Pais e filhas, Portugal e Brasil

 O Desterro era o futuro. Ele acabara de chegar ao que estava por vir.
Paulo José Miranda, Filhas

 

/Vamberto Freitas

 

Este é um romance tão curioso como belo, especialmente para qualquer leitor açoriano que esteja consciente da sua história atlântica, desde as origens ibéricas ao início da construção de uma diáspora que vai desde a América do Norte à do extremo Sul do mesmo continente, a consumação do triunfo e da tragédia, como na Odisseia original, e depois como na nossa, que dos livros passou à realidade, às navegações não fictícias, mas sim forçadas, pensadas e sofridas. Filhas, o romance acabado de publicar pelo jovem autor português residente no Brasil há alguns anos (e vencedor do Prémio José Saramago com uma obra anterior), Paulo José Miranda vem, pela primeira vez deste lado mar, como que a completar um outro romance igualmente desbravador com semelhante fundo temático, Um Quarto Légua em Quadro, de Luiz António de Assis Brasil, mas agora com uma outra originalidade pós-moderna muito própria, também misturando tempos, passado e presente, e sobretudo uma síntese histórica que me era de todo inesperada, inclusive o seu desfecho. Filhas combina o intimismo familiar das relações entre pais e filhas, mas num enquadramento que abrange a história da colonização açoriana de Santa Catarina, interligando as gerações que do Continente povoaram as nossas ilhas, e que de lá e de cá em seguida arriscar-se-iam na nova aventura que foi o início da construção da nação brasileira antes, durante, e depois da sua independência.

Em Filhas, acompanhamos esses experimentados colonizadores no hemisfério sul – e as gerações seguintes, os luso-brasileiros, na luta, busca e definição da sua identidade entre as duas nações profunda e inseparavelmente ligadas por sangue, língua, cultura e lealdade de clã, como neste caso — uma nação tinha sido “abandonada” e a outra “por vir”. Entre esses dois tempos que estruturam toda a narrativa, feita num feminino anónimo, como só descobrimos nas suas últimas páginas, intercala ainda, não fora esta uma ficção que nos transporta até aos dias presentes, meditações, uma vez mais, sobre o relacionamento entre pai e filha, entre amantes, e a perda irremediável da sua morte, a arte virando-se para dentro, para si própria, numa tentativa de um melhor entendimento da sua génese e da natureza e essencialidade nas nossas vidas. Ao contrário do que pensarão alguns, a literatura que, com alguma liberdade semântica, poderemos chamar de luso-brasileira, desde o já referido Luiz António de Assis Brasil e Angela Dutra de Menezes (Mil Anos Menos Cinquenta) a Paulo José Miranda, não perpetua nem preconceitos de rua nem estereótipos dos portugueses no Brasil, quer no início dos séculos passados quer nos tempos correntes: lado a lado aos “coronéis” fazendeiros e seus peões, falam em contraponto personagens inteiramente intelectualizadas desde as suas origens portuguesas e coloniais à sua presença no Brasil de hoje. Não se trata, aqui, de uma verdade de somenos importância – contrapõe-se decididamente a todos os outros, que nas duas margens do Atlântico nunca conseguiram sair de supostas raivas históricas e de complexos muito mais freudianos do que ideológicos ou culturais. Que Filhas foi publicado no ano em que o Brasil estará mais presente em Portugal, e vice-versa, é uma feliz coincidência – para os que não subestimam ou não ignoram o poder da arte na aproximação e apreciação global entre dois povos, como diria um outro autor do mundo anglo-saxónico, separados por uma língua comum, e pela ignorância mútuas.

