A poesia da memória, ou a memória da poesia

Capa Di+írio de BrumaNo seio das baías/e em línguas de azul estreitas/se espraia o corpo da ilha/a volver raízes de ternura.

Nelson Moniz, Diário de Bruma

 /Vamberto Freitas

 Diário de Bruma, de Nelson Moniz, a sua colectânea de poemas escritos ao longo de mais de uma década e anteriormente publicados em revistas e suplementos literários, foi lançado há poucas semanas na Biblioteca Municipal da Ribeira. A apresentação do livro na cidade aqui a norte teve a sua razão de ser, e estas sessões literárias acontecem frequentemente entre nós pelas mesmas razões: o poeta é natural da freguesia de São Brás, onde ainda hoje vivem os pais e um irmão, mantendo ele próprio uma casa de férias ali por perto. Residente em Albufeira com a sua esposa e filhos, os regressos de Nelson Moniz às suas raízes são constantes, e agora eloquentemente registados neste belo volume de palavras carregadas de emoção e razão, a memória do chão-pátrio conjugada com a presença viva da ilha no dia a dia do poeta, perfeitamente conjugada com o quotidiano do poeta no seu lugar de professor público algarvio, e para quem a poesia, no seu próprio depoimento expresso de vários modos, é mais um instrumento utilizado na criação de consciências sensíveis ao seu próprio meio e adentro da sua história. Se assim não fosse, de qualquer modo, Diário de Bruma vale por si próprio, e integra-se entre nós num recente surto literário da geração escritores açorianos um pouco mais velhos, mas no qual, por razões de estética e ética, digamo-lo sem complexos, pela sua temática predominante, pela historicidade subjacente ora à poetização da “ilha” ora à poetização do seu presente continental, os lugares e dias convergem aqui como que em arquipélagos dispersos mas sabendo-se parte de um todo cujo passado e destino os unem para sempre. A consciência da portugalidade sem fronteiras ou desterretorializada mantém em equilíbrio esta dualidade quase genética entre nós, e que Pessoa disse mais claramente do que ninguém, mas ao contrário: “somos” – falemos aqui no plural — estrangeiros aqui como em toda a parte – como somos daqui e de toda parte. É desde sempre a condição existencial do ser ilhéu. Um ensaísta tem direito a expressar as suas emoções publicamente? Tem. Não posso omitir, pois, só mais um pouco de informação a propósito desta poesia de Nelson Moniz. Publiquei algumas destas entradas há muitos anos quando coordenei O Suplemento Açoriano de Cultura (Correio dos Açores), e depois O Suplemento Atlântico de Artes e Letras (Saber/Açores), ambos de Ponta Delgada. Para além disso, e muito mais comovente para mim, lembro-me, e acarinho essas minhas recordações dos tempos da minha saudade maior, um outro dado colateral da obra presente: Nelson Moniz é primo da Adelaide, e ainda hoje o revejo sentado com ela na nossa sala aqui do Pópulo a ouvir apreciações críticas e estilísticas, ela feliz por saber que nascia, ou já tinha nascido, mais um poeta das ilhas, e celebrava o facto de estar a assistir, sempre, ao enriquecimento dos nossos arquivos criativos, de mais um contributo para a nossa futura memória colectiva. Essa é a outra grande “função” da literatura, e a Adelaide sabia-o muito bem — a escrita também como acto identitário, e que reafirma quem somos, que define e redefine as nossas visões do mundo, o indivíduo que cultiva em liberdade o seu ser autónomo mas nunca se esquecendo que, queira ou não, faz parte de uma comunidade, real e/ou imaginada.

