As bestas à nossa porta

Capa O Segundo MinutoLá do alto a montanha via tudo. Mesmo no escuro. A cegueira é a condição humana favorita.

João Pedro Porto, O 2egundo Minuto

 /Vamberto Freitas

 Aquilo a que o autor chama a sua própria (sur)realidade – a ambiguidade semântica é deliberada, naturalmente – é o que marca este seu segundo romance, que vem na sequência de O Rochedo que Chorou (2011). O título em epígrafe acima não é uma gralha, pois João Pedro Porto parte para outros campos linguísticos e romanescos, ora inventando um léxico muito próprio e essencial a uma outra expressão de velhas “realidades” e “tradições” ora convocando as mais conhecidas ou mesmo míticas referências literárias e culturais do mundo, lembrando aos seus leitores que a História não passa ao seu lado (a “utopia” desejada desde sempre na literatura ocidental), e que estão — estamos — condenados a pertencer e a sofrer a ebulição moderna do mundo.  Não será preciso ler autores, alguns deles medíocres, que se têm “apropriado” das ilhas para tecer algumas ficções ou até poesia em redor da ideia de paraíso supostamente isolado, do homem no seu estado quase primordial, o baleeiro picoense repetidamente em cada uma desses linhas ou versos. Só um autor que sente por dentro esta “realidade” atlântica – metonímica de qualquer outra geografia para além do horizonte — poderá escrever não em volta de ideias mais ou menos já banais na escrita ocidental (a “ilha” continua a ser um tema aliciante entre alguns escritores de renome internacional), mas com o saber e a garra que qualquer ficção necessita como proposta de leitura e/ou revisitação a territórios que nos permanecem desconhecidos.

Este novo romance de João Pedro Porto, O 2egundo minuto, é também um segundo romance (e quem sabe se faz parte de uma eventual e arrojada trilogia romanesca?) revendo a história e a condição humana vivida nas ilhas no contexto global dos nossos dias, os dias de fúria e busca solitária por uma saída dos infernos que estão a ser ressuscitados pelas forças representativas das “bestas”, as massas amorfas e escravizadas, quase invisíveis nestas páginas mas tão reais como o efeito radioactivo nos holocaustos já vividos ou por vir. O estado da Humanidade é tão-só insinuado aqui pelo seu narrador, mas a resistência aos bárbaros — que sabemos, nesta ficção, estarem já a dominar a nossa existência — toma mil e uma formas, não á travada por qualquer guerrilha de campo ou cidade, mas sim no interior de cada um de nós, quer dizer, dos poucos personagens que se movem neste círculo dantesco, no qual a visão do céu no topo da Montanha não passa de um Inferno disfarçado ou escondido; não está nas nuvens, está em nós. Ouvir os seus narradores é como ouvir, suponho, a lengalenga de um demente deitado no sofá a produzir sons para o seu psicólogo clínico (a profissão do próprio autor), o paciente que vê mas não consegue fazer a mínima ligação entre o objecto ou o sujeito descrito com qualquer “significação, como Benjy na abertura de O Som e a Fúria de William Faulkner, autor que também se entregou à luta artística dentro de outras “ilhas” assoladas pela memória das suas gentes, o passado não permitindo uma saída fácil para uma suposta “modernidade”, que, de qualquer modo, nunca se cumpriu em qualquer parte, para além do horror ou das trevas que começam e acabam em nós, rio acima rio abaixo.

O narrador de O 2egundo minuto apresenta-nos ao que de melhor poderá acontecer em qualquer literatura identificada com uma cultura, determinadas linguagens, “visões do mundo” e geografias próprias: parte da sua tradição literária para territórios totalmente (ou quase) inexplorados pelos seus antecessores. A melhor literatura da nossa geração tem-se encarregado de um revisionismo histórico implacável: escondido na beleza das ilhas está o ser humano maioritariamente oprimido, sujeito a uma estrutura societal de todo injusta e desequilibrada desde a sua génese até aos nossos dias. Desde Vitorino Nemésio em Mau Tempo no Canal que testemunhamos a ascensão de uma pequena e inconsequente burguesia citadina tardia, que nada aprendeu nem com os seus nem com os outros além-fronteiras, tal como com João de Melo em O Meu Mundo Não É Deste Reino recuamos à nossa ruralidade no seu estado de crueza bíblica durante primeira metade do século passado. O tom distópico na discursividade destes como de alguns outros autores nossos é regra constante, com a solução sempre olhada e sugerida como existindo só para além do horizonte que rodeia cada ilha, tornada, uma vez mais, metonímica da universal condição humana, a necessidade, sempre, de se navegar em busca da salvação, mesmo que se saiba que nada de novo ou redentor encontraremos. Ulisses, eterno. João Pedro Porto dá o nome de Nemésio ao seu protagonista erudito na última fase da sua vida, na companhia da sua amante de nome Severina. Um dos poemas que abre as secções narrativas do romance tem o título de “Vida e Morte de Uma Palavra”, que nos remete logo para João Cabral de Melo Netto, como outros passos nos poderiam levar a outra figura referencial na vida de Nemésio, ele próprio, mas isso requeria outra leitura que não esta. Existem mais dois ou três personagens cujos pontos de vista vão também apontando ao leitor o estado interior de cada um destes seres inventados.