Artur Cabral, professor universitário e autor de livros académicos, saiu de Portugal há alguns anos rumo ao Brasil, e lá casou com uma brasileira que já está falecida na abertura do romance, tendo-o deixado viúvo e com uma filha, agora de vinte anos de idade, de nome Rafaela, vivendo os dois sós em Florianópolis, ele inteiramente para ela, ela inteiramente alienada dele pelo que entende terem sido “traições” à memória da mãe perdida com outras mulheres (prostitutas) nas suas esporádicas viagens de viúvo a São Paulo. Toda a estória decorre enquanto Artur assiste passivamente com os seus amigos e vizinhos brasileiros a um jogo de futebol num botequim local, a conversa regada por cerveja no calor tropical insuportável. À sua volta, outros que também sofrem a vida moderna de modos vários: divórcio, criação de filhos agora monoparentais, sonhos profissionais não realizados, como no caso de Joel, escritor que nunca chega a ser, não por falta de talento mas devido às circunstâncias da vida, com as quais os leitores, tal como os seus amigos locais, se identificam perfeitamente. Estamos num meio ambiente fechado de “ilha”, que combina os que vêem e se riem da vida como se de um mero e inconsequente jogo de futebol se tratasse com aqueles cuja hiper-consciência os afunda e os trava na caminhada para o fim. Entre a memória magoada, entre as perdas mais íntimas das suas existências, avistamos a beleza inocente por todo o lado, desde o corpo sensual de uma jovem ou outra que se passeia por perto ao mar cinzento cromado e depois azul celeste sulista, que bate em rochas e beija baías tão lindas como as do Pântano do Sul, vilarejo fundado por ilhéus de cá, os que saíram de uma faminta ilha açoriana para outra ainda sem vida enraizada pouco tempo depois do edital de D. João V, em 1746, de um desterro para outro, ou ainda o casario em volta da mítica Lagoa da Conceição, cuja beleza insinuante só de bruxedo poderia ter nascido. Na diferente terminologia da conversa futebolística entre Artur e os seus amigos, tudo sem importância e sem consequência, a palavra dita de outro modo vai simbolizando o que nos aproxima, mas desde sempre também nos faz desentendidos. Cada capítulo da história da colonização continental-açoriana é seguido por um da actualidade das vidas em foco, só que o passado dos protagonistas Artur e Rafaela vem directamente dos protagonistas de Setecentos e séculos seguintes, de João Pedro Menezes de Oliveira Cabral, cujo tetravô trasmontano tinha arribado séculos antes à ilha de São Miguel. A narrativa dupla, numa leitura necessariamente sequencial, não apresenta qualquer dificuldade ao leitor, só que se torna quase impossível uma síntese integrante de toda a trama. Basta dizer que os Oliveira Cabral se tornam fazendeiros poderosos, mas condenados, por pecados originais e históricos, desde a imoralidade da escravatura às guerras brasileiras antes e depois da independência, muito especialmente a de 1835 que visava a separação total do Sul do resto da nação. A fúria da História e o quase apocalíptico vazio presente, a construção da nacionalidade e uma identidade ainda e sempre presa às origens europeias da classe então dominante, sexo, violência e arte: eis a outra meditação sem tréguas, quase ensaística em longos passos da narrativa, de um autor que se sobrepõe ao narrador/a de Filhas, esse autor, ele próprio, parecendo já inteiramente luso-brasileiro também em busca contínua do seu lugar no labirinto das suas origens e vida em dois hemisférios em tudo contrastantes, desde o sol tropical às linguagens tão precisas como imprecisas de um contexto para outro. A “viagem ao contrário”, pouco comum na história de vida dos nossos vencedores além-mar, acontece aqui num acto de revolta contra um país incerto, e pela lealdade às raízes que nunca secam, nunca se esquecem.

“Chegaram – diz-se da família fundadora da Ilha do Desterro, os Almeida Cabral – em Março de 1829 e nunca mais voltariam ao Brasil… A falta de enraizamento das pessoas, a sensação de pertencerem a outro lugar, que passa de sangue em sangue, confere à paz um estatuto secundário. No Brasil, mais importante do que a paz é vencer. E para vencer vale tudo. Viver para vencer é viver em guerra. A mudança para os Açores, para Portugal, foi a mudança para a paz”.

Artur, seu descendente trasmontano, tentaria de novo a aventura, e volta a falhar, pai português e filha brasileira em guerra silenciosa mas real. O velho e novo mundos em busca contínua da convivência e da identidade híbrida, uma identidade finalmente enraizada na fundura da terra abastada, mas ainda sem rumo certo. A palavra, o seu simbolismo, raramente contém ou transmite toda a verdade, ou sequer uma verdade, se é que uma verdade totalizante possa um dia existir fora de uma qualquer utopia. Filhas funciona como deve funcionar um bom romance — propõe uma síntese das novas dúvidas em relação ao nosso próprio ser como parte integrante de uma colectividade tão extensa como um Brasil, ou tão isolada como um clã de sangue e memória partilhada numa ilha atlântica.

