Crise e cultura

Ter Braak não se mostra surpreendido com o papel dos intelectuais, muitos dos quais personificam a falta de cultura: podem ter lido imenso, mas há muito perderam todo o sentido crítico.

Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo

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Vamberto Freitas

Por certo que sobre a crise civilizacional em que todos vivemos tem suscitado inúmeros volumes de análise sob os mais variados pontos de vista históricos e culturais, mas a sensação prevalente é que o desaparecimento do “intelectual público” leva a que o debate esteja quase exclusivamente centrado nas discussões económicas e políticas, das quais foram decididamente arredados todo os que não são considerados “especialistas” ou “politólogos”. Se uma sociedade supostamente aberta à Karl Popper está reduzida a esta fala críptica que inunda os nossos ecrãs todos os dias e todas as noites, assim como algumas páginas de jornais de grande projecção ou especializados, o cidadão comum naturalmente só poderá sentir-se alienado de tudo o que, mesmo assim, lhe diz respeito e deveria ser parte da sua esclarecida noção ou acto quotidiano de cidadania. O resultado está á vista: o descrédito absoluto da classe política subversivamente profissionalizada, o embate de ideias arredado fora dos pequenos círculos que constituem as chamadas elites, a Democracia correndo já sérios perigos de ser substituída — ainda mais — pelos que acreditam que a Humanidade se reduz à produção de bens num sistema de “crescimento” perpétuo. O totalitarismo do século XX alimentou-se deste evangelho profano, como sabem os que leram um mínimo de história e narrativas diversas sobre a época da morte em massa, da mentira como verdade, do sofrimento como anunciada redenção para a maioria — nunca para os “engenheiros de almas” que, tal como hoje, sugaram sangue e vida para benefício muito próprio. Qualquer contestação séria e sistemática a este velho modelo de sociedade, não é levada a sério — vem daqueles que nada “percebem”, vem daqueles que ainda não sabem que, afinal, chegámos ao “fim da História”, mesmo após a retracção do seu cérebro chamado Francis Fukuyama, e nada mais haverá do que nos conformarmos a todos, trabalharmos sem regras nem compensação justa para a santidade de uma sociedade ironicamente coisificada, teconologizada, e ao serviço, sempre, das ubíquas e disfarçadas multinacionais, dos “políticos” “democráticos”,  e sobretudo dos seus acólitos usurários à grande escala.

Entre nós, é de tudo isto que nos fala o recentemente publicado O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, de João Barrento (já comentado nestas páginas), é de tudo isto que nos fala agora o pequeno mas sólido livro O Eterno Retorno do Fascismo, do holandês Rob Riemen, ensaísta e filósofo que dirige uma fundação no seu país dedicada “à reflexão intelectual e inspiração do debate cultural e filosófico ocidental”. Significativamente, o seu ensaio abre com uma revisitação ao romance A Peste, de Albert Camus, em que os ratos aparecem subitamente mortos por todos os lados, fazendo regressar a devastação mórbida à cidade de Orão. Não foi inocentemente que o genial autor de O Homem Revoltado encerraria a sua estória com os ratos servindo de metáfora aos nazis que então haviam assassinado a humanidade nos seus fornos e na sua alma. Como os irreprimíveis ratos, quer agora dizer Riemen, a tentação fascista como que está impressa no ADN europeu — regressa sempre, mesmo variando nas suas aparições ao longo dos tempos. Diria um dia Sinclair Lewis, referindo-se Estados Unidos, num livro de 1935 com o irónico título de It Can’t Happen Here: quando o fascismo aparecer virá de fato e gravata, ostentando uma cruz e pregando obediência ao Capitalismo, como já interpretaram outros ao ler o texto original do autor. Adicione-se aqui: e virá de pasta na mão, com falas mansas hiper-técnicas (“científicas”), marginalizando assim a voz inteligente e razoável do cidadão comum, depressa mergulhado no desespero paralisante. Quebra-se nesse processo, meio escondido, o diálogo cívico-político, ficando esse cidadão (nós todos) indefeso ante as forças avassaladoras que o governam, a ausência de ideias alastrando o deserto imundo de onde nascem e se espalham os roedores contaminados. Riemen analisa vários fenómenos da actualidade que apontam de novo nessa direcção, inclusive numa Holanda tida até hoje como pacífica, mas ressentida pela crise generalizada, procurando o bode expiatório mais próximo, que são os imigrantes de cor, particularmente os muçulmanos. A “negação” dos factos da epidemia, tal como no livro canónico do trágico Camus — repete o autor — é uma das tácticas dos dominadores, a linguagem corrompe-se (como já tinha avisado George Orwell, o grande e inesquecível romancista anti-totalitário ou distópico, em 1984, e noutros escritos) para significar algo que não a realidade injusta em que vivemos.