Emoldurando toda a narrativa de O 2egundo minuto, só aparentemente desconexa no tempo e nos seus andamentos desde os anos 60 até aos nossos dias, está boa parte da filosofia existencialista, que afirma estarmos sós e sem Deus, e tudo dependerá do indivíduo para reinterpretar os seus mundos e recriar os seus valores, sabendo que a salvação é agora um desejo solitário de cada um, tornando a “sociedade” absolutamente irrelevante, feita de “bestas” massificadas a evitar a todo o custo. Não é a glorificação do coração “solitário” ou “caçador”, é a implícita observação (ia a dizer condenação, mas um escritor que mereça a nossa atenção apenas mostra sem outros comentários) do estado a que sociedade e as suas comunidades repartidas pelo Atlântico chegaram na sua suposta “modernidade”, a jangada de Saramago a afundar-se na sua deriva agora sem destino Aliás, toda a trama do romance gira em volta de uma subida à Montanha por Nemésio como último gesto seu na tentativa de se entender, e de entender – ou confirmar – que mesmo conseguindo ir às alturas nada de novo irá ver, viver ou sentir. Subimos indiferentemente com ele a Montanha, tal a como a Montanha nos olha esfingicamente. Camus, insista-se, está presente aqui um pouco por toda a parte, como está o chamamento contínuo a todo um rol de autores e outros artistas de várias culturas e línguas, os que reforçam a ideia de que a Humanidade em toda a parte e durante toda a nossa História, desde a Antiguidade (lugares nossos nas ilhas e no continente tomam nomes aqui vindos dos clássicos e da mítica ocidental) aos dias presentes procura por todos os meios imagináveis o que nunca encontra, ou encontra o que não deseja. É já muito raro encontrarmos um ficcionista e poeta com a erudição de um autor como João Pedro Porto, particularmente entre a sua geração, quase toda ela rendida a um novo realismo do quotidiano, a um minimalismo literário já tão cansativo na arte como vida.

“Os deuses habitam nas teses – lembra-nos o narrador num capítulo de deambulações por Alba, uma metrópole de iluminados – e nas compulsões dos escritores e dos artistas. Um, homenageia o deus que habita o seu sapato, sapateando por três vezes, debaixo da escrivaninha, antes de fazer escorrer a caneta sobre o papel. A outra, presta tributo ao deus do estômago – que lhe alimenta as ideias – sorvendo chá de macela por oito vezes a custo, antes de pegar na viola d’arco. São os deuses do minuto: num primeiro o são, no outro, não. No fundo, não os há, pois não há totalitarismo em Alba. Também não existem oráculos ou adivinhos”.

O 2egundo minuto ora parece um longo poema em prosa e poesia estruturada, ora prosa deliberadamente desestruturada, como uma lenda de um “tempo sem tempo”, como uma estória demente significando as mais amargas verdades no fim das vidas que aqui nos são apresentadas, recordando que a solidão nos seus caminhos foi e será sempre a condição de vida que lhes coube, a condenação propositada dos deuses – ou a nossa condição na ausência deles, que existem só no fervilhar dos nossos mais atávicos medos – sem saída alguma. Como num quadro abstracto de Jackson Pollock que não entendemos mas cuja beleza de cores e formas nos prende o olhar prolongado, a prosa de João Pedro Porto muito a esse gesto se assemelha – pode o leitor não a absorver de imediato, mas a sua beleza não nos larga nunca.

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João Pedro Porto, O 2egundo minuto, Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2012.

 

Humboldt e Aimé Bonpland na América do Sul

Capa Figura na SombraAfasta-se de tudo, interna-se na selva. Lá, longe de tudo que fere sua alma.
Luiz António de Assis Brasil, Figura na Sombra

/Vamberto Freitas

 Bem sei que se há um escritor brasileiro contemporâneo relativamente bem conhecido e reconhecido entre nós, esse escritor será sem dúvida Luiz António de Assis Brasil, e o que muita intimidade pessoal e relacionamento intelectual mantém com Portugal no seu todo, e muito especialmente com os Açores. A sua vasta obra de ficção e ensaísmo vem na tradição das literaturas sulistas, incluindo as do sul dos EUA: epopeia e anti-epopeia na fundação historicamente atribulada das suas sociedades, em que a Europa dominou mas teve de conviver e rever-se na companhia de outros povos, os próprios nativo-americanos e os africanos. William Faulkner regressava obsessivamente às personagens e às suas tragédias de livro em livro, de época em época, a memória magoada de todos eles o foco temático numa dialéctica entre o privado e o público, o indivíduo simultaneamente desenraizado mas condenado a construir e a integrar-se na sua comunidade, a História movendo-se como um tufão implacável que não deixa esconderijo a ninguém. Se o autor norte-americano de O Som e a Fúria fica para sempre associado artisticamente à tragédia de uma sociedade em guerra, e depois em defesa perpétua, por vezes raivosa e beligerante, de uma identidade aglutinadora, no Brasil foi Érico Veríssimo que ofereceu ao mundo uma obra em múltiplos volumes e de igual poder e significado, O Tempo e o Vento. Creio que não há mais nada nas Américas da sua época que se assemelhe a este feito literário, não pela ausência de outros grandes nomes, mas pela natureza da própria obra — e das suas geografias mais chegadas a nós todos aqui deste lado do que poderá parecer à primeira vista. Uma grande literatura nacional só pode acontecer num encadeamento de escritor para escritor, de geração para geração, de época para época, a ansiedade da influência provocando esse dialogismo criador e construtor das identidades múltiplas de cada pais e cultura, a ansiedade que ainda mais leva cada artista a querer deixar a sua versão da memória colectiva a que pertence.

