Um mundo de deuses e de nada

Precisamos da tábua rasa. É a única maneira de sair da crise, essa máquina que mantém vivo por mais algum tempo o morto-vivo, o doente terminal que é esta civilização.

João Barrento, O Mundo Está Cheio De Deuses

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             Vamberto Freitas

Um livro de ensaios como este O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, de João Barrento, raramente se dirige tão directa e profundamente ao tempo presente em que vivemos (que sofremos, melhor dito), simultaneamente um tempo muito português e do mundo, conjugando em si uma magnífica síntese dos melhores filósofos e outros pensadores da actualidade com a própria crítica e posicionamento estético e ético do próprio autor ante a nossa época. Com toda a justeza literária, este livro recebeu o Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho 2012, precisamente da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Refira-se aqui que vencedores prévios deste prémio incluem nomes como o ensaísta Victor Aguiar e Silva e o poeta Manuel Gusmão, assim como há muitos anos, e com outra designação, a açoriana Rosa Goulart pelo seu estudo da obra de Vergílio Ferreira. É certo João Barrento, professor de literatura na Universidade de Lisboa e o mais distinto tradutor em Portugal de autores germânicos, não necessita de qualquer introdução para além desta, mas se convoco para aqui outros nomes da nossa melhor escrita nas suas várias formas e temática será simplesmente para relembrar a todos que no nosso pais e na nossa língua não estamos condenados à mediocridade que agora nos comanda, muito pelo contrário. Que as muitas das nossas livrarias e publicações literárias sempre da moda preferem ostentar em primeiro plano todo e qualquer estrangeiro que por vezes não merece a mínima atenção para além do facto de viver em Nova Iorque, Paris ou Londres, o leitor sério tem a responsabilidade de optar por outras vias e por outras leituras. Se logo após o 25 de Abril ninguém parecia ter tempo para escrever ou sequer ler, trinta e poucos depois torna-se um dever urgente nosso tentar saber e meditar sobre o falhanço geral e estrondoso da nossa democracia, do nosso lugar na Europa, e depois no mundo. João Barrento pode não aludir sempre directamente a estas realidades nacionais — optando, e bem, por generalizar a condição humana vivida especialmente no Ocidente — mas é de nós todos, das nossas sociedades em agonia de que os seus escritos falam, contextualizam, propondo depois alternativas de pensamento e acção. Que não se deduza que Um Mundo Cheio de Deuses é um outro compêndio do pessimismo global reinante — antes,mais parece uma celebração do que o autor chama de “pirilampos “, que “continuam por aí”, pois nem chegámos ao que há uns anos Fukuyama dizia ser “o fim da história”, nem a humanidade se acomoda aos diktat dos barões das finanças e economia mundiais, nem hoje nem no passado. A “responsabilidade” e o lugar histórico das artes (“a repolitização da arte”) ante estes cenários apocalípticos constituem o fundo da argumentação serena do autor.

O Mundo Está Cheio de Deuses abre com um longo ensaio sob o título geral, e de todo significante aqui, “O Jardim Devastado E O Perfil Da Esperança”, e termina com algumas das crónicas-ensaio publicadas no diário Público e no seu blogue Escrito a Lápis. Pelo meio, a secção sobre o desejado regresso à literatura e a um possível novo lugar do intelectual público na nossa sociedade creio estarem no centro das maiores preocupações intelectuais e cívicas do autor, pois é na recuperação da memória colectiva, da memória humanista que toda grande arte contém em si, que reside a regeneração das sociedades actuais, nas quais o próprio ensino das humanidades cedeu à vontade e imposta “filosofia” do utilitarismo dos grandes interesses industriais e financeiros numa globalização corrompida, os que fizeram dos povos meros servidores da riqueza pela riqueza dos que tudo dominam e tudo querem. João Barrento em parte desconstrói ainda o pântano sem respiração em que todos os povos vivem actualmente, ou a ideia sustentada por outros de um mundo comum, o todo universalizado permitindo e até requerendo o homem e a mulher com multidões dentro de si (o indivíduo contendo “multidões” dentro de si do americano Walt Whitman significa outra e bem diferente humanidade), “uma multidão de singularidades” comandada por um exterior sem face e supostamente imaterial, sem mais referências, deduz-se, de proximidade e de simbolismo humanizante, “uma utopia insustentável” a que o autor contrapõe a essa impossibilidade, nunca desejada, de qualquer modo, a busca incessante através da palavra e do simbólico, uma vez mais, o regresso da memória dos povos e do que realmente os distingue, humaniza, e nega radicalmente o reino da desumanização, do pós-humano, em curso.