“Uma variante do fenómeno — afirma Rob Riemen — da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos. Para os Americanos, a palavra ‘problem’ é tabu. Presentemente, chama-se ‘desafio’ a qualquer situação que antes mereceria a primeira designação. Problemas, é coisa que não existe, pelo menos nos Estados Unidos. A palavra ‘fascismo’ também é tabu na Europa no que diz respeito aos movimentos políticos actuais. Há a extrema-direita, o conservadorismo radical, o populismo, o populismo de direita, mas o fascismo… não! Não, é impossível, já não temos disso, vivemos em democracia, parem de ser alarmistas e de ofender as pessoas!”

O falhanço ou, pelo menos, a retirada e o silêncio de muitos intelectuais no debate público têm duas consequências gravosas: deixa o campo aberto aos que escondem na sua linguagem política os seus objectivos de natureza anti-democrática, elitista, no sentido mais negativo, e que se apresentam, como já foi referido, com diversas roupagens e discursos, criando assim o vazio ideológico que será preenchido pelos que espreitam na brecha e utilizam a crise para avançar com os seus projectos, amedrontando toda a sociedade ou sociedades em questão. É claro que o ensino das Humanidades a todos os níveis resulta em sensibilidades críticas e fundamentadas no melhor das tradições ocidentais, reforçam valores comunitárias e, uma vez mais, de cidadania, despertam a memória colectiva no que se relaciona com a sociedade e nação no seu todo. Por outras palavras, e ao contrário do postulado marxista clássico — e não só, recordando a insistência com que nos massacra a retórica oca das actuais forças económicas, e dos políticos ao seu serviço numa exclusividade descarada — não serão só os meios de produção que criam ou condicionam os nossos destinos, mas sim os nossos mais arreigados valores culturais e civilizacionais a determinarem o que fazer com a prosperidade, ou pobreza, de um povo. Por outro lado, a massificação das populações mundiais em curso através dos média e das mais sofisticadas tecnologias espalham brutalmente a ignorância, legitimando os piores instintos dos que consomem diariamente o seu lixo: a ganância generalizada, e a consequente a inveja do vizinho ao lado, a crença de que o sagrado “sucesso” depende só do esforço individual, a definição do mal e do bem invertida em tudo o que passa por entretenimento popular, desde os canais de televisão aos estádios de futebol, toda identidade de um povo, toda a sua cultura menosprezada, quando não condenada, naturalmente e em primeiro plano pelos próprios sugadores da nossas vidas e sonhos, os que inventam o novo e degradante vocabulário para classificar países inteiros dominados, subjugados e ao seu inteiro serviço. A vítima abraça, é levada a abraçar assim, o seu carrasco.

A meio de O Eterno Retorno do Fascismo, Riemen convoca no capítulo “Deveríamos aprender com a História” algumas das mais autorizadas vozes literárias, politicas e éticas do anti-fascismo europeu, todas elas testemunhas directas ou sofredoras do que um continente deprimido e ressentido (o ressentimento das classes deserdadas, Riemen citando a dada altura A Rebelião das Massas do espanhol Ortega y Gasset, como outro sinal de alerta) viveu e provocou por toda a parte — Primo Levi, Theodor Adorno, Winston Churchill, Thomas Mann e Albert Camus. O desespero colectivo tornou-se uma das primeiras causas do descalabro societal ao longo dos tempos, resultando inevitavelmente em regimes assassinos. Os intelectuais – entenda-se todos os que fazem das ideias em qualquer esfera da vida e/ou da arte o seu reduto de resistência, e descontando os que sempre também aderiram ao totalitarismo em qualquer uma das suas faces — poderão ser a outra e essencial face da resistência. Quando entram em campo, e cumprem o seu dever.

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Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo (tradução de Maria Carvalho), Lisboa,

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