Eugénio Lisboa e o teatro da vida

Capa Acta est fabulaPor fim, deixámos de ver a cidade e entrámos, sem transição, na força imensa e brutal do oceano. Thalassa! Thalassa! O mar une, mas também separa.
Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula.

/Vamberto Freitas

 

Numa entrevista recente, perguntaram a Eugénio Lisboa se a escrita de memórias é um acto “saudosista”. Nunca deixou de ser uma característica cultural nossa, que é a de ter medo, ainda mais medo, daquilo que somos e sempre fomos. Se escrever “memórias” ou “autobiografias” é um exercício saudosista, os anglo-americanos seriam, de longe, o povo mais agarrado ao passado, pois tem sido historicamente nas mãos deles que o género atingiu um grau inigualável de arte literária, pura e dura, a beleza das linguagens transmitindo os mais incríveis detalhes das suas vidas, tempos, lugares e circunstâncias à Ortega y Gasset. Eugénio Lisboa limitou-se a responder que, mais do que voltar ao seu passado, queria era trazê-lo para o presente. As memórias de um grande intelectual  passam a fazer parte da história do seu próprio país e da sua literatura. Se o autor sente “saudades” do seu início de vida e do seu chão-pátrio, eu, como seu leitor, senti-as ainda mais. Ler o primeiro volume de Acta Est Fabula: Memórias I – Lourenço Marques (1930-1947) é fazer uma viagem de descoberta não só pelo início de vida do grande escritor – crítico, ensaísta, poeta — num lugar tão longe da maioria de nós como a antiga Lourenço Marques, como é começar a entender como se educa e forma um intelectual de língua portuguesa cuja marca principal é uma erudição literária quase sem igual entre nós, uma capacidade analítica do mesmo grau, um desusado “instinto” de interpretação dos textos e dos significados escondidos ou meramente insinuados, e sobretudo a noção já esquecida de que na literatura e na cultura em geral a estética só nos vale quando acompanhada do mais agudo sentido ético – ante os outros, escritores ou não, ante o compromisso inabalável na busca da “verdade” ou das “verdades” e dos “valores” que enformam as nossas vidas. A literatura, para Eugénio Lisboa, tem sido também esse gesto contínuo em que a beleza intrínseca da arte é, acima de tudo, mais um olhar imemorial de como a Humanidade sem fronteiras tem percorrido a sua história, tentando, sempre, aliviar a dor de estar viva com a alma e a razão, na procura incessante do que nos é bonito e reconfortante. Para Eugénio Lisboa, um/a personagem de quem ele gosta  como que passa a ter carne e osso, a sua voz tão viva e actuante como o ser real ao seu lado. É esse “passado”, pois, que Acta Est Fabula (“a peça está representada”, como diziam os romanos sabedores) tenta trazer ao presente do autor, à memória dos seus leitores. Na verdade, ler sobre uma infância e adolescência numa cidade à beira do Índico foi, para mim, como ler reinventar outra infância e adolescência numa freguesia da Ilha Terceira – mudam as cores e a forma, mas o conteúdo do nosso interiorismo – medos, sonhos, futuro – é o mesmíssimo, aqui como em toda a parte, parafraseando, ao contrário, Fernando Pessoa.