“No entanto, a vivência actual do tempo — escreve João Barrento em referência a determinadas leituras de outros autores do momento — não é a da consciência de uma precariedade existencial de raiz… É antes a de uma cultura que tende cada vez mais a ignorar o passado (não tem consciência histórica) e vive um futuro incerto ou inexistente, sob permanentes ameaças, do emprego à segurança social, da ‘guerra infinita’ à catástrofe ecológica. E que se ausentou do espaço natural e social para o virtual,  vivendo grande parte do seu tempo em ‘não-lugares’ (Marc Augé), espaços homogeneizados destituídos de memória, ou naquela alienação do mundo a que Peter Sloterdijk dá o nome, muito alemão, de Weltfremdheit (alheamento do mundo), para referir a situação de algumas minorias antigas (anacoretas, místicos) e maiorias modernas (adeptos das drogas ou do virtual)”.

Uma das grandezas de Um Mundo Cheio de Deuses é que, para além de nos colocar em diálogo directo — ou, pelo menos, “ouvindo-os” — com alguns dos mais importantes pensadores, escritores e poetas europeus da nossa e de outras  épocas e com o próprio autor, todos eles debruçados sobre a catástrofe sócio-económica, política e cultural desde há décadas por eles prevista, e mais ainda a que agora nós todos vivemos, é que nos obriga a reflectirmos sobre a nossa própria condição, individualizada e íntima, num regresso muito saudável ao nosso próprio interiorismo, e a valores incutidos noutros tempos e por outras gerações, ante um quotidiano sem rumo nem sentido, ante o desmoronamento das mais enraizadas instituições, que poderiam nos restringir comportamentos ou silenciar pensamentos, mas davam-nos o conforto de ordenamento na comunidade imediata, na grande sociedade-nação circundante, ou mesmo imaginária. Todos estes ensaios foram escritos antes da presente governação em Portugal, mas durante o que já era a crise generalizada, mais do que anunciada, já sentida e temida. Quanto à ausência das humanidades a todos os níveis da escola ou universidade, era já um dos mais dramáticos sintomas do que estava a ser pensado pelos novos donos do mundo. Quanto menos sensibilidade crítica e pensamento autónomo do cidadão, quanto menos noções de estética e ética (palavras recorrentes na prosa de João Barrento), mais facilmente a massa humana se dobra aos bravos e novos desígnios dos usurpadores das nossas vidas, dos que delas se apoderaram através da chantagem e agiotagem perante a colaboração de governos que mais não são do que as suas testas de ferro pretensamente “ideológicas”. Eis a nova governação e escravidão enroupadas, também descaradamente, em linguagens de “liberdade”, a vivência de tudo carente mas dentro das nossas “possibilidades”, como se não fossem eles os passageiros de carros topos de gama, casarões, subsídios milionários, e absoluta segurança dentro de um mundo político profissionalizado, no qual só eles cabem e entram nas suas portas giratórias.

Um Mundo Cheio de Deuses: crise e crítica e do contemporâneo ora declara tudo isto abertamente, ora leva o leitor a pensá-lo. É disso que são feitos os grandes livros, é disso de que necessitamos em contraponto à banalização das artes, e da literatura em particular, esse inigualável repositório da memória individual e colectiva, da memória e da tragédia humana globais, ou da vida em comunidade, livre ou aprisionada. Que obras como esta aparecem neste preciso momento, não é por acaso — fazem parte da resistência, são os tais pirilampos da esperança, são os deuses-outros que anunciam e prescrevem a retomada da nossa dignidade.

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João Barrento, O Mundo Está Cheio de Deuses: crise e crítica do contemporâneo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011.

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