Diário de Bruma é esse registo ora sequencial ora temático de como o poeta se vai posicionando ante os lugares, acontecimentos e memórias, mas sobretudo o registo do que vai sentindo e pensando no decorrer de vários tempos simultâneos, o do seu quotidiano e do seu passado. É nesse sentido que Nelson Moniz se integra agora num espaço e dizer cada vez mais comum na nossa escrita poética, e de que tenho falado em textos anteriores referentes a outros: o regresso a casa após a grande viagem de descoberta e construção de outros mundos. Na literatura das ilhas atlânticas, Ulisses é o tropo indispensável, quer o poeta o convoque directamente (como Vasco Pereira da Costa, por exemplo, em Ilhíada) quer faça por o ignorar, mas sendo impelido a retraçar as rotas de volta à terra e aos nomeados e “inenarrados” amores de outrora. Um dia alguém há-de explicar este fenómeno humano: o ilhéu sai da ilha, mas ilha permanece para sempre no ilhéu. Dirão que a força das raízes é uma condição atávica e universal. Só que a “ilha” é uma obsessão na nossa arte, em todas as formas e géneros. Qualquer tentativa de fugir a esse como que mandamento que nos foi imposto com ou contra a nossa vontade, soará falso, como soa falso e oco nalgumas tentativas de fuga escriturais de alguns autores nossos. Sim, poderão escrever até ficção científica, mas os traços das suas origens, ainda por cima em que o cerco foi por todos os lados e implacável, irá marcar a psicologia dos seus personagens, das suas mundividências, e das suas atitudes perante os outros. Só se escreve bem sobre o que melhor conhecemos, já foi dito por outros — e quem melhor conhecemos somos nós próprios. Todo o resto, em arte, vai manifestar a falsidade ou pretensiosidade de queremos sair de nós próprios, negar o nosso ser. Nelson Moniz tanto revê os circuitos da sua infância, as figuras que permanecem na sua consciência ou memória, como dialoga com os seus antecessores poéticos das ilhas, uma geração – ou gerações – depois relembrando-se, uma vez mais, de onde partiram para o mundo, reafirmando quem são, reafirmando a inevitável continuidade da sua comunidade significante. Um dos poemas mais marcantes, para mim, do Diário de Bruma é precisamente o seu diálogo ao longe no lugar e no tempo com uma das nossas figuras e obras verdadeiramente canónicas, “Ao Armando Côrtes-Rodrigues”. Este tratamento na primeira pessoa por um poeta da geração actual (“Escuto agora Rod Stewart”, diz num dos versos do mesmo poema) só lhe fica bem, a intimidade literária significando ou reclamando a pertença a todo um passado e mundos comuns: Pois é, meu caro Armando/que sombra em nós se cruzou?/Procuramos em tempos diferentes/a chama que ilumina o coração/Quem compreende a distância/e os passos em trovão de água?/É a tal inquietação/que lemos a solidão,/apesar de eu ainda ser vida/e tu o espírito vivo que respira/nas palavras que escreveste.

No prefácio a Diário de Bruma, assinado por Manuel Ferreira Patrício, fala-se, e bem, de alguns dos mais famosos diários na literatura portuguesa (e até estrangeira) inclusive, claro está, o de Miguel Torga, cujos registos ou entradas interligam a prosa e a poesia. Falta, no entanto, mencionar um dos mais brilhantes diários da literatura portuguesa contemporânea, mas por enquanto menos conhecido por ter sido escrito por um açoriano que residiu toda a sua vida na ilha, menos durante os anos da faculdade em Coimbra: os cinco volumes Era Uma Vez O Tempo, de Fernando Aires. Não estou a sugerir aqui qualquer simetria estética, pois cada livro terá sempre de se erguer por si próprio, e num contexto e tempo que demarcam sensibilidades e manipulação de linguagens poéticas. No entanto, atrevo-me a dizer que Diário de Bruma, pelo menos nalguns aspectos, poderá ser visto como dando certa continuidade a esse corpo literário que caracteriza a nossa literatura e as suas, repita-se, obsessões temáticas, um vasto mar salpicado de terra, onde a humanidade sobrevive e sonha sempre com os olhos postos no longe. A ilha torna-se simultaneamente o mundo e a sua metonímica, num dialogismo permanente consigo própria e com o exterior, que não vemos mas desejamos sempre. Como diria outra poeta açoriana da nossa geração, Lúcia Costa Melo, “longe é aqui”. Em Fernando Aires, o mundo cabia todo entre a sua casa na avenida Príncipe de Mónaco, em Ponta Delgada, e o seu retiro preferido um pouco mais adiante na Caloura. Ao lermos Nelson Moniz ficamos também com a ideia de que Albufeira fica aqui ao lado, a geografia só tomando os contornos mais visíveis e humanamente dramáticos dentro da sua ilha natal. Vamo-nos situando no interiorismo do poeta quando ele intercala a memória com os acontecimentos que ora momentaneamente ora decididamente influíram no seu rumo pessoal, nas suas escolhas de vida, na sua missão de cidadão e escritor, como em “25 de Abril de 08”: Tenho caminhado/em inútil compromisso,/fins, extensões, obstáculos/que me estreitam o juízo.