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Paulo José Miranda, Filhas, Alfragide, LeYa/Oficina do Livro, 2012.

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A outra (e esquecida) América

Barack Obama vai ganhar as eleições e será um bom líder dos EUA, porque, como afirmou há anos Martin Luther King, será julgado pelo seu carácter e não pela cor da sua pele.

Diniz Borges, A Década Perdida

/Vamberto Freitas

Primeiro esclarecimento: a epígrafe aqui refere-se às eleições de 2008, mas, conhecendo o seu autor, Diniz Borges, aplica-se do mesmo modo ao que ele pensará neste momento a respeito da reeleição em poucos meses do actual inquilino da Casa Branca. Segundo esclarecimento: quem quiser ler sobre a América na linguagem tradicional e incenssante da Cidade na Montanha (a expressão bíblica desde sempre usada para significar a excepcionalidade da América entre todas as outras nações, como ainda há poucos dias a proferiria John MacCain na Convenção do Partido Republicano), que, como entre a maioria dos activistas comunitários açorianos lá imigrados, foi quase sempre a retórica predominante, procure outro texto para a sua consolação, que não este A Década Perdida: crónicas de uma América cinzenta. Aliás, este extenso livro de Diniz Borges, que reúne as suas crónicas políticas e literárias desses anos de chumbo que começaram com o 11 de Setembro e terminaram com a tropa americana no pantanal e na areia do Iraque, vem numa tradição bem minoritária entre os nossos intelectuais que para lá foram e lá viveram a maior parte das suas vidas, começando com a prosa inesquecível e inigualável de Garcia Monteiro (1853-1913) nas suas famosas cartas enviadas de Boston para alguns dos jornais aqui das ilhas, e tendo sido continuado por Onésimo T. Almeida numa primeira fase das suas intervenções públicas norte-americanas, de que resultou o ainda pertinente Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia (1973), as suas crónicas do Portuguese Times, que muita celeuma levantaram na altura nas nossas comunidades. De modo que, se Diniz Borges não conjuga, nem de perto nem de longe, do pensamento asséptico e beato sobre o seu país de adopção, a verdade é que pertence também às mais distintas e credíveis das nossas vozes, quando se trata de nos explicar a grande sociedade a oeste, uma outra pátria, não esqueçamos, para a maioria dos açorianos.

O autor de A Década Perdida, imigrado na cidade de Tulare, no Vale de São Joaquim, desde os seus dez anos de idade, quando saiu da Terceira com os seus pais nos anos 60, formado em literaturas étnicas ou emergentes, e professor de língua portuguesa numa escola secundária local, presidente da Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá, nada deve a ninguém nas suas demarcadas posições políticas nem na perspicácia com que em crónica após crónica contrapõe um discurso ideológico que entre nós se situa algures num centro-esquerda, e nos EUA está claramente ligado à ala esquerda (liberal, na semântica dos EUA) do Partido Democrático, onde, aparentemente, se situa o actual presidente do país, e se situavam as figuras cimeiras como Thomas Jefferson, Franklin D. Roosevelt e John F. Kennedy, não esquecendo o texano Lyndon Johnson, o construtor de uma Nova Sociedade, época em que os direitos cívicos das minorias étnicas seriam finalmente reconhecidos e tornados lei da república. Diniz Borges tanto se revê e se integra nessa grande tradição humanista e democrática como recebeu já na sua idade adulta as influências do seu país natal após a revolução de Abril. Ainda hoje — e felizmente — as suas crónicas publicadas em primeira mão nos jornais da imigração e aqui no nosso arquipélago provocam o desconforto dos que têm na América um imaginário idílico, que desde sempre a auto-publicidade do país conseguiu impor no exterior, e depois as célebres cartas dos nossos imigrantes, acompanhadas de fotos ao lado de brutos carros e de frigoríficos bem recheados e de porta aberta para aguçar o apetite de parentes e de outros infelizes que aqui tinham ficado. Página a página, Diniz nunca nega essas “verdades” que permanecem entre nós, mas desconstrói impiedosamente o resto da história, o que ele considera o reino da injustiça e da desigualdade das classes sociais e das minorias étnicas, nunca perdendo a fé no poder da política para fazer da América, digamos, a verdadeira América, na qual todos os seus ideais seriam inteiramente cumpridos e respeitados. Se a Direita americana ainda tivesse um naco de vergonha — que não tem — não só respeitaria estas vozes vindas do fundo da sua própria Constituição, como deixaria de adorar os demónios da suposta e sagrada iniciativa privada à grande escala, apoiada pela criminalidade especulativa dos chamados “mercados” e dos banqueiros, que mais uma vez destruíram a sua economia e a dos outros, tal como no desastre mundial de 1929. O facto de que são por enquanto os EUA que determinam a saúde de todas as outras nações, pelo menos no Ocidente, mais razão terá um cronista de sensibilidade absolutamente universal para lutar por um outro país, sem nunca abandonar as suas melhores tradições e instintos. Não será nunca a ignorância de muita opinião pública nas comunidades açorianas que vão calar uma voz como esta. Só que ainda hoje a palavra “socialista” (mesmo democrático) é utilizada para assustar as crianças de todas as idades.

