Quando a ilha é mãe e madrasta

Home is an IslandTempo para ser pobre. Tempo para andar descalço, com fome e com frio. Tempo para nascer e para morrer em casebres escuros. É preciso fazer uma viagem para mudar as coisas. É preciso fazê-la, pois.

Alfred Lewis, Home Is An Island

/Vamberto Freitas

 Home Is An Island, do florentino Alfred Lewis (1902-1977) é o nosso primeiro clássico da literatura imigrante açor-americana, e suspeito que ainda não encontrou o número de leitores que o merecem entre nós, que o deveriam ler por várias razões, uma das quais pela sua inusitada qualidade literária numa cultura bipartida como a nossa. A América tem estado sempre presente e significou então, tal como significa ainda hoje, muito mais do que a Base das Lajes ou uma chiquérrima viagem a Nova Iorque nos dias que correm por parte de quem vê a América como mero palco de fama e fantasia, riqueza ou grandeza fútil. O romance de Alfred Lewis é notável tanto pelo seu conteúdo e historicidade, a que sempre envolveu a vida nas ilhas desde há séculos a esta parte, como representa um feito editorial sem precedentes na nossa escrita nos EUA, que mais ninguém, nem sequer os melhores escritores e poetas luso-americanos, os que hoje já demarcaram um distinto espaço para si na cultura literária do seu país, duplicariam até ao momento. Escrito em inglês por um açoriano que emigrou das Flores com 20 anos de idade, em 1922, e sem saber uma palavra daquela língua, um escritor, diga-se, sem grandes contactos na academia ou no mundo das letras nacionais em geral, envia-o para a maior e mais prestigiada casa editorial nova-iorquina naquela época (tal como se mantém actualmente entre as mais cobiçadas chancelas), Random House, e em 1951 não só vê o seu nome na habitual capa dura das primeiras tiragens, como passa a ser recenseado favoravelmente por algumas das igualmente mais reconhecidas e abrangentes publicações, inclusive o The New York Times e o San Francisco Chronicle. Concomitantemente, Lewis consegue do mesmo modo, como nos relembra Frank Sousa num prefácio esclarecedor deste regresso de Home Is An Island (a tradução portuguesa foi publicada em 2010 sob o título de Minha Ilha, Minha Casa, numa tradução de Francisca Cortesão), uma presença com contos na famosa revista Prairie Schooner, vendo depois essa sua escrita seleccionada num volume anual intitulado The Best American Short Stories (1949-1950). Home Is An Island seria, pois, um primeiro grande livro para as novas gerações luso-americanas, como também refere o congressista californiano Devin Nunes num intróito à presente segunda edição. Efectivamente, poucos serão os imigrantes ou luso-descendentes (nem falemos sequer do leitor português residente) que leram esta obra: fora de circulação há mais de sessenta anos, provavelmente com distribuição reduzida actualmente, tanto nos Estados Unidos, como agora a tradução em Portugal, continua, creio, numa espécie limbo literário. O que é mais do que uma pena: é injusto e não merecedor de tal sorte numa cultura que, pelo menos cá, sempre teve a pretensão de ser de poetas.

Li pela primeira vez Home Is An Island ainda como estudante universitário na Califórnia nos anos 70, quando Nancy T. Baden, minha amiga e falecida professora, me meteu nas mãos uma fotocópia da edição original que estava na biblioteca da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Eram os anos da juventude e de todas as suas certezas intelectuais, e mesmo na “fome” de referências lusas num grande e indiferente meio que nem sabia que existíamos por toda a parte a dois passos dali, a verdade é que me dava ao luxo de baixar os olhos e encolher os ombros ante o que me parecia ser uma obra “demasiado” sentimentalista, e até simplória, regressando a uma ou outra página quando necessitava de a referir num escrito qualquer. Nancy avisava-me, com a sua serena sabedoria, que não era “bem” assim. Nada como o tempo e a idade para as lições decisivas, consequentes e talvez finais na nossa vida — Home Is An Island ergue-se como uma maravilhosa sequência de prosa poética, na qual Alfred Lewis, primeiro do que nós todos,  reivindicava em língua inglesa as duas grandes tradições literárias que eram as suas, a portuguesa e a anglo-saxónica. Por certo que ainda hoje — mas já pela positiva — o primeiro grande e fundador romance luso-americano me faz lembrar quase página a página o “sentimentalismo” de muita escrita de John Steinbeck, que residia e escrevia ali um pouco mais a norte de Lewis, em Salinas, e, estranhamente, ou talvez não, do Um Violino no Telhado (tirado de Tevye the Milkman and Other Tales, de Sholem Aleichem), num caso e no outro uma aldeia perdida algures na imensidão das estepes russas ou do mar açoriano, a braços com a manutenção da tradição enquanto um incipiente modernismo tanto ameaçava fazer a casa desabar como forçava a juventude a abandonar o lar em busca de outro futuro e aventura. Beira, o nome fictício da Fajãzinha nos arredores de Santa Cruz das Flores, uma pequena e isolada freguesia entre os montes e o medonho Atlântico, tem uma segunda pátria de sonho e regeneração — a América. Presente, sempre, nas memórias selectivas dos poucos que haviam regressado de lá no fim do século XIX e nas cheirosas e já míticas sacas de roupa que de lá eram mandadas pelos parentes mais afortunados, ninguém em Beira esquece ou deixa de sonhar com a travessia, com a verdadeira e duradoura odisseia açoriana. De Lisboa, parafraseando a Natália Correia noutro contexto, vinham os livros e as ordens; da América o pão e a esperança. Não é por acaso nem por capricho dos críticos que um romance que começa e encerra na ilha, cujo protagonista, José de Castro, filho único de uma família rural mais ou menos remediada, tradicional no seu apego à ilha e aos costumes, é considerada uma obra da literatura americana, tratada como tal pelos seus primeiros comentadores, que de nós pouco ou nada sabiam. A narrativa abre com José na infância no princípio do século passado terminando com a sua saída no navio a vapor que o levará até à América. José decide da sua sorte entre os argumentos da mãe piedosa, que dele quer fazer um padre e assim ficar com o filho por perto, e um pai, ex-baleeiro dos mares longínquos e ex-imigrante na Califórnia, que encoraja e apoia a sua partida. É claro que pelas lendas contadas na ilha, pelos livros que cedo José lê nas aulas do Professor Silva, vence a imaginação que quer saber o que fica para lá do nosso horizonte fechado, a América presente entre ele e todos os outros como ideia e como sonho. Não há espaço aqui para falar do que provavelmente levou a crítica e os leitores americanos a aceitarem este romance de modo, digamos, tão carinhoso ou simpático. No contraponto à fome e ao abandono das ilhas, via-se o brilho da esperança e largueza, sobretudo do que outro distinto florentino chamaria num verso inesquecível, as “Califórnias perdidas de abundância”. Nem a nossa literatura hiper-patriótica de que José se orgulha a partir da infância (leva consigo Os Lusíadas, ele próprio poeta e escritor já anunciado na ilha, uma previsão que se iria concretizar na realidade com a poesia em jornais de língua portuguesa na Califórnia, e em primeiríssimo plano com este romance americano) o demove da sua determinação em partir rumo ao grande continente a oeste. Só assim, uma vez mais, se completa a Viagem Maior açoriana, que começa com os Corte-Real e continua ainda e sempre com a nossa geração.

