A Arte da Entrevista Literária

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                                                                  Vamberto Freitas

A partir do momento em que a escrita se tornou o nosso maior vício e o nosso maior prazer, só a morte pode travá-la.

 

Ernest Hemingway, The Paris Review

 

 

 

Estou quase certo de que a maior ambição de reconhecimento público de um escritor norte-americano, para além do Pulitzer ou do Prémio Nobel, será um dia ser entrevistado pela The Paris Review, a mais histórica, irreverente, e mesmo assim, canónica das revistas literárias do seu país. Agora, através de traduções e compilações das suas nada menos famosas entrevistas, sem dúvida que a revista desperta um alargado interesse em muitos outros países. Desde sempre atenta ao que se passava nas literaturas internacionais mais influentes, as suas entrevistas foram muito além dos escritores anglo-americanos, trazendo aos seus leitores nacionais, supõe-se, os imaginários das mais variadas culturas e línguas pelas páginas dos autores mais conhecidos ou projectados no estrangeiro. Creio que José Saramago, após receber o Prémio Nobel, foi o único escritor de língua portuguesa entrevistado pela The Paris Review. Esse facto de modo nenhum pode ser interpretado como um menosprezo das nossas literaturas, nem sobre elas lança qualquer preconceito quanto a quantidade e qualidade; demonstra só, talvez, que na modernidade tardia temos levado bastante tempo a ultrapassar barreiras e o esquecimento entre outros, situação imposta por um longo enclausuramento ditatorial. De todas as memórias ou registos em forma de livro de autores portugueses que visitaram a América durante a segunda metade do século passado, estranhamente nenhum deles menciona sequer de passagem uma revista literária tão distinta e intelectualmente consequente como esta.

 

Chegou a vez, também, dos leitores portugueses saborearem uma ínfima mas importante fatia dessas conversas ou diálogos literários sem fronteiras com a recente publicação de Entrevistas Da Paris Review, seleccionadas e traduzidas por Carlos Vaz Marques e com ilustrações Vera Tavares. Trata-se de uma preciosa edição em conteúdo, grafismo e arte, naturalmente seguindo mais ou menos o formato inicial da primeira fase da própria revista. Não quero aqui repetir o prefácio contextualizante de Carlos Vaz Marques, bastará lembrar que a The Paris Review iniciou a sua publicação a princípio dos anos 50, tendo até hoje conhecido apenas três directores: George Plimpton, Philip Gourevitch, e, desde há poucos meses, Lorin Stein, a quem o The New York Times dedicou um longo artigo na sua edição de 25 de Fevereiro deste ano. Escreveu Judie Bosman: “Ninguém poderá ser o Mr. Plimpton (…) mas ele é visto (o director actual) como alguém capaz de devolver à revista uma boa e necessária dose do seu cool original”. Plimpton de facto tornou-se um literato lendário. É ele quem assina a entrevista com Hemingway (1954), incluída agora nesta edição portuguesa. Durante anos, as entrevistas publicadas (quase sempre duas em cada número da revista, e sob as rubricas “The Art of Fiction”, “The Art of Non-Ficiton” ou “The Art of Poetry”) eram depois reeditadas numa série de colectâneas a que deram o título The Paris Review Interviews: Writers at Work. Esses volumes são uma autêntica mina intelectual, inesgotável na geografia das ideias, obras e processos de criação literária em todas as suas formas.

