Humboldt e Aimé Bonpland na América do Sul

Capa Figura na SombraAfasta-se de tudo, interna-se na selva. Lá, longe de tudo que fere sua alma.
Luiz António de Assis Brasil, Figura na Sombra

/Vamberto Freitas

 Bem sei que se há um escritor brasileiro contemporâneo relativamente bem conhecido e reconhecido entre nós, esse escritor será sem dúvida Luiz António de Assis Brasil, e o que muita intimidade pessoal e relacionamento intelectual mantém com Portugal no seu todo, e muito especialmente com os Açores. A sua vasta obra de ficção e ensaísmo vem na tradição das literaturas sulistas, incluindo as do sul dos EUA: epopeia e anti-epopeia na fundação historicamente atribulada das suas sociedades, em que a Europa dominou mas teve de conviver e rever-se na companhia de outros povos, os próprios nativo-americanos e os africanos. William Faulkner regressava obsessivamente às personagens e às suas tragédias de livro em livro, de época em época, a memória magoada de todos eles o foco temático numa dialéctica entre o privado e o público, o indivíduo simultaneamente desenraizado mas condenado a construir e a integrar-se na sua comunidade, a História movendo-se como um tufão implacável que não deixa esconderijo a ninguém. Se o autor norte-americano de O Som e a Fúria fica para sempre associado artisticamente à tragédia de uma sociedade em guerra, e depois em defesa perpétua, por vezes raivosa e beligerante, de uma identidade aglutinadora, no Brasil foi Érico Veríssimo que ofereceu ao mundo uma obra em múltiplos volumes e de igual poder e significado, O Tempo e o Vento. Creio que não há mais nada nas Américas da sua época que se assemelhe a este feito literário, não pela ausência de outros grandes nomes, mas pela natureza da própria obra — e das suas geografias mais chegadas a nós todos aqui deste lado do que poderá parecer à primeira vista. Uma grande literatura nacional só pode acontecer num encadeamento de escritor para escritor, de geração para geração, de época para época, a ansiedade da influência provocando esse dialogismo criador e construtor das identidades múltiplas de cada pais e cultura, a ansiedade que ainda mais leva cada artista a querer deixar a sua versão da memória colectiva a que pertence.

Veio tudo isto a propósito do novo romance de Luiz António de Assis Brasil, Figura na Sombra, uma magnífica transfiguração das viagens e estudos botânicos do alemão Alexandre Von Humboldt e do francês Aimé Bonpland (mais tarde, e após o seu regresso definitivo ao continente sul-americano, e vivendo entre a Argentina e o Brasil, chamado de Don Amado Bonpland), que aconteceram em vários países da América do Sul durante a última parte do século XVIII até ameados do século XIX. Como fundo histórico em dois continentes, pois, temos a Revolução Francesa e a luta cerrada pela consolidação de novas fronteiras e nações no hemisfério sul. Por certo que as obras científicas dos dois europeus são conhecidas de todos, Humboldt tendo estátuas públicas nos dois continentes, as biografias dos dois amplamente divulgadas entre as classes cultas. Só que ao romancista resta sempre um espaço desconhecido e uma biografia íntima que só poderá ser imaginada, sendo só a ficção capaz de preencher e sugerir as “evidências não vistas”, o ser humano por detrás figura pública, os desejos secretos comuns a todos para além da genialidade científica ou artística envolta por vezes mais na lenda do que nos factos. Para um leitor, não haverá nada de mais gratificante do que juntar o ser real ao ser imaginado, ou mesmo fantasiado.

