ADELAIDE FREITAS – a grandeza de um sorriso por dentro da vida

/Álamo Oliveira

Foto AdelaideA atenção centrou-se no tema sugerido pela organização: escritoras açorianas. Na lista de temas apontados para este encontro da lusofonia, não me pareceu haver a preocupação de se querer exorcizar silêncios nem de se estabelecer qualquer critério de análise de coloração machista. Apesar da referência concreta a «mulheres escritoras», senti-me à vontade para optar, não por um trabalho com pretensões ensaísticas, mas por um pequeno exercício sobre a ineficácia da memória quando deixada sob a influência do que fazem prevalecer sobre o nosso quotidiano. Por mais preparada que a consciência individual e coletiva estejam para enfrentar o turbilhão social que todos os dias aflige a sociedade, sempre se nos apagam as prioridades que se diriam essenciais para a nossa sobrevivência sociocultural.

 Com a barriga não se brinca e a escrita não dá pão, mesmo quando esta acontece por parte de quem tem a generosidade de deixar expressas orientações apaziguadoras dos conflitos que nos afligem. Sei que é muito discutível a função redentora da escrita e, por isso, salto fora de qualquer rito oficioso que provoque quem quer que seja. Volto às escritoras açorianas e fico-me por uma delas.

 De entre as mulheres que se destacam no espaço literário açoriano, Adelaide Freitas ocupa um lugar singular. Essa singularidade enforma-se de circunstâncias diversas, sendo de relevar os propósitos que a levam a fazer da escrita uma espécie de manual de solidariedade. Ouso lembrar os primeiros encontros, em que eu olhava para uma mulher bonita, que sorria como se o Mundo fosse do tamanho do seu coração. Fomo-nos encontrando de acontecimento a acontecimento e ela foi-me prendendo com as suas comunicações – comunicações essas que ora eram de conteúdo especificamente literário ora de cariz sociocultural, mais os serões de amena, mas nunca gratuita, conversa. Sempre me surpreendeu a transparência do seu pensamento, a sua capacidade de análise e a sua incomensurável sensibilidade para tratar de assuntos que exigiam cuidados aflitivos de aproximação, os quais sempre deram azo a soluções justas e atempadas.

 Adelaide Freitas – ainda Adelaide Baptista – somou textos sobre textos e foi-os reunindo com propósitos de publicação, cumprindo assim a função pedagógica da partilha, situada em vários contextos como, por exemplo, agente do ensino universitário na área das Literaturas, tendo sido Diretora do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas. Foi também, durante cinco anos, Presidente do Instituto de Ação Social, cargo que exerceu com enorme sentido de solidariedade. É deste tempo a publicação de um conjunto de textos, sob o título de Regresso a Casa: uma Proposta de Intervenção Social. Trata-se de uma espécie de manual onde se define e se esclarece que os serviços sociais só existem porque não se é capaz de proporcionar igualdade de oportunidades a cada um dos membros da comunidade.

 Dos títulos que melhor divulgam a personalidade intelectual de Adelaide Freitas está o ensaio que constituiu a sua tese de Doutoramento: Moby Dick a ilha e o marMetáforas do carácter do Povo Americano – uma brilhante abordagem sobre uma obra emblemática da Literatura norte-americana, e onde os Açores surgem em apontamentos socioculturais e cenográficos num tempo de desejada emigração. A nível de ensaios especificamente literários, relembrem-se as suas vastas aproximações à escrita de autores açorianos, com destaque para a obra de João de Melo. São dois volumes que vão continuar a merecer a nossa atenção. Dois títulos com poesia e um texto de prosa poética para um álbum sobre o concelho do Nordeste enriquecem também a sua bibliografia.

 No entanto, Adelaide Freitas voltou a surpreender com a publicação do romance Sorriso por Dentro da Noite – um romance que não passou despercebido aos leitores mais atentos, sendo muitos os que, então, opinaram, de forma crítica, sobre ele.