“É claro que — lembra o Professor Silva a José na hora da sua partida, dizendo a outra verdade do imigrante, a outra face da saudade — vais voltar. Por muito que tentes, a terra nova não será a tua terra; à medida que vivas, e talvez ames, longe da tua terra, da tua aldeia, vais sempre vê-la. Gradualmente vais ganhar uma nova luz; vai tornar-se uma linda miragem. Vais voltar, se não no sentido físico, pelo menos na tua imaginação, muitas e muitas vezes. A saudade vai começar a fazer parte de ti; vai ser sempre tua companheira. E nos teus dias e noites solitárias, as ruas podem estar a rebentar de gente, podem ouvir-se risos e conversas… e ainda assim vais estar sozinho no meio de tudo isso”.

Home Is An Island é a resposta, o regresso ao chão natal, de José de Castro, de Alfred Lewis, protagonista e autor confundindo-se neste longo poema nosso. Um bom romance é sempre esse espelho universal: cada um vê-se só a si, raramente se dando conta de que a multidão à sua volta está com ele, nos seus sonhos e na sua solidão.

___________

Alfred Lewis, Home Is An Island, Tagus Press at UMass Dartmouth, Dartmouth, Massachusetts, 2012. Todas as traduções aqui foram citadas da edição portuguesa, Minha Ilha, Minha Casa, Lisboa, edel, 2012.

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4 thoughts on “Quando a ilha é mãe e madrasta

  1. mceupc Janeiro 14, 2013 / 1:34 pm

    Caro Sr. Vamberto Freitas,
    Tenho lido sempre, com imenso agrado, os reviews sobre as obras literárias apresentadas “Nas Duas Margens”. Não sendo natural dos Açores, mas amiga de Açorianos e admiradora das gentes, paisagens e cultura das ilhas açorianas, a par de alguma literatura , admito que não resisto a visitar este Blogue. Pelos conteúdos e pela qualidade de escrita refinada que me ajudam na minha escrita pessoal… ela própria, também, a mover-se entre “duas margens”, a da Língua Portuguesa e Língua Inglesa.

    Com respeitosos cumprimentos,

    Maria do Céu

    • Vamberto Freitas Janeiro 22, 2013 / 10:08 pm

      Maria do Céu, um comovido Obrigado pelas suas palavras tão simpáticas. É para leitoras como você que publico estes mini-ensaios aqui depois de sairem todas as sextas feiras no “Açoriano Oriental”. Mais uma vez, um grande Obrigado!

  2. Jose Guilherme Teixeira Machado Janeiro 14, 2013 / 7:40 pm

    LI E RELI E FICOU~ME O SENTIMENTO DE POUCO QUERIA MAIS … PESSOAS COMO ELE NUNCA DEVERIAM DESAPARECER COM AS SUAS MEMORIAS EXTRAORDINARIAS. SEM O CONHECER FICO COM O SENTIMENTO DE SUDADE- TANTO MAIS ALARGADO COMO TIVE A FELICIDADE DE PERCORRER TRILHOS POR ONDE TERÁ ANDADO.

    • Vamberto Freitas Janeiro 22, 2013 / 10:10 pm

      Um abraço para si, José Guilherme. Agradeço a sua leitura deste blogue. Concordo consigo, escritores como este nunca deveriam desaparecer.

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