Eugénio Lisboa e o teatro da vida

Capa Acta est fabulaPor fim, deixámos de ver a cidade e entrámos, sem transição, na força imensa e brutal do oceano. Thalassa! Thalassa! O mar une, mas também separa.
Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula.

/Vamberto Freitas

 

Numa entrevista recente, perguntaram a Eugénio Lisboa se a escrita de memórias é um acto “saudosista”. Nunca deixou de ser uma característica cultural nossa, que é a de ter medo, ainda mais medo, daquilo que somos e sempre fomos. Se escrever “memórias” ou “autobiografias” é um exercício saudosista, os anglo-americanos seriam, de longe, o povo mais agarrado ao passado, pois tem sido historicamente nas mãos deles que o género atingiu um grau inigualável de arte literária, pura e dura, a beleza das linguagens transmitindo os mais incríveis detalhes das suas vidas, tempos, lugares e circunstâncias à Ortega y Gasset. Eugénio Lisboa limitou-se a responder que, mais do que voltar ao seu passado, queria era trazê-lo para o presente. As memórias de um grande intelectual  passam a fazer parte da história do seu próprio país e da sua literatura. Se o autor sente “saudades” do seu início de vida e do seu chão-pátrio, eu, como seu leitor, senti-as ainda mais. Ler o primeiro volume de Acta Est Fabula: Memórias I – Lourenço Marques (1930-1947) é fazer uma viagem de descoberta não só pelo início de vida do grande escritor – crítico, ensaísta, poeta — num lugar tão longe da maioria de nós como a antiga Lourenço Marques, como é começar a entender como se educa e forma um intelectual de língua portuguesa cuja marca principal é uma erudição literária quase sem igual entre nós, uma capacidade analítica do mesmo grau, um desusado “instinto” de interpretação dos textos e dos significados escondidos ou meramente insinuados, e sobretudo a noção já esquecida de que na literatura e na cultura em geral a estética só nos vale quando acompanhada do mais agudo sentido ético – ante os outros, escritores ou não, ante o compromisso inabalável na busca da “verdade” ou das “verdades” e dos “valores” que enformam as nossas vidas. A literatura, para Eugénio Lisboa, tem sido também esse gesto contínuo em que a beleza intrínseca da arte é, acima de tudo, mais um olhar imemorial de como a Humanidade sem fronteiras tem percorrido a sua história, tentando, sempre, aliviar a dor de estar viva com a alma e a razão, na procura incessante do que nos é bonito e reconfortante. Para Eugénio Lisboa, um/a personagem de quem ele gosta  como que passa a ter carne e osso, a sua voz tão viva e actuante como o ser real ao seu lado. É esse “passado”, pois, que Acta Est Fabula (“a peça está representada”, como diziam os romanos sabedores) tenta trazer ao presente do autor, à memória dos seus leitores. Na verdade, ler sobre uma infância e adolescência numa cidade à beira do Índico foi, para mim, como ler reinventar outra infância e adolescência numa freguesia da Ilha Terceira – mudam as cores e a forma, mas o conteúdo do nosso interiorismo – medos, sonhos, futuro – é o mesmíssimo, aqui como em toda a parte, parafraseando, ao contrário, Fernando Pessoa.

Acta Est Fabula é o primeiro de cinco volumes projectados das memórias de Eugénio Lisboa, hoje já na casa dos oitenta anos de idade, sem que tenha perdido um mínimo da vitalidade intelectual e literária que desde sempre lhe é reconhecida. Nascido num bairro humilde de Lourenço Marques em 1930, conviveu naturalmente com a sua família, os pais e dois irmãos sobreviventes (um deles também falecido já na sua juventude), assim como com tias e tios que lhe ficaram para sempre na memória. O autor, ao relatar-nos esse lado da sua vida, desmonta um entre muitos outros mitos que sempre envolveram a nossa ideia dos brancos em África, pelo menos na África lusófona: muitos deles emigraram para lá mas continuaram a viver vidas sem grandes recursos, inclusive os funcionários públicos em que se incluía seu pai, que com a quarta-classe ascendeu por esforço e valores próprios a posições de chefia nos Correios da cidade. Em nada se diferenciavam, quanto a modos de vida e ao seu lugar na sociedade, da nossa classe média remediada na metrópole ou aqui nas ilhas atlânticas. Cada salário predestinado às despesas essenciais do seu quotidiano, os adultos acomodavam-se à sua sorte, e os filhos pululavam nas brincadeiras baldias e universais de meninos e meninas, cada um espreitando o outro lado da vida, onde residiam os mais afortunados. Na verdade, nem a nossa nem nenhuma cultura sobreviveria sem este território da humildade e, por isso, dos sonhos – lá como cá, foi a ausência do dinheiro a rodos que criou e estimulou a dedicação aos estudos, que permitiu imaginar mundos-outros, nos quais a beleza e a aventura se sobrepunham à vida confortável e quase sempre inconsequente das classes dominantes em tudo, menos na inteligência. Para Eugénio Lisboa, consolar os seus olhos numa montra das livrarias locais, e depois num quarto partilhado com os irmãos sonhar com os personagens dos livros que o pai e as tias e tios lhe metiam nas mãos, ofuscava todo o resto. Nem inveja nem ressentimento – o autor mostra até pena das vidas no outro lado dos trilhos, em que o supremo prazer para os seus filhos abastados era poderem frequentar as matinés num cinema vedado aos mais pobres. Onde estão eles hoje, quem é que lhes conta a sua própria história, se é que têm alguma? Eugénio Lisboa diz a certa altura em Acta Est Fabula que escreve os momentos da sua vida que ainda lhe estão vivos na memória. Do mesmo modo, eu realço também aqui o que mais me marcou na primeira leitura destas magníficas páginas. Fiquei a saber que o Império era igualitário tanto nas suas (poucas) virtudes como nos seus (muitos) castigos. Ser português era então – como creio continuar a ser – um desterretorializado estado de espírito, comandado em toda a parte com o mesmo peso na balança pela histórica imbecilidade das classes governantes assim como pela bondade que resta entre alguns dos outros. Eis, nestas memórias, a reconfirmação simultaneamente reconfortante e inquietante que nada, ou muito pouco, mudou entre nós.

