Stephen Rebello e a sua narrativa do mítico Psycho

Capa Stephen Rebello A. Hitchcok

Uma cadeira num cinema parecia um lugar tão privilegiado como outro qualquer para se assistir ao apocalipse.
Stephen Rebello, Alfred Hitchcock and the Making of Psycho

/Vamberto Freitas

 A epígrafe aqui foi tirada quase do fim da grande narrativa Alfred Hitrchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, o jornalista e escritor luso-franco-americano que desde há muitos anos circula intimamente nos corredores de Hollywood, e com vários livros e inúmeros artigos publicados nalguns dos mais prestigiados jornais de grande projecção e revistas de cinema e cultura. Rebello vê agora coroada a sua carreira com o filme estreado este ano, e que leva o título do seu próprio livro. Li-o, tenho de confessar, não por qualquer interesse sobre a feitura de filmes, nem sequer por qualquer fascínio com o filme original em causa, realizado no fim de 1959, e estreado meses depois, logo na abertura da mais abalada década americana, em que a rua fez tremer todo o país, como resultado da mais contestada guerra em que o país se envolvia a fundo, e sobretudo como resultado da radicalização social, política e cultural (iniciada nos anos 50 pelos escritores e poetas Beat) que levaria a uma autêntica revolução maneirista, transformando para sempre o mundo Ocidental. Li-o sobretudo por Stephen Rebello ser em parte luso-descendente, e por ter escrito um livro sobre um filme de um dos maiores realizadores de todos os tempos, e que o tornava agora uma figura literária ou jornalística internacional. O significado desta outra obra prima do grande realizador inglês em Los Angeles é muito mais profundo do que à primeira vista nos pareceu então, está para além de uma simples representação do horror gratuito, género que nasceu com o cinema americano e continua em grande fulgor ainda hoje, aliás, como nos relembra Stephen Rebello, na peugada do Psycho radicalmente revisionista. O que o autor descobre neste seu sustentado mergulho retrospectivo nos meandros de um estúdio de filmagens é que desde as técnicas de narração e construção de personagens ao terror “impingido” a uma audiência que nunca tinha visto nada de igual, faz do filme um marco tanto cultural como artístico.

“Poucos filmes como Psycho – escreve o autor do presente volume – têm penetrado tão profundamente na imaginação do medo e na consciência do público… A América vivia a vertigem dos horrores de uma guerra na selva (Vietname) televisionada, motins de rua, desassossego violento nas universidades, e a duplicidade de Lyndon Johnson e Richard Nixon, assim como os assassinatos de Martin Luther King, Jr., e de Robert Kennedy”.

Antes de mais, um inevitável parênteses aqui. Foi a Professora Leonor Simas-Almeida que durante a leitura de um jornal local perguntou ao marido, Onésimo T. Almeida, se o escritor cuja entrevista estava a ler naquele momento seria luso-americano, uma entrevista sobre o seu livro, e agora filme, um Stephen Rebello. Foi só depois na net que o Professor da Brown University descobriu que sim, e escreveria a primeira crónica entre nós sobre Rebello num número recente revista LER. Nascido em Fall River, educado em escolas dos arredores, assim como na Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, onde completou uma licenciatura em literatura e psicologia, mais tarde formar-se-ia com um mestrado em Serviços Sociais na Universidade de Simmons, do mesmo estado. Após alguns anos a trabalhar nessa área, mudou-se para Los Angeles em 1980, dando continuidade aos seus interesses no jornalismo e na escrita em geral, tendo deste muito cedo participado em actividades teatrais e radiofónicas. Depressa se tornaria um reconhecido investigador e escritor especializado no cinema americano e na sua evolução técnica e temática, publicando em grandes jornais como o Los Angeles Times, e em revistas de renome nacional, inclusive na Saturday Review e American Film Magazine. É actualmente um dos colaboradores (com o estatuto de “contributing editor”) da revista Playboy. Em livros, tem ainda Reel Art: Great Posters From the Golden Age of the Silver Screen (seleccionado e escrito com Richard C. Allen), Bad Movies We Love, The Art of Pocahontas, The Art of the Huntchback of Notre Dame e The Art of Hercules: The Chaos of Creation. Para além de guionista de vários filmes para o grande ecrã e para a televisão, trabalhou ainda com a Walt Disney em vários projectos criativos.

