Depois do mundo e da vida, a ilha para sempre

the conjurer and other azorean talesNinguém poderia possivelmente adivinhar que a quase sempre estranha trajectória da sua vida o colocaria aqui neste pequeno cemitério em Quebrado do Caminho, na ilha do Pico, Açores.

Darrell Kastin, The Conjurer & Other Azorean Tales

 /Vamberto Freitas

 A epígrafe acima vem do último e mais longo conto, intitulado “Night Magic”, em The Conjurer & Other Azorean Tales, de Darrell Kastin, recentemente publicado nos Estados Unidos. Escritor luso-americano de descendência materna picoense, nasceu em Los Angeles e vive actualmente em Sacramento, a capital do estado da Califórnia, e onde existe desde há muito uma das nossas comunidades açor-americanas. Casado com uma açoriana, o autor tem passado algumas longas temporadas no nosso arquipélago, especialmente no Pico e Faial, as duas ilhas que servem de referencial geográfico, humano e histórico tanto às narrativas do presente volume como ao seu romance The Undiscovered Island (2009). Estes contos foram todos escritos num longo período de tempo, começando nos anos 1987-88, quando o autor viveu cá. Conhecedor da nossa história, literatura, música e artes em geral (editou um cd em colaboração com a sua filha Shawna Lenore, Mar Português, em que musicou a poesia de Florbela Espanca e Fernando Pessoa), toda a sua escrita é um outro regresso constante à mítica das ilhas, que para ele nunca perdem o mistério das suas violentas e fogosas origens e da sua solitária vida a meio Atlântico. Darrell Kastin, no referido romance como agora nestas estórias, recorre necessariamente ao realismo mágico (tal como o viria a fazer mais tarde Katherine Vaz em Saudade) conseguindo suspender as crenças e experiências pragmáticas mesmo dos leitores que vivem ou bem conhecem o nosso quotidiano, marcado sobretudo, e uma vez mais na nossa história, pela necessidade da sobrevivência despida de qualquer dúvida acerca da luta prática e nada mística na terra e no mar. Só que numa história institucional que nos deixa tanta brecha em branco, de desconhecimento dos factos e uma imaginação concentrada em pouco mais do que em datas, nomes e alguns feitos de capitães-generais, os recursos narrativos a que Kastin recorre como que permitem completar o resto da estória.

Em “Night Magic” temos a convivência entre vivos e mortos, que se passeiam no cemitério (“Os vivos certamente poderiam aprender algumas lições que os mortos têm para nos ensinar”) e pela freguesia. O protagonista, de nome Gaspar Henriques, que de tanto andar no mundo foi perdendo partes do seu corpo e substituindo-as por membros e órgãos de toda espécie e utilidade, numa magnífica metáfora dos andarilhos impulsivos que somos, um absoluto estranho em viagens que só acabam com a sua volta às origens da ilha, onde vive quase só e à parte da restante comunidade. Sobram-lhe as memórias da passagem pelas mais distantes geografias, inclusive, pois claro, Los Angeles (“a cidade queria eliminar todos os rastos dele, tornando-o um estranho dentro dela própria”), a sua última morada na América, e onde seria abandonado pela mulher e filhas. Por mais estranho que uma narrativa nos pareça, é nesta que, entre todas as outras na colectânea, o autor parece descarregar sem limites nem medos tudo o que lhe vai na alma. Autor-narrador, pouco importam dados biográficos ou vidas realmente vividas – a força e a clareza de cada palavra ou expressão, o simbolismo em cada expressão e movimento entre vivos e mortos não me deixam dúvidas de quem fala e de quem nos conta as suas angústias, memórias e obsessões. O jogo de espelhos é necessariamente distorcido – mas é nele que nos enxergamos, tal como estou convencido de que é nele que melhor se revê o próprio autor, é nele que também acontece certo “choque de reconhecimento” dos leitores que regressam de uma qualquer diáspora para casa, e logo têm de partir novamente em busca da imaginária ilha por descobrir. Para além das belas e inesperadas imagens, o narrador vai deixando rastos de si, dos seus mundos e da sua alma, enunciando o que só a melhor literatura é capaz de fazer: toda uma filosofia de vida, toda uma estética de um outro modo de ser e estar, a certeza de que só o amor e a beleza nos salvam ante e dentro do caos perpétuo e primordial que nos cerca. Os restantes personagens nesta e noutras narrativas que não pensam e não aguentam o tormento de estarem vivos – bebem e esquecem. As tabernas substituíram as igrejas – os santos e as velas estão em cada casa com as mulheres, a lucidez embriagada uma outra saída ou companheira nos paraísos perdidos no que resta das míticas ilhas atlântidas. É ainda em “Night Magic” que o narrador vai convocando tudo o que é registo de um novo achamento de novas ilhas-pátrias imaginárias, a ilha em frente a nossa obsessão irreprimível. Literatura, música e magia sebastianista contidas num livro, num poema, ou numa reza aos santos incensados e iluminados na escuridão das casas açorianas. Raramente temos uma indicação dos tempos ficcionais de cada uma destas narrativas. Sabemos que estamos numa modernidade tardia e incompleta, mas todo o resto vem dos tempos imemoriais dos homens e mulheres que chegaram cá num “tempo sem tempo”, como alguém escreveu um dia a propósito de outras artes nossas.