Antes deste Diário de Bruma, Nelson Moniz publicou Rompendo Trevas (Edições Colibri, 2004), e está presente na antologia de contos e poesia Elos e Anelos, publicada no Brasil em 2008.

____________

Nelson Moniz, Diário de Bruma, Edições Colibri, Lisboa, 2011.

Stephen Rebello e a sua narrativa do mítico Psycho

Capa Stephen Rebello A. Hitchcok

Uma cadeira num cinema parecia um lugar tão privilegiado como outro qualquer para se assistir ao apocalipse.
Stephen Rebello, Alfred Hitchcock and the Making of Psycho

/Vamberto Freitas

 A epígrafe aqui foi tirada quase do fim da grande narrativa Alfred Hitrchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, o jornalista e escritor luso-franco-americano que desde há muitos anos circula intimamente nos corredores de Hollywood, e com vários livros e inúmeros artigos publicados nalguns dos mais prestigiados jornais de grande projecção e revistas de cinema e cultura. Rebello vê agora coroada a sua carreira com o filme estreado este ano, e que leva o título do seu próprio livro. Li-o, tenho de confessar, não por qualquer interesse sobre a feitura de filmes, nem sequer por qualquer fascínio com o filme original em causa, realizado no fim de 1959, e estreado meses depois, logo na abertura da mais abalada década americana, em que a rua fez tremer todo o país, como resultado da mais contestada guerra em que o país se envolvia a fundo, e sobretudo como resultado da radicalização social, política e cultural (iniciada nos anos 50 pelos escritores e poetas Beat) que levaria a uma autêntica revolução maneirista, transformando para sempre o mundo Ocidental. Li-o sobretudo por Stephen Rebello ser em parte luso-descendente, e por ter escrito um livro sobre um filme de um dos maiores realizadores de todos os tempos, e que o tornava agora uma figura literária ou jornalística internacional. O significado desta outra obra prima do grande realizador inglês em Los Angeles é muito mais profundo do que à primeira vista nos pareceu então, está para além de uma simples representação do horror gratuito, género que nasceu com o cinema americano e continua em grande fulgor ainda hoje, aliás, como nos relembra Stephen Rebello, na peugada do Psycho radicalmente revisionista. O que o autor descobre neste seu sustentado mergulho retrospectivo nos meandros de um estúdio de filmagens é que desde as técnicas de narração e construção de personagens ao terror “impingido” a uma audiência que nunca tinha visto nada de igual, faz do filme um marco tanto cultural como artístico.

“Poucos filmes como Psycho – escreve o autor do presente volume – têm penetrado tão profundamente na imaginação do medo e na consciência do público… A América vivia a vertigem dos horrores de uma guerra na selva (Vietname) televisionada, motins de rua, desassossego violento nas universidades, e a duplicidade de Lyndon Johnson e Richard Nixon, assim como os assassinatos de Martin Luther King, Jr., e de Robert Kennedy”.

Antes de mais, um inevitável parênteses aqui. Foi a Professora Leonor Simas-Almeida que durante a leitura de um jornal local perguntou ao marido, Onésimo T. Almeida, se o escritor cuja entrevista estava a ler naquele momento seria luso-americano, uma entrevista sobre o seu livro, e agora filme, um Stephen Rebello. Foi só depois na net que o Professor da Brown University descobriu que sim, e escreveria a primeira crónica entre nós sobre Rebello num número recente revista LER. Nascido em Fall River, educado em escolas dos arredores, assim como na Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, onde completou uma licenciatura em literatura e psicologia, mais tarde formar-se-ia com um mestrado em Serviços Sociais na Universidade de Simmons, do mesmo estado. Após alguns anos a trabalhar nessa área, mudou-se para Los Angeles em 1980, dando continuidade aos seus interesses no jornalismo e na escrita em geral, tendo deste muito cedo participado em actividades teatrais e radiofónicas. Depressa se tornaria um reconhecido investigador e escritor especializado no cinema americano e na sua evolução técnica e temática, publicando em grandes jornais como o Los Angeles Times, e em revistas de renome nacional, inclusive na Saturday Review e American Film Magazine. É actualmente um dos colaboradores (com o estatuto de “contributing editor”) da revista Playboy. Em livros, tem ainda Reel Art: Great Posters From the Golden Age of the Silver Screen (seleccionado e escrito com Richard C. Allen), Bad Movies We Love, The Art of Pocahontas, The Art of the Huntchback of Notre Dame e The Art of Hercules: The Chaos of Creation. Para além de guionista de vários filmes para o grande ecrã e para a televisão, trabalhou ainda com a Walt Disney em vários projectos criativos.