“As políticas estrangeiras perseguidas — escreve Diniz Borges numa crónica intitulada “Os impérios têm um preço alto”, acerca do reinado de George W. Bush — pela actual administração, coadjuvadas pelas políticas das administrações antecedentes, jamais poderão trazer paz e estabilidade. É que, enquanto houver lucro nas guerras para as multinacionais, enquanto as grandes companhias controlarem a classe política, os sucessivos governos, embora com uma outra dose de humanismo, persistirão num imperialismo que jamais beneficiará o cidadão comum americano”.

De resto, A Década Perdida: crónicas de uma América cinzenta permanece mais do que actualizado porque se trata de uma outra primeira história de um tempo tremendamente dramático na vida daquele país, e da nossa vida cá fora, por assim dizer, narrada com todo o subjectivismo (extremamente bem fundamentado) de quem assume as suas posições e, uma vez mais, ideais, “sem medo nem favores”. É o mais inteligente contraponto à CNN que poderíamos ter aqui no nosso país, para além de todos e quaisquer órgãos de informação e opinião instantaneamente disponíveis na net. Só que a voz do seu autor, distintamente açor-americana, não poderá ser reproduzida nem conter em si todo um referencial único, que só o nosso passado e formação muito própria nos oferecem. Diniz Borges intercala política com cultura e literatura, fazendo chamamentos a todo o pensamento que considera relevante não só no seu castigo ao status quo como, acima de tudo, na sua argumentação que outras ideias e projectos sempre existiram nos Estados Unidos, e que são o contrário do autêntico “sequestro” que as forças económico-financeiras dominantes a partir do século XX mantêm no país. Política, ensino, cultura e literatura (o poeta Robert Frost está no centro das suas preferências, no que ao modernismo literário americano diz respeito) compõem este livro, imprimem-lhe a originalidade de que mais ninguém, entre nós na America, de que mais nenhum intelectual público em língua portuguesa e residente naquele país, poderá reivindicar.

Diga-se ainda que Diniz Borges se integra numa outra tradição muito americana: o jornalismo de combate e denúncia, que vem desde um H. L. Mencken ao falecido Hunter S. Thompson, mesmo que nunca utilizando as suas linguagens iconoclastas, mas partindo do dever crítico de jornalista ou comentador mais do que encartado pelo saber e pela reflexão sem tréguas. Liberal, à moda americana? Sem dúvida. A sua seriedade — sobriedade — reflectem essas suas leituras que de dentro do próprio sistema tentam abalá-lo decididamente — civilizadamente, cordialmente.

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Diniz Borges, A Década Perdida: crónicas de uma América cinzenta, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2012.  Escrito meses antes da recente eleição presidencial americana.

O mundo quer-se (im)perfeito

Francamente, o destino não colabora. Nós, os bioecopurificadores, desencarnamos tão facilmente quanto os seres poluídos.