Antes de mais, enquadremos o presente volume no conjunto de romances que constituem uma distinta tetralogia que tem como tema e fio condutor as visões, experiências e consequentes narrativas de “estrangeiros” no Rio Grande do Sul, ou mais vastamente, como agora, o extremo sul do continente: O Pintor de Retratos (2001), A Margem Imóvel do Rio (2003), Música Perdida (2006), e, agora, Figura na Sombra (2012). Eis a síntese possível neste espaço, na minha própria leitura: Luiz António Assis Brasil como que se vê e revê nos seus protagonistas (não é possível, estou convencido, criar personagens centrais numa narrativa sem uma certa proximidade identitária entre o autor e a “figura” por si inventada ou reinventada, não nos factos biográficos, naturalmente, mas em sensibilidades éticas e estéticas), entrelaça-os sua caminhada muito pessoal em busca da sua felicidade e realização possível enquanto gerem no seu quotidiano os abalos colectivos em sociedades simultaneamente muito velhas, multirraciais, e tentando uma nova integração na comunidade humana universal. Portugueses e seu descendentes, espanhóis, nativo-americanos, africanos, e depois os restantes visitantes que se insinuam em território para eles estranho mas do qual tentam fazer parte, guiados pelos mais diversos impulsos, um outro palco das suas vidas. Cada título, aliás, indica desde logo ao leitor de que arte, ciência ou mesmo política parte cada um dos seus protagonistas, os que nos proporcionam o ponto de vista e demais referenciais através dos quais nos relatam a sua estória de vida, necessariamente enredada na história dos seus momentos sociopolíticos nessas terras por onde deambulam ou que procuraram. Uma vez mais, a melhor e mais perdurável literatura é feita desta estrutura mista, nunca o indivíduo, mesmo que assim se pense ele próprio, podendo estar desligado do mundo ou mundos a que pertence, e nunca livre dos vendavais que definem e emolduram os destinos colectivos. Estas são, para mim, as linhas constantes de toda a obra de Assis Brasil.

Figura na Sombra nunca despacha por completo Humbdolt da vida e afazeres de Aimé Bonpland, mas é neste que a narrativa se concentra. O que mais fascina e domina o narrador é a opção do seu personagem de secundarizar a sua carreira científica e ignorar os louvores europeus pelas descobertas de um inesperado novo mundo no seu estado puro. Da glória pública de uns – como a de Humbdolt — todos conhecem. Da glória numa luta pela liberdade individual e pela autonomia ante os que em nosso redor nos dominam reside o mistério, a coragem e a dignidade. Bonpland praticamente entrega de bandeja ao seu parceiro nas ciências o caminho para a fama e para a futura estátua nas ruas da sua Alemanha e do hemisfério sul. Após a sua primeira e prolongada viagem às Américas na companhia de Humbdolt, Aimé regressa à França pós-napoleónica, que continua a cheirar ao mofo de uma “nova” aristocracia reinstalada. Enquanto o seu parceiro se retira para o seu país e começa a escrever e a publicar uma obra que era dos dois desde o início, Bonpland decide regressar ao Sul na companhia de uma segunda mulher e enteada, literalmente estendo tendas pela selva ou construindo as suas vivendas de terra em terra, sofrendo as maiores perdas pessoais, sofrendo ainda mais a loucura de “sociedades” cuja política era dominada por caudilhos ao mesmo tempo iluminados e loucos, como num Paraguai semi-selvagem governado por El Supremo, Caraí Guaçu. É aqui que o famoso Doutor esteve preso no seu domiciliário durante cinco anos, saindo só para atender o ditador que o havia mandado prender, coleccionando as yerbas da sua obsessão científica, rodeando-se quase sempre de peões, índios e outros servidores em pequenas e improvisadas fazendas. Trata-se de um retrato fabuloso da paixão desdobrada ou dividida pela Natureza e pelas pessoas que Bonpland ama e abandona durante todo o seu percurso de vida. Do principio ao fim, a relação pessoal entre Humbdolt e Aimé nunca deixa de ser insinuada, em gestos e palavras, como sendo algo mais do que uma paixão de mera amizade platónica, nunca se materializando para além de um rápido toque. Qualquer coisa – eis uma interpretação simbólica — como as próprias relações históricas entre a Alemanha e a França. O fim de Bonpland é previsível, mas não deixa de fazer lembrar ao leitor que toda a “grandeza” acaba inexoravelmente do mesmo modo para todos, ficando só a memória de termos sido, quando alguém próximo de nós existe para com essa memória ficar.

Como sempre na obra de Luiz António de Assis Brasil, o prazer do texto sobrepõe-se à própria matéria geradora da sua ficção. Quando um escritor sabe combinar as duas coisas, o leitor entra no estado de suspensão vivencial, queda-se nas vidas reinventadas, querendo com elas permanecer por mais tempo do que permitem o número de páginas do romance. O autor de a Figura na Sombra tem sido até hoje dos mais premiados no Brasil e no estrangeiro, sendo ainda o escritor com o maior número de obras transformadas em filmes. Mantém ainda desde 1985 a Oficina de Criação Literária do Programa de Pós-Graduação, de renome nacional, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde é professor catedrático.

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Luiz António de Assis Brasil, Figura na Sombra, L&PM Editores, Porto Alegre, 2012.

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