Veio tudo isto a propósito do novo romance de Luiz António de Assis Brasil, Figura na Sombra, uma magnífica transfiguração das viagens e estudos botânicos do alemão Alexandre Von Humboldt e do francês Aimé Bonpland (mais tarde, e após o seu regresso definitivo ao continente sul-americano, e vivendo entre a Argentina e o Brasil, chamado de Don Amado Bonpland), que aconteceram em vários países da América do Sul durante a última parte do século XVIII até ameados do século XIX. Como fundo histórico em dois continentes, pois, temos a Revolução Francesa e a luta cerrada pela consolidação de novas fronteiras e nações no hemisfério sul. Por certo que as obras científicas dos dois europeus são conhecidas de todos, Humboldt tendo estátuas públicas nos dois continentes, as biografias dos dois amplamente divulgadas entre as classes cultas. Só que ao romancista resta sempre um espaço desconhecido e uma biografia íntima que só poderá ser imaginada, sendo só a ficção capaz de preencher e sugerir as “evidências não vistas”, o ser humano por detrás figura pública, os desejos secretos comuns a todos para além da genialidade científica ou artística envolta por vezes mais na lenda do que nos factos. Para um leitor, não haverá nada de mais gratificante do que juntar o ser real ao ser imaginado, ou mesmo fantasiado.

Antes de mais, enquadremos o presente volume no conjunto de romances que constituem uma distinta tetralogia que tem como tema e fio condutor as visões, experiências e consequentes narrativas de “estrangeiros” no Rio Grande do Sul, ou mais vastamente, como agora, o extremo sul do continente: O Pintor de Retratos (2001), A Margem Imóvel do Rio (2003), Música Perdida (2006), e, agora, Figura na Sombra (2012). Eis a síntese possível neste espaço, na minha própria leitura: Luiz António Assis Brasil como que se vê e revê nos seus protagonistas (não é possível, estou convencido, criar personagens centrais numa narrativa sem uma certa proximidade identitária entre o autor e a “figura” por si inventada ou reinventada, não nos factos biográficos, naturalmente, mas em sensibilidades éticas e estéticas), entrelaça-os sua caminhada muito pessoal em busca da sua felicidade e realização possível enquanto gerem no seu quotidiano os abalos colectivos em sociedades simultaneamente muito velhas, multirraciais, e tentando uma nova integração na comunidade humana universal. Portugueses e seu descendentes, espanhóis, nativo-americanos, africanos, e depois os restantes visitantes que se insinuam em território para eles estranho mas do qual tentam fazer parte, guiados pelos mais diversos impulsos, um outro palco das suas vidas. Cada título, aliás, indica desde logo ao leitor de que arte, ciência ou mesmo política parte cada um dos seus protagonistas, os que nos proporcionam o ponto de vista e demais referenciais através dos quais nos relatam a sua estória de vida, necessariamente enredada na história dos seus momentos sociopolíticos nessas terras por onde deambulam ou que procuraram. Uma vez mais, a melhor e mais perdurável literatura é feita desta estrutura mista, nunca o indivíduo, mesmo que assim se pense ele próprio, podendo estar desligado do mundo ou mundos a que pertence, e nunca livre dos vendavais que definem e emolduram os destinos colectivos. Estas são, para mim, as linhas constantes de toda a obra de Assis Brasil.

Figura na Sombra nunca despacha por completo Humbdolt da vida e afazeres de Aimé Bonpland, mas é neste que a narrativa se concentra. O que mais fascina e domina o narrador é a opção do seu personagem de secundarizar a sua carreira científica e ignorar os louvores europeus pelas descobertas de um inesperado novo mundo no seu estado puro. Da glória pública de uns – como a de Humbdolt — todos conhecem. Da glória numa luta pela liberdade individual e pela autonomia ante os que em nosso redor nos dominam reside o mistério, a coragem e a dignidade. Bonpland praticamente entrega de bandeja ao seu parceiro nas ciências o caminho para a fama e para a futura estátua nas ruas da sua Alemanha e do hemisfério sul. Após a sua primeira e prolongada viagem às Américas na companhia de Humbdolt, Aimé regressa à França pós-napoleónica, que continua a cheirar ao mofo de uma “nova” aristocracia reinstalada. Enquanto o seu parceiro se retira para o seu país e começa a escrever e a publicar uma obra que era dos dois desde o início, Bonpland decide regressar ao Sul na companhia de uma segunda mulher e enteada, literalmente estendo tendas pela selva ou construindo as suas vivendas de terra em terra, sofrendo as maiores perdas pessoais, sofrendo ainda mais a loucura de “sociedades” cuja política era dominada por caudilhos ao mesmo tempo iluminados e loucos, como num Paraguai semi-selvagem governado por El Supremo, Caraí Guaçu. É aqui que o famoso Doutor esteve preso no seu domiciliário durante cinco anos, saindo só para atender o ditador que o havia mandado prender, coleccionando as yerbas da sua obsessão científica, rodeando-se quase sempre de peões, índios e outros servidores em pequenas e improvisadas fazendas. Trata-se de um retrato fabuloso da paixão desdobrada ou dividida pela Natureza e pelas pessoas que Bonpland ama e abandona durante todo o seu percurso de vida. Do principio ao fim, a relação pessoal entre Humbdolt e Aimé nunca deixa de ser insinuada, em gestos e palavras, como sendo algo mais do que uma paixão de mera amizade platónica, nunca se materializando para além de um rápido toque. Qualquer coisa – eis uma interpretação simbólica — como as próprias relações históricas entre a Alemanha e a França. O fim de Bonpland é previsível, mas não deixa de fazer lembrar ao leitor que toda a “grandeza” acaba inexoravelmente do mesmo modo para todos, ficando só a memória de termos sido, quando alguém próximo de nós existe para com essa memória ficar.