Angela Dutra de Menezes, O Incrível Geneticista Chinês

 /Vamberto Freitas

 Citei um dia, num ensaio sobre No Seio Desse Amargo Mar, de Onésimo T. Almeida, a mais hilariante, irónica e significante “conversa” em forma de teatro entre alguns dos nossos mais destacados escritores falecidos há muito tempo, um dito do insuspeito e sempre presente Walter Benjamin, em Linguagem e Política: “Como comentário paralelo, diga-se que não há melhor começo para o pensar do que o riso”. O romance O Incrível Geneticista Chinês, da brasileira Angela Dutra de Menezes, seria fácil de resumir, mas complexo de mais, apesar ora da sua linearidade ora dos tempos misturados, sempre numa linguagem escorreita e simultaneamente inventiva, em que o narrador, de nome Zhan Cheng, nos relata as desventuras de dois grandes biólogos chineses que transformam radicalmente o mundo a partir do sul da Califórnia. Só poderia ser a partir de aí, a geografia onde tudo fora do normal poderá acontecer, e acontece, de onde a transformação do mundo através de mudanças tão impensáveis quanto loucas, tão estéticas como anti-éticas, só poderia vir, pelo menos no imaginário que aquele geografia transfronteiriça tem criado e propagado no mundo via, pois, Hollywood e os seres estranhos que pululam ao sábado à noite na Sunset Boulevard, ou ali ao lado em Westwood, porta de entrada, nada menos irónica, para uma das melhores e mais sérias universidades do mundo, a UCLA, em cujos laboratórios no entanto investigam dois cientistas dementes, como serão sempre os génios da ciência, digamos, biogaláctica. Não é possível ler este romance sem parar quase linha a linha para rirmos em voz alta, num gesto que parecerá a quem está ao lado tão demente como os personagens e a estória aqui narrada. Permitam-me tentar aqui, sem vos roubar os muitos prazeres da descoberta de O Incrível Geneticista Chinês, tentar outra síntese, que enviei à própria autora: Acabei de ler o romance, disse-lhe. Fantástico. E muito mais sério — é todo sério, nas verdades que nos insinua ou nos aponta — do que aparenta na primeira leitura. A Distopia literária moderna em língua portuguesa quase não existe, para além das habituais e já históricas diatribes literário-ideológicas. Isto aqui, no teu romance, é como se Huxley fosse mulher (inventando homens geniais mas, como sempre na imaginação popular, loucos) estivesse vivo e conhecesse tudo o que temos vivido a partir dos tontos anos 80 — e com um sentido de humor perfeitamente brasileiro! Não é só um livro do seu tempo — é sobretudo um livro para o nosso tempo. A grande comédia nunca é, nunca foi, simplesmente comédia.

A trama de O Incrível Geneticista Chinês parece simples num primeiro dizer: um biólogo de má reputação em Peking e de nome Yuan Wang, que se havia dedicado em tão sisudo país à investigação da homossexualidade nos ratos e se dizia doutorado por uma obscura universidade nas Ilhas Maurício, enquanto a mulher fazia-lhe o favor de dormir com um seu amante num quarto ao lado, chega um dia à Califórnia em busca de um famoso conterrâneo seu, “professor-doutor Jing-Quo”, que dirigia com grande sucesso e reputação um centro de altos estudos naquela área na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. O mundo está, como todos sabem, doente, mas na ideia dos dois génios chineses a cura deve começar por algum lado, e tanto melhor se enriquecendo-os no processo dos seus magnânimos diagnósticos, com as farmacêuticas multinacionais no comando de tudo, aliás dentro e fora desta ou de qualquer outra ficção. Uma vez mais, a hedonista Califórnia ali bem perto de Beverly Hills e arredores é a geografia humana perfeita: perceber de uma vez por todas o ADN nos ratos, camundongos, que leva à obesidade — nada aqui é politicamente correcto, portanto é dito na palavra que todos entendem, as gordas e gordos martirizados num bravo novo mundo de estética contrária, e depois, logo depois, a igual e definitiva prova biológica de que os “chatos/chatas” deste mundo, os que infernizam o nosso quotidiano metendo o nariz em tudo e em todos, eternamente com respostas e juízos infalíveis para qualquer mal da humanidade, sofrem também de alterações cromossómicas, tornando, supõe-se de imediato, os psiquiatras, psicólogos e especialistas afins uma corja fraudulenta, que em pouco vai para o desemprego. O narrador, um auto-confesso “chatíssimo”, que insiste constantemente em auto-definir-se como norte-americano de descendência chinesa, não perderia por nada o estatuto de cidadão legítimo do também auto-proclamado maior e melhor país do mundo, e até reproduz ordenadamente, cientificamente, para os seus leitores as categorias desses desprezíveis e intoleráveis seres, descobertos pelas observações dos seus dois conterrâneos nos “ratos-xeretas” em cativeiro. Nada dará certo, nem a médio nem a longo prazo, mas por algum tempo os sete pecados cardeais são finalmente abolidos, a festa passa a ser de beleza universal, sexo em abundância e pura gula. Só que os psiquiatras eventualmente regressam, e em força.

