Do mar e da terra açoriana: duplos olhares

Capa Onda S+úo palavrasTudo o que se diz é a recordação longínqua da intuição.
Virgílio Vieira, Ondas São Palavras

 /Vamberto Freitas

 Desde Margens do Olhar (1994) que Virgílio Vieira não publicava um livro de poemas, a ciência e outras obrigações absorvendo grande parte dos seus esforços académicos. Num programa da Antena 1/Açores, chamado Poema do Dia e coordenado por Urbano Bettencourt, foi lido por Margarida Benevides “Ondas São Palavras” (que dá o título ao presente volume), já em 2011, sinal de que não ele não tinha sido, nem poderia ser, esquecido. No entretanto, ia aparecendo nalgumas revistas ou suplementos culturais, especialmente na revista NEO do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, a publicação anual dirigida pelo meu colega John Starkey, e que credibiliza qualquer autor, conhecido ou não, que ia apareça. Ondas São Palavras, agora lançado, demonstra que afinal um escritor nunca poderá estar em silêncio, muito particularmente consigo próprio, e neste caso ficamos a saber que o poeta tem andado no seu habitual trajecto de viagens pelas ilhas, pela sua terra continental a norte, pelo estrangeiro, com os Estados Unidos de igual modo no centro das suas geográficas sentimentais, ou as que nele despertam a emoção essencial na construção dos retratos dessas realidades, e ainda mais dos seus momentos de epifania ante a Natureza, que aqui, como na maior parte da poesia açoriana, sobressai em imagens ora vivas e belas, ora no seu estado esfíngico olhando os homens indiferentemente na sua labuta de sobreviventes e na sua tragédia da vida entre a terra e o mar, em que o espaço maior e o sonho estão para além do horizonte. Outra nota que me parece relevante para o entendimento do exercício poético de Virgílio Vieira: para um cientista, para um biólogo, no seu caso, é naturalíssimo que a paisagem exterior, a flora e fauna no seu habitat genésico, lhe sirvam antes de tudo como metáforas da sua e nossa condição humana, como um objecto correlativo vivo, actuante, que lhe projecta ou sugere o seu estado interior, o seu estado de alma. Nada haverá de mais esperado, repita-se, do que um estudioso das matérias ditas exactas fazer do seu saber poesia, reconhecer que ante a indiferença das coisas e dos bichos sob o seu olhar atento estará sempre em primeiro lugar o sentimento do momento que tudo isso lhe desperta, a alma e as suas oscilações misteriosas, as suas dúvidas, o seu espanto ante tanta beleza consoladora e ao mesmo tempo uma ameaça destruidora de tudo à sua volta, lembrando-nos que o ciclo de vida é irremediavelmente isso mesmo. Permitam-me só mencionar aqui que na nossa universidade, felizmente, a poetização da Natureza conta ainda com outro cientista, também biólogo, cujos livros sobre temáticas açorianas semelhantes são brilhantemente marcados por uma prosa poética sem igual entre nós – falo de António M. de Frias Martins, em livros como Ilhas de Azul e Verde e O Anel da Princesa.

Ondas São Palavras traz-nos, pois, essa sequência de poemas cujos títulos significam de imediato a geografia como alma mater, como “mãe criadora, mãe alimentadora”, como mátria/pátria de todo o nosso ser, como metonímica da humanidade aqui e em toda a parte, e ante a qual nenhum de nós poderá ficar indiferente exactamente porque esse é o meio que molda o ser, que determina as nossas cosmovisões, que aproxima ou nos distancia de todos os outros. A voz poética de Virgílio Vieira tanto transmite o seu mais íntimo estado existencial do momento, como se transfigura no viajante fascinado pelo que lhe é diferente, mas que passa também a fazer parte de si e do seu imaginário permanente, como verbaliza o que imagina ser o pensar e o sentir de uma mulher (“Solidão no feminino”) imaginada no seu labirinto muito próprio, mas partilhando com todos nós, digamos, “memória e desejo”, ou a saudade na sua inevitável dualidade — passado e futuro sempre em convivência, o presente sendo sempre a nostalgia, o sentimentalismo, escondido ou não, das nossas vidas e sonhos. António Machado Pires diz no prefácio a esta colectânea de poemas que Virgílio Vieira não entra no desespero de muita – diria quase toda – escrita moderna ou pós-modernista, diz que o poeta está “numa paz interior de quem parece estar bem com a vida… numa época em que por vezes a moda é estar mal com o mundo, ser palavrosamente revolucionário e chamar a atenção pelo escândalo”. Vou relembrar neste momento que ninguém como os cientistas têm tantas razões para a serenidade ante o caos, são eles que melhor entendem a vida que acaba sempre em morte por entre as mutações que vai sofrendo em todas as suas fases e formas, nada podendo ninguém fazer para modificar essa condição cósmica. De resto, a realidade quotidiana dos nossos próprios dias é o escândalo, já nos faltam as palavras para o superar ou meramente representar, ou sequer o dizer, a ideia do desespero já nos é tão banal que nem literatura, em qualquer uma das suas formas, parece merecer. Resta-nos então o quê, aos poetas e aos seus leitores? O riso entendedor, alegre ou irónico, e sobretudo a memória de que no caos organizado que é a Natureza, tal como a vida dos homens, igualmente incerta e amedrontadora, a palavra tem de nos recordar constantemente que estar vivo é a nossa maior e única felicidade, que reafirmar a vida(life affirming, como dizem os americanos acerca da melhor literatura) é um dever supremo ante os que a destruiriam, que o que vale a pena para nós e para todos à nossa volta é contrapor ao escândalo a nossa recusa, a nossa dignidade, não corromper ainda mais a linguagem já corrompida para esconder o fogo com que outros nos queimariam a todos. Eis aqui parte do poema “Margens de outro olhar”, que creio sintetizar tudo o que venho dizendo do nosso mundo visto pelo cientista e pelo poeta, a razão lado a lado com o sonho:

Margens de outro olhar

vão temperando a vida com o brilho do sal,

como se fora outra vez a consciência

a falar dessa inquietude interior,

quase animal, mas nas mãos erguidas enleva a alma

desprendida da dor

(…)

 

Sim, estão aqui a tais viagens, principalmente pelas terras e pelos mares dos Açores, em títulos tão sugestivos como “Voamos perto das nuvens”, “A voz do mar”, “Marés”, “Silêncios da fome encoberta”, “O vigia das baleias”, “O regressante”. Virgílio Vieira nomeia depois coisas e afazeres que particularizam o nosso modo de ser e estar na vida, viaja, como já foi dito, por outras geografias, pela terra natal ou estrangeira, mas após essas quase sempre felizes deambulações, é o regresso a casa que acontece, os Açores tornaram-se-lhe o chão dos seus frutos predilectos, da sua sustentação para além da materialidade: as ilhas são um estado de espírito que nos agarra e não nos liberta mais, o fascínio da incerteza de cada momento perfeitamente conjugado com a segurança da “casa concha” nemesiana, quer dizer, a memória como que solidificada no basalto, o fogo que não destrói, mas sim cria e recria ilhas em frente, as passadeiras do nosso dia-a-dia, a arte sui generis que tanto vira relógio lembrando-nos o tempo que há-de sempre fugir, ou as palavras que nos retratam e que pensamos eternas. Um chão-pátrio é sempre feito de rituais sentimentalistas a que o poeta ainda dá voz nestas páginas, essenciais ao nosso equilíbrio pessoal e comunitário, uns desaparecendo outros permanecendo, todos eles, desde as vindimas por entre as pedras negras a uma chamarrita são os actos das nossas identidades, o cimento de uma comunidade plantada aqui há cinco séculos e que se tornaria um dos mais ricos viveiros humanos, que se estende até às Américas, cada geração aí nascida e criada regressando também à casa real ou simbólica da sua ancestralidade.

Por fim, destaquemos as ilustrações de vários poemas em Ondas São Palavras. Leituras mútuas de poetas e pintores são uma longa tradição na nossa e noutras línguas. Entre nós, Tomaz Borba Vieira, um co-autor deste livro, está bem posicionado, poeta que é da tela como do verbo. A sua assinatura aqui será de imediato reconhecida por quem conhece minimamente a sua vastíssima obra. Eis aqui as representações de um povo que sempre viveu entre a tradição e as exigências do meio e a modernidade de espírito que o trouxe para cá e depois o fez navegar à procura de outras povos, de outras vidas. De uns pescadores solitários numa praia e de um Dias de Melo meio século dezanove meio século vinte na sua postura de escritor das ilhas à sensualidade da mulher-mãe e/ou da mulher-amante, ficam completos, mais ricos, estes percursos de Virgílio Vieira – a palavra é imagem imaginada, a pintura imagem lembrada ou desejada. Afinal a poesia nas suas formas sempre idealizadas.

_________

Virgílio Vieira, Ondas São Palavras (com ilustrações de Tomás Borba Vieira e prefácio de António M. B. Machado Pires), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2012.

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