Como sempre na obra de Luiz António de Assis Brasil, o prazer do texto sobrepõe-se à própria matéria geradora da sua ficção. Quando um escritor sabe combinar as duas coisas, o leitor entra no estado de suspensão vivencial, queda-se nas vidas reinventadas, querendo com elas permanecer por mais tempo do que permitem o número de páginas do romance. O autor de a Figura na Sombra tem sido até hoje dos mais premiados no Brasil e no estrangeiro, sendo ainda o escritor com o maior número de obras transformadas em filmes. Mantém ainda desde 1985 a Oficina de Criação Literária do Programa de Pós-Graduação, de renome nacional, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde é professor catedrático.

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Luiz António de Assis Brasil, Figura na Sombra, L&PM Editores, Porto Alegre, 2012.

Regresso ao Sul

Capa A Cor do Sul nos teus olhosÀ esquerda, ou no espelho da tua memória, /passo ainda. Olha.

Eduardo Bettencourt Pinto, A Cor do Sul nos teus olhos

/Vamberto Freitas

 Rememoração: Eduardo Bettencourt Pinto nasceu e viveu em Angola até 1975, o ano da nossa libertação e desgraça nacional, a dialéctica da vida colectiva a cumprir-se. Filho de pai continental e mãe açoriana, também havia de cumprir o seu e nosso destino: navegar uma vez mais em busca do pão e da decência. Depois de atravessar outras fronteiras africanas, viria para a sua terra ancestral (São Miguel), onde durante alguns anos trabalhou e escreveu, até que em 1983 partiria com a nova família constituída para Vancouver, no oeste pacífico do Canadá, permanecendo lá até hoje. Tem produzido uma obra literária admirável que se espalha pelos vários géneros, desde o conto e romance à poesia e prosa poética, dando continuidade ainda ao que ele também já havia realizado nos Açores, quando com Emanuel Jorge Botelho coordenou e dirigiu a revista Aresta, de pouca duração mas de longa memória. Na diáspora, nunca se confinou a uma redoma de escrita própria, sempre estendeu a mão aos seus colegas em toda parte fundando uma pequena editora (Seixo Publishers, cuja chancela vem ainda estampada no presente volume de prosa poética), e durante algum tempo dirigiu com o brilho de sempre uma outra revista virtual virada naturalmente para a escrita saída das suas geografias em tudo significantes, o que quer dizer a boa literatura em qualquer língua ou de qualquer outra sociedade – Seixo Review, do qual saíram dez extensos números. Acrescente-se aqui que, para Eduardo Bettencourt Pinto, existe algo de muito mais vasto do que a “literatura portuguesa” – ele é hoje, como sempre foi, um atento leitor das novas gerações de escritores oriundos ou residentes nos países africanos lusófonos, e ainda com o Brasil sempre no centro dos seus/nossos afectos literários e culturais. Por minha parte, sempre o considerei um “escritor açoriano” – já estou a ouvir as carpideiras de serviço, mas também já estou muito habituado aos seus ruídos – dada a obsessão criativa com que tem construído a maior parte da sua obra, as suas imagens e memórias, as suas saudades versificadas, o seu posicionamento na sua própria biografia e nos seus laços de pertença. Esta minha visão do autor de Emersos Vestígios (1985), Menina de Água (1997) ou ainda de O Príncipe dos Regressos (1999), em nada limita a extensão de todos os seus afectos e referenciais geográficos e humanos. Muito pelo contrário, a expressão “escritor açoriano” traz necessariamente consigo a semântica do andarilho – “Além da literatura, a fotografia é outra das suas paixões. E as viagens” — do escritor no labirinto de uma globalização literária autêntica, e não só a dos teóricos que nem a freguesia ou a aldeia ao lado conhecem muito bem. Um dos seus livros de poesia atesta isso mesmo – Travelling Shadows. Raro é o evento literário no nosso arquipélago ou na diáspora – participa de quando em quando em encontros internacionais de vária ordem linguística e cultural — em que ele não esteja presente.