“Ele recordava ter sido criado em Quebrado – diz o narrador ainda emigrado ou em outras andanças pelo mundo — quando era um rapazinho. Durante muitos anos tinha sonhado em regressar. Para este lugar, onde o tempo nada tinha a ver com relógios, e onde ele não tinha de constantemente de relembrar que tudo era possível, porque tudo em sua volta o sugeria. A pensão que recebia (da América) rendia muito mais nos Açores. Aqui, todas a suas necessidades eram mais simples, podia encontrar paz de espírito, juntar todos os seus pensamentos – memórias recortadas, fragmentos de sonhos – numa ordem cerebral ordenada. Era simplesmente como se estivesse onde sempre deveria estar, onde tinha de estar. Como se não pudesse existir em mais nenhum lugar”.

The Conjurer & And Other Azorean Tales lê quase como um romance de narrativas interligadas pelos seus personagens, temas e ambiências comuns, quase todas elas situadas na ilha do Pico e na Diáspora americana, todas elas na ruralidade orgulhosa de um povo que só não vive cercado porque a sua imaginação está permanentemente em busca de mundos-outros, reais ou simplesmente fantasiados, mesmo para além da morte. O conto de abertura, “The Conjurer/O Feiticeiro”, tem como narrador um Valdemar Coutinho que algures na América tenta ensinar o seu neto alguns dos mistérios do mundo e dos homens, transmitindo-lhe e fazendo-o reconhecer o essencial das suas longínquas origens atlânticas, abrindo-lhe os olhos e a mente para o que dá significado às nossas vidas: a descoberta pelas artes mágicas do que imaginamos, e até do que não imaginamos ainda. Tudo aqui, em todas estas estórias, parece ter como subtexto ou tema uma única ideia: estar vivo é querer ver ou entender o que está escondido das evidências imediatas, o entrelaço de tudo o que chamamos de “universal”, a vontade inata da humanidade que fez os seus antepassados lusos arriscar tudo por tudo para chegar ao lado de lá dos seus horizontes brumosos. Nesse sentido, Kastin parece ter entendido como poucos o que uma literatura identitária pretende fazer e comunicar: rever e reconfirmar uma história nacional que de outro modo permanece inexplicada, o que na verdade nos fez e faz navegar. Se isto nos parece místico de mais, regressemos aos Lusíadas, que o autor destes contos também absorveu com enorme proveito. Que um escritor descendente de açorianos e de judeus europeus percebe que a necessidade da errâncias sem fim é a força que move toda a nossa história e identidade, a ninguém deverá surpreender. Que ele consegue representar, com tanta beleza, ideias e memórias enterradas no tempo e nos mares do mundo para nos relembrar quem fomos e quem somos, mesmo numa língua que não a nossa, faz parte do milagre que tem sido o aparecimento de uma literatura luso-americana, de que estas narrativas fazem parte distinta. Creio que Darrell Kastin não só vê os Açores e a sua mítica como metonímica parcial do mundo, mas que é precisamente aqui em que o mundo inteiro se concentra, e o que fica de fora são as grandes “cidades” que, como a Los Angeles por ele retratada, ou nos absorve destruindo-nos, ou nós as deixamos com a mesma determinação com que continuamos à procura dos refúgios possíveis.

O grande romancista norte-americano Richard Zimler, numa nota de apreciação a The Conjurer & Other Azorean Tales, fala na “grandeza lírica e exuberantemente detalhada do mistério e da mitologia destes contos intimamente ligados à história única e à beleza natural dos Açores”. Sem dúvida. Algo mais acontece nestas páginas – uma visão sem igual da nossa vivência e sobrevivência, a sós, no meio do mais violento e, mesmo assim, carinhoso mar libertador.

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Darrell Kastin, The Conjurer & Other Azorean Tales, Tagus Press UMass Dartmouth, Dartmouth, Massachusetts, 2012. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

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