Os primos americanos

No Outono de 1990, viajei pelos Estados Unidos por puro prazer. Foi então que compreendi que ninguém podia visitar a América pela primeira vez.

Ferreira Fernandes, Os Primos da América

/Vamberto Freitas

Pois não, ninguém, ou quase ninguém, pode visitar a América pela primeira vez, tal o poder do seu imaginário — imaginários — entre nós. Não será isto só verdade no que respeita aos portugueses, evidentemente. Suponho que se aplica o mundo inteiro, ou quase. Quanto a nós, relato aqui um magnífico exemplo da sedução e ligação íntima que cultivamos com os Estados Unidos. Um dia, há muitos anos, e durante a minha primeira visita na companhia da Adelaide ao Pico, parámos a falar com um grupo de velhos pescadores sentados algures na Vila das Lajes. Como eu tinha regressado definitivamente aos Açores vindo da Califórnia, e porque estávamos numa das ilhas pioneiras da nossa emigração para o oeste, o assunto seria inevitável a todos. Quando perguntei a um dos meus interlocutores se ele já tinha visitado ou vivido na América, a sua resposta foi rápida e lapidar: “pessoalmente, não”. A conversa prosseguiu como se nós e as nossas ausências estivessem presentes em carne e osso e de viva voz. Deve acontecer algo de parecido nos mais isolados cantos do mundo, a presença do sonho sempre indelével para os deserdados da terra, ou então simplesmente para quem o Novo Mundo nunca deixou de ser a promessa de aventura e reinvenção radical. Os privilegiados, no entanto, também parecem nunca ter escapado a essa quase universal deriva de pensamento, da “memória e desejo” de navegações e explorações no grande continente, o fascínio alimentado durante todo o século passado pelo cinema, pela literatura, pelos relatos de cartas com as suas mentiras meio verdadeiras do achamento de um suposto Paraíso, a ficção confundindo-se sempre com a realidade nessas páginas de triunfos pessoais, ou escondendo o humilhante e inesperado falhanço. Um dos passos mais cómicos neste livro de Ferreira Fernandes, Os Primos da América, é precisamente aquele que, na cidade de São José, da Califórnia, diz ter encontrado o primeiro e único imigrante açoriano, Manuel Duarte (que nos deixaria dois belíssimos livros antes de falecer precocemente aqui há uns anos), e quem lhe confessou de imediato num breve encontro ser um “falhado”, em tudo. Seja como for, nenhum escritor em nenhum outro país do mundo cunhou, como o fez um autor americano, a expressão estridentemente exclamativa como America! América! Nesta nova edição do seu livro, Os Primos da América, Ferreira Fernandes fez questão de adicionar um posfácio de todo esclarecedor: nasceu em Angola (tendo vivido depois em Paris, antes de começar a residir em Lisboa em 1974) e desde sempre soube em directo o que era uma sociedade “crioula”, “mista”. Nas Américas, esse conhecimento e essa experiência fazem parte essencial da sobrevivência de cada um, e sobretudo de algum eventual triunfo, solitário ou comunitário.

Creio que Os Primos da América passou quase despercebido aqui nos Açores e nas próprias comunidades quando saiu a sua primeira edição da Relógio D’Água, em 1991. Andavam todos em Portugal mais ou menos em êxtase “europeia”, longe de imaginar o que nos viria em poucos anos, o maná armadilhado depressa tornado pesadelo, a cara dos nossos vizinhos a norte escancarada no seu histórico egoísmo e etnocentrismo. Mais longe ainda estavam quase todos os nossos imigrantes em toda a parte, nação peregrina esquecida e raramente valorizada, tida até entre certa elite cultural como recordação negra de outros tempos e condições nacionais que os envergonhavam. Durante os últimos meses de 1990, Ferreira Fernandes, já jornalista largamente reconhecido na nossa imprensa nacional, fez uma longa viagem pela América, patrocinado pela FLAD, tendo escolhido um percurso não do habitual trajecto da Quinta Avenida (por onde também passa e refere de passagem, logo na abertura de um dos capítulos, num passo hoje de todo irónico, “Pelas janelas vi as torres gémeas da ponta de Manhattan”) à mítica Sunset Boulevard de alguns outros escritores nossos, mas sim em busca da sua gente, fixada em traços largos e históricos em três grandes áreas geográficas, e até mesmo culturais: Costa Leste, Califórnia e Havai. Na essencial subjectividade deste belo livro, tanto vemos e ouvimos os seus protagonistas a relatar em português a sua experiência de vida e reinvenção na Diáspora como relembramos — para outros leitores, talvez uma outra rica descoberta — os luso-descendentes nessas geografias dos nossos felizes destinos e afectos, eles que agora quase só falam o inglês como língua natal, mas recorrendo e valorizando sempre a sua herança ancestral, as terras distantes que muitos deles nunca viram fora das fotos dos pais e avós. Este é um outro Portugal de Ferreira Fernandes, embarcado e positivamente híbrido, ele próprio intelectualmente mais do que preparado — atendendo, uma vez mais, ao seu passado e odisseia por outros mundos africanos e europeus — para o topar e o perceber por inteiro ante a ignorância nacional generalizada, por vezes mesmo embrulhada numa atitude depreciativa em tudo que se refere às comunidades lusas em toda a parte.