Alfred Hitchcock and the Making of Psycho (o livro) foi publicado originalmente em 1990, e a terceira edição saiu na Inglaterra o ano passado. Resultou de extensas entrevistas com o grande realizador e praticamente com todos os actores e actrizes envolvidas no filme, assim como com a equipa técnica principal, e ainda após aturadas investigações sobre cinema do género que o antecedeu, em que a opinião dos críticos americanos e mundiais foi igualmente registada, os escritos laudatórios ou detractores. Psycho, o original, resultou do caso de um crime extraordinário na pequena cidade rural de Plainfield, em Wisconsin, no Outono de 1957, que logo depois seria o cenário de partida para o romance com o mesmo nome, escrito por Robert Bloch, e publicado em 1959. Cena a cena, especialmente as mais duradouras na memória de quem viu o filme na altura, Rebello disseca técnicas inovadores e intenções artísticas do grande mestre que foi Alfred Hitchcock, que fazia e via os seus próprios filmes como quem escreve um romance, um conto ou uma peça de teatro: o ponto de vista teria de ser o da audiência a espreitar e a perceber o coração humano na escuridão temática da estória, Hitchcock tentando adivinhar como cada personagem e seus movimentos, expressões, sentimentos de culpa, agressões e “vitimizações” seriam apreendidos pelos espectadores. Cada pormenor (cor, indumentária, interiores e respectivos arranjos de mobília e decorações, território circundante) teria de ser estudado, debatido, experimentado. No retrato pormenorizado de Alfred Hitchcock que nos sobressai desta narrativa, ficamos a conhecer quase intimamente todas as suas andanças diárias entre a sua casa e os estúdios da Universal, no norte de Los Angeles, num estilo de vida simples, mas que não descurava a chegada por via aérea do The Times, de Londres, ou uma boa garrafa de vinho em casa. Hitchcock parece aqui o contrário absoluto do estrelato de muitos outros naquele meio de ficções várias e pretensiosidade e narcisismo: de poucas palavras, inglês e católico, nunca deslumbrado nem pela fama nem pelos adoradores parasitas tão comuns num mundo de celebridade e riqueza, os dois valores superiores na fantasmagórica cidade do cinema. De resto, Stephen Rebello relata a personalidade dos actores principais do filme (Anthony Perkins e Janet Leigh, principalmente), assim como os guionistas, técnicos e pessoal de apoio de toda espécie. Ficamos com a ideia de que Hitchcok muito sabia acerca da psicologia humana e cultural em seu redor, o humor negro por vezes marcando os seus relacionamentos no trabalho, e em todas as etapas da criação fílmica.

Psycho, filmado em pouco mais de trinta semanas dentro dos estúdios e depois desde Phoenix, Arizona, até ao norte da Califórnia na linha da serpenteante auto-estrada 99, e feito a um custo bem reduzido para o seu tempo, foi esse marco e viragem controversa adentro do seu género, e, a outros níveis, da própria cinematografia americana, tal como Citizen Kane, de Orson Wells, antes dele. Ler Stephen Rebello e depois rever o filme pela sua perspectiva, aliás como reafirma no seu livro, é ficarmos a saber também do seu alcance, digamos que intelectual e cultural – quebra com tudo o que tinha vindo antes, desde insinuações e representações sexuais à quebra dos mais sagrados e míticos tabus da sociedade americana quanto ao seu puritanismo e varrimento da sua sujeira para debaixo dos tapetes e das consciências.

O filme torna-se, assim, algo mais do que entretenimento puro, ou susto para um sábado à noite – devolve a uma sociedade a sua própria imagem, fá-la repensar as suas mais sagradas crenças acerca da sua condição social, fá-la repensar a complexidade do coração humano na sua bondade e na sua maldade, em personagens que em tudo e assustadoramente são tal e qual cada um de nós no seu quotidiano e aparência comum.

_________

Stephen Rebello, Alfred Hitchcock and the Making of Psycho (3ª edição), Marion Boyars Publishers, London, 2012. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Depois do mundo e da vida, a ilha para sempre

the conjurer and other azorean talesNinguém poderia possivelmente adivinhar que a quase sempre estranha trajectória da sua vida o colocaria aqui neste pequeno cemitério em Quebrado do Caminho, na ilha do Pico, Açores.

