As bestas à nossa porta

Capa O Segundo MinutoLá do alto a montanha via tudo. Mesmo no escuro. A cegueira é a condição humana favorita.

João Pedro Porto, O 2egundo Minuto

 /Vamberto Freitas

 Aquilo a que o autor chama a sua própria (sur)realidade – a ambiguidade semântica é deliberada, naturalmente – é o que marca este seu segundo romance, que vem na sequência de O Rochedo que Chorou (2011). O título em epígrafe acima não é uma gralha, pois João Pedro Porto parte para outros campos linguísticos e romanescos, ora inventando um léxico muito próprio e essencial a uma outra expressão de velhas “realidades” e “tradições” ora convocando as mais conhecidas ou mesmo míticas referências literárias e culturais do mundo, lembrando aos seus leitores que a História não passa ao seu lado (a “utopia” desejada desde sempre na literatura ocidental), e que estão — estamos — condenados a pertencer e a sofrer a ebulição moderna do mundo.  Não será preciso ler autores, alguns deles medíocres, que se têm “apropriado” das ilhas para tecer algumas ficções ou até poesia em redor da ideia de paraíso supostamente isolado, do homem no seu estado quase primordial, o baleeiro picoense repetidamente em cada uma desses linhas ou versos. Só um autor que sente por dentro esta “realidade” atlântica – metonímica de qualquer outra geografia para além do horizonte — poderá escrever não em volta de ideias mais ou menos já banais na escrita ocidental (a “ilha” continua a ser um tema aliciante entre alguns escritores de renome internacional), mas com o saber e a garra que qualquer ficção necessita como proposta de leitura e/ou revisitação a territórios que nos permanecem desconhecidos.

Este novo romance de João Pedro Porto, O 2egundo minuto, é também um segundo romance (e quem sabe se faz parte de uma eventual e arrojada trilogia romanesca?) revendo a história e a condição humana vivida nas ilhas no contexto global dos nossos dias, os dias de fúria e busca solitária por uma saída dos infernos que estão a ser ressuscitados pelas forças representativas das “bestas”, as massas amorfas e escravizadas, quase invisíveis nestas páginas mas tão reais como o efeito radioactivo nos holocaustos já vividos ou por vir. O estado da Humanidade é tão-só insinuado aqui pelo seu narrador, mas a resistência aos bárbaros — que sabemos, nesta ficção, estarem já a dominar a nossa existência — toma mil e uma formas, não á travada por qualquer guerrilha de campo ou cidade, mas sim no interior de cada um de nós, quer dizer, dos poucos personagens que se movem neste círculo dantesco, no qual a visão do céu no topo da Montanha não passa de um Inferno disfarçado ou escondido; não está nas nuvens, está em nós. Ouvir os seus narradores é como ouvir, suponho, a lengalenga de um demente deitado no sofá a produzir sons para o seu psicólogo clínico (a profissão do próprio autor), o paciente que vê mas não consegue fazer a mínima ligação entre o objecto ou o sujeito descrito com qualquer “significação, como Benjy na abertura de O Som e a Fúria de William Faulkner, autor que também se entregou à luta artística dentro de outras “ilhas” assoladas pela memória das suas gentes, o passado não permitindo uma saída fácil para uma suposta “modernidade”, que, de qualquer modo, nunca se cumpriu em qualquer parte, para além do horror ou das trevas que começam e acabam em nós, rio acima rio abaixo.

O narrador de O 2egundo minuto apresenta-nos ao que de melhor poderá acontecer em qualquer literatura identificada com uma cultura, determinadas linguagens, “visões do mundo” e geografias próprias: parte da sua tradição literária para territórios totalmente (ou quase) inexplorados pelos seus antecessores. A melhor literatura da nossa geração tem-se encarregado de um revisionismo histórico implacável: escondido na beleza das ilhas está o ser humano maioritariamente oprimido, sujeito a uma estrutura societal de todo injusta e desequilibrada desde a sua génese até aos nossos dias. Desde Vitorino Nemésio em Mau Tempo no Canal que testemunhamos a ascensão de uma pequena e inconsequente burguesia citadina tardia, que nada aprendeu nem com os seus nem com os outros além-fronteiras, tal como com João de Melo em O Meu Mundo Não É Deste Reino recuamos à nossa ruralidade no seu estado de crueza bíblica durante primeira metade do século passado. O tom distópico na discursividade destes como de alguns outros autores nossos é regra constante, com a solução sempre olhada e sugerida como existindo só para além do horizonte que rodeia cada ilha, tornada, uma vez mais, metonímica da universal condição humana, a necessidade, sempre, de se navegar em busca da salvação, mesmo que se saiba que nada de novo ou redentor encontraremos. Ulisses, eterno. João Pedro Porto dá o nome de Nemésio ao seu protagonista erudito na última fase da sua vida, na companhia da sua amante de nome Severina. Um dos poemas que abre as secções narrativas do romance tem o título de “Vida e Morte de Uma Palavra”, que nos remete logo para João Cabral de Melo Netto, como outros passos nos poderiam levar a outra figura referencial na vida de Nemésio, ele próprio, mas isso requeria outra leitura que não esta. Existem mais dois ou três personagens cujos pontos de vista vão também apontando ao leitor o estado interior de cada um destes seres inventados.