Acta Est Fabula é o primeiro de cinco volumes projectados das memórias de Eugénio Lisboa, hoje já na casa dos oitenta anos de idade, sem que tenha perdido um mínimo da vitalidade intelectual e literária que desde sempre lhe é reconhecida. Nascido num bairro humilde de Lourenço Marques em 1930, conviveu naturalmente com a sua família, os pais e dois irmãos sobreviventes (um deles também falecido já na sua juventude), assim como com tias e tios que lhe ficaram para sempre na memória. O autor, ao relatar-nos esse lado da sua vida, desmonta um entre muitos outros mitos que sempre envolveram a nossa ideia dos brancos em África, pelo menos na África lusófona: muitos deles emigraram para lá mas continuaram a viver vidas sem grandes recursos, inclusive os funcionários públicos em que se incluía seu pai, que com a quarta-classe ascendeu por esforço e valores próprios a posições de chefia nos Correios da cidade. Em nada se diferenciavam, quanto a modos de vida e ao seu lugar na sociedade, da nossa classe média remediada na metrópole ou aqui nas ilhas atlânticas. Cada salário predestinado às despesas essenciais do seu quotidiano, os adultos acomodavam-se à sua sorte, e os filhos pululavam nas brincadeiras baldias e universais de meninos e meninas, cada um espreitando o outro lado da vida, onde residiam os mais afortunados. Na verdade, nem a nossa nem nenhuma cultura sobreviveria sem este território da humildade e, por isso, dos sonhos – lá como cá, foi a ausência do dinheiro a rodos que criou e estimulou a dedicação aos estudos, que permitiu imaginar mundos-outros, nos quais a beleza e a aventura se sobrepunham à vida confortável e quase sempre inconsequente das classes dominantes em tudo, menos na inteligência. Para Eugénio Lisboa, consolar os seus olhos numa montra das livrarias locais, e depois num quarto partilhado com os irmãos sonhar com os personagens dos livros que o pai e as tias e tios lhe metiam nas mãos, ofuscava todo o resto. Nem inveja nem ressentimento – o autor mostra até pena das vidas no outro lado dos trilhos, em que o supremo prazer para os seus filhos abastados era poderem frequentar as matinés num cinema vedado aos mais pobres. Onde estão eles hoje, quem é que lhes conta a sua própria história, se é que têm alguma? Eugénio Lisboa diz a certa altura em Acta Est Fabula que escreve os momentos da sua vida que ainda lhe estão vivos na memória. Do mesmo modo, eu realço também aqui o que mais me marcou na primeira leitura destas magníficas páginas. Fiquei a saber que o Império era igualitário tanto nas suas (poucas) virtudes como nos seus (muitos) castigos. Ser português era então – como creio continuar a ser – um desterretorializado estado de espírito, comandado em toda a parte com o mesmo peso na balança pela histórica imbecilidade das classes governantes assim como pela bondade que resta entre alguns dos outros. Eis, nestas memórias, a reconfirmação simultaneamente reconfortante e inquietante que nada, ou muito pouco, mudou entre nós.

Acta Est Fabula é muito, muito mais do que isto tudo. São memórias escritas numa linguagem tão directa e escorreita, que mais parece uma narrativa romanesca – que de certo modo é – onde cada “personagem” nos fica na memória e nos abre o pensamento sobre quem somos e a que sociedade pertencemos por mero acaso ou fatalidade. Mais do que uma vez Eugénio Lisboa relembra-nos que vai dizer só a verdade, mas não toda a verdade, e ainda bem, pois parte da nossa vida tem de ficar só connosco. A estrutura destas memórias está organizada pelos anos da sua escolaridade, até ao sétimo do Liceu Salazar – professores são objecto das suas lembranças boas e más, todas as influências que vai sofrendo ao longo dos anos de cada um deles/as, a sua dedicação ou indiferença nas várias disciplinas, especialmente as que o vão encaminhando até à sua chegada ao Instituto Superior Técnico em Lisboa a partir de 1947, aos dezassete anos de idade, onde viria a licenciar-se em 1955 em Engenharia Electrónica. – percurso que certamente abrirá o segundo volume deste projecto. Desde muito cedo, no entanto, é o homem de letras, o escritor, que se vai delineando nas margens institucionais. A literatura portuguesa e mundial – especialmente a europeia continental, britânica, norte-americana e brasileira — começam a ser o seu ponto de referência literária e artística desde muito cedo. Eugénio Lisboa foi desde tenra idade, e continua a ser, um civilizado devorador de livros. Qualquer leitor destas memórias ficará espantado com o número de títulos e autores que ele comenta e contextualiza, alguns deles sendo convocados quase interminavelmente, como o francês Stendhal de O Vermelho e o Negro assim como, só por exemplo, o dramaturgo americano Eugene O’Neill de Electra e os Fantasmas. Tentei escrever nas margens do meu exemplar todos os nomes das obras por ele aqui referenciadas, mas perdi a conta quando cheguei à última página do livro. Ficamos a perceber melhor ainda a abrangência e, uma vez, mais, erudição praticamente ilimitada do ensaísta e do crítico que é Eugénio Lisboa. Sobre José Régio, o seu antigo colega e a quem dedicou alguns dos melhores estudos, aqui mencionado várias vezes, não tenho qualquer dúvida do que virá em volumes a sair, assim como sobre Jorge de Sena, e outros grandes escritores dessa outra nossa diáspora literária modernista: Rui Knopfli, José Rodrigues Miguéis, Hélder Macedo e Alberto Lacerda, entre alguns outros. Toda uma vida na república das letras, após se ter feito ao mar imenso que separava Lourenço Marques de Lisboa. Para um leitor açoriano, claro está, tudo isto é demasiado familiar.