A cor do Sul nos teus olhos acaba de ser publicado, e creio estarmos ante um dos melhores livros de Eduardo Bettencourt Pinto, pelo menos dentro do género a que nos habituamos a chamar de “prosa-poética, algo entre o poema de verso livre e prosa cuja única regra formal será a sua musicalidade rítmica, o seu andamento entre tempos, lugares e pessoas — e só depois os significados que o leitor retira de cada palavra, de cada frase, de cada “poema”. Quase parece um livro testamentário no qual o autor derrama todo o seu passado e presente condição de vida, uma síntese emotiva de toda a sua obra. Aliás, A Cor do Sul nos teus olhos como que dá seguimento por outros modos a livros anteriores e marcantes, como Tango nos pátios do sul (poesia, 1999) e a ficção de A casa das rugas (2004). Tenho insistido noutros escritos que abordam a minha geração de escritores açorianos que o tema do regresso é agora quase transversal a todos eles, a mais evidente convergência das suas obras publicadas nestes últimos anos. Numa cultura feita desde sempre de partidas e chegadas, de embarques e de exílios vários, nem o sucesso das suas vivências nas díspares geografias do mundo nem os falhanços ou desilusões do e no seu percurso evita a vontade de, pelo menos, revisitar ou lembrar as origens, a força das raízes que não nos aprisionam mas observam-nos e chamam-nos a si com a insistência de um deus benévolo ou cruel. Não foi nunca a chegada às terras prometidas o sentido primeiro das suas aventuras, foram as incertezas desafiadoras dos caminhos para lá chegar, a aprendizagem de estar com o outro, mas sobretudo de o observar, ele próprio, nos seus redutos e depois constatar que o universalismo é isso mesmo: a humanidade irrequieta sempre á procura do lado lá de sua casa, ou da sorte. Parte da beleza destes poemas e prosa de E. Bettencourt Pinto é serenidade da linguagem, a sensualidade manifesta em cada uma das suas companhias – ou companhia desdobrada e reinventada com o decorrer do tempo e sabedoria adquirida lado a lado. Este é também um outro livro de viagens, reais mas sobretudo interiores, o escritor decididamente virado para dentro, para si próprio, numa tentativa de entender uma longa vida de caminhadas em dois hemisférios em tudo opostos, o frio de um norte supostamente rico a clamar pelo calor humano do sul luzidio e fértil noutras géneses de se estar e ser no mundo. África, Brasil, Europa – e depois, inevitavelmente a ilha açoriana, ou simplesmente a ilha imaginária em cada um de nós, o conforto da distância de toda a História que nos amedronta, a terra-mãe sempre próxima para nos apaziguar nas angústias de navegadores perpétuos, a ideia de permanência mais fantasia do que possibilidade (“Deixaste-me partir descalço/sobre as minhas feridas./Onde estás, companheira de todas as águas?/A noite é uma janela aberta sobre o mar”). São poucos os escritores que têm esta capacidade de misturar um confessionalismo pessoal, íntimo em todos os seus sentidos, com uma narratividade do mundo exterior à sua volta, o regresso radical ao seu país profundo, mas sempre com a mão estendida ao outro a seu lado. É o contraponto mais inteligente ao poeta ou intelectual fechado num quarto vazio, estuporando e “condenado” o mundo todo em volta, é o contrário de um certo “existencialismo” de todo fabricado de quem se pensa um ser humano à parte de tudo e de todos. Em suma, é o contrário dos supostos “génios” que entre nós dominam desde há algum tempo a “literatura” do nada – e de ninguém. De “Um lenço branco”, transcrito aqui sem a quebra de linhas:

“Beijo agora o escuro, tão nu como a água sobre um corpo no verão. Que digo? As palavras são o meu trigo e não sei de onde vêm. Bebo nelas aquilo que sou: uma folha de girassol a gravitar no universo. É noite e nada posso fazer. Um século cresceu dentro de mim, todos os rios do mar. Estou naquele barco ao longe de onde te aceno para que vás ao meu encontro”.

Distância e proximidade, sempre, dos que o completam como ser humano à deriva, por assim dizer, em mundos sempre novos, a descoberta perpétua de quem vive vivo, mas sem nunca encontrar o lugar mítico da felicidade. Regresso, desamparo e saudade do que nunca foi, para além do sonho. É uma temática que aparece com especial força na escrita desta geração autenticamente cosmopolita, e que teve outras páginas tão poderosas e indeléveis, pelo menos para nós, desde O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas, de João de Melo. Se há uma literatura de língua portuguesa que nos fala directa e comovidamente, é esta que tem saído dos Açores durante as últimas décadas, ou então a que às ilhas regressa vinda das mais longínquas geografias, Ulisses cansado de guerra e de terras estranhas. Só os verdadeiros universalistas entendem o paradoxo de se ser “Estrangeiro aqui como em toda a parte”.

Por fim, quero ainda relembrar a todos que foi ele que, a partir do Canadá, seleccionou e organizou uma grande colectânea, intitulada Nove rumores do mar: antologia de poesia açoriana contemporânea (publicada pelo Instituto Camões em 2000, indo já na 3ª edição). Nem todos a leste das ilhas têm estado desatentos. A sua atenção poderá ser sempre meio tardia, mas eventualmente é inevitável. A cor do Sul nos teus olhos merece novamente uma leitura bem mais alargada do que costuma acontecer aos nossos melhores autores. Como muitos outros escritores e poetas de cá, encontra-se amplamente divulgado em publicações estrangeiras de diversa natureza.

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Eduardo Bettencourt Pinto, A cor do Sul nos teus olhos, Pitt Meadows, Canada, 2012.

Portugal e Brasil, ou o eterno esbanjamento lusíada

a ultima pepitaSim, mais uma vez Portugal encontrava-se dependurado em dívidas, e já havia temporada que nem ao menos os juros eram honrados.
Lucas Figueiredo, A Última Pepita