Acta Est Fabula é muito, muito mais do que isto tudo. São memórias escritas numa linguagem tão directa e escorreita, que mais parece uma narrativa romanesca – que de certo modo é – onde cada “personagem” nos fica na memória e nos abre o pensamento sobre quem somos e a que sociedade pertencemos por mero acaso ou fatalidade. Mais do que uma vez Eugénio Lisboa relembra-nos que vai dizer só a verdade, mas não toda a verdade, e ainda bem, pois parte da nossa vida tem de ficar só connosco. A estrutura destas memórias está organizada pelos anos da sua escolaridade, até ao sétimo do Liceu Salazar – professores são objecto das suas lembranças boas e más, todas as influências que vai sofrendo ao longo dos anos de cada um deles/as, a sua dedicação ou indiferença nas várias disciplinas, especialmente as que o vão encaminhando até à sua chegada ao Instituto Superior Técnico em Lisboa a partir de 1947, aos dezassete anos de idade, onde viria a licenciar-se em 1955 em Engenharia Electrónica. – percurso que certamente abrirá o segundo volume deste projecto. Desde muito cedo, no entanto, é o homem de letras, o escritor, que se vai delineando nas margens institucionais. A literatura portuguesa e mundial – especialmente a europeia continental, britânica, norte-americana e brasileira — começam a ser o seu ponto de referência literária e artística desde muito cedo. Eugénio Lisboa foi desde tenra idade, e continua a ser, um civilizado devorador de livros. Qualquer leitor destas memórias ficará espantado com o número de títulos e autores que ele comenta e contextualiza, alguns deles sendo convocados quase interminavelmente, como o francês Stendhal de O Vermelho e o Negro assim como, só por exemplo, o dramaturgo americano Eugene O’Neill de Electra e os Fantasmas. Tentei escrever nas margens do meu exemplar todos os nomes das obras por ele aqui referenciadas, mas perdi a conta quando cheguei à última página do livro. Ficamos a perceber melhor ainda a abrangência e, uma vez, mais, erudição praticamente ilimitada do ensaísta e do crítico que é Eugénio Lisboa. Sobre José Régio, o seu antigo colega e a quem dedicou alguns dos melhores estudos, aqui mencionado várias vezes, não tenho qualquer dúvida do que virá em volumes a sair, assim como sobre Jorge de Sena, e outros grandes escritores dessa outra nossa diáspora literária modernista: Rui Knopfli, José Rodrigues Miguéis, Hélder Macedo e Alberto Lacerda, entre alguns outros. Toda uma vida na república das letras, após se ter feito ao mar imenso que separava Lourenço Marques de Lisboa. Para um leitor açoriano, claro está, tudo isto é demasiado familiar.

Não há, entre nós, pelo menos na nossa geração, memórias comparáveis a Acta Est Fabula. Eugénio Lisboa é o contraponto literário perfeito para um novo rol de escritores portugueses entretidos a imitar, e frequentemente mal, na ficção e na “crítica”, alguns minimalistas norte-americanos. Nada melhor do que estas memórias para abrir a porta à sua restante e vasta obra ensaística – desde Vinte e Cinco Notas do Texto a O Objecto Celebrado e Portugalia e Monumenta Frivola. Será como um curso universitário, só que verdadeiramente superior.
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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula: Memórias I – Lourenço Marques (1930-1947), Opera Omnia, Guimarães, 2012.

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One thought on “Eugénio Lisboa e o teatro da vida

  1. ana b. Fevereiro 6, 2013 / 9:37 am

    Estou desejosa de ler este livro! Gosto muito da sua escrita. Particularmente das crónicas que o Eugénio Lisboa publica o JL. São excelentes!

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