Para além de tudo isto neste mais do que singular O Incrível Geneticista Chinês, trata-se ainda de um romance cuja sofisticação narrativa envolve um personagem-protagnista que em tudo é suspeito acerca do que nos relata, tratando-se de uma originalíssima meditação sobre a própria génese da literatura, onde a “mentira” se confunde sempre e necessariamente com a “verdade”, a questão da identidade cultural e cívica — quem é ou de onde vem um “chinês” ou um “norte-americano”, apesar da suas características físicas que julgamos únicas? — de um narrador cuja ancestralidade é o oposto radical da sua suposta ocidentalização num mundo cada vez mais híbrido e aberto, a metaficção recorrendo sempre à própria literatura, canónica ou não, reafirmando-a ou contestando-a. Não será também acidental aqui que o narrador a dada altura convoca com todas as letras os 1984 de George Orwell e o Brave New World de Aldous Huxley. Tudo isto aconteceu, tudo isto está a ser contado com objectividade ou em benefício de quem narra e se reinventa na própria reinvenção que é toda a literatura, tudo isto não passa de uma mente em delírio e em busca de afirmação e um redimido lugar ao sol? No entanto, a esquizofrenia generalizada entre todos estes seres inventados recorre, logo a partir da própria epígrafe do romance, ao mais consequente poeta e pensador da modernidade em língua portuguesa: o heterónimo pessoano Álvaro de Campos — Nunca conheci quem tivesse levado porrada./Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. Cheng  Zhan, cínico, inteira e confessadamente pertencente ao mundo dos “chatos” mexeriqueiros e intrometidos na vida alheia, redizendo-a e retorcendo-a, questiona num determinado passo a pertinência desse famoso dito de “um poeta da exótica língua portuguesa”, mas não se contém em usá-lo como que num refrão unificador do princípio ao fim da sua narrativa: “Acho que pertencia (ele, Cheng) ao género de chatos que nunca levaram porrada”. De seguida, este narrador chinês-americano parece sintetizar uma outra provável origem de todas as demências na sua estória, ou pelo menos a sua própria demência tranquila e actuante.

“Falávamos as mesmas línguas, gostávamos dos mesmos gostos, sabíamos as mesmas lendas. Lembrei-me do doutor Wang. Eu só nascera no forno, não chegava a ser biscoito. Ou era, mas só um pouquinho. Talvez biscoito da sorte, meio cá meio lá. Subitamente descobri o alento que me faltava: sensação de identidade. Não me lembro de antes sorrir tão abertamente”.

Quem na é verdade o “doutor Wang” e o que realmente faz em Los Angeles e Chicago é também uma questão em aberto até ao fim, parte do “riso paralelo”, iluminante, imparável em O Incrível Geneticista Chinês. Que é um chinês meio americano que narra este estranho mundo contemporâneo, e outros mais genuínos que o tentam reconstruir do seu estado despedaçado, desorientado, faz também parte do humor destas páginas, facto muitíssimo condizente com as nossas novas realidades no mundo ocidental. Quem sabe, poderá ser um gesto, um fingimento de regresso à (in)sanidade dos que a oriente já eram cultos e civilizados muito antes dos nossos antepassados por aqui saírem das cavernas de lança na mão. A arte tem essa outra função séria: tomar o pulso ao presente, e, neste caso, sugerir o que já nem é tão impensável, como se sabe.

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Angela Dutra de Menezes, O Incrível Geneticista Chinês, Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 2012.

 

Os primos americanos

No Outono de 1990, viajei pelos Estados Unidos por puro prazer. Foi então que compreendi que ninguém podia visitar a América pela primeira vez.

