O lugar do amor e das sombras

O que restava de ti era uma obra. Um corpus. Mas tu estavas morta. E as tuas cinzas espalhadas num cendrário, misturadas com a terra de Lisboa.

Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses

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            Vamberto Freitas

Por certo que Teolinda Gersão não precisa de mim para vir aqui celebrar o seu grande romance A Cidade de Ulisses, um ano e pouco depois da sua publicação, e muito depois de a obra ter recebido as mais acolhedoras recensões e os mais simpáticos comentários (Baptista Bastos, Miguel Real, Maria Alzira Seixo, por exemplo) na imprensa nacional. Só que me seria difícil ler um livro como este, sem emitir uma opinião acerca da sua grandeza formal ou estrutural, em que a sua aparente, só aparente, linearidade esconde uma espécie de regresso às grandes narrativas que andaram nas últimas décadas escondidas ante o atrevimento de experimentalismos de que ninguém já se lembra, e muito menos quererá reler, e sobretudo acerca de uma temática que sempre caracterizou a grande literatura — o amor, as relações íntimas entre homens e mulheres, amantes na cama e sobretudo amantes da vida, com um grande cenário de fundo e história colectiva que enquadram a cidade de Lisboa através dos tempos até aos nossos dias, numa narrativa que convoca ainda muito do que, a nível popular e especialmente erudito, nos moldou a vida e o centro do nosso chão-pátrio, ou melhor, nos moldou a vida precisamente por pisarmos ou ocuparmos esse chão. Como escrevo assumidamente e sem complexos — muito pelo contrário — a partir de uma geografia específica e vindo de tradições literárias e culturais que foram lançadas e cultivadas a meio atlântico, creio que certas obras falam-nos mais directamente do que outras, a condição humana nos seus infindáveis redutos e contingências, assim como a confirmação que na diversidade de olhares e vivências estamos todos na mesma jangada, ora ancorada ora em viagem perpétua em busca do “Outro” que, como nos diz o próprio narrador de A Cidade de Ulisses, “somos nós”. O regresso a casa, por assim dizer, Nostos, em grego, como faz questão o narrador de explicitar no encerramento da sua estória, essa viagem, também diz ele, à procura de nós próprios em cidades “imaginárias”, sem localização, nacionalidade ou língua precisas, antes o estado de alma de cada um.

A Cidade de Ulisses (Lisboa na sua outra mítica génese homérica, naturalmente) abre com a sua protagonista já falecida, aliás a situação que justifica toda a narrativa do antigo namorado e amante, Paulo Vaz, ele próprio artista plástico reconhecido internacionalmente, e solicitado agora a fazer uma mega exposição em Lisboa pela Fundação Gulbenkian, depois de muito ter andado no estrangeiro, desde Berlim e Nova Iorque a Los Angeles. Após uma separação traumatizante de Cecília Branco, que há anos se tinha separado dele e continuado a sua vida também em países europeus diferentes, o narrador dá-se conta de que ela havia continuado na sua vida privada a trabalhar na pintura e artes afins (escrita) e agora a sua memória impunha que se lhe fizesse justiça, pois o tema em causa tinha sido sempre dela: a cidade de Lisboa vista e interiorizada pelos olhos e pelos sentimentos daquela que fora sua companheira sofredora alguns quatro anos. É esse tempo do amor incerto e vida de luta à beira Tejo por um lugar no mundo das artes, que decorre dos destroçados anos 80 até aos nossos dias, são essas as duas vidas na cidade que são relembradas num prolongado e pormenorizado flashback, levando o leitor ao interior dos seus mais íntimos pensamentos, ao seu passado, e, sempre, a uma história paralela de Lisboa desde a sua fundação, vista principalmente, uma vez mais, através das artes e da literatura, cada bairro da cidade assinalado, toda uma cultura híbrida de gente e línguas, de convivências amenas e violentas, num caldeirão humano que nos torna irremediavelmente os navegantes do mundo, os da saudade não do passado mas de tudo o que nos liga aos outros, com a Grécia (grande ironia, nos tempos que correm) no centro das referências e valores de tudo que nos é bom e sagrado. Creio que nunca uma grande narrativa é feita de jogos linguísticos, e menos de humor e ironia fáceis. A descrição subjectiva de Lisboa (ou da Grécia antiga e moderna) vem em linguagens serenas mas apaixonadas e quase sempre assentadas na nomeação de nomes, livros, quadros que são já parte do nosso património e referência identitária aberta, os “outros” sempre presentes na construção da humanidade na versão que é a nossa. A grande ironia aqui, isso sim, será talvez a descoberta trágica de que só conhecemos ou reconhecemos o amor na morte, no sofrimento das nossas ausências sem retorno, restando a homenagem da obra e da memória ante os que tocaram e transformaram as nossas vidas. Poderá o narrador ser o grande e reconhecido artista que sobrevive, mas na arte a verdade de cada um emerge, e assim a presença de quem a criou fora da vista, por detrás de um palco de falsidades e marionetes teatrais que dependem da mão escondida. A Cidade de Ulisses não trata a inocência fingida de cada um dos seus personagens, todos eles memoráveis; é uma narrativa da redenção possível, do perdão tardio que eles buscam e que os sobreviventes concedem.

