The Paris Review, americaníssima

Capa The Paris Review 202Um objecto de beleza serena. Se há mais algum sítio onde a nossa entrega é tão completa, não sei onde está.
Dwight Garner, The New York Times

/Vamberto Freitas

 A citação que aqui serve de epígrafe referia-se à discreta renovação de The Paris Review em 2010, tanto no seu formato em papel como no seu site da net, agora com todas as suas entrevistas, de que falaremos mais adiante, oferecidas sem limites e gratuitamente aos seus leitores. Para merecer estas palavras tão elogiosas do diário nova-iorquino, podem crer, não é de modo algum assim tão fácil. É sabido que quando um escritor, pintor ou mesmo encenador teatral, cuja peça está em cena ali ao lado, sabe que o seu trabalho será objecto de crítica ou recensão, a noite anterior é geralmente passada em branco, e muito provavelmente com pouca tranquilidade. The Paris Review, uma das mais (se não a mais) presti­giadas revistas literárias americanas, desde há muito conhe­cida para além das suas fronteiras nacionais e culturais, é publicada trimestralmente desde 1953, quando foi fundada pelos escritores e/ou literatos Harold L. Humes, Peter Mathiessen e George Plimpton, este que foi o seu director desde o início até ao seu falecimento em 2003. Todos eles, pela sua própria obra ou pela sua ligação histórica à revista, haviam de tornar-se tão famosos como o seu duradouro objecto de beleza artística. O próprio nome da revista (foi em Paris que idealizaram e pensaram o seu formato e eventuais secções ou conteúdos, e só em 1973 a revista passou a ser editada em Nova Iorque) tem muito a ver ainda com a sua atitude aberta ante outras latitudes, e, pelo menos no Ociden­te, denota logo outra característica sua, que aliás explica, em parte, a sua longa sobrevivência — a quase inigualável qualidade literária ou artística de tudo quanto aparece nas suas cobiçadas páginas. O seu formato inicial, até aos números mais recentes dos últimos dois anos e mudança de direcção, era simples e incolor, a sua apresentação despretensiosa, de preço razoável, mas deliberadamente colocada só em certos escapa­rates procurados apenas por leitores eruditos ou para quem a literatura nunca perdeu a sua centralidade nas sociedades hiper-capitalistas de então, ou ainda mais nas da actualidade. Não servia de modo nenhum para decoração — esse seu antigo aspecto convidava mesmo a ser lida  ou meramente folheada, assinalando-se com páginas viradas, sublinhadas, toda rabiscada com respostas e co­mentários aos trabalhos aí publicados. Nesse mesmo estado lavrado estão as que tenho na minha colecção desde há muitos anos, e às quais recorro com toda a frequência quando se trata de autores ou obras norte-americanas, ou escritores estrangeiros em tradução que foram divulgados ou entrevistados pela revista.

A grande maioria destas little magazines, como nos Esta­dos Unidos são chamadas desde o seu aparecimento nos fogosos anos 20 e quando estava em curso e invenção do modernismo literário americano, com Nova Iorque no centro nevrálgico do pensamento e da criação, tem em toda a parte uma história comum: vida curta, com poucas outras excepções semelhantes à da Kenyon Review, onde pontificaram os New Critics na década de 40, e ainda hoje mantém nas suas páginas ensaísticas o formalismo teórico. The Paris Review é uma das poucas que já se tornou nos Estados Unidos numa outra “instituição”, e em cada número, ainda hoje, ostenta destemidamente sinais de vida enérgica e, ao mesmo tempo, a estabilidade matura de quem já muito viu e viveu. Como será o caso com qualquer outra “instituição” dignificada no seu próprio meio, suponho que falar de números de assinantes ou da sua real viabilidade financeira — sim, até mesmo na América — ser-lhe-ia por demais vulgar e inculto. Não é de imediato reconhecida, e suspeito que não quer sê-lo, pois a publicida­de ou a autopromoção, pelo que vejo ainda aqui ao longe, é quase nula, ou reduz-se habitualmente à projecção de livros de certas editoras. Vêm, em lista permanentemente imprimida nas suas últimas páginas, uns nomes de indivíduos e organizações, os seus “associados”, os que voluntariamente subsidiam a sua publicação, os mecenas que lá nunca falham, outros de lá ausentes preferindo manter o anonimato absoluto. Tal e qual como entre nós, não?