Não há, entre nós, pelo menos na nossa geração, memórias comparáveis a Acta Est Fabula. Eugénio Lisboa é o contraponto literário perfeito para um novo rol de escritores portugueses entretidos a imitar, e frequentemente mal, na ficção e na “crítica”, alguns minimalistas norte-americanos. Nada melhor do que estas memórias para abrir a porta à sua restante e vasta obra ensaística – desde Vinte e Cinco Notas do Texto a O Objecto Celebrado e Portugalia e Monumenta Frivola. Será como um curso universitário, só que verdadeiramente superior.
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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula: Memórias I – Lourenço Marques (1930-1947), Opera Omnia, Guimarães, 2012.

De Onésimo T. Almeida e das utopias possíveis

Capa Utopias Em D+¦i Menor (1)Em Portugal, há uma luz que brilha forte e aponta para a modernidade numa das suas primeiras manifestações: a da mentalidade empírica de um pequeno grupo.

Onésimo Teotónio Almeida, Utopias Em Dói Menor

/Vamberto Freitas

 Comecemos pelo título completo do livro aqui em foco, saído recentemente, e já amplamente recenseado e divulgado a nível nacional: Utopias Em Dói Menor: Conversas Transatlânticas com Onésimo, uma longa entrevista feita a Onésimo T. Almeida. O co-autor, o entrevistador, é João Maurício Brás, doutorado em filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e actualmente investigador da Universidade de Lisboa. Foi ele que, ao tomar conhecimento da obra onesimiana, leu todos os ensaios filosóficos – e toda a escrita criativa e/ou jornalística – lançando-lhe de seguida o desafio de uma longa conversa ora em pessoa ora à distância abordando especificamente a sua faceta menos conhecida entre nós, o seu trabalho filosófico, em gérmen na sua tese de doutoramento ainda por publicar em livro (sobre o conceito de “ideologia”) e nos ensaios reunidos em De Marx a Darwin: A Desconfiança das Ideologias (2009), mas ainda também vastamente dispersa por publicações universitárias especializadas, e à espera de ser reunida em livros. Foi também João Maurício Brás (em colaboração com Cristina Ovídio e Ana Bernardo) que participou na selecção e publicação de alguns textos criativos em Onésimo: Português sem Filtro, Uma Antologia (2011). Devo ainda relembrar que esta parte da obra do autor aqui em foco já vem desde há algum tempo a suscitar o devido interesse pela sua importância no que toca a questões da “modernidade”, bem como sobre a “identidade nacional”, devendo agora ser lida e entendida na nossa actualidade política e económica inserida no complexo mosaico europeu, e, ainda mais, mundial. Não queria aqui continuar com listagens, mas na apresentação do presente volume torna-se inevitável esta outra contextualização para os que não têm acompanhado o trabalho estritamente académico e filosófico de Onésimo T. Almeida. O primeiro grande sinal público dado acerca da importância de conhecermos este outro lado da sua obra aconteceu com a publicação de O Pensamento Português Contemporâneo (1890-2010), onde o seu autor Miguel Real inclui quatro pensadores de origem açoriana: Teófilo Braga, Antero de Quental, José Enes e Onésimo T. Almeida, este visto e analisado durante mais de trinta páginas, inclusive sobre os seus volumes de teorização da literatura e cultura açorianas. Era, pois, este o momento mais do que certo e justo para alargar a nossa visão sobre o autor que, entre nós, tinha já colado a si quase exclusivamente a imagem de cronista e ficcionista, caracterizado pelo humor e pela transfiguração ora da nossa vida na Diáspora ora nos seus embates com as realidades norte-americana e lusófona. Significativamente, o prefácio a Utopias em Dói Menor vem assinado pelo professor catedrático de Física da Universidade de Coimbra, Carlos Fiolhais, destacando as áreas temáticas aqui presentes, e das quais nenhum intelectual hoje se poderá alhear: “a estética, a ética, a justiça, a liberdade, etc.”

