Regresso ao Sul

Capa A Cor do Sul nos teus olhosÀ esquerda, ou no espelho da tua memória, /passo ainda. Olha.

Eduardo Bettencourt Pinto, A Cor do Sul nos teus olhos

/Vamberto Freitas

 Rememoração: Eduardo Bettencourt Pinto nasceu e viveu em Angola até 1975, o ano da nossa libertação e desgraça nacional, a dialéctica da vida colectiva a cumprir-se. Filho de pai continental e mãe açoriana, também havia de cumprir o seu e nosso destino: navegar uma vez mais em busca do pão e da decência. Depois de atravessar outras fronteiras africanas, viria para a sua terra ancestral (São Miguel), onde durante alguns anos trabalhou e escreveu, até que em 1983 partiria com a nova família constituída para Vancouver, no oeste pacífico do Canadá, permanecendo lá até hoje. Tem produzido uma obra literária admirável que se espalha pelos vários géneros, desde o conto e romance à poesia e prosa poética, dando continuidade ainda ao que ele também já havia realizado nos Açores, quando com Emanuel Jorge Botelho coordenou e dirigiu a revista Aresta, de pouca duração mas de longa memória. Na diáspora, nunca se confinou a uma redoma de escrita própria, sempre estendeu a mão aos seus colegas em toda parte fundando uma pequena editora (Seixo Publishers, cuja chancela vem ainda estampada no presente volume de prosa poética), e durante algum tempo dirigiu com o brilho de sempre uma outra revista virtual virada naturalmente para a escrita saída das suas geografias em tudo significantes, o que quer dizer a boa literatura em qualquer língua ou de qualquer outra sociedade – Seixo Review, do qual saíram dez extensos números. Acrescente-se aqui que, para Eduardo Bettencourt Pinto, existe algo de muito mais vasto do que a “literatura portuguesa” – ele é hoje, como sempre foi, um atento leitor das novas gerações de escritores oriundos ou residentes nos países africanos lusófonos, e ainda com o Brasil sempre no centro dos seus/nossos afectos literários e culturais. Por minha parte, sempre o considerei um “escritor açoriano” – já estou a ouvir as carpideiras de serviço, mas também já estou muito habituado aos seus ruídos – dada a obsessão criativa com que tem construído a maior parte da sua obra, as suas imagens e memórias, as suas saudades versificadas, o seu posicionamento na sua própria biografia e nos seus laços de pertença. Esta minha visão do autor de Emersos Vestígios (1985), Menina de Água (1997) ou ainda de O Príncipe dos Regressos (1999), em nada limita a extensão de todos os seus afectos e referenciais geográficos e humanos. Muito pelo contrário, a expressão “escritor açoriano” traz necessariamente consigo a semântica do andarilho – “Além da literatura, a fotografia é outra das suas paixões. E as viagens” — do escritor no labirinto de uma globalização literária autêntica, e não só a dos teóricos que nem a freguesia ou a aldeia ao lado conhecem muito bem. Um dos seus livros de poesia atesta isso mesmo – Travelling Shadows. Raro é o evento literário no nosso arquipélago ou na diáspora – participa de quando em quando em encontros internacionais de vária ordem linguística e cultural — em que ele não esteja presente.