The Paris Review inclui ensaio, poesia, ficção, e ocasionalmente fotografia ou reproduções de pinturas, mas é outra a secção que lhe trouxe o nome inconfundível, e até talvez muitos dos seus leitores mais fiéis em toda a parte — as suas célebres entrevistas, duas em cada número, com autores dos vários géneros literários, que depois uma grande editora selecciona e recolhe em forma de livro, The Paris Review Interviews: Writers at Work. Se há nelas uma característica fun­damental e já estandardizada, sendo hoje imitada por muitos outros, inclusive entre nós, é esta: coisas muito sérias e complicadas são tornadas simples, aliciantes mesmo, vivas e definitivamente estimulantes à leitura, não só da obra do (feliz) autor em foco mas à leitura de outros aí referidos ao longo das conversas, especialmente quando o distinto entrevistado aponta as suas mais importantes influências. Consegue-se este feito sem mistificar ou endeusar nem a obra nem o escritor, como tantas vezes acontece na linguagem hermética dos chamados especialistas ou “teóricos” académi­cos, o autor, por essa via de conversação, reabrindo analiticamente os seus livros em ambiente descontraído (é ele que, sempre que possível, escolhe o local da entrevista, e tem o direito de rever e trabalhar o seu texto), explicando clara e directamente o seu processo de criação, os seus hábitos de trabalho, as suas obsessões temáticas. Até hoje, o único escritor de língua portuguesa entrevistado pela revista foi José Saramago, mas em condições extraordinárias, nada comuns ao procedimento editorial da revista. Saramago tinha sido entrevistado em Lanzarote por Donzelina Barroso, em 1997, naturalmente sem vista à publicação na The Paris Review, mas as circunstâncias de ter recebido o Prémio Nobel resultou no respectivo convite, e “The Art of Fiction of José Saramago” seria publicada no número 155, 1998. Em 2010, após a morte do autor de Memorial do Convento, Harold Bloom escreveria nas mesmas páginas o In Memoriam. Os longos diálogos literários de The Paris Review, pois, acontecem só com nomes consagrados, não pelo número de livros vendidos, mas naturalmente pelo valor consensual que a crítica nacional ou mundial atribui a determinada obra, sobretudo do mundo anglo-saxónico, mas, como aqui já referi, não só – estão lá também, por exemplo, entre muitos outros, Boris Paternak, Gabriel Garcia Márquez, Jorge Luís Borges, Jorge Semprún e Camilo José Cela (a convocação aqui de nomes espanhóis ou latino-americanos não é inocente). Ser convocado para aquelas páginas não será exactamente rece­ber o Pulitzer Prize, mas, em termos estritamente literários no mundo de língua inglesa, anda lá muito próximo em prestígio puro, não monetário. Al­guém autorizado já escreveu que ler a colecção completa das entrevistas será como que fazer uma chamada aos maiores e mais influentes nomes literários da segunda metade século passado. Entretanto, um dos nossos inegáveis prazeres será ler em voz directa um Faulkner, um Hemingway, um Jorge Luís Borges, um T.S. Eliot, ou ainda, muito mais próximo de nós e dos nossos dias, o falecido autor de Cathedral, Raymond Carver, provavelmente umas das maiores influências entre a nova geração de escritores portugueses — a frase curta e límpida significando mundos submersos inteiros.

The Paris Review é dirigida actualmente por Lorin Stein, a quem também o The New York Times dedicou um longo artigo na sua edição de 25 de Fevereiro do ano passado. Escreveu Judie Bosman: “Ninguém poderá ser o Mr. Plimpton (…) mas ele é visto (o novo director) como alguém capaz de devolver à revista uma boa e necessária dose do seu cool original”. Plimpton de facto tornou-se um literato lendário. É ele quem assina a entrevista com Hemingway (1954).

Por fim, diga-se — celebre-se — o facto de os leitores portugueses terem sido recentemente brindados com uma compilação de entrevistas seleccionadas e traduzidas por Carlos Vaz Marques, e publicadas no nosso país sob o preciso título de Entrevistas da Paris Review (Lisboa, Tinta da China, 2009), que eu mais tarde comentaria neste mesmo espaço. Trata-se de um volume tão lindo como a própria a revista, algures entre o seu formato original e o de agora. A criatividade lusa, na escrita e na arte em geral, também existe e a ninguém deve nada — só nos falta todo o resto.

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The Paris Review, Number 202, The Fall Issue (Editor, Lorin Stein), New York, NY, 2012. A tradução da epígrafe é da minha responsabilidade.

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