Pais e filhas, Portugal e Brasil

 O Desterro era o futuro. Ele acabara de chegar ao que estava por vir.
Paulo José Miranda, Filhas

 

/Vamberto Freitas

 

Este é um romance tão curioso como belo, especialmente para qualquer leitor açoriano que esteja consciente da sua história atlântica, desde as origens ibéricas ao início da construção de uma diáspora que vai desde a América do Norte à do extremo Sul do mesmo continente, a consumação do triunfo e da tragédia, como na Odisseia original, e depois como na nossa, que dos livros passou à realidade, às navegações não fictícias, mas sim forçadas, pensadas e sofridas. Filhas, o romance acabado de publicar pelo jovem autor português residente no Brasil há alguns anos (e vencedor do Prémio José Saramago com uma obra anterior), Paulo José Miranda vem, pela primeira vez deste lado mar, como que a completar um outro romance igualmente desbravador com semelhante fundo temático, Um Quarto Légua em Quadro, de Luiz António de Assis Brasil, mas agora com uma outra originalidade pós-moderna muito própria, também misturando tempos, passado e presente, e sobretudo uma síntese histórica que me era de todo inesperada, inclusive o seu desfecho. Filhas combina o intimismo familiar das relações entre pais e filhas, mas num enquadramento que abrange a história da colonização açoriana de Santa Catarina, interligando as gerações que do Continente povoaram as nossas ilhas, e que de lá e de cá em seguida arriscar-se-iam na nova aventura que foi o início da construção da nação brasileira antes, durante, e depois da sua independência.

Em Filhas, acompanhamos esses experimentados colonizadores no hemisfério sul – e as gerações seguintes, os luso-brasileiros, na luta, busca e definição da sua identidade entre as duas nações profunda e inseparavelmente ligadas por sangue, língua, cultura e lealdade de clã, como neste caso — uma nação tinha sido “abandonada” e a outra “por vir”. Entre esses dois tempos que estruturam toda a narrativa, feita num feminino anónimo, como só descobrimos nas suas últimas páginas, intercala ainda, não fora esta uma ficção que nos transporta até aos dias presentes, meditações, uma vez mais, sobre o relacionamento entre pai e filha, entre amantes, e a perda irremediável da sua morte, a arte virando-se para dentro, para si própria, numa tentativa de um melhor entendimento da sua génese e da natureza e essencialidade nas nossas vidas. Ao contrário do que pensarão alguns, a literatura que, com alguma liberdade semântica, poderemos chamar de luso-brasileira, desde o já referido Luiz António de Assis Brasil e Angela Dutra de Menezes (Mil Anos Menos Cinquenta) a Paulo José Miranda, não perpetua nem preconceitos de rua nem estereótipos dos portugueses no Brasil, quer no início dos séculos passados quer nos tempos correntes: lado a lado aos “coronéis” fazendeiros e seus peões, falam em contraponto personagens inteiramente intelectualizadas desde as suas origens portuguesas e coloniais à sua presença no Brasil de hoje. Não se trata, aqui, de uma verdade de somenos importância – contrapõe-se decididamente a todos os outros, que nas duas margens do Atlântico nunca conseguiram sair de supostas raivas históricas e de complexos muito mais freudianos do que ideológicos ou culturais. Que Filhas foi publicado no ano em que o Brasil estará mais presente em Portugal, e vice-versa, é uma feliz coincidência – para os que não subestimam ou não ignoram o poder da arte na aproximação e apreciação global entre dois povos, como diria um outro autor do mundo anglo-saxónico, separados por uma língua comum, e pela ignorância mútuas.

