A poesia da memória, ou a memória da poesia

Capa Di+írio de BrumaNo seio das baías/e em línguas de azul estreitas/se espraia o corpo da ilha/a volver raízes de ternura.

Nelson Moniz, Diário de Bruma

 /Vamberto Freitas

 Diário de Bruma, de Nelson Moniz, a sua colectânea de poemas escritos ao longo de mais de uma década e anteriormente publicados em revistas e suplementos literários, foi lançado há poucas semanas na Biblioteca Municipal da Ribeira. A apresentação do livro na cidade aqui a norte teve a sua razão de ser, e estas sessões literárias acontecem frequentemente entre nós pelas mesmas razões: o poeta é natural da freguesia de São Brás, onde ainda hoje vivem os pais e um irmão, mantendo ele próprio uma casa de férias ali por perto. Residente em Albufeira com a sua esposa e filhos, os regressos de Nelson Moniz às suas raízes são constantes, e agora eloquentemente registados neste belo volume de palavras carregadas de emoção e razão, a memória do chão-pátrio conjugada com a presença viva da ilha no dia a dia do poeta, perfeitamente conjugada com o quotidiano do poeta no seu lugar de professor público algarvio, e para quem a poesia, no seu próprio depoimento expresso de vários modos, é mais um instrumento utilizado na criação de consciências sensíveis ao seu próprio meio e adentro da sua história. Se assim não fosse, de qualquer modo, Diário de Bruma vale por si próprio, e integra-se entre nós num recente surto literário da geração escritores açorianos um pouco mais velhos, mas no qual, por razões de estética e ética, digamo-lo sem complexos, pela sua temática predominante, pela historicidade subjacente ora à poetização da “ilha” ora à poetização do seu presente continental, os lugares e dias convergem aqui como que em arquipélagos dispersos mas sabendo-se parte de um todo cujo passado e destino os unem para sempre. A consciência da portugalidade sem fronteiras ou desterretorializada mantém em equilíbrio esta dualidade quase genética entre nós, e que Pessoa disse mais claramente do que ninguém, mas ao contrário: “somos” – falemos aqui no plural — estrangeiros aqui como em toda a parte – como somos daqui e de toda parte. É desde sempre a condição existencial do ser ilhéu. Um ensaísta tem direito a expressar as suas emoções publicamente? Tem. Não posso omitir, pois, só mais um pouco de informação a propósito desta poesia de Nelson Moniz. Publiquei algumas destas entradas há muitos anos quando coordenei O Suplemento Açoriano de Cultura (Correio dos Açores), e depois O Suplemento Atlântico de Artes e Letras (Saber/Açores), ambos de Ponta Delgada. Para além disso, e muito mais comovente para mim, lembro-me, e acarinho essas minhas recordações dos tempos da minha saudade maior, um outro dado colateral da obra presente: Nelson Moniz é primo da Adelaide, e ainda hoje o revejo sentado com ela na nossa sala aqui do Pópulo a ouvir apreciações críticas e estilísticas, ela feliz por saber que nascia, ou já tinha nascido, mais um poeta das ilhas, e celebrava o facto de estar a assistir, sempre, ao enriquecimento dos nossos arquivos criativos, de mais um contributo para a nossa futura memória colectiva. Essa é a outra grande “função” da literatura, e a Adelaide sabia-o muito bem — a escrita também como acto identitário, e que reafirma quem somos, que define e redefine as nossas visões do mundo, o indivíduo que cultiva em liberdade o seu ser autónomo mas nunca se esquecendo que, queira ou não, faz parte de uma comunidade, real e/ou imaginada.