A cor do Sul nos teus olhos acaba de ser publicado, e creio estarmos ante um dos melhores livros de Eduardo Bettencourt Pinto, pelo menos dentro do género a que nos habituamos a chamar de “prosa-poética, algo entre o poema de verso livre e prosa cuja única regra formal será a sua musicalidade rítmica, o seu andamento entre tempos, lugares e pessoas — e só depois os significados que o leitor retira de cada palavra, de cada frase, de cada “poema”. Quase parece um livro testamentário no qual o autor derrama todo o seu passado e presente condição de vida, uma síntese emotiva de toda a sua obra. Aliás, A Cor do Sul nos teus olhos como que dá seguimento por outros modos a livros anteriores e marcantes, como Tango nos pátios do sul (poesia, 1999) e a ficção de A casa das rugas (2004). Tenho insistido noutros escritos que abordam a minha geração de escritores açorianos que o tema do regresso é agora quase transversal a todos eles, a mais evidente convergência das suas obras publicadas nestes últimos anos. Numa cultura feita desde sempre de partidas e chegadas, de embarques e de exílios vários, nem o sucesso das suas vivências nas díspares geografias do mundo nem os falhanços ou desilusões do e no seu percurso evita a vontade de, pelo menos, revisitar ou lembrar as origens, a força das raízes que não nos aprisionam mas observam-nos e chamam-nos a si com a insistência de um deus benévolo ou cruel. Não foi nunca a chegada às terras prometidas o sentido primeiro das suas aventuras, foram as incertezas desafiadoras dos caminhos para lá chegar, a aprendizagem de estar com o outro, mas sobretudo de o observar, ele próprio, nos seus redutos e depois constatar que o universalismo é isso mesmo: a humanidade irrequieta sempre á procura do lado lá de sua casa, ou da sorte. Parte da beleza destes poemas e prosa de E. Bettencourt Pinto é serenidade da linguagem, a sensualidade manifesta em cada uma das suas companhias – ou companhia desdobrada e reinventada com o decorrer do tempo e sabedoria adquirida lado a lado. Este é também um outro livro de viagens, reais mas sobretudo interiores, o escritor decididamente virado para dentro, para si próprio, numa tentativa de entender uma longa vida de caminhadas em dois hemisférios em tudo opostos, o frio de um norte supostamente rico a clamar pelo calor humano do sul luzidio e fértil noutras géneses de se estar e ser no mundo. África, Brasil, Europa – e depois, inevitavelmente a ilha açoriana, ou simplesmente a ilha imaginária em cada um de nós, o conforto da distância de toda a História que nos amedronta, a terra-mãe sempre próxima para nos apaziguar nas angústias de navegadores perpétuos, a ideia de permanência mais fantasia do que possibilidade (“Deixaste-me partir descalço/sobre as minhas feridas./Onde estás, companheira de todas as águas?/A noite é uma janela aberta sobre o mar”). São poucos os escritores que têm esta capacidade de misturar um confessionalismo pessoal, íntimo em todos os seus sentidos, com uma narratividade do mundo exterior à sua volta, o regresso radical ao seu país profundo, mas sempre com a mão estendida ao outro a seu lado. É o contraponto mais inteligente ao poeta ou intelectual fechado num quarto vazio, estuporando e “condenado” o mundo todo em volta, é o contrário de um certo “existencialismo” de todo fabricado de quem se pensa um ser humano à parte de tudo e de todos. Em suma, é o contrário dos supostos “génios” que entre nós dominam desde há algum tempo a “literatura” do nada – e de ninguém. De “Um lenço branco”, transcrito aqui sem a quebra de linhas:

“Beijo agora o escuro, tão nu como a água sobre um corpo no verão. Que digo? As palavras são o meu trigo e não sei de onde vêm. Bebo nelas aquilo que sou: uma folha de girassol a gravitar no universo. É noite e nada posso fazer. Um século cresceu dentro de mim, todos os rios do mar. Estou naquele barco ao longe de onde te aceno para que vás ao meu encontro”.

Distância e proximidade, sempre, dos que o completam como ser humano à deriva, por assim dizer, em mundos sempre novos, a descoberta perpétua de quem vive vivo, mas sem nunca encontrar o lugar mítico da felicidade. Regresso, desamparo e saudade do que nunca foi, para além do sonho. É uma temática que aparece com especial força na escrita desta geração autenticamente cosmopolita, e que teve outras páginas tão poderosas e indeléveis, pelo menos para nós, desde O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas, de João de Melo. Se há uma literatura de língua portuguesa que nos fala directa e comovidamente, é esta que tem saído dos Açores durante as últimas décadas, ou então a que às ilhas regressa vinda das mais longínquas geografias, Ulisses cansado de guerra e de terras estranhas. Só os verdadeiros universalistas entendem o paradoxo de se ser “Estrangeiro aqui como em toda a parte”.

Por fim, quero ainda relembrar a todos que foi ele que, a partir do Canadá, seleccionou e organizou uma grande colectânea, intitulada Nove rumores do mar: antologia de poesia açoriana contemporânea (publicada pelo Instituto Camões em 2000, indo já na 3ª edição). Nem todos a leste das ilhas têm estado desatentos. A sua atenção poderá ser sempre meio tardia, mas eventualmente é inevitável. A cor do Sul nos teus olhos merece novamente uma leitura bem mais alargada do que costuma acontecer aos nossos melhores autores. Como muitos outros escritores e poetas de cá, encontra-se amplamente divulgado em publicações estrangeiras de diversa natureza.

___________

Eduardo Bettencourt Pinto, A cor do Sul nos teus olhos, Pitt Meadows, Canada, 2012.

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