Há no próprio subtítulo de Utopias Em Dói Menor: Conversas Transatlânticas com Onésimo a clara sugestão da dualidade tanto da personalidade do autor como do trabalho intelectual de Onésimo Teotónio Almeida: a formalidade de uma conversa que só poderia ser das mais sérias, imposta pelos temas e áreas em discussão, e o à-vontade de chamar o filósofo pelo seu primeiro nome. Não haverá rigorosamente outro interveniente desta categoria no nosso país e na nossa cultura que dê lugar a tal aproximação entre entrevistado e o seu interlocutor. Mas isto só nos fica bem a todos, quiçá é já resultado da “modernidade” possível – “menor”? – entre nós. Chamar as pessoas e as coisas pelo seu nome próprio é tanto uma atitude de aproximação afectiva como significa o respeito máximo por quem nos fala, por quem nos propõe com tanta clareza algumas das mais complexas ideias e a sua história no Ocidente, problematizando brilhantemente o nosso lugar nacional nessas “visões do mundo”, nessas “mundividências”, que autor utiliza em vez de “ideologias”, por razões que necessitam de outro livro para serem explicadas, ou para tentarmos entender o seu alcance ou aparente (in)aplicabilidade numa Nação tão velha como a nossa, agarrada desde sempre ao passado como justificação indiscutível da sua existência, legitimidade e dignidade. É dessa aparente informalidade na conversa entre João Maurício Brás e Onésimo T. Almeida que nos vem a beleza textual deste livro, a leitura aliciante para qualquer leitor medianamente informado ou interessado nas questões em foco, ou na literatura em geral. O autor escreve em português e pensa como um americano profundamente ligado à filosofia analítica, ao empirismo anglo-saxónico, à regra de ouro, dir-se-ia, da língua inglesa: Say it clearly, say it quickly/di-lo claramente, di-lo directamente, exemplificando tudo com outras ideias, ou convocando outros aspectos ou lados inexplorados das nossas realidades para melhor nos situar na sua linha de pensamento — a sugestão, sempre, e nunca a imposição de argumentação, os factos, ou, uma vez mais, ou a realidade como ponto de partida para a teorização geral. Por entre esta linguagem simultaneamente teórica e prática, vai sobressaindo o que o próprio entrevistador já chamou de “universidade ambulante”, a erudição pura aqui organizada ou estruturada pelo conhecimento quase sem limites de um número, assustador para a maioria de nós, de autores e obras. No centro de todas estas páginas, a definição e/ou caracterização do que ele entende por “modernidade”, e depois o infinito desentendimento sobre a nossa “identidade nacional” num contexto da nossa história desde os Descobrimentos, que inclui enfaticamente os nossos valores e aptidão para a investigação e a ciência, tudo o que nos permitiu chegar a novos mundos e a reinventar todo o pensamento aberto que hoje nos falta. As últimas páginas de Utopias em Dói Menor vêm preenchidas com os programas dos cursos leccionados por Onésimo T. Almeida na Brown University (“On The Dawn Of Modernity”, “The Shaping Of World Views”, “O Mundo Lusófono E O Desafio da Modernidade” e “Identidade Nacional”, entre outros que mudam de semestre em semestre), bem como por um posfácio esclarecedor, “Onésimo ou a nossa consciência crítica”, de José Eduardo Franco.

“Um último ponto: foi esse ambiente, — diz Onésimo T. Almeida a dada altura neste diálogo acerca das linguagens barrocas e ofuscação de ideias determinantes na nossa discursividade – herdado muito de trás, que tornou a nossa escrita portuguesa profundamente palavrosa, escondendo pensamentos entre expressões complexas e complicadas, e sempre a evitar ser clara por isso ser perigoso. Claro que essa situação ajudou a propagar o mito de que quem escreve difícil é que é profundo. Um erro crasso da nossa cultura, que ainda hoje persiste e nos dificulta a implantação de um diálogo intelectual desempoeirado, desinibido, aberto e informado. Generalizo, porque muito mudou na última década, e a internet tem ajudado imenso a mudança. Felizmente”.

Num só passo nesta longa conversa em Utopias Em Dói Menor, o autor não só justifica a sua própria escrita académica e criativa, como aponta decididamente a nossa invenção de linguagens “complicadas” para falsificar ou esconder a ausência de ideias ou, pior ainda, o medo delas, quer por razões políticas quer por razões profissionais e institucionais, nunca se podendo contestar os da cátedra hiper-protegida numa cultura estática, já descrente mas temente a tudo que é “autoridade”. A “palavra” entre nós, como um dia diria Eça de Queirós, reina sempre sobre a “ideia”. Quando não se gosta do que afirmou ou propôs um escritor, rebusca-se a sua prosa à procura de uma vírgula mal colocada, numa vingança de impotentes e mentecaptos. Modernidade? Uma síntese de Onésimo T. Almeida basta como começo de uma definição e enquadramento histórico: é dela e partir dela que nos nascem as ideias supremas de democracia, justiça, direitos humanos, e igualdade cívica para que cada cidadão possa tentar moldar a sua vida aos seus desejos, ou, no discurso de influência americana também muito presente nesta conversa, perseguir livremente a sua felicidade e prosperidade, sejam lá elas o que cada um deseja para si. Eis, pois, a “utopia” ainda possível, a que, entre todas as outras, “dói” menos.