Darrell Kastin, The Conjurer & Other Azorean Tales

 /Vamberto Freitas

 A epígrafe acima vem do último e mais longo conto, intitulado “Night Magic”, em The Conjurer & Other Azorean Tales, de Darrell Kastin, recentemente publicado nos Estados Unidos. Escritor luso-americano de descendência materna picoense, nasceu em Los Angeles e vive actualmente em Sacramento, a capital do estado da Califórnia, e onde existe desde há muito uma das nossas comunidades açor-americanas. Casado com uma açoriana, o autor tem passado algumas longas temporadas no nosso arquipélago, especialmente no Pico e Faial, as duas ilhas que servem de referencial geográfico, humano e histórico tanto às narrativas do presente volume como ao seu romance The Undiscovered Island (2009). Estes contos foram todos escritos num longo período de tempo, começando nos anos 1987-88, quando o autor viveu cá. Conhecedor da nossa história, literatura, música e artes em geral (editou um cd em colaboração com a sua filha Shawna Lenore, Mar Português, em que musicou a poesia de Florbela Espanca e Fernando Pessoa), toda a sua escrita é um outro regresso constante à mítica das ilhas, que para ele nunca perdem o mistério das suas violentas e fogosas origens e da sua solitária vida a meio Atlântico. Darrell Kastin, no referido romance como agora nestas estórias, recorre necessariamente ao realismo mágico (tal como o viria a fazer mais tarde Katherine Vaz em Saudade) conseguindo suspender as crenças e experiências pragmáticas mesmo dos leitores que vivem ou bem conhecem o nosso quotidiano, marcado sobretudo, e uma vez mais na nossa história, pela necessidade da sobrevivência despida de qualquer dúvida acerca da luta prática e nada mística na terra e no mar. Só que numa história institucional que nos deixa tanta brecha em branco, de desconhecimento dos factos e uma imaginação concentrada em pouco mais do que em datas, nomes e alguns feitos de capitães-generais, os recursos narrativos a que Kastin recorre como que permitem completar o resto da estória.

Em “Night Magic” temos a convivência entre vivos e mortos, que se passeiam no cemitério (“Os vivos certamente poderiam aprender algumas lições que os mortos têm para nos ensinar”) e pela freguesia. O protagonista, de nome Gaspar Henriques, que de tanto andar no mundo foi perdendo partes do seu corpo e substituindo-as por membros e órgãos de toda espécie e utilidade, numa magnífica metáfora dos andarilhos impulsivos que somos, um absoluto estranho em viagens que só acabam com a sua volta às origens da ilha, onde vive quase só e à parte da restante comunidade. Sobram-lhe as memórias da passagem pelas mais distantes geografias, inclusive, pois claro, Los Angeles (“a cidade queria eliminar todos os rastos dele, tornando-o um estranho dentro dela própria”), a sua última morada na América, e onde seria abandonado pela mulher e filhas. Por mais estranho que uma narrativa nos pareça, é nesta que, entre todas as outras na colectânea, o autor parece descarregar sem limites nem medos tudo o que lhe vai na alma. Autor-narrador, pouco importam dados biográficos ou vidas realmente vividas – a força e a clareza de cada palavra ou expressão, o simbolismo em cada expressão e movimento entre vivos e mortos não me deixam dúvidas de quem fala e de quem nos conta as suas angústias, memórias e obsessões. O jogo de espelhos é necessariamente distorcido – mas é nele que nos enxergamos, tal como estou convencido de que é nele que melhor se revê o próprio autor, é nele que também acontece certo “choque de reconhecimento” dos leitores que regressam de uma qualquer diáspora para casa, e logo têm de partir novamente em busca da imaginária ilha por descobrir. Para além das belas e inesperadas imagens, o narrador vai deixando rastos de si, dos seus mundos e da sua alma, enunciando o que só a melhor literatura é capaz de fazer: toda uma filosofia de vida, toda uma estética de um outro modo de ser e estar, a certeza de que só o amor e a beleza nos salvam ante e dentro do caos perpétuo e primordial que nos cerca. Os restantes personagens nesta e noutras narrativas que não pensam e não aguentam o tormento de estarem vivos – bebem e esquecem. As tabernas substituíram as igrejas – os santos e as velas estão em cada casa com as mulheres, a lucidez embriagada uma outra saída ou companheira nos paraísos perdidos no que resta das míticas ilhas atlântidas. É ainda em “Night Magic” que o narrador vai convocando tudo o que é registo de um novo achamento de novas ilhas-pátrias imaginárias, a ilha em frente a nossa obsessão irreprimível. Literatura, música e magia sebastianista contidas num livro, num poema, ou numa reza aos santos incensados e iluminados na escuridão das casas açorianas. Raramente temos uma indicação dos tempos ficcionais de cada uma destas narrativas. Sabemos que estamos numa modernidade tardia e incompleta, mas todo o resto vem dos tempos imemoriais dos homens e mulheres que chegaram cá num “tempo sem tempo”, como alguém escreveu um dia a propósito de outras artes nossas.