 /Vamberto Freitas

 Tem acontecido sempre o mesmo ao longo dos séculos: quando Portugal entra em dívidas e nem tem que chegue para os juros, acontece sempre o mesmo: fica despovoado, vai criar riqueza noutras partes, para outros. O problema é que parece nunca ter havido um período da nossa história, pelo menos desde os Descobrimentos, em que Portugal não estivesse em dívida e em apuros, com a elite sempre a governar-se bem, e os restantes rastejando pela sobrevivência, até que atrevessem o Atlântico e se salvem num novo oásis a oeste, sempre a oeste, e nunca leste, como bem sabemos. Ler neste momento a magnífica narrativa histórica que é o recentemente publicado A Última Pepita: Os Portugueses e a Corrida ao Ouro do Brasil, de Lucas Figueiredo, será como ler qualquer livro sobre a nossa situação actualíssima, com a mesma linearidade e pormenores, que só mudam de nome: a descoberta de um novo maná, o seu esbanjamento imediato, o enriquecimento descarado e ilícito de uns tantos, e a pobreza generalizada de todos os outros portas adentro. Uma única nota positiva nesta ou noutras leituras abordando o mesmo tema, a mesma tragédia: nunca tem faltado uma saída, mesmo que só para recomeçar logo de seguida numa nova descida à indignidade de estado e de comunidade, nossa fiel irmã lusa. Só um pesquisador-jornalista-escritor poderia escrever com tanta clareza e múltiplos significantes, que interligam todo um passado ao nosso presente. A Última Pepita (o título refere-se à grande pedra de 20 quilos de ouro que tinha sido encontrado em Goiás em 1734 e obedientemente enviado a D. João V, só redescoberta em Lisboa por D. Luís I “num triste dia de 1876”) vem recheado de notas contextualizantes e de uma extensa bibliografia historiográfica, mas a sua leitura escorre como se de um romance se tratasse, pleno das mais estranhas e épicas personagens e acontecimentos entre São Paulo e os sertões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso e Rondónia, com Lisboa servindo de centro vigilante e insaciável sugador. Existe mais uma dedução construtiva destas páginas de lágrimas, fúria e ladroagem nos dois lados do Atlântico: na busca do ouro que acabaria torrado nos cofres sobretudo ingleses e franceses para alimentar a pura vaidade e loucura aristocrática à beira Tejo, fundaram-se os alicerces de algumas das mais belas cidades do Brasil (como Ouro Preto, em Minas Gerais), e, muito mais importante ainda, os bandeirantes que deixaram as suas povoações paulistas ou litorais no início século XVII lutariam e empurrariam cada vez mais as fronteiras do seu país, mesmo quando tendo de levantar armas com o então inimigo de sempre naquelas partes, a Espanha, ocupando hoje mais de metade do continente sul-americano.

Revejo o meu exemplar de A Última Pepita, e verifico que está praticamente todo sublinhado e anotado pelas mais variadas razões, desde datas, nomes de figuras e “personagens” (pois alguns parecem mesmo saídos ma mais imaginativa ficção), áreas geográficas do interior do país imenso, mas sobretudo pelos imparáveis e audazes passos de prosa que nunca deixa de ser tão objectiva como, digamos, sentenciosa, vindo daí toda a sua cativante força narrativa para quem lê por puro prazer e, sim, aprendizagem. Que os “especialistas” debatam esta ou aquela afirmação, neguem ou não um “facto” ou outro, está fora dos meus interesses ou curiosidade. Quando uma história é contada pela primeira vez, ou revista segundo novas investigações ou imaginação na procura de outra documentação e outras fontes, como parece ser o caso aqui, ao leitor restará absorvê-la consoante o seu grau de interesse ou esclarecimento do tema, e ainda o prazer do texto, repita-se, tornando-se nos principais motivos de atenção sustentada. Quando esse texto se dirige ao passado de dois países para sempre em convivência total (a nossa “emigração” para lá começou logo em 1500, como se sabe, e nas últimas décadas recebemos mais de cem mil brasileiros nesta que é a sua pátria ancestral, ou pelo menos de indelével referência linguística e cultural), quando liga brilhantemente a sorte comum de dois povos, ninguém em qualquer das margens atlânticas poderá saber de si sem saber do outro. Que o ouro brasileiro foi uma condenação para nós, fica mais do que explícito neste livro, restando-nos, desde a cessação da sua chegada nas naus a meio do século XIX, a tal pepita gigantesca e inúmeras peças de ourivesaria escondida a sete chaves de quase toda gente, tendo servido só, ontem como hoje, a meia dúzia de privilegiados. Até nisso, a arrogância de Estado nos impõe. Mostram tudo portuguesmente a dignitários estrangeiros para impressionar e fazer de conta que um dia fomos muito ricos e de bom gosto — nem uma coisa nem outra é verdade, bom, na totalidade dos factos. Bem sei que estou em deriva aqui, ou chegando a conclusões insinuadas numa leitura deste livro, mas é-me inevitável neste preciso momento da nossa história “europeia” não ver em primeiro plano a continuidade de tudo que entre nós está errado, da repetição desavergonhada e sem fim daqueles que desde sempre estiveram ou estão responsáveis pelo nosso destino. Os brasileiros — tal como a grande maioria dos portugueses, não esqueçamos — perderam o ouro, mas pelo menos ganharam um grande país. A epopeia rumo ao território que viria a chamar-se muito correctamente de Minas Gerais faz da mesma aventura na Califórnia alguns dois séculos depois parecer uma brincadeira dominical de crianças. O grau de sofrimento e coragem dos portugueses e bandeirantes luso-brasileiros rumo a territórios selvagens do sertão e áreas circundantes é quase inimaginável hoje, assim como a crueldade ante os índios, e mais tarde para com os africanos que para lá foram levados contra a sua vontade.

“A busca do ouro e num segundo momento a exploração das lavras contribuíram para a integração da colónia, mudaram o seu eixo geopolítico e proporcionaram-lhe um mercado interno, mas não só isso. Também consolidaram o alargamento das fronteiras, iniciado no século XVII com a expansão pecuária. Quando o rush tomou o rumo do Oeste paulista e avançou por Goiás, Mato Grosso e Rondónia, o que aconteceria na prática era a invasão do território espanhol — mais uma vez, paulistas e portugueses mandavam às favas o Tratado de Tordesilhas… O Brasil triplicou de tamanho. Graças em parte aos esforços da corrida ao ouro as fronteiras brasileiras somariam 8,5 milhões de quilómetros quadrados, território 15 vezes maior do que o da França, 17 vezes o da Espanha e 93 vezes o de Portugal. No futuro, apenas quatro países teriam mais terras do que o Brasil: Canadá, China, Estados Unidos e Rússia”.