Emoldurando toda a narrativa de O 2egundo minuto, só aparentemente desconexa no tempo e nos seus andamentos desde os anos 60 até aos nossos dias, está boa parte da filosofia existencialista, que afirma estarmos sós e sem Deus, e tudo dependerá do indivíduo para reinterpretar os seus mundos e recriar os seus valores, sabendo que a salvação é agora um desejo solitário de cada um, tornando a “sociedade” absolutamente irrelevante, feita de “bestas” massificadas a evitar a todo o custo. Não é a glorificação do coração “solitário” ou “caçador”, é a implícita observação (ia a dizer condenação, mas um escritor que mereça a nossa atenção apenas mostra sem outros comentários) do estado a que sociedade e as suas comunidades repartidas pelo Atlântico chegaram na sua suposta “modernidade”, a jangada de Saramago a afundar-se na sua deriva agora sem destino Aliás, toda a trama do romance gira em volta de uma subida à Montanha por Nemésio como último gesto seu na tentativa de se entender, e de entender – ou confirmar – que mesmo conseguindo ir às alturas nada de novo irá ver, viver ou sentir. Subimos indiferentemente com ele a Montanha, tal a como a Montanha nos olha esfingicamente. Camus, insista-se, está presente aqui um pouco por toda a parte, como está o chamamento contínuo a todo um rol de autores e outros artistas de várias culturas e línguas, os que reforçam a ideia de que a Humanidade em toda a parte e durante toda a nossa História, desde a Antiguidade (lugares nossos nas ilhas e no continente tomam nomes aqui vindos dos clássicos e da mítica ocidental) aos dias presentes procura por todos os meios imagináveis o que nunca encontra, ou encontra o que não deseja. É já muito raro encontrarmos um ficcionista e poeta com a erudição de um autor como João Pedro Porto, particularmente entre a sua geração, quase toda ela rendida a um novo realismo do quotidiano, a um minimalismo literário já tão cansativo na arte como vida.

“Os deuses habitam nas teses – lembra-nos o narrador num capítulo de deambulações por Alba, uma metrópole de iluminados – e nas compulsões dos escritores e dos artistas. Um, homenageia o deus que habita o seu sapato, sapateando por três vezes, debaixo da escrivaninha, antes de fazer escorrer a caneta sobre o papel. A outra, presta tributo ao deus do estômago – que lhe alimenta as ideias – sorvendo chá de macela por oito vezes a custo, antes de pegar na viola d’arco. São os deuses do minuto: num primeiro o são, no outro, não. No fundo, não os há, pois não há totalitarismo em Alba. Também não existem oráculos ou adivinhos”.

O 2egundo minuto ora parece um longo poema em prosa e poesia estruturada, ora prosa deliberadamente desestruturada, como uma lenda de um “tempo sem tempo”, como uma estória demente significando as mais amargas verdades no fim das vidas que aqui nos são apresentadas, recordando que a solidão nos seus caminhos foi e será sempre a condição de vida que lhes coube, a condenação propositada dos deuses – ou a nossa condição na ausência deles, que existem só no fervilhar dos nossos mais atávicos medos – sem saída alguma. Como num quadro abstracto de Jackson Pollock que não entendemos mas cuja beleza de cores e formas nos prende o olhar prolongado, a prosa de João Pedro Porto muito a esse gesto se assemelha – pode o leitor não a absorver de imediato, mas a sua beleza não nos larga nunca.

__________

João Pedro Porto, O 2egundo minuto, Letras Lavadas, Ponta Delgada, 2012.

 

Anúncios

2 thoughts on “As bestas à nossa porta

  1. Relationship Advice Novembro 10, 2013 / 8:21 pm

    Thanks for your personal marvelous posting! I actually
    enjoyed reading it, you may be a great author.I will ensure that
    I bookmark your blog and will come back later in life. I want to encourage yourself
    to continue your great job, have a nice holiday weekend!

  2. agen bola Junho 27, 2015 / 6:17 am

    Its like you read my mind! You seem to know a
    lot about this, like you wrote the book in it or something.
    I think that you can do with a few pics to drive the message home a little bit,
    but instead of that, this is excellent blog. A fantastic read.
    I’ll certainly be back.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s