As duas almas de um escritor

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… As misteriosas empatias que, nos casos felizes como o meu, levam gradualmente o estrangeiro a dar-se conta de que é possível ter duas pátrias, duas línguas, talvez até duas almas.

J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado/Diário

 

                      Vamberto Freitas

Que o diário Tempo Contado, de J. Rentes de Carvalho, recebeu este ano o Grande Prémio APE (Biografia) só nos poderá alegrar a todos, em especial os seus leitores, assim como os que, pelo menos, já sabem do lugar proeminente que o autor ocupa entre nós, e ainda valorizam o fazer-se justiça literária ao autor de toda uma grande obra, mesmo que tardiamente. Rentes de Carvalho é um dos mais enigmáticos — ou talvez não, dado uma cultura como a nossa, que tanto eleva ao sétimo céu qualquer escriba que em Paris ou Nova Iorque seja proclamado o grande mestre do momento, como sempre olhou para os nossos grandes escritores expatriados ou emigrantes perfeitamente ao contrário — da literatura portuguesa contemporânea, ou, mais vastamente, de toda a literatura de língua portuguesa na nossa época, pois o seu referencial, quer como cidadão quer como homem de letras, atravessa fronteiras desde sempre, pela imaginação e pela sua identidade, ou identidades múltiplas. Mas o autor de A Amante Holandesa, ou de qualquer outro dos seus títulos no romance ou nos contos que possamos mencionar do seu cânone pessoal, só poderá agradecer aos deuses essa sua sorte: está e estará para sempre na companhia do mais distinto grupo de escritores, ensaístas e poetas do século XX português, ou talvez mesmo o grupo de escritores que a partir de Eça de Queirós, (recorrendo aqui a um tempo quase já esquecido, mas que marca um ponto de partida e de regressos), fizeram do além-fronteiras o seu miradouro virado para a pátria, olhando assim não a árvore supostamente singular mas a floresta toda num contexto muito mais vasto do que o pequeno rectângulo à beira do Atlântico. Uns por opção pessoal, outros pelas circunstâncias ibéricas da política (o caso do presente autor, que chega à Holanda em 1956, e lá permanece até hoje) rumaram para a Europa mais a norte ou para o Brasil e os Estados Unidos, desde Adolfo Casais Monteiro a Eugénio Lisboa, tendo sido só através deles que Portugal como que se deitou num divã e ouviu as mais cruéis verdades relacionadas com todas as esferas e etapas da sua existência como espaço simultaneamente comum, desejado e amado, mas de resto sofrido até à morte.

Tempo Contado vai de 15 de Maio de 1994 a 15 de Maio de 1995. Um ano, pois, na vida do autor, mas que depressa o leitor se dá conta de que é um curto espaço de tempo que metonimicamente representa a sua vida adulta, a sua caminhada como homem e como escritor, as suas andanças íntimas entre a Holanda de Amesterdão e o Portugal de Trás-os-Montes (Lisboa aqui é apenas uma esporádica diversão ou desvio intelectual, nem sempre agradável, como aliás diz o autor em determinado momento dos próprios tempos em que lá viveu), o seu percurso de vida e enraizamento em dois países em tudo, mesmo tudo, distintos, a sua solidão como escritor conhecido e apreciado na sua segunda pátria e quase totalmente ignorado na primeira, o Fado de outra consequente vida lusa mais uma vez a cumprir-se. Só que, como um doente que já não nos conhece, conhecemo-lo nós, quando já não tem capacidade ou sentido de nos amar, amamo-lo nós. Creio ser esta a melhor analogia para explicar não só o relacionamento de J. Rentes de Carvalho — como cidadão em “viagem” perpétua e como escritor de uma língua que só através da tradução chega aos seus primeiros leitores — com o nosso e seu país natal, com a presença-ausência de uma das mais belas obras da nossa literatura moderna. Existem aqui dois tempos no “tempo contado”: a sua vida quotidiana em família holandesa à beira de um canal, com o autor sentado à frente de um ecrã em busca da palavra ou da frase precisa numa língua que por ali poucos mais conhecem a esse nível da criação, e a necessidade absoluta dos seus regressos quase constantes à sua aldeia natal, onde ainda, no decurso deste diário, vive a mãe na solidão de quem está prestes a encerrar, sem qualquer continuidade em território pátrio, o ciclo das gerações e a porta de todas as memórias. São nesses momentos da sua estadia entre os seus compatriotas mais chegados, os que com ele nasceram mas que só nos nossos dias — tal como a grande maioria dos leitores por cá, e até críticos eruditos — ficam a saber pela televisão que ele é um escritor lido e prestigiado, agora  finalmente também em Portugal. Tempo Contado, como diria um outro escritor nosso no estrangeiro num contexto semelhante, nunca se ri de, mas sim com, num gesto em que o cosmopolitismo autêntico do autor nunca subestima ou marginaliza a humanidade que ainda se transporta sobre quatro patas ou guia um rebanho bovino para a pastagem numa rua ladeada pelas casas do vizinhos, senta-se à soleira da porta ou num Café de todos os mexericos, comédias e queixas, cada ser humano com uma história e dignidade próprias, a loucura real em convivência com a inocência aparente de quem sabe que mais mundo existe através dos seus que um dia partiram em fuga à miséria, ou então não quer nem sente necessidade de transpor as fronteiras delineadas por um estradão de terra ou por uma serra altiva. Trata-se, aqui, de um dos poucos diários tão bem construídos que quase vira romance, com protagonistas e personagens que nos mostram, explicam e de facto representam um outro país: o nosso, o Portugal profundo intocado pelos milhões que agora pagamos com juros acrescidos, e ainda mais intocado pela pretensiosidade das classes dominantes ou ditas cultas. É este, também, o país que o resto Europa vê e entende em nós. Na arte, não há nem tem de haver desgostos, há mentiras verdadeiras, retratos únicos da alma humana universalizada, e sobretudo ante as muitas contingências do seu isolamento, real ou metafórico. Modernidade e pré-modernidade, não só em observação mútua, mas numa convivência possível, se não fácil.