Raramente os intelectuais brasileiros reconhecem — ao contrário de Lucas Figueiredo aqui — esta força lusa e luso-brasileira na construção definitiva do seu país, mesmo que tenha levado mais de um século após o descobrimento para o arranque definitivo na consolidação das suas outras comunidades fora do litoral, e a consequente definição das suas largas fronteiras. Embrenham-se, alguns, em comparações forçadas com a colonização e fundação dos Estados Unidos, falam como se um povo fosse superior a outro, muitas vezes chegando a considerações espúrias. Por que não estabelecem paralelos com o sul americano, que mais em comum teve com o seu país, o latifúndio e a economia esclavagista, onde sobressaem em alto muitas das virtudes portuguesas no Brasil? Será só uma questão de “bandeirantes e pioneiros”, narrativa em que uns só trabalhavam a terra e outros mais não faziam do que perpetuar a aventura exploratória?

A Última Pepita: Os Portugueses e a Corrida ao Ouro do Brasil é essa lúcida e inquietante história. Não poupa ninguém, nem portugueses nem brasileiros. A verdade ou o questionamento de cada palavra aqui leva-nos ao que um livro nos deve levar sempre: rever a história e provocar o pensamento. A maior lição é que nos entristece com a força da sua ironia: nada ou pouco mudou na terra lusitana europeia, ou Brasil, adicione-se — o esbanjamento das nossas elites cresceu ainda mais, são eles que sempre viveram para além das nossas possibilidades. A epígrafe acima aplica-se à nossa história antes e depois de século XIX, nessa aflitiva continuidade ainda sem resolução à vista.

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Lucas Figueiredo, A Última Pepita: Os Portugueses e a Corrida ao Ouro do Brasil, Lisboa, 2012.

Do mar e da terra açoriana: duplos olhares

Capa Onda S+úo palavrasTudo o que se diz é a recordação longínqua da intuição.
Virgílio Vieira, Ondas São Palavras

 /Vamberto Freitas

 Desde Margens do Olhar (1994) que Virgílio Vieira não publicava um livro de poemas, a ciência e outras obrigações absorvendo grande parte dos seus esforços académicos. Num programa da Antena 1/Açores, chamado Poema do Dia e coordenado por Urbano Bettencourt, foi lido por Margarida Benevides “Ondas São Palavras” (que dá o título ao presente volume), já em 2011, sinal de que não ele não tinha sido, nem poderia ser, esquecido. No entretanto, ia aparecendo nalgumas revistas ou suplementos culturais, especialmente na revista NEO do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, a publicação anual dirigida pelo meu colega John Starkey, e que credibiliza qualquer autor, conhecido ou não, que ia apareça. Ondas São Palavras, agora lançado, demonstra que afinal um escritor nunca poderá estar em silêncio, muito particularmente consigo próprio, e neste caso ficamos a saber que o poeta tem andado no seu habitual trajecto de viagens pelas ilhas, pela sua terra continental a norte, pelo estrangeiro, com os Estados Unidos de igual modo no centro das suas geográficas sentimentais, ou as que nele despertam a emoção essencial na construção dos retratos dessas realidades, e ainda mais dos seus momentos de epifania ante a Natureza, que aqui, como na maior parte da poesia açoriana, sobressai em imagens ora vivas e belas, ora no seu estado esfíngico olhando os homens indiferentemente na sua labuta de sobreviventes e na sua tragédia da vida entre a terra e o mar, em que o espaço maior e o sonho estão para além do horizonte. Outra nota que me parece relevante para o entendimento do exercício poético de Virgílio Vieira: para um cientista, para um biólogo, no seu caso, é naturalíssimo que a paisagem exterior, a flora e fauna no seu habitat genésico, lhe sirvam antes de tudo como metáforas da sua e nossa condição humana, como um objecto correlativo vivo, actuante, que lhe projecta ou sugere o seu estado interior, o seu estado de alma. Nada haverá de mais esperado, repita-se, do que um estudioso das matérias ditas exactas fazer do seu saber poesia, reconhecer que ante a indiferença das coisas e dos bichos sob o seu olhar atento estará sempre em primeiro lugar o sentimento do momento que tudo isso lhe desperta, a alma e as suas oscilações misteriosas, as suas dúvidas, o seu espanto ante tanta beleza consoladora e ao mesmo tempo uma ameaça destruidora de tudo à sua volta, lembrando-nos que o ciclo de vida é irremediavelmente isso mesmo. Permitam-me só mencionar aqui que na nossa universidade, felizmente, a poetização da Natureza conta ainda com outro cientista, também biólogo, cujos livros sobre temáticas açorianas semelhantes são brilhantemente marcados por uma prosa poética sem igual entre nós – falo de António M. de Frias Martins, em livros como Ilhas de Azul e Verde e O Anel da Princesa.