Por fim, diga-se ainda que o grau de informação e inteligência do entrevistador João Maurício Brás não deixa de fora uma única faceta da obra de Onésimo T. Almeida: para além do que é estritamente académico ou da esfera do pensamento filosófico (“Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, de Antero de Quental, tem uma forte presença nestas páginas), até a fase pública e “açoriana” é aqui considerada, e reenquadrada nesta outra visão pragmática do pensador e do escritor total: ensaio, ficção e crónicas convergem para nos darmos conta de que estamos perante uma das nossas mais significantes e abrangentes produções literárias e ensaísticas do nosso tempo.

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Onésimo Teotónio Almeida e João Maurício Brás, Utopias em Dói Menor: Conversas Transatlânticas com Onésimo, Gradiva, Lisboa, 2012.

Quando a ilha é mãe e madrasta

Home is an IslandTempo para ser pobre. Tempo para andar descalço, com fome e com frio. Tempo para nascer e para morrer em casebres escuros. É preciso fazer uma viagem para mudar as coisas. É preciso fazê-la, pois.

Alfred Lewis, Home Is An Island

/Vamberto Freitas

 Home Is An Island, do florentino Alfred Lewis (1902-1977) é o nosso primeiro clássico da literatura imigrante açor-americana, e suspeito que ainda não encontrou o número de leitores que o merecem entre nós, que o deveriam ler por várias razões, uma das quais pela sua inusitada qualidade literária numa cultura bipartida como a nossa. A América tem estado sempre presente e significou então, tal como significa ainda hoje, muito mais do que a Base das Lajes ou uma chiquérrima viagem a Nova Iorque nos dias que correm por parte de quem vê a América como mero palco de fama e fantasia, riqueza ou grandeza fútil. O romance de Alfred Lewis é notável tanto pelo seu conteúdo e historicidade, a que sempre envolveu a vida nas ilhas desde há séculos a esta parte, como representa um feito editorial sem precedentes na nossa escrita nos EUA, que mais ninguém, nem sequer os melhores escritores e poetas luso-americanos, os que hoje já demarcaram um distinto espaço para si na cultura literária do seu país, duplicariam até ao momento. Escrito em inglês por um açoriano que emigrou das Flores com 20 anos de idade, em 1922, e sem saber uma palavra daquela língua, um escritor, diga-se, sem grandes contactos na academia ou no mundo das letras nacionais em geral, envia-o para a maior e mais prestigiada casa editorial nova-iorquina naquela época (tal como se mantém actualmente entre as mais cobiçadas chancelas), Random House, e em 1951 não só vê o seu nome na habitual capa dura das primeiras tiragens, como passa a ser recenseado favoravelmente por algumas das igualmente mais reconhecidas e abrangentes publicações, inclusive o The New York Times e o San Francisco Chronicle. Concomitantemente, Lewis consegue do mesmo modo, como nos relembra Frank Sousa num prefácio esclarecedor deste regresso de Home Is An Island (a tradução portuguesa foi publicada em 2010 sob o título de Minha Ilha, Minha Casa, numa tradução de Francisca Cortesão), uma presença com contos na famosa revista Prairie Schooner, vendo depois essa sua escrita seleccionada num volume anual intitulado The Best American Short Stories (1949-1950). Home Is An Island seria, pois, um primeiro grande livro para as novas gerações luso-americanas, como também refere o congressista californiano Devin Nunes num intróito à presente segunda edição. Efectivamente, poucos serão os imigrantes ou luso-descendentes (nem falemos sequer do leitor português residente) que leram esta obra: fora de circulação há mais de sessenta anos, provavelmente com distribuição reduzida actualmente, tanto nos Estados Unidos, como agora a tradução em Portugal, continua, creio, numa espécie limbo literário. O que é mais do que uma pena: é injusto e não merecedor de tal sorte numa cultura que, pelo menos cá, sempre teve a pretensão de ser de poetas.