 Na verdade, não se pode ignorar um romance sobre o qual Luiz Antônio Assis Brasil escreveu: «muito poderia ser dito (…) sobre seu estilo densamente metafórico e imagético, é possível afirmar que estamos ante um romance de emigração, a somar-se a uma vertente ainda ativa na literatura praticada por escritores açorianos, mas é uma inclusão meramente conceitual e categorizadora, pois se trata de uma obra que, de certo modo, renova esse viés literário trazendo-nos a experiência dos que ficam, entes tão sofredores e perplexos como os que partem.» Por sua vez, Daniel de Sá sentenciou: «Esta é a história dos «emigrados» que ficam, aqueles que partem sem sair da ilha, porque vai o melhor deles com quem lhes leva as memórias e os sentimentos, falando todos a mesma voz, numa espécie de discurso indirecto na primeira pessoa, o que não quebra o ritmo da leitura, o turbilhão das ideias».

 Sorriso por Dentro da Noite é, na verdade, um livro de releituras, porque, na sua trama estrutural, há como que um mar de propostas de entendimentos que nos conduz para opções diversas, para diferentes estados emocionais e até para conclusões interpretativas plurissignificantes. Em cada leitura caberá sempre um olhar outro e as personagens, que Adelaide Freitas vai pacientemente construindo ao longo da sua narrativa, continuando as mesmas, deixam, ao leitor, como que uma espécie de liberdade para a reinvenção ou para adendar pormenores de caracterização. Escrevi em 2004 que «A compreensão da nossa história social terá que passar (pela leitura) deste livro.» Estamos perante um romance que marca, positivamente, uma época literária nossa.

 Os Açores contam com um número considerável de escritoras. Algumas delas fazem parte da lista obrigada de nomes a que a História da Literatura Portuguesa está sujeita, embora fique por perceber as razões a que a nossa memória recorre para fazer desaparecer e reaparecer, numa oscilação de maré continuada, alguns dos nomes que, nem temporariamente, deviam submergir. Continuamos sujeitos a modas, a aniversários que nos dão jeito, a espalhafatos celebrativos que se esgotam na sessão solene e que prestigiam os promotores mais do que os homenageados.

Adelaide Freitas está no limbo da memória coletiva. E não está sozinha. Tem a companhia de muitos outros, desaparecidos ou não e que estão à espera de nada. No entanto, nem ela, nem os seus livros merecem tamanho silêncio. Infelizmente, ela não voltará a surpreender-nos através da escrita. Mas surpreender-nos-á sempre através dos livros publicados, pois em cada ensaio de tema social ou literário ficou a sua inteligência, o seu poder analítico, a sua capacidade de convencimento, os seus saberes de âmbito universalista. A sua poesia deixa transparente a enormidade do seu coração, como Penélope que espera fazer um Mundo melhor, utilizando o tear onde as suas palavras se urdem com os fios preclaros dos afetos. Depois, vem o livro que a faz autora de um só romance. Cabem, então, os adjetivos mais laudatórios e o leitor, mesmo o distraído, entende que está perante uma grande escritora.

 Bem sei que outros nomes (de mulheres e de homens) permanecem no limbo literário do esquecimento. O nome de Adelaide Freitas impôs-se-me por muitas razões. A mais forte de todas: a amizade que nos irmanou desde sempre; a maior de todas: ela ser uma brilhante escritora açoriana da Língua portuguesa; a mais sublime: a de ela ser um sorriso por dentro da vida.

Raminho, Janeiro de 2013

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Os islâmicos entre nós, outra vez

Capa Al-AndaluzOs ibéricos na sua maioria não se sentem ameaçados pelos extremistas islâmicos.

Marvine Howe, Al-Andalus Rediscovered

/Vamberto Freitas

 Al-Andalus Rediscovered: Iberia’s New Muslims é uma admirável narrativa não só sobre os islâmicos entre nós e em Espanha, como sobre certas facetas da história da península no que toca ao contacto histórico com o restante mundo, mas ainda também sobre a sua rica herança islâmica, muito antes e durante a formação das várias nacionalidades no mesmo espaço geográfico, recolocando-nos, por assim dizer, na actualidade europeia e na nossa entrada na modernidade. Para além desta só por si aliciante temática, o livro não deixa de lado, não poderia deixar, outros imigrantes entre nós, como os brasileiros e os muitos que chegaram dos países africanos de língua portuguesa para cá reconstruírem as suas vidas. É rara uma narrativa de temática histórica e cultural sobre nós em língua inglesa que nos olhe com empatia, compreensão, e até admiração, nunca se afundando nos habituais clichés norte-europeus ou norte-americanos, que são muito semelhantes. Adicione-se aqui que nem sequer os brasileiros, que melhor deveriam saber, fogem a essas ideias feitas sobre nós, tendo a maior parte dos seus intelectuais olhado quase sempre para nós com certa condescendência e uma espécie de culpabilização por tudo o que o Brasil gostaria de ser mas não é, quando não mesmo hostilidade difamatória, especialmente a partir dos anos 20-30, quando redefiniam eles o seu lugar na História e buscavam uma identidade nacional. Não será, com esta minha leitura de Al-Andalus Rediscovered, o meu orgulho nacional a ser alimentado, mas sim o prazer puramente intelectual de não nos vermos uma vez mais reduzidos a essas “análises” simplistas, e particularmente à infantilidade de se falar em “carácter” nacional, ou medir o seu próprio lugar entre outros povos como consequência do que Gilberto Freire chamava “o mundo que o português criou”, no além-mar e portas adentro. O presente volume poderá ser lido também na sequência de outra grande narrativa publicada cá recentemente, Os Portugueses, de Barry Hatton, jornalista britânico que trabalha e reside entre nós há muitos anos.