Ondas São Palavras traz-nos, pois, essa sequência de poemas cujos títulos significam de imediato a geografia como alma mater, como “mãe criadora, mãe alimentadora”, como mátria/pátria de todo o nosso ser, como metonímica da humanidade aqui e em toda a parte, e ante a qual nenhum de nós poderá ficar indiferente exactamente porque esse é o meio que molda o ser, que determina as nossas cosmovisões, que aproxima ou nos distancia de todos os outros. A voz poética de Virgílio Vieira tanto transmite o seu mais íntimo estado existencial do momento, como se transfigura no viajante fascinado pelo que lhe é diferente, mas que passa também a fazer parte de si e do seu imaginário permanente, como verbaliza o que imagina ser o pensar e o sentir de uma mulher (“Solidão no feminino”) imaginada no seu labirinto muito próprio, mas partilhando com todos nós, digamos, “memória e desejo”, ou a saudade na sua inevitável dualidade — passado e futuro sempre em convivência, o presente sendo sempre a nostalgia, o sentimentalismo, escondido ou não, das nossas vidas e sonhos. António Machado Pires diz no prefácio a esta colectânea de poemas que Virgílio Vieira não entra no desespero de muita – diria quase toda – escrita moderna ou pós-modernista, diz que o poeta está “numa paz interior de quem parece estar bem com a vida… numa época em que por vezes a moda é estar mal com o mundo, ser palavrosamente revolucionário e chamar a atenção pelo escândalo”. Vou relembrar neste momento que ninguém como os cientistas têm tantas razões para a serenidade ante o caos, são eles que melhor entendem a vida que acaba sempre em morte por entre as mutações que vai sofrendo em todas as suas fases e formas, nada podendo ninguém fazer para modificar essa condição cósmica. De resto, a realidade quotidiana dos nossos próprios dias é o escândalo, já nos faltam as palavras para o superar ou meramente representar, ou sequer o dizer, a ideia do desespero já nos é tão banal que nem literatura, em qualquer uma das suas formas, parece merecer. Resta-nos então o quê, aos poetas e aos seus leitores? O riso entendedor, alegre ou irónico, e sobretudo a memória de que no caos organizado que é a Natureza, tal como a vida dos homens, igualmente incerta e amedrontadora, a palavra tem de nos recordar constantemente que estar vivo é a nossa maior e única felicidade, que reafirmar a vida(life affirming, como dizem os americanos acerca da melhor literatura) é um dever supremo ante os que a destruiriam, que o que vale a pena para nós e para todos à nossa volta é contrapor ao escândalo a nossa recusa, a nossa dignidade, não corromper ainda mais a linguagem já corrompida para esconder o fogo com que outros nos queimariam a todos. Eis aqui parte do poema “Margens de outro olhar”, que creio sintetizar tudo o que venho dizendo do nosso mundo visto pelo cientista e pelo poeta, a razão lado a lado com o sonho:

Margens de outro olhar

vão temperando a vida com o brilho do sal,

como se fora outra vez a consciência

a falar dessa inquietude interior,

quase animal, mas nas mãos erguidas enleva a alma

desprendida da dor

(…)

 

Sim, estão aqui a tais viagens, principalmente pelas terras e pelos mares dos Açores, em títulos tão sugestivos como “Voamos perto das nuvens”, “A voz do mar”, “Marés”, “Silêncios da fome encoberta”, “O vigia das baleias”, “O regressante”. Virgílio Vieira nomeia depois coisas e afazeres que particularizam o nosso modo de ser e estar na vida, viaja, como já foi dito, por outras geografias, pela terra natal ou estrangeira, mas após essas quase sempre felizes deambulações, é o regresso a casa que acontece, os Açores tornaram-se-lhe o chão dos seus frutos predilectos, da sua sustentação para além da materialidade: as ilhas são um estado de espírito que nos agarra e não nos liberta mais, o fascínio da incerteza de cada momento perfeitamente conjugado com a segurança da “casa concha” nemesiana, quer dizer, a memória como que solidificada no basalto, o fogo que não destrói, mas sim cria e recria ilhas em frente, as passadeiras do nosso dia-a-dia, a arte sui generis que tanto vira relógio lembrando-nos o tempo que há-de sempre fugir, ou as palavras que nos retratam e que pensamos eternas. Um chão-pátrio é sempre feito de rituais sentimentalistas a que o poeta ainda dá voz nestas páginas, essenciais ao nosso equilíbrio pessoal e comunitário, uns desaparecendo outros permanecendo, todos eles, desde as vindimas por entre as pedras negras a uma chamarrita são os actos das nossas identidades, o cimento de uma comunidade plantada aqui há cinco séculos e que se tornaria um dos mais ricos viveiros humanos, que se estende até às Américas, cada geração aí nascida e criada regressando também à casa real ou simbólica da sua ancestralidade.

Por fim, destaquemos as ilustrações de vários poemas em Ondas São Palavras. Leituras mútuas de poetas e pintores são uma longa tradição na nossa e noutras línguas. Entre nós, Tomaz Borba Vieira, um co-autor deste livro, está bem posicionado, poeta que é da tela como do verbo. A sua assinatura aqui será de imediato reconhecida por quem conhece minimamente a sua vastíssima obra. Eis aqui as representações de um povo que sempre viveu entre a tradição e as exigências do meio e a modernidade de espírito que o trouxe para cá e depois o fez navegar à procura de outras povos, de outras vidas. De uns pescadores solitários numa praia e de um Dias de Melo meio século dezanove meio século vinte na sua postura de escritor das ilhas à sensualidade da mulher-mãe e/ou da mulher-amante, ficam completos, mais ricos, estes percursos de Virgílio Vieira – a palavra é imagem imaginada, a pintura imagem lembrada ou desejada. Afinal a poesia nas suas formas sempre idealizadas.

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Virgílio Vieira, Ondas São Palavras (com ilustrações de Tomás Borba Vieira e prefácio de António M. B. Machado Pires), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2012.