Li pela primeira vez Home Is An Island ainda como estudante universitário na Califórnia nos anos 70, quando Nancy T. Baden, minha amiga e falecida professora, me meteu nas mãos uma fotocópia da edição original que estava na biblioteca da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Eram os anos da juventude e de todas as suas certezas intelectuais, e mesmo na “fome” de referências lusas num grande e indiferente meio que nem sabia que existíamos por toda a parte a dois passos dali, a verdade é que me dava ao luxo de baixar os olhos e encolher os ombros ante o que me parecia ser uma obra “demasiado” sentimentalista, e até simplória, regressando a uma ou outra página quando necessitava de a referir num escrito qualquer. Nancy avisava-me, com a sua serena sabedoria, que não era “bem” assim. Nada como o tempo e a idade para as lições decisivas, consequentes e talvez finais na nossa vida — Home Is An Island ergue-se como uma maravilhosa sequência de prosa poética, na qual Alfred Lewis, primeiro do que nós todos,  reivindicava em língua inglesa as duas grandes tradições literárias que eram as suas, a portuguesa e a anglo-saxónica. Por certo que ainda hoje — mas já pela positiva — o primeiro grande e fundador romance luso-americano me faz lembrar quase página a página o “sentimentalismo” de muita escrita de John Steinbeck, que residia e escrevia ali um pouco mais a norte de Lewis, em Salinas, e, estranhamente, ou talvez não, do Um Violino no Telhado (tirado de Tevye the Milkman and Other Tales, de Sholem Aleichem), num caso e no outro uma aldeia perdida algures na imensidão das estepes russas ou do mar açoriano, a braços com a manutenção da tradição enquanto um incipiente modernismo tanto ameaçava fazer a casa desabar como forçava a juventude a abandonar o lar em busca de outro futuro e aventura. Beira, o nome fictício da Fajãzinha nos arredores de Santa Cruz das Flores, uma pequena e isolada freguesia entre os montes e o medonho Atlântico, tem uma segunda pátria de sonho e regeneração — a América. Presente, sempre, nas memórias selectivas dos poucos que haviam regressado de lá no fim do século XIX e nas cheirosas e já míticas sacas de roupa que de lá eram mandadas pelos parentes mais afortunados, ninguém em Beira esquece ou deixa de sonhar com a travessia, com a verdadeira e duradoura odisseia açoriana. De Lisboa, parafraseando a Natália Correia noutro contexto, vinham os livros e as ordens; da América o pão e a esperança. Não é por acaso nem por capricho dos críticos que um romance que começa e encerra na ilha, cujo protagonista, José de Castro, filho único de uma família rural mais ou menos remediada, tradicional no seu apego à ilha e aos costumes, é considerada uma obra da literatura americana, tratada como tal pelos seus primeiros comentadores, que de nós pouco ou nada sabiam. A narrativa abre com José na infância no princípio do século passado terminando com a sua saída no navio a vapor que o levará até à América. José decide da sua sorte entre os argumentos da mãe piedosa, que dele quer fazer um padre e assim ficar com o filho por perto, e um pai, ex-baleeiro dos mares longínquos e ex-imigrante na Califórnia, que encoraja e apoia a sua partida. É claro que pelas lendas contadas na ilha, pelos livros que cedo José lê nas aulas do Professor Silva, vence a imaginação que quer saber o que fica para lá do nosso horizonte fechado, a América presente entre ele e todos os outros como ideia e como sonho. Não há espaço aqui para falar do que provavelmente levou a crítica e os leitores americanos a aceitarem este romance de modo, digamos, tão carinhoso ou simpático. No contraponto à fome e ao abandono das ilhas, via-se o brilho da esperança e largueza, sobretudo do que outro distinto florentino chamaria num verso inesquecível, as “Califórnias perdidas de abundância”. Nem a nossa literatura hiper-patriótica de que José se orgulha a partir da infância (leva consigo Os Lusíadas, ele próprio poeta e escritor já anunciado na ilha, uma previsão que se iria concretizar na realidade com a poesia em jornais de língua portuguesa na Califórnia, e em primeiríssimo plano com este romance americano) o demove da sua determinação em partir rumo ao grande continente a oeste. Só assim, uma vez mais, se completa a Viagem Maior açoriana, que começa com os Corte-Real e continua ainda e sempre com a nossa geração.

“É claro que — lembra o Professor Silva a José na hora da sua partida, dizendo a outra verdade do imigrante, a outra face da saudade — vais voltar. Por muito que tentes, a terra nova não será a tua terra; à medida que vivas, e talvez ames, longe da tua terra, da tua aldeia, vais sempre vê-la. Gradualmente vais ganhar uma nova luz; vai tornar-se uma linda miragem. Vais voltar, se não no sentido físico, pelo menos na tua imaginação, muitas e muitas vezes. A saudade vai começar a fazer parte de ti; vai ser sempre tua companheira. E nos teus dias e noites solitárias, as ruas podem estar a rebentar de gente, podem ouvir-se risos e conversas… e ainda assim vais estar sozinho no meio de tudo isso”.

Home Is An Island é a resposta, o regresso ao chão natal, de José de Castro, de Alfred Lewis, protagonista e autor confundindo-se neste longo poema nosso. Um bom romance é sempre esse espelho universal: cada um vê-se só a si, raramente se dando conta de que a multidão à sua volta está com ele, nos seus sonhos e na sua solidão.