“A jangada é frágil — escreve o narrador Paulo Vaz sobre uma instalação que faz parte da grande exposição da arte da sua amada falecida, a representação de um globo “sobre a jangada de Ulisses”, metáfora de uma vida na tempestade de regresso a uma Ítaca, mas que nunca perde o rumo ou a razão — e a cada passo naufraga, submersa por ondas gigantescas, mas volta a flutuar, cada vez mais insegura. Oscilando na jangada, a Terra muda muito lentamente de cor, do azul ao negro, ao vermelho e cor de fogo como se estivesse em chamas, depois torna-se branca, parecendo reduzida a cinzas, até que surge uma débil cor verde, que se torna frouxamente brilhante. Sugerindo talvez, apesar de tudo, um sinal de esperança. (a tua alegria, Cecília, a tua incorrigível esperança)”.

Algumas palavras recorrentes em A Cidade de Ulisses – assim como a menção de obras de arte em todas as tuas formas, escritas, cantadas ou visuais – não deixam dúvida sobre o outro tema aglutinador do romance: mar, viagem, ilhas, partidas e chegadas. A maresia que invade Lisboa e a identifica ante todos que a habitam ou a visitam confunde-se com a presença omnipotente do Tejo, o mar feito rio que nos leva à liberdade dos vastos espaços e de outras falas, o rio feito grande mar que nos conforta ao ser avistado entre o casario da cidade, a azáfama dos barcos e grandes navios sobre as suas águas fundas um retrato da vida em movimento, que ao longo da história contrasta em absoluto com desastres de várias natureza, o desaire público manifestado na crueldade quando o outro se torna de facto o nosso oposto imaginário, e apesar de ter sido sempre sangue do nosso sangue, a raiz do melhor em nós, tal o amor vivido nestas mesmas páginas. A descrição de Lisboa através dos tempos e das suas gentes acaba por constituir um fabuloso fresco do choro e da alegria, da tristeza e contundência de um Fado que, na visão de Cecília, tanto era um acto de queixume e acusação como de altivez e orgulho próprio, a outra nossa outra grande e persistente narrativa. Nem os navegantes nem os que ficam se livram deste destino, a hibridez das nossas origens faz parte de nós, os descobridores sofrendo sempre a saudade dos que permanecem e mantêm a sua Cidade, a que retornam sempre, como Ulisses para Penélope.

A verdadeira universalidade de um grande livro, assim como a dos que o povoam, é feita e apreendida quando também a Antiguidade fala assim com esta viveza natural às gerações séculos depois. O Atlântico e o Mediterrâneo de A Cidade de Ulisses são o berço de tudo isto, da Humanidade sem mais rótulos. As origens de Cecília estão em África, e no fim o seu amante viaja para o repouso e amor no Brasil. O ciclo de vida no mundo assim se completa. De tudo isso percebemos aqui nas ilhas – como num belo poema cabo-verdiano, o Tejo leva-nos ao mar e o mar à nossa terra, e ao contrário também. Como nas vidas de Cecília e de Paulo, necessitamos todos de regressar a casa, eventualmente.

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Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, Porto, Sextante Editora, 2011.

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