A outra (e esquecida) América

Barack Obama vai ganhar as eleições e será um bom líder dos EUA, porque, como afirmou há anos Martin Luther King, será julgado pelo seu carácter e não pela cor da sua pele.

Diniz Borges, A Década Perdida

/Vamberto Freitas

Primeiro esclarecimento: a epígrafe aqui refere-se às eleições de 2008, mas, conhecendo o seu autor, Diniz Borges, aplica-se do mesmo modo ao que ele pensará neste momento a respeito da reeleição em poucos meses do actual inquilino da Casa Branca. Segundo esclarecimento: quem quiser ler sobre a América na linguagem tradicional e incenssante da Cidade na Montanha (a expressão bíblica desde sempre usada para significar a excepcionalidade da América entre todas as outras nações, como ainda há poucos dias a proferiria John MacCain na Convenção do Partido Republicano), que, como entre a maioria dos activistas comunitários açorianos lá imigrados, foi quase sempre a retórica predominante, procure outro texto para a sua consolação, que não este A Década Perdida: crónicas de uma América cinzenta. Aliás, este extenso livro de Diniz Borges, que reúne as suas crónicas políticas e literárias desses anos de chumbo que começaram com o 11 de Setembro e terminaram com a tropa americana no pantanal e na areia do Iraque, vem numa tradição bem minoritária entre os nossos intelectuais que para lá foram e lá viveram a maior parte das suas vidas, começando com a prosa inesquecível e inigualável de Garcia Monteiro (1853-1913) nas suas famosas cartas enviadas de Boston para alguns dos jornais aqui das ilhas, e tendo sido continuado por Onésimo T. Almeida numa primeira fase das suas intervenções públicas norte-americanas, de que resultou o ainda pertinente Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia (1973), as suas crónicas do Portuguese Times, que muita celeuma levantaram na altura nas nossas comunidades. De modo que, se Diniz Borges não conjuga, nem de perto nem de longe, do pensamento asséptico e beato sobre o seu país de adopção, a verdade é que pertence também às mais distintas e credíveis das nossas vozes, quando se trata de nos explicar a grande sociedade a oeste, uma outra pátria, não esqueçamos, para a maioria dos açorianos.

O autor de A Década Perdida, imigrado na cidade de Tulare, no Vale de São Joaquim, desde os seus dez anos de idade, quando saiu da Terceira com os seus pais nos anos 60, formado em literaturas étnicas ou emergentes, e professor de língua portuguesa numa escola secundária local, presidente da Associação de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá, nada deve a ninguém nas suas demarcadas posições políticas nem na perspicácia com que em crónica após crónica contrapõe um discurso ideológico que entre nós se situa algures num centro-esquerda, e nos EUA está claramente ligado à ala esquerda (liberal, na semântica dos EUA) do Partido Democrático, onde, aparentemente, se situa o actual presidente do país, e se situavam as figuras cimeiras como Thomas Jefferson, Franklin D. Roosevelt e John F. Kennedy, não esquecendo o texano Lyndon Johnson, o construtor de uma Nova Sociedade, época em que os direitos cívicos das minorias étnicas seriam finalmente reconhecidos e tornados lei da república. Diniz Borges tanto se revê e se integra nessa grande tradição humanista e democrática como recebeu já na sua idade adulta as influências do seu país natal após a revolução de Abril. Ainda hoje — e felizmente — as suas crónicas publicadas em primeira mão nos jornais da imigração e aqui no nosso arquipélago provocam o desconforto dos que têm na América um imaginário idílico, que desde sempre a auto-publicidade do país conseguiu impor no exterior, e depois as célebres cartas dos nossos imigrantes, acompanhadas de fotos ao lado de brutos carros e de frigoríficos bem recheados e de porta aberta para aguçar o apetite de parentes e de outros infelizes que aqui tinham ficado. Página a página, Diniz nunca nega essas “verdades” que permanecem entre nós, mas desconstrói impiedosamente o resto da história, o que ele considera o reino da injustiça e da desigualdade das classes sociais e das minorias étnicas, nunca perdendo a fé no poder da política para fazer da América, digamos, a verdadeira América, na qual todos os seus ideais seriam inteiramente cumpridos e respeitados. Se a Direita americana ainda tivesse um naco de vergonha — que não tem — não só respeitaria estas vozes vindas do fundo da sua própria Constituição, como deixaria de adorar os demónios da suposta e sagrada iniciativa privada à grande escala, apoiada pela criminalidade especulativa dos chamados “mercados” e dos banqueiros, que mais uma vez destruíram a sua economia e a dos outros, tal como no desastre mundial de 1929. O facto de que são por enquanto os EUA que determinam a saúde de todas as outras nações, pelo menos no Ocidente, mais razão terá um cronista de sensibilidade absolutamente universal para lutar por um outro país, sem nunca abandonar as suas melhores tradições e instintos. Não será nunca a ignorância de muita opinião pública nas comunidades açorianas que vão calar uma voz como esta. Só que ainda hoje a palavra “socialista” (mesmo democrático) é utilizada para assustar as crianças de todas as idades.