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Alfred Lewis, Home Is An Island, Tagus Press at UMass Dartmouth, Dartmouth, Massachusetts, 2012. Todas as traduções aqui foram citadas da edição portuguesa, Minha Ilha, Minha Casa, Lisboa, edel, 2012.

The Paris Review, americaníssima

Capa The Paris Review 202Um objecto de beleza serena. Se há mais algum sítio onde a nossa entrega é tão completa, não sei onde está.
Dwight Garner, The New York Times

/Vamberto Freitas

 A citação que aqui serve de epígrafe referia-se à discreta renovação de The Paris Review em 2010, tanto no seu formato em papel como no seu site da net, agora com todas as suas entrevistas, de que falaremos mais adiante, oferecidas sem limites e gratuitamente aos seus leitores. Para merecer estas palavras tão elogiosas do diário nova-iorquino, podem crer, não é de modo algum assim tão fácil. É sabido que quando um escritor, pintor ou mesmo encenador teatral, cuja peça está em cena ali ao lado, sabe que o seu trabalho será objecto de crítica ou recensão, a noite anterior é geralmente passada em branco, e muito provavelmente com pouca tranquilidade. The Paris Review, uma das mais (se não a mais) presti­giadas revistas literárias americanas, desde há muito conhe­cida para além das suas fronteiras nacionais e culturais, é publicada trimestralmente desde 1953, quando foi fundada pelos escritores e/ou literatos Harold L. Humes, Peter Mathiessen e George Plimpton, este que foi o seu director desde o início até ao seu falecimento em 2003. Todos eles, pela sua própria obra ou pela sua ligação histórica à revista, haviam de tornar-se tão famosos como o seu duradouro objecto de beleza artística. O próprio nome da revista (foi em Paris que idealizaram e pensaram o seu formato e eventuais secções ou conteúdos, e só em 1973 a revista passou a ser editada em Nova Iorque) tem muito a ver ainda com a sua atitude aberta ante outras latitudes, e, pelo menos no Ociden­te, denota logo outra característica sua, que aliás explica, em parte, a sua longa sobrevivência — a quase inigualável qualidade literária ou artística de tudo quanto aparece nas suas cobiçadas páginas. O seu formato inicial, até aos números mais recentes dos últimos dois anos e mudança de direcção, era simples e incolor, a sua apresentação despretensiosa, de preço razoável, mas deliberadamente colocada só em certos escapa­rates procurados apenas por leitores eruditos ou para quem a literatura nunca perdeu a sua centralidade nas sociedades hiper-capitalistas de então, ou ainda mais nas da actualidade. Não servia de modo nenhum para decoração — esse seu antigo aspecto convidava mesmo a ser lida  ou meramente folheada, assinalando-se com páginas viradas, sublinhadas, toda rabiscada com respostas e co­mentários aos trabalhos aí publicados. Nesse mesmo estado lavrado estão as que tenho na minha colecção desde há muitos anos, e às quais recorro com toda a frequência quando se trata de autores ou obras norte-americanas, ou escritores estrangeiros em tradução que foram divulgados ou entrevistados pela revista.

A grande maioria destas little magazines, como nos Esta­dos Unidos são chamadas desde o seu aparecimento nos fogosos anos 20 e quando estava em curso e invenção do modernismo literário americano, com Nova Iorque no centro nevrálgico do pensamento e da criação, tem em toda a parte uma história comum: vida curta, com poucas outras excepções semelhantes à da Kenyon Review, onde pontificaram os New Critics na década de 40, e ainda hoje mantém nas suas páginas ensaísticas o formalismo teórico. The Paris Review é uma das poucas que já se tornou nos Estados Unidos numa outra “instituição”, e em cada número, ainda hoje, ostenta destemidamente sinais de vida enérgica e, ao mesmo tempo, a estabilidade matura de quem já muito viu e viveu. Como será o caso com qualquer outra “instituição” dignificada no seu próprio meio, suponho que falar de números de assinantes ou da sua real viabilidade financeira — sim, até mesmo na América — ser-lhe-ia por demais vulgar e inculto. Não é de imediato reconhecida, e suspeito que não quer sê-lo, pois a publicida­de ou a autopromoção, pelo que vejo ainda aqui ao longe, é quase nula, ou reduz-se habitualmente à projecção de livros de certas editoras. Vêm, em lista permanentemente imprimida nas suas últimas páginas, uns nomes de indivíduos e organizações, os seus “associados”, os que voluntariamente subsidiam a sua publicação, os mecenas que lá nunca falham, outros de lá ausentes preferindo manter o anonimato absoluto. Tal e qual como entre nós, não?