Diário de Bruma é esse registo ora sequencial ora temático de como o poeta se vai posicionando ante os lugares, acontecimentos e memórias, mas sobretudo o registo do que vai sentindo e pensando no decorrer de vários tempos simultâneos, o do seu quotidiano e do seu passado. É nesse sentido que Nelson Moniz se integra agora num espaço e dizer cada vez mais comum na nossa escrita poética, e de que tenho falado em textos anteriores referentes a outros: o regresso a casa após a grande viagem de descoberta e construção de outros mundos. Na literatura das ilhas atlânticas, Ulisses é o tropo indispensável, quer o poeta o convoque directamente (como Vasco Pereira da Costa, por exemplo, em Ilhíada) quer faça por o ignorar, mas sendo impelido a retraçar as rotas de volta à terra e aos nomeados e “inenarrados” amores de outrora. Um dia alguém há-de explicar este fenómeno humano: o ilhéu sai da ilha, mas ilha permanece para sempre no ilhéu. Dirão que a força das raízes é uma condição atávica e universal. Só que a “ilha” é uma obsessão na nossa arte, em todas as formas e géneros. Qualquer tentativa de fugir a esse como que mandamento que nos foi imposto com ou contra a nossa vontade, soará falso, como soa falso e oco nalgumas tentativas de fuga escriturais de alguns autores nossos. Sim, poderão escrever até ficção científica, mas os traços das suas origens, ainda por cima em que o cerco foi por todos os lados e implacável, irá marcar a psicologia dos seus personagens, das suas mundividências, e das suas atitudes perante os outros. Só se escreve bem sobre o que melhor conhecemos, já foi dito por outros — e quem melhor conhecemos somos nós próprios. Todo o resto, em arte, vai manifestar a falsidade ou pretensiosidade de queremos sair de nós próprios, negar o nosso ser. Nelson Moniz tanto revê os circuitos da sua infância, as figuras que permanecem na sua consciência ou memória, como dialoga com os seus antecessores poéticos das ilhas, uma geração – ou gerações – depois relembrando-se, uma vez mais, de onde partiram para o mundo, reafirmando quem são, reafirmando a inevitável continuidade da sua comunidade significante. Um dos poemas mais marcantes, para mim, do Diário de Bruma é precisamente o seu diálogo ao longe no lugar e no tempo com uma das nossas figuras e obras verdadeiramente canónicas, “Ao Armando Côrtes-Rodrigues”. Este tratamento na primeira pessoa por um poeta da geração actual (“Escuto agora Rod Stewart”, diz num dos versos do mesmo poema) só lhe fica bem, a intimidade literária significando ou reclamando a pertença a todo um passado e mundos comuns: Pois é, meu caro Armando/que sombra em nós se cruzou?/Procuramos em tempos diferentes/a chama que ilumina o coração/Quem compreende a distância/e os passos em trovão de água?/É a tal inquietação/que lemos a solidão,/apesar de eu ainda ser vida/e tu o espírito vivo que respira/nas palavras que escreveste.

No prefácio a Diário de Bruma, assinado por Manuel Ferreira Patrício, fala-se, e bem, de alguns dos mais famosos diários na literatura portuguesa (e até estrangeira) inclusive, claro está, o de Miguel Torga, cujos registos ou entradas interligam a prosa e a poesia. Falta, no entanto, mencionar um dos mais brilhantes diários da literatura portuguesa contemporânea, mas por enquanto menos conhecido por ter sido escrito por um açoriano que residiu toda a sua vida na ilha, menos durante os anos da faculdade em Coimbra: os cinco volumes Era Uma Vez O Tempo, de Fernando Aires. Não estou a sugerir aqui qualquer simetria estética, pois cada livro terá sempre de se erguer por si próprio, e num contexto e tempo que demarcam sensibilidades e manipulação de linguagens poéticas. No entanto, atrevo-me a dizer que Diário de Bruma, pelo menos nalguns aspectos, poderá ser visto como dando certa continuidade a esse corpo literário que caracteriza a nossa literatura e as suas, repita-se, obsessões temáticas, um vasto mar salpicado de terra, onde a humanidade sobrevive e sonha sempre com os olhos postos no longe. A ilha torna-se simultaneamente o mundo e a sua metonímica, num dialogismo permanente consigo própria e com o exterior, que não vemos mas desejamos sempre. Como diria outra poeta açoriana da nossa geração, Lúcia Costa Melo, “longe é aqui”. Em Fernando Aires, o mundo cabia todo entre a sua casa na avenida Príncipe de Mónaco, em Ponta Delgada, e o seu retiro preferido um pouco mais adiante na Caloura. Ao lermos Nelson Moniz ficamos também com a ideia de que Albufeira fica aqui ao lado, a geografia só tomando os contornos mais visíveis e humanamente dramáticos dentro da sua ilha natal. Vamo-nos situando no interiorismo do poeta quando ele intercala a memória com os acontecimentos que ora momentaneamente ora decididamente influíram no seu rumo pessoal, nas suas escolhas de vida, na sua missão de cidadão e escritor, como em “25 de Abril de 08”: Tenho caminhado/em inútil compromisso,/fins, extensões, obstáculos/que me estreitam o juízo.

Antes deste Diário de Bruma, Nelson Moniz publicou Rompendo Trevas (Edições Colibri, 2004), e está presente na antologia de contos e poesia Elos e Anelos, publicada no Brasil em 2008.

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Nelson Moniz, Diário de Bruma, Edições Colibri, Lisboa, 2011.

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