“As políticas estrangeiras perseguidas — escreve Diniz Borges numa crónica intitulada “Os impérios têm um preço alto”, acerca do reinado de George W. Bush — pela actual administração, coadjuvadas pelas políticas das administrações antecedentes, jamais poderão trazer paz e estabilidade. É que, enquanto houver lucro nas guerras para as multinacionais, enquanto as grandes companhias controlarem a classe política, os sucessivos governos, embora com uma outra dose de humanismo, persistirão num imperialismo que jamais beneficiará o cidadão comum americano”.

De resto, A Década Perdida: crónicas de uma América cinzenta permanece mais do que actualizado porque se trata de uma outra primeira história de um tempo tremendamente dramático na vida daquele país, e da nossa vida cá fora, por assim dizer, narrada com todo o subjectivismo (extremamente bem fundamentado) de quem assume as suas posições e, uma vez mais, ideais, “sem medo nem favores”. É o mais inteligente contraponto à CNN que poderíamos ter aqui no nosso país, para além de todos e quaisquer órgãos de informação e opinião instantaneamente disponíveis na net. Só que a voz do seu autor, distintamente açor-americana, não poderá ser reproduzida nem conter em si todo um referencial único, que só o nosso passado e formação muito própria nos oferecem. Diniz Borges intercala política com cultura e literatura, fazendo chamamentos a todo o pensamento que considera relevante não só no seu castigo ao status quo como, acima de tudo, na sua argumentação que outras ideias e projectos sempre existiram nos Estados Unidos, e que são o contrário do autêntico “sequestro” que as forças económico-financeiras dominantes a partir do século XX mantêm no país. Política, ensino, cultura e literatura (o poeta Robert Frost está no centro das suas preferências, no que ao modernismo literário americano diz respeito) compõem este livro, imprimem-lhe a originalidade de que mais ninguém, entre nós na America, de que mais nenhum intelectual público em língua portuguesa e residente naquele país, poderá reivindicar.

Diga-se ainda que Diniz Borges se integra numa outra tradição muito americana: o jornalismo de combate e denúncia, que vem desde um H. L. Mencken ao falecido Hunter S. Thompson, mesmo que nunca utilizando as suas linguagens iconoclastas, mas partindo do dever crítico de jornalista ou comentador mais do que encartado pelo saber e pela reflexão sem tréguas. Liberal, à moda americana? Sem dúvida. A sua seriedade — sobriedade — reflectem essas suas leituras que de dentro do próprio sistema tentam abalá-lo decididamente — civilizadamente, cordialmente.

_____________

Diniz Borges, A Década Perdida: crónicas de uma América cinzenta, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2012.  Escrito meses antes da recente eleição presidencial americana.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s