Ferreira Fernandes, Os Primos da América

/Vamberto Freitas

Pois não, ninguém, ou quase ninguém, pode visitar a América pela primeira vez, tal o poder do seu imaginário — imaginários — entre nós. Não será isto só verdade no que respeita aos portugueses, evidentemente. Suponho que se aplica o mundo inteiro, ou quase. Quanto a nós, relato aqui um magnífico exemplo da sedução e ligação íntima que cultivamos com os Estados Unidos. Um dia, há muitos anos, e durante a minha primeira visita na companhia da Adelaide ao Pico, parámos a falar com um grupo de velhos pescadores sentados algures na Vila das Lajes. Como eu tinha regressado definitivamente aos Açores vindo da Califórnia, e porque estávamos numa das ilhas pioneiras da nossa emigração para o oeste, o assunto seria inevitável a todos. Quando perguntei a um dos meus interlocutores se ele já tinha visitado ou vivido na América, a sua resposta foi rápida e lapidar: “pessoalmente, não”. A conversa prosseguiu como se nós e as nossas ausências estivessem presentes em carne e osso e de viva voz. Deve acontecer algo de parecido nos mais isolados cantos do mundo, a presença do sonho sempre indelével para os deserdados da terra, ou então simplesmente para quem o Novo Mundo nunca deixou de ser a promessa de aventura e reinvenção radical. Os privilegiados, no entanto, também parecem nunca ter escapado a essa quase universal deriva de pensamento, da “memória e desejo” de navegações e explorações no grande continente, o fascínio alimentado durante todo o século passado pelo cinema, pela literatura, pelos relatos de cartas com as suas mentiras meio verdadeiras do achamento de um suposto Paraíso, a ficção confundindo-se sempre com a realidade nessas páginas de triunfos pessoais, ou escondendo o humilhante e inesperado falhanço. Um dos passos mais cómicos neste livro de Ferreira Fernandes, Os Primos da América, é precisamente aquele que, na cidade de São José, da Califórnia, diz ter encontrado o primeiro e único imigrante açoriano, Manuel Duarte (que nos deixaria dois belíssimos livros antes de falecer precocemente aqui há uns anos), e quem lhe confessou de imediato num breve encontro ser um “falhado”, em tudo. Seja como for, nenhum escritor em nenhum outro país do mundo cunhou, como o fez um autor americano, a expressão estridentemente exclamativa como America! América! Nesta nova edição do seu livro, Os Primos da América, Ferreira Fernandes fez questão de adicionar um posfácio de todo esclarecedor: nasceu em Angola (tendo vivido depois em Paris, antes de começar a residir em Lisboa em 1974) e desde sempre soube em directo o que era uma sociedade “crioula”, “mista”. Nas Américas, esse conhecimento e essa experiência fazem parte essencial da sobrevivência de cada um, e sobretudo de algum eventual triunfo, solitário ou comunitário.

Creio que Os Primos da América passou quase despercebido aqui nos Açores e nas próprias comunidades quando saiu a sua primeira edição da Relógio D’Água, em 1991. Andavam todos em Portugal mais ou menos em êxtase “europeia”, longe de imaginar o que nos viria em poucos anos, o maná armadilhado depressa tornado pesadelo, a cara dos nossos vizinhos a norte escancarada no seu histórico egoísmo e etnocentrismo. Mais longe ainda estavam quase todos os nossos imigrantes em toda a parte, nação peregrina esquecida e raramente valorizada, tida até entre certa elite cultural como recordação negra de outros tempos e condições nacionais que os envergonhavam. Durante os últimos meses de 1990, Ferreira Fernandes, já jornalista largamente reconhecido na nossa imprensa nacional, fez uma longa viagem pela América, patrocinado pela FLAD, tendo escolhido um percurso não do habitual trajecto da Quinta Avenida (por onde também passa e refere de passagem, logo na abertura de um dos capítulos, num passo hoje de todo irónico, “Pelas janelas vi as torres gémeas da ponta de Manhattan”) à mítica Sunset Boulevard de alguns outros escritores nossos, mas sim em busca da sua gente, fixada em traços largos e históricos em três grandes áreas geográficas, e até mesmo culturais: Costa Leste, Califórnia e Havai. Na essencial subjectividade deste belo livro, tanto vemos e ouvimos os seus protagonistas a relatar em português a sua experiência de vida e reinvenção na Diáspora como relembramos — para outros leitores, talvez uma outra rica descoberta — os luso-descendentes nessas geografias dos nossos felizes destinos e afectos, eles que agora quase só falam o inglês como língua natal, mas recorrendo e valorizando sempre a sua herança ancestral, as terras distantes que muitos deles nunca viram fora das fotos dos pais e avós. Este é um outro Portugal de Ferreira Fernandes, embarcado e positivamente híbrido, ele próprio intelectualmente mais do que preparado — atendendo, uma vez mais, ao seu passado e odisseia por outros mundos africanos e europeus — para o topar e o perceber por inteiro ante a ignorância nacional generalizada, por vezes mesmo embrulhada numa atitude depreciativa em tudo que se refere às comunidades lusas em toda a parte.

