os neoconservadores, se eu estivesse ainda disposto a ouvi-los) que os seus estilos de vida e as suas paisagens, que vão do deserto à fantasmagórica costa que serpenteia, entre o exuberante verde das montanhas e o azul cristal do mar, o estado de norte a sul. Tudo isto tem agora a ver com a minha leitura do romance de Anthony Barcellos, Land of Milk and Money, uma magnífica e extensa tirada artística à chegada ao Novo Mundo, de mãos vazias, e depois ao triunfo e queda de gente açoriana que, sem falar uma palavra de inglês ou entender a cultura muito própria onde se havia metido, construíram ao longo de todo o vasto Vale de São Joaquim alguns dos mais sólidos impérios agrícolas, que a terceira geração, já quase inteiramente americanizada, se encarregaria de desfazer pela ganância e/ou pela vontade de usufruir de outros modos de vida, tudo o que os velhos imigrantes lhes tinham dado literalmente de mão beijada. Land of Milk and Money (o jogo de palavras tem a ver, como sabem, com a bíblica expressão land of milk and honey) tem essa qualidade dos grandes romances: na fluência das suas múltiplas linguagens e vozes, contém em si a ironia e o humor com que se olha para o mundo dos outros, que também é o do protagonista, aqui de nome Paul Francisco, este que tudo admira e castiga numa narrativa que nos transporta a fins do século dezanove até 2006. Assim, a história de uma família transfigura-se na história de todo um povo diaspórico, e especificamente californiano — o nosso.

Land of Milk and Money está estruturado em vários tempos, quase como num diário redigido à posteriori por meses e anos, o leitor recuando e avançando na narrativa enquanto decorre em tribunal — a trama principal do romance — a disputa de um testamento entre as famílias Francisco e Salazar. Após a morte da matriarca açoriana Teresa Maria Francisco (nascida e emigrada, tal como o seu falecido marido Paulo Cândido, da freguesia terceirense de São Bartolomeu) está tudo em causa, desde terras a vacas leiteiras às respectivas alfaias. Não será necessário repetir em detalhe que não se trata de um romance sobre isso tudo, antes é um retrato universal da ganância e amores fingidos, quase uma retomada bíblica dos mais velhos temas humanos, irmãos contra irmãos, clã contra clã: nada como as partilhas de propriedade e dinheiro para manifestar todo o nosso veneno, inveja e, uma vez mais, a ganância que comanda o mundo de negócios e prosperidade. Este é um primeiro romance que mais parece o da maturidade escritural do seu autor: em cada breve frase meramente descritiva sobressai o interiorismo de cada personagem, praticamente todas elas aqui açorianas ou descendentes, permitindo ao leitor assimilá-las e recordá-las, nunca mais as esquecendo, e esperando já de cada uma delas certas reacções aos acontecimentos que vão decorrendo na Justiça e no dia a dia. O quotidiano da vida numa dessas leitarias: filhos e netos que se dedicam com bravura gostosa às suas ritualísticas tarefas, em que um tractor no cultivo ou colheita vira brinquedo nas suas mãos, mulheres que raramente negam aos seus homens toda e qualquer colaboração (estamos aquém do feminismo, que tudo mudaria mais tarde, mas no lado de fora destas fazendas, apelidados pelos que aqui pululam, mesmo os já lá nascidos, de “americanos”), advogados também da nossa descendência que de tudo isto percebem, e alguns colegas anglos que simplesmente abanam a cabeça ante a estranheza de herdeiros e a génese heróica da sua riqueza. Por outro o lado, o narrador em terceira pessoa, vai aludindo a mais mundo nas redondezas, não deixando que esqueçamos que esta estória está perfeitamente inserida na terra que os imigrantes criaram e desenvolveram como resultado de políticas longínquas, como o New Deal de Roosevelt. Toda a ambiguidade da postura da nossa gente na sua outra pátria, quase uma hiper-protegida bolha socioeconómica rodeada de gente desconhecida por todos os lados, é extraída destes outros pormenores fulminantemente expressos. Steinbeck, que primeiro do que todos ficcionou a dinâmica ruralidade mecanizada da Califórnia, não desdenharia, muito pelo contrário, desta narrativa de Anthony Barcellos — provavelmente viria nela o seguimento por outras palavras e formas do que ele próprio tinha fundado na literatura daquelas proveniências. O desfecho testamentário em tribunal, como todo o processo, é verdadeiramente hilariante, e Land of Milk and Money encerra com uma gargalhada que tudo significa: a continuidade e inevitável rotura do nosso passado e presente, ficando o resto em aberto, a família agora dividida entre os que “ficam” e o sinal dado pelo protagonista Paul, que tudo abandona, e torna-se professor universitário.

“O seu filho do meio [pensa Paulinho, da segunda geração, acerca dos que viriam a seguir]. Três filhos e um só tinha o interesse mínimo em manter a herança da família. Paulinho aceitava essa realidade. Com toda a franqueza, era-lhe impossível imaginar Paul ou Alex tentando gerir as operações da vacaria de Francisco, mas desconsertava-lhe pensar nisso. Seria isto um sinal para o futuro?”

O narrador omnisciente elege Paulo Francisco, o neto mais criativamente rebelde dos fundadores da herdade em causa, para que seja ele os olhos e ouvidos de todo o clã, dada a sua acutilância de observador e sabedoria-outra. É com ele que vamos sendo apresentados às famílias em disputa, e a todo o seu percurso histórico. Paul é como que o dissidente entre tudo e todos. Opta desde a infância pelos livros e pela solidão, levando-o eventualmente a uma carreira longe das suas origens. De uma avó das ilhas que o queria padre católico, ele resiste sempre, sem nunca negar o amor e a admiração que cultiva por estes pioneiros que um dia chegaram aos vastos e ricos espaços no interior do Central Valley californiano. Olha com saudade para o seu passado, mas pertence já a outra América, tendo partido de uma infância em que o português aprendido em casa dos avós era ainda a sua primeira língua quando começa na escola primária de nome Pleasant Hill Elementary School. Um dia destes explico porque menciono com todas as letras esta escola nos arredores da cidade que ainda respira nostalgia dos anos 40-50, Porterville; como um dia explicarei como e quando eu conheci um autor de nome Anthony Barcellos, doutorado em matemática, professor universitário no estado da sua nascença, ex-assessor político e técnico nos corredores do poder em Sacramento.

Eis aqui um outro grande romance da mais consequente e bem sucedida saga açoriana na América do Norte. Não deveríamos esperar pela sua tradução, desta como de outras narrativas de luso-descendentes. Eis aí ainda a grande trilogia sobre a modernidade açor-californiana: The Gunnysack Castle, de Julian Silva, Saudade, de Katherine Vaz — e, agora, Land of Milk and Money, de Anthony Barcellos.

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Anthony Barcellos, Land of Milk and Money, Dartmouth, Massachusetts, Tagus Press, University Press of New England, 2012. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

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