Marvine Howe foi durante uma longa carreira a correspondente do New York Times na África, Médio Oriente e Europa, com especial interesse em Portugal e Espanha. Autora de outros livros sobre as questões islâmicas do nosso tempo (Turkey: A Nation Divided Over Islam’s Revival e Morocco: The Islamist Awakening and Other Challenges), a sua prosa vem no estilo do jornalista-escritor norte-americano: os factos como argumento, linguagem escorreita mas nunca simplista, simultaneamente aplicada à minúcia analítica de uma ou outra questão sem nunca deixar a abrangência de uma narrativa sobre acontecimentos significantes e protagonistas ou personalidades influentes, ora tudo e todos vistos no seu contexto comunitário ou nacional, ora colocados no pertinente panorama global.

Al-Andalus, o nome árabe que significa, a partir da chegada dos islâmicos à Ibéria em 711, “as terras dos vândalos”, ainda hoje é referida pelos extremistas da Al-Qaeda como terra ocupada pelos usurpadores cristãos, e a ser eventualmente reconquistada. Por certo que poucos levarão a sério tal campanha político-militar todos estes séculos depois, mas quando as bombas explodiram em Madrid no dia 11 de Março de 2004, matando 191 pessoas e ferindo gravemente quase outras duas mil, os espanhóis tiveram toda a razão em ver o acontecimento como um aviso directo do que pensavam os terroristas islâmicos não só do envolvimento espanhol nas guerras em curso nalgumas nações islâmicas, como a reactivação magoada de certa memória histórica. Mesmo assim, repete sempre Marvine Howe após incontáveis entrevistas e conversas com algumas das mais destacadas figuras da política interna espanhola e portuguesa, é precisamente nos nossos dois países onde as políticas da imigração são abertas, acolhedoras e de grande respeito cívico não só ante as suas populações islâmicas, como em tudo que se refere a outros grupos de imigrantes entre nós. Lembrando de quando em quando que tanto Portugal como Espanha são historicamente países de e/imigração, o seu humanismo e tolerância perante as diferenças culturais e linguísticas que connosco partilham um espaço comum na nossa sociedade não tem par adentro da restante Europa, hoje marcada, quase toda ela, pela intolerância, medos de vária ordem, racismo aberto na rua, quando não mesmo na legislação. Nada disto surpreende a autora de Al-Andalus Rediscovered. Foi precisamente na península ibérica onde os poderes islâmicos fundaram outrora uma das mais avançadas (no sentido científico, cultural, artístico e religioso) sociedades de sempre, e onde aconteceu a convivência civilizada, tolerante, das três maiores religiões do mundo – islamismo, judaísmo e cristianismo. O nosso passado não está morto, a nossa história, mesmo que tantas vezes mal contada ou ignorada, continua a iluminar o presente, no que se refere à nossa convivência, só muito recentemente reiniciada, com outros povos entre nós. Rapidamente adaptam-se eles, e adaptamo-nos nós à sociedade-mosaico, e por isso uma sociedade muito mais viva e criativa em tudo: desde a eventual reanimação da economia às artes e ciência. A autora também reconhece que em Espanha começa-se a notar certos sentimentos xenófobos ante os seus imigrantes, devido ainda à crise financeira generalizada. Só que nos nossos dois países a lei defende totalmente os recém-chegados, e castiga os que tentarem maltratar seja quem for