“Ele recordava ter sido criado em Quebrado – diz o narrador ainda emigrado ou em outras andanças pelo mundo — quando era um rapazinho. Durante muitos anos tinha sonhado em regressar. Para este lugar, onde o tempo nada tinha a ver com relógios, e onde ele não tinha de constantemente de relembrar que tudo era possível, porque tudo em sua volta o sugeria. A pensão que recebia (da América) rendia muito mais nos Açores. Aqui, todas a suas necessidades eram mais simples, podia encontrar paz de espírito, juntar todos os seus pensamentos – memórias recortadas, fragmentos de sonhos – numa ordem cerebral ordenada. Era simplesmente como se estivesse onde sempre deveria estar, onde tinha de estar. Como se não pudesse existir em mais nenhum lugar”.

The Conjurer & And Other Azorean Tales lê quase como um romance de narrativas interligadas pelos seus personagens, temas e ambiências comuns, quase todas elas situadas na ilha do Pico e na Diáspora americana, todas elas na ruralidade orgulhosa de um povo que só não vive cercado porque a sua imaginação está permanentemente em busca de mundos-outros, reais ou simplesmente fantasiados, mesmo para além da morte. O conto de abertura, “The Conjurer/O Feiticeiro”, tem como narrador um Valdemar Coutinho que algures na América tenta ensinar o seu neto alguns dos mistérios do mundo e dos homens, transmitindo-lhe e fazendo-o reconhecer o essencial das suas longínquas origens atlânticas, abrindo-lhe os olhos e a mente para o que dá significado às nossas vidas: a descoberta pelas artes mágicas do que imaginamos, e até do que não imaginamos ainda. Tudo aqui, em todas estas estórias, parece ter como subtexto ou tema uma única ideia: estar vivo é querer ver ou entender o que está escondido das evidências imediatas, o entrelaço de tudo o que chamamos de “universal”, a vontade inata da humanidade que fez os seus antepassados lusos arriscar tudo por tudo para chegar ao lado de lá dos seus horizontes brumosos. Nesse sentido, Kastin parece ter entendido como poucos o que uma literatura identitária pretende fazer e comunicar: rever e reconfirmar uma história nacional que de outro modo permanece inexplicada, o que na verdade nos fez e faz navegar. Se isto nos parece místico de mais, regressemos aos Lusíadas, que o autor destes contos também absorveu com enorme proveito. Que um escritor descendente de açorianos e de judeus europeus percebe que a necessidade da errâncias sem fim é a força que move toda a nossa história e identidade, a ninguém deverá surpreender. Que ele consegue representar, com tanta beleza, ideias e memórias enterradas no tempo e nos mares do mundo para nos relembrar quem fomos e quem somos, mesmo numa língua que não a nossa, faz parte do milagre que tem sido o aparecimento de uma literatura luso-americana, de que estas narrativas fazem parte distinta. Creio que Darrell Kastin não só vê os Açores e a sua mítica como metonímica parcial do mundo, mas que é precisamente aqui em que o mundo inteiro se concentra, e o que fica de fora são as grandes “cidades” que, como a Los Angeles por ele retratada, ou nos absorve destruindo-nos, ou nós as deixamos com a mesma determinação com que continuamos à procura dos refúgios possíveis.

O grande romancista norte-americano Richard Zimler, numa nota de apreciação a The Conjurer & Other Azorean Tales, fala na “grandeza lírica e exuberantemente detalhada do mistério e da mitologia destes contos intimamente ligados à história única e à beleza natural dos Açores”. Sem dúvida. Algo mais acontece nestas páginas – uma visão sem igual da nossa vivência e sobrevivência, a sós, no meio do mais violento e, mesmo assim, carinhoso mar libertador.

__________

Darrell Kastin, The Conjurer & Other Azorean Tales, Tagus Press UMass Dartmouth, Dartmouth, Massachusetts, 2012. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.