De resto, Tempo Contado é feito de prosa carregadíssima de estória e sentido, muitas das entradas parecendo mais um conto do que uma confissão (essa tendência frequentemente associada a este género de escrita), em que as comunidades em foco, em Amesterdão ou em Trás-os-Montes, vivem todas as certezas que o autor gostaria fossem as suas, mas está sempre longe disso. Se um escritor questiona necessariamente o mundo que o rodeia, em qualquer uma das suas versões, é também forçosamente levado a questionar-se implacavelmente sobre o que ele próprio tem sido, ou é, ou julga ser. O virar-se para dentro torna-se inescapável a quem vive repartido entre dois mundos em tudo distantes, desde a língua aos seus mais arreigados valores, e chamou a si o projecto de representar em palavras o que vê e imagina, a condição humana que lhe liberta ou aprisiona. Aliás, a questão da identidade — colectiva e pessoal — nunca esmorece ante a rapidez dos dias citadinos ou o mormaço serrano. Quem fui, quem sou, e o que faço aqui, mesmo quando o autor passa os dias de visita à mãe e à aldeia, ele próprio já na chamada terceira idade, parece nunca ter resposta satisfatória; poderá  também querer dizer que estar-se vivo e perfeitamente consciente da sempre irónica comédia humana requer nunca receber respostas ou quedar-se em qualquer “certeza”. J. Rentes de Carvalho limita-se, no fim, ao único desejo que, sem necessitar de o explicar a si ou ao leitor, mantém: ser um dia enterrado na sua aldeia de nascimento, em homenagem, supõe-se, aos seus e ao passado que fizeram dele o homem e mesmo o escritor que é, o lugar e as circunstâncias que traçaram o seu rumo até chegar assim ao presente.

Para além do mais, Tempo Contado tem algumas das mais deliciosas páginas de “castigo”, por assim dizer, ao mundo literário nos dois países, sempre falso e guiado por superegos mais ou menos doentios, como nos passos em itálico que o autor chama de Instantâneo a preto e branco, e nos quais quase sempre a crítica literária apanha com a sua justa ira, ou então a classe bem-pensante a delirar falsamente e a passear-se entre comes e bebes num qualquer acontecimento “cultural” em ambientes citadinos ou “cosmopolitas”. Apesar disso, refere J. Rentes de Carvalho, é só nessa urbanidade em que consegue escrever.

Pudera, a “realidade” de uma aldeia nossa, como a que ele visita duas vezes por ano, supera de longe um romance ou qualquer outro escrito.

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J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado/Diário, Lisboa, Quetzal, 2010.

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