 

A estabilidade da Paris Review, pouco habitual a publicações deste género, diz tudo sobre o seu inigualável prestígio no mundo de língua inglesa, contando hoje com dez mil assinantes, e recebendo desde sempre doações substanciais de indivíduos e instituições que garantem a sua existência numa invejável (e não só imaginada) torre de marfim nova-iorquina. Os seus directores têm ficado conhecidos pelo estilo de vida boémio, o seu quotidiano em Nova Iorque tornando-se numa festa redonda e imparável entre eventos de vária natureza social e festas literárias por entre o trabalho de seleccionar o conteúdo trimestral da revista, que nunca compromete a sua qualidade ou expectativas dos mais sofisticados leitores em toda a parte. Ficção, poesia, ensaio e portefólios fotográficos ou artísticos, em todas essas secções a The Paris Review aventura sempre o que é novo, ou reafirma o já canónico — mas são definitivamente as suas longas e trabalhadas entrevistas o que mais projectou a distintíssima publicação, o que mais tornou as suas páginas num espaço de consagração antes ou depois de um qualquer prémio literário, ou na total ausência destes, como se poderá confirmar na consulta geral sobre quem foi ou não foi entrevistado nas suas páginas.

 

Carlos Vaz Marques faz um historial e resumo de como são conduzidas as entrevistas da Paris Review: técnica jornalística aparentemente primeiro utilizada nos EUA a meio do século XIX, a entrevista estritamente literária foi aperfeiçoada pela publicação aqui em foco. Tentando apanhar o escritor desprevenido ou apto a abrir um jogo extremamente complexo nos seus processos de trabalho e referenciais em geral, não é pelo “combate” entre os dois interlocutores que a revista tenta tirar tudo quanto pode acerca da obra e dos processos quotidianos e únicos na sua criação. A conversa pode estender-se por horas e dias e em lugares diferentes, quase sempre à escolha do próprio escritor. Por certo que cada entrevistador leva para o encontro uma bagagem intelectual pouco comum, e ainda um conhecimento profundo de cada livro e seu tempo sob discussão. No fim, o entrevistado tem direito a rever toda a entrevista, sem que lhe modifique as nuances do momento em que foi registada. O objectivo primeiro é deixar um documento em que o autor melhor se retrata, falando de si, da sua própria obra, dos seus contemporâneos ou de livros e autores que mais o comoveram e influenciaram ao longo da sua carreira. O que resulta é muitas vezes literatura biográfica ou autobiográfica pura, manifestando as coordenadas singulares do acto de criação na sua globalidade e definições-chave de toda a obra do autor até então publicadas. Carlos Vaz Marques optou pelas entrevistas a dez escritores já falecidos, entre norte-americanos, argentinos, russos e ingleses. O resultado é sumariamente uma magnífica amostra da literatura modernista e pós-modernista em várias línguas, culturas e contextos históricos, acompanhando desse modo o movimento e mutação artística da maior parte dos tempos ainda recentes ou vividos e registados para sempre na nossa memória. 

 

“A nova revista literária trimestral — escreve Carlos Vaz Marques na conclusão da sua introdução a este volume, depois de nos falar do que existia e se fazia antes — é evidentemente a Paris Review. Sem elateríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges (…) mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para arte literária no século XX”.

 

Quando o escritor luso-americano Frank X. Gaspar visitou os Açores há poucos meses para falar da sua obra, perguntou-me o que queria eu que ele me trouxesse na mala. Não hesitei: o último número da Paris Review. Trouxe-me os três mais recentes, sabe que fazem parte de uma colecção aqui em casa de que muito me orgulho. Olhei para a capa reformulada, pois não a tinha visto nas suas transformações gráficas (tamanho, cor de papel, felizmente só algumas outras modernices mínimas), e torci o nariz ao Frank. I understand, disse-me ele. Mas já me habituei, pois o seu conteúdo sem igual permanece. Ao Onésimo T. Almeida agradeço-lhe sempre trazer-me montes do suplemento semanal The New York Times Book Review, que ele lê todos os domingos e mos guarda. A revista aqui em foco e o suplemento do diário nova-iorquino estão em dois extremos na abordagem que fazem à literatura americana e internacional dos nossos dias. São ambos, no entanto, focos de luz tão perturbante como linda na escuridão da nossa época.

 

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Entrevistas Da Paris Review (Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques), Lisboa, Tinta-Da-China, 2009.

 

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