Alfred Hitchcock and the Making of Psycho (o livro) foi publicado originalmente em 1990, e a terceira edição saiu na Inglaterra o ano passado. Resultou de extensas entrevistas com o grande realizador e praticamente com todos os actores e actrizes envolvidas no filme, assim como com a equipa técnica principal, e ainda após aturadas investigações sobre cinema do género que o antecedeu, em que a opinião dos críticos americanos e mundiais foi igualmente registada, os escritos laudatórios ou detractores. Psycho, o original, resultou do caso de um crime extraordinário na pequena cidade rural de Plainfield, em Wisconsin, no Outono de 1957, que logo depois seria o cenário de partida para o romance com o mesmo nome, escrito por Robert Bloch, e publicado em 1959. Cena a cena, especialmente as mais duradouras na memória de quem viu o filme na altura, Rebello disseca técnicas inovadores e intenções artísticas do grande mestre que foi Alfred Hitchcock, que fazia e via os seus próprios filmes como quem escreve um romance, um conto ou uma peça de teatro: o ponto de vista teria de ser o da audiência a espreitar e a perceber o coração humano na escuridão temática da estória, Hitchcock tentando adivinhar como cada personagem e seus movimentos, expressões, sentimentos de culpa, agressões e “vitimizações” seriam apreendidos pelos espectadores. Cada pormenor (cor, indumentária, interiores e respectivos arranjos de mobília e decorações, território circundante) teria de ser estudado, debatido, experimentado. No retrato pormenorizado de Alfred Hitchcock que nos sobressai desta narrativa, ficamos a conhecer quase intimamente todas as suas andanças diárias entre a sua casa e os estúdios da Universal, no norte de Los Angeles, num estilo de vida simples, mas que não descurava a chegada por via aérea do The Times, de Londres, ou uma boa garrafa de vinho em casa. Hitchcock parece aqui o contrário absoluto do estrelato de muitos outros naquele meio de ficções várias e pretensiosidade e narcisismo: de poucas palavras, inglês e católico, nunca deslumbrado nem pela fama nem pelos adoradores parasitas tão comuns num mundo de celebridade e riqueza, os dois valores superiores na fantasmagórica cidade do cinema. De resto, Stephen Rebello relata a personalidade dos actores principais do filme (Anthony Perkins e Janet Leigh, principalmente), assim como os guionistas, técnicos e pessoal de apoio de toda espécie. Ficamos com a ideia de que Hitchcok muito sabia acerca da psicologia humana e cultural em seu redor, o humor negro por vezes marcando os seus relacionamentos no trabalho, e em todas as etapas da criação fílmica.

Psycho, filmado em pouco mais de trinta semanas dentro dos estúdios e depois desde Phoenix, Arizona, até ao norte da Califórnia na linha da serpenteante auto-estrada 99, e feito a um custo bem reduzido para o seu tempo, foi esse marco e viragem controversa adentro do seu género, e, a outros níveis, da própria cinematografia americana, tal como Citizen Kane, de Orson Wells, antes dele. Ler Stephen Rebello e depois rever o filme pela sua perspectiva, aliás como reafirma no seu livro, é ficarmos a saber também do seu alcance, digamos que intelectual e cultural – quebra com tudo o que tinha vindo antes, desde insinuações e representações sexuais à quebra dos mais sagrados e míticos tabus da sociedade americana quanto ao seu puritanismo e varrimento da sua sujeira para debaixo dos tapetes e das consciências.

O filme torna-se, assim, algo mais do que entretenimento puro, ou susto para um sábado à noite – devolve a uma sociedade a sua própria imagem, fá-la repensar as suas mais sagradas crenças acerca da sua condição social, fá-la repensar a complexidade do coração humano na sua bondade e na sua maldade, em personagens que em tudo e assustadoramente são tal e qual cada um de nós no seu quotidiano e aparência comum.

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Stephen Rebello, Alfred Hitchcock and the Making of Psycho (3ª edição), Marion Boyars Publishers, London, 2012. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

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