“No Outono de 1990 — abre Ferreira Fernandes a sua narrativa depurada mas significante a cada passagem, já em parte citada na epígrafe, mas que sintetiza de resto tudo o que viu e ouviu num território continental e insular que vai do Atlântico ao Pacífico — viajei pelos Estados Unidos por prazer. Foi então que percebi que ninguém podia visitar a América pela primeira vez. A todo o passo assaltou-me a memória de outras viagens, folheando livros, frequentando salas de cinema. Essa minha América, minha, foi o pano de fundo. Era uma presença que não me esmagava, aparecia em flashes inesperados mas suaves, só para me confirmar o reencontro. Em San Diego, o boné redondo e branco de um marujo, com palmeiras ao fundo; em Monterey, os cromados de um Chevrolet ‘Bel Air’, 1958; uma flor de hibisco caída no solo negro do Havai; uns garotos a jogar basquete numa quadra de tijolos vermelhos, em Newark; a névoa saindo de um bueiro em Manhattan… Tudo reecontros com lugares onde nunca estivera”.

É claro que por entre tudo e todos, repita-se, são os portugueses e luso-americanos que o autor procura e com quem fala atentamente e convive no maior à-vontade (sei, porque na altura eu vivia na Grande Los Angeles, e estive com ele), precisamente como quem nunca tinha estado ausente destes outros mundos, destas comunidades simultaneamente parte de todo nacional em que estão inseridas sem nunca terem deixado de delimitar em bairros de imediato reconhecíveis o seu território geográfico e cultural, Portugais “rodeados de América por todos os lados”, como um dia escreveu noutro contexto Onésimo T. Almeida. Ferreira Fernandes vai traçando as origens longínquas destas navegações nossas, que começam com as escalas açorianas dos baleeiros norte-americanos já no século dezoito, um ciclo de peregrinações que pareciam ter terminado nos 80 do século passado, quando ainda não percebíamos a catástrofe socioeconómica que nos viria a assolar nos dias presentes, e de novo sem fim à vista. Creio que uma das grandes lições a retirar da leitura de Os Primos da América é que por mais adversas que pareçam as circunstâncias colectivas nas sociedades do Novo Mundo, a história tem acabado sempre de modo bem diferente: foi no “estrangeiro” que a nossa gente reencontrou também a sua dignidade, mesmo quando varre ou varria as casas dos outros, foi no estrangeiro que o seu trabalho tantas vezes insano, quando não mesmo desumano, foi sempre eventual e devidamente recompensado, foi no estrangeiro que os portugueses, todos os portugueses do continente e das ilhas, construíram as suas mais prósperas e em tudo estáveis comunidades, o nosso país desgraçadamente representando ao longo de todos os tempos o triste contraponto, com o mistério, assim mesmo, de permanecer de geração em geração o espaço da nossa saudade, como nos reconfirma cada conversa reproduzida neste livro.

O Primos da América pertence já a uma substancial bibliografia de escritores portugueses que se aventuraram como visitantes ou observadores da moderna sociedade norte-americana. Só que a obra presente se distingue brilhantemente pela sua busca de como chegámos e sobrevivemos em mundos que nada se parecem com o nosso, e que nunca nos serviram como o exemplo que efectivamente nos deveriam ser.

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Ferreira Fernandes, Os Primos da América (com prefácio de Carlos Vaz Marques), Lisboa, Tinta-Da-China edições, 2012.

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