The Paris Review inclui ensaio, poesia, ficção, e ocasionalmente fotografia ou reproduções de pinturas, mas é outra a secção que lhe trouxe o nome inconfundível, e até talvez muitos dos seus leitores mais fiéis em toda a parte — as suas célebres entrevistas, duas em cada número, com autores dos vários géneros literários, que depois uma grande editora selecciona e recolhe em forma de livro, The Paris Review Interviews: Writers at Work. Se há nelas uma característica fun­damental e já estandardizada, sendo hoje imitada por muitos outros, inclusive entre nós, é esta: coisas muito sérias e complicadas são tornadas simples, aliciantes mesmo, vivas e definitivamente estimulantes à leitura, não só da obra do (feliz) autor em foco mas à leitura de outros aí referidos ao longo das conversas, especialmente quando o distinto entrevistado aponta as suas mais importantes influências. Consegue-se este feito sem mistificar ou endeusar nem a obra nem o escritor, como tantas vezes acontece na linguagem hermética dos chamados especialistas ou “teóricos” académi­cos, o autor, por essa via de conversação, reabrindo analiticamente os seus livros em ambiente descontraído (é ele que, sempre que possível, escolhe o local da entrevista, e tem o direito de rever e trabalhar o seu texto), explicando clara e directamente o seu processo de criação, os seus hábitos de trabalho, as suas obsessões temáticas. Até hoje, o único escritor de língua portuguesa entrevistado pela revista foi José Saramago, mas em condições extraordinárias, nada comuns ao procedimento editorial da revista. Saramago tinha sido entrevistado em Lanzarote por Donzelina Barroso, em 1997, naturalmente sem vista à publicação na The Paris Review, mas as circunstâncias de ter recebido o Prémio Nobel resultou no respectivo convite, e “The Art of Fiction of José Saramago” seria publicada no número 155, 1998. Em 2010, após a morte do autor de Memorial do Convento, Harold Bloom escreveria nas mesmas páginas o In Memoriam. Os longos diálogos literários de The Paris Review, pois, acontecem só com nomes consagrados, não pelo número de livros vendidos, mas naturalmente pelo valor consensual que a crítica nacional ou mundial atribui a determinada obra, sobretudo do mundo anglo-saxónico, mas, como aqui já referi, não só – estão lá também, por exemplo, entre muitos outros, Boris Paternak, Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luís Borges, Jorge Semprún e Camilo José Cela (a convocação aqui de nomes espanhóis ou latino-americanos não é inocente). Ser convocado para aquelas páginas não será exactamente rece­ber o Pulitzer Prize, mas, em termos estritamente literários no mundo de língua inglesa, anda lá muito próximo em prestígio puro, não monetário. Al­guém autorizado já escreveu que ler a colecção completa das entrevistas será como que fazer uma chamada aos maiores e mais influentes nomes literários da segunda metade século passado. Entretanto, um dos nossos inegáveis prazeres será ler em voz directa um Faulkner, um Hemingway, um Jorge Luís Borges, um T.S. Eliot, ou ainda, muito mais próximo de nós e dos nossos dias, o falecido autor de Cathedral, Raymond Carver, provavelmente umas das maiores influências entre a nova geração de escritores portugueses — a frase curta e límpida significando mundos submersos inteiros.

The Paris Review é dirigida actualmente por Lorin Stein, a quem também o The New York Times dedicou um longo artigo na sua edição de 25 de Fevereiro do ano passado. Escreveu Judie Bosman: “Ninguém poderá ser o Mr. Plimpton (…) mas ele é visto (o novo director) como alguém capaz de devolver à revista uma boa e necessária dose do seu cool original”. Plimpton de facto tornou-se um literato lendário. É ele quem assina a entrevista com Hemingway (1954).

Por fim, diga-se — celebre-se — o facto de os leitores portugueses terem sido recentemente brindados com uma compilação de entrevistas seleccionadas e traduzidas por Carlos Vaz Marques, e publicadas no nosso país sob o preciso título de Entrevistas da Paris Review (Lisboa, Tinta da China, 2009), que eu mais tarde comentaria neste mesmo espaço. Trata-se de um volume tão lindo como a própria a revista, algures entre o seu formato original e o de agora. A criatividade lusa, na escrita e na arte em geral, também existe e a ninguém deve nada — só nos falta todo o resto.

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The Paris Review, Number 202, The Fall Issue (Editor, Lorin Stein), New York, NY, 2012. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.