“No Outono de 1990 — abre Ferreira Fernandes a sua narrativa depurada mas significante a cada passagem, já em parte citada na epígrafe, mas que sintetiza de resto tudo o que viu e ouviu num território continental e insular que vai do Atlântico ao Pacífico — viajei pelos Estados Unidos por prazer. Foi então que percebi que ninguém podia visitar a América pela primeira vez. A todo o passo assaltou-me a memória de outras viagens, folheando livros, frequentando salas de cinema. Essa minha América, minha, foi o pano de fundo. Era uma presença que não me esmagava, aparecia em flashes inesperados mas suaves, só para me confirmar o reencontro. Em San Diego, o boné redondo e branco de um marujo, com palmeiras ao fundo; em Monterey, os cromados de um Chevrolet ‘Bel Air’, 1958; uma flor de hibisco caída no solo negro do Havai; uns garotos a jogar basquete numa quadra de tijolos vermelhos, em Newark; a névoa saindo de um bueiro em Manhattan… Tudo reecontros com lugares onde nunca estivera”.

É claro que por entre tudo e todos, repita-se, são os portugueses e luso-americanos que o autor procura e com quem fala atentamente e convive no maior à-vontade (sei, porque na altura eu vivia na Grande Los Angeles, e estive com ele), precisamente como quem nunca tinha estado ausente destes outros mundos, destas comunidades simultaneamente parte de todo nacional em que estão inseridas sem nunca terem deixado de delimitar em bairros de imediato reconhecíveis o seu território geográfico e cultural, Portugais “rodeados de América por todos os lados”, como um dia escreveu noutro contexto Onésimo T. Almeida. Ferreira Fernandes vai traçando as origens longínquas destas navegações nossas, que começam com as escalas açorianas dos baleeiros norte-americanos já no século dezoito, um ciclo de peregrinações que pareciam ter terminado nos 80 do século passado, quando ainda não percebíamos a catástrofe socioeconómica que nos viria a assolar nos dias presentes, e de novo sem fim à vista. Creio que uma das grandes lições a retirar da leitura de Os Primos da América é que por mais adversas que pareçam as circunstâncias colectivas nas sociedades do Novo Mundo, a história tem acabado sempre de modo bem diferente: foi no “estrangeiro” que a nossa gente reencontrou também a sua dignidade, mesmo quando varre ou varria as casas dos outros, foi no estrangeiro que o seu trabalho tantas vezes insano, quando não mesmo desumano, foi sempre eventual e devidamente recompensado, foi no estrangeiro que os portugueses, todos os portugueses do continente e das ilhas, construíram as suas mais prósperas e em tudo estáveis comunidades, o nosso país desgraçadamente representando ao longo de todos os tempos o triste contraponto, com o mistério, assim mesmo, de permanecer de geração em geração o espaço da nossa saudade, como nos reconfirma cada conversa reproduzida neste livro.

O Primos da América pertence já a uma substancial bibliografia de escritores portugueses que se aventuraram como visitantes ou observadores da moderna sociedade norte-americana. Só que a obra presente se distingue brilhantemente pela sua busca de como chegámos e sobrevivemos em mundos que nada se parecem com o nosso, e que nunca nos serviram como o exemplo que efectivamente nos deveriam ser.

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Ferreira Fernandes, Os Primos da América (com prefácio de Carlos Vaz Marques), Lisboa, Tinta-Da-China edições, 2012.