Artur Cabral, professor universitário e autor de livros académicos, saiu de Portugal há alguns anos rumo ao Brasil, e lá casou com uma brasileira que já está falecida na abertura do romance, tendo-o deixado viúvo e com uma filha, agora de vinte anos de idade, de nome Rafaela, vivendo os dois sós em Florianópolis, ele inteiramente para ela, ela inteiramente alienada dele pelo que entende terem sido “traições” à memória da mãe perdida com outras mulheres (prostitutas) nas suas esporádicas viagens de viúvo a São Paulo. Toda a estória decorre enquanto Artur assiste passivamente com os seus amigos e vizinhos brasileiros a um jogo de futebol num botequim local, a conversa regada por cerveja no calor tropical insuportável. À sua volta, outros que também sofrem a vida moderna de modos vários: divórcio, criação de filhos agora monoparentais, sonhos profissionais não realizados, como no caso de Joel, escritor que nunca chega a ser, não por falta de talento mas devido às circunstâncias da vida, com as quais os leitores, tal como os seus amigos locais, se identificam perfeitamente. Estamos num meio ambiente fechado de “ilha”, que combina os que vêem e se riem da vida como se de um mero e inconsequente jogo de futebol se tratasse com aqueles cuja hiper-consciência os afunda e os trava na caminhada para o fim. Entre a memória magoada, entre as perdas mais íntimas das suas existências, avistamos a beleza inocente por todo o lado, desde o corpo sensual de uma jovem ou outra que se passeia por perto ao mar cinzento cromado e depois azul celeste sulista, que bate em rochas e beija baías tão lindas como as do Pântano do Sul, vilarejo fundado por ilhéus de cá, os que saíram de uma faminta ilha açoriana para outra ainda sem vida enraizada pouco tempo depois do edital de D. João V, em 1746, de um desterro para outro, ou ainda o casario em volta da mítica Lagoa da Conceição, cuja beleza insinuante só de bruxedo poderia ter nascido. Na diferente terminologia da conversa futebolística entre Artur e os seus amigos, tudo sem importância e sem consequência, a palavra dita de outro modo vai simbolizando o que nos aproxima, mas desde sempre também nos faz desentendidos. Cada capítulo da história da colonização continental-açoriana é seguido por um da actualidade das vidas em foco, só que o passado dos protagonistas Artur e Rafaela vem directamente dos protagonistas de Setecentos e séculos seguintes, de João Pedro Menezes de Oliveira Cabral, cujo tetravô trasmontano tinha arribado séculos antes à ilha de São Miguel. A narrativa dupla, numa leitura necessariamente sequencial, não apresenta qualquer dificuldade ao leitor, só que se torna quase impossível uma síntese integrante de toda a trama. Basta dizer que os Oliveira Cabral se tornam fazendeiros poderosos, mas condenados, por pecados originais e históricos, desde a imoralidade da escravatura às guerras brasileiras antes e depois da independência, muito especialmente a de 1835 que visava a separação total do Sul do resto da nação. A fúria da História e o quase apocalíptico vazio presente, a construção da nacionalidade e uma identidade ainda e sempre presa às origens europeias da classe então dominante, sexo, violência e arte: eis a outra meditação sem tréguas, quase ensaística em longos passos da narrativa, de um autor que se sobrepõe ao narrador/a de Filhas, esse autor, ele próprio, parecendo já inteiramente luso-brasileiro também em busca contínua do seu lugar no labirinto das suas origens e vida em dois hemisférios em tudo contrastantes, desde o sol tropical às linguagens tão precisas como imprecisas de um contexto para outro. A “viagem ao contrário”, pouco comum na história de vida dos nossos vencedores além-mar, acontece aqui num acto de revolta contra um país incerto, e pela lealdade às raízes que nunca secam, nunca se esquecem.

“Chegaram – diz-se da família fundadora da Ilha do Desterro, os Almeida Cabral – em Março de 1829 e nunca mais voltariam ao Brasil… A falta de enraizamento das pessoas, a sensação de pertencerem a outro lugar, que passa de sangue em sangue, confere à paz um estatuto secundário. No Brasil, mais importante do que a paz é vencer. E para vencer vale tudo. Viver para vencer é viver em guerra. A mudança para os Açores, para Portugal, foi a mudança para a paz”.

Artur, seu descendente trasmontano, tentaria de novo a aventura, e volta a falhar, pai português e filha brasileira em guerra silenciosa mas real. O velho e novo mundos em busca contínua da convivência e da identidade híbrida, uma identidade finalmente enraizada na fundura da terra abastada, mas ainda sem rumo certo. A palavra, o seu simbolismo, raramente contém ou transmite toda a verdade, ou sequer uma verdade, se é que uma verdade totalizante possa um dia existir fora de uma qualquer utopia. Filhas funciona como deve funcionar um bom romance — propõe uma síntese das novas dúvidas em relação ao nosso próprio ser como parte integrante de uma colectividade tão extensa como um Brasil, ou tão isolada como um clã de sangue e memória partilhada numa ilha atlântica.

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Paulo José Miranda, Filhas, Alfragide, LeYa/Oficina do Livro, 2012.

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