O mundo quer-se (im)perfeito

Francamente, o destino não colabora. Nós, os bioecopurificadores, desencarnamos tão facilmente quanto os seres poluídos.

Angela Dutra de Menezes, O Incrível Geneticista Chinês

 /Vamberto Freitas

 Citei um dia, num ensaio sobre No Seio Desse Amargo Mar, de Onésimo T. Almeida, a mais hilariante, irónica e significante “conversa” em forma de teatro entre alguns dos nossos mais destacados escritores falecidos há muito tempo, um dito do insuspeito e sempre presente Walter Benjamin, em Linguagem e Política: “Como comentário paralelo, diga-se que não há melhor começo para o pensar do que o riso”. O romance O Incrível Geneticista Chinês, da brasileira Angela Dutra de Menezes, seria fácil de resumir, mas complexo de mais, apesar ora da sua linearidade ora dos tempos misturados, sempre numa linguagem escorreita e simultaneamente inventiva, em que o narrador, de nome Zhan Cheng, nos relata as desventuras de dois grandes biólogos chineses que transformam radicalmente o mundo a partir do sul da Califórnia. Só poderia ser a partir de aí, a geografia onde tudo fora do normal poderá acontecer, e acontece, de onde a transformação do mundo através de mudanças tão impensáveis quanto loucas, tão estéticas como anti-éticas, só poderia vir, pelo menos no imaginário que aquele geografia transfronteiriça tem criado e propagado no mundo via, pois, Hollywood e os seres estranhos que pululam ao sábado à noite na Sunset Boulevard, ou ali ao lado em Westwood, porta de entrada, nada menos irónica, para uma das melhores e mais sérias universidades do mundo, a UCLA, em cujos laboratórios no entanto investigam dois cientistas dementes, como serão sempre os génios da ciência, digamos, biogaláctica. Não é possível ler este romance sem parar quase linha a linha para rirmos em voz alta, num gesto que parecerá a quem está ao lado tão demente como os personagens e a estória aqui narrada. Permitam-me tentar aqui, sem vos roubar os muitos prazeres da descoberta de O Incrível Geneticista Chinês, tentar outra síntese, que enviei à própria autora: Acabei de ler o romance, disse-lhe. Fantástico. E muito mais sério — é todo sério, nas verdades que nos insinua ou nos aponta — do que aparenta na primeira leitura. A Distopia literária moderna em língua portuguesa quase não existe, para além das habituais e já históricas diatribes literário-ideológicas. Isto aqui, no teu romance, é como se Huxley fosse mulher (inventando homens geniais mas, como sempre na imaginação popular, loucos) estivesse vivo e conhecesse tudo o que temos vivido a partir dos tontos anos 80 — e com um sentido de humor perfeitamente brasileiro! Não é só um livro do seu tempo — é sobretudo um livro para o nosso tempo. A grande comédia nunca é, nunca foi, simplesmente comédia.

A trama de O Incrível Geneticista Chinês parece simples num primeiro dizer: um biólogo de má reputação em Peking e de nome Yuan Wang, que se havia dedicado em tão sisudo país à investigação da homossexualidade nos ratos e se dizia doutorado por uma obscura universidade nas Ilhas Maurício, enquanto a mulher fazia-lhe o favor de dormir com um seu amante num quarto ao lado, chega um dia à Califórnia em busca de um famoso conterrâneo seu, “professor-doutor Jing-Quo”, que dirigia com grande sucesso e reputação um centro de altos estudos naquela área na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. O mundo está, como todos sabem, doente, mas na ideia dos dois génios chineses a cura deve começar por algum lado, e tanto melhor se enriquecendo-os no processo dos seus magnânimos diagnósticos, com as farmacêuticas multinacionais no comando de tudo, aliás dentro e fora desta ou de qualquer outra ficção. Uma vez mais, a hedonista Califórnia ali bem perto de Beverly Hills e arredores é a geografia humana perfeita: perceber de uma vez por todas o ADN nos ratos, camundongos, que leva à obesidade — nada aqui é politicamente correcto, portanto é dito na palavra que todos entendem, as gordas e gordos martirizados num bravo novo mundo de estética contrária, e depois, logo depois, a igual e definitiva prova biológica de que os “chatos/chatas” deste mundo, os que infernizam o nosso quotidiano metendo o nariz em tudo e em todos, eternamente com respostas e juízos infalíveis para qualquer mal da humanidade, sofrem também de alterações cromossómicas, tornando, supõe-se de imediato, os psiquiatras, psicólogos e especialistas afins uma corja fraudulenta, que em pouco vai para o desemprego. O narrador, um auto-confesso “chatíssimo”, que insiste constantemente em auto-definir-se como norte-americano de descendência chinesa, não perderia por nada o estatuto de cidadão legítimo do também auto-proclamado maior e melhor país do mundo, e até reproduz ordenadamente, cientificamente, para os seus leitores as categorias desses desprezíveis e intoleráveis seres, descobertos pelas observações dos seus dois conterrâneos nos “ratos-xeretas” em cativeiro. Nada dará certo, nem a médio nem a longo prazo, mas por algum tempo os sete pecados cardeais são finalmente abolidos, a festa passa a ser de beleza universal, sexo em abundância e pura gula. Só que os psiquiatras eventualmente regressam, e em força.

Para além de tudo isto neste mais do que singular O Incrível Geneticista Chinês, trata-se ainda de um romance cuja sofisticação narrativa envolve um personagem-protagnista que em tudo é suspeito acerca do que nos relata, tratando-se de uma originalíssima meditação sobre a própria génese da literatura, onde a “mentira” se confunde sempre e necessariamente com a “verdade”, a questão da identidade cultural e cívica — quem é ou de onde vem um “chinês” ou um “norte-americano”, apesar da suas características físicas que julgamos únicas? — de um narrador cuja ancestralidade é o oposto radical da sua suposta ocidentalização num mundo cada vez mais híbrido e aberto, a metaficção recorrendo sempre à própria literatura, canónica ou não, reafirmando-a ou contestando-a. Não será também acidental aqui que o narrador a dada altura convoca com todas as letras os 1984 de George Orwell e o Brave New World de Aldous Huxley. Tudo isto aconteceu, tudo isto está a ser contado com objectividade ou em benefício de quem narra e se reinventa na própria reinvenção que é toda a literatura, tudo isto não passa de uma mente em delírio e em busca de afirmação e um redimido lugar ao sol? No entanto, a esquizofrenia generalizada entre todos estes seres inventados recorre, logo a partir da própria epígrafe do romance, ao mais consequente poeta e pensador da modernidade em língua portuguesa: o heterónimo pessoano Álvaro de Campos — Nunca conheci quem tivesse levado porrada./Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. Cheng  Zhan, cínico, inteira e confessadamente pertencente ao mundo dos “chatos” mexeriqueiros e intrometidos na vida alheia, redizendo-a e retorcendo-a, questiona num determinado passo a pertinência desse famoso dito de “um poeta da exótica língua portuguesa”, mas não se contém em usá-lo como que num refrão unificador do princípio ao fim da sua narrativa: “Acho que pertencia (ele, Cheng) ao género de chatos que nunca levaram porrada”. De seguida, este narrador chinês-americano parece sintetizar uma outra provável origem de todas as demências na sua estória, ou pelo menos a sua própria demência tranquila e actuante.

“Falávamos as mesmas línguas, gostávamos dos mesmos gostos, sabíamos as mesmas lendas. Lembrei-me do doutor Wang. Eu só nascera no forno, não chegava a ser biscoito. Ou era, mas só um pouquinho. Talvez biscoito da sorte, meio cá meio lá. Subitamente descobri o alento que me faltava: sensação de identidade. Não me lembro de antes sorrir tão abertamente”.

Quem na é verdade o “doutor Wang” e o que realmente faz em Los Angeles e Chicago é também uma questão em aberto até ao fim, parte do “riso paralelo”, iluminante, imparável em O Incrível Geneticista Chinês. Que é um chinês meio americano que narra este estranho mundo contemporâneo, e outros mais genuínos que o tentam reconstruir do seu estado despedaçado, desorientado, faz também parte do humor destas páginas, facto muitíssimo condizente com as nossas novas realidades no mundo ocidental. Quem sabe, poderá ser um gesto, um fingimento de regresso à (in)sanidade dos que a oriente já eram cultos e civilizados muito antes dos nossos antepassados por aqui saírem das cavernas de lança na mão. A arte tem essa outra função séria: tomar o pulso ao presente, e, neste caso, sugerir o que já nem é tão impensável, como se sabe.

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Angela Dutra de Menezes, O Incrível Geneticista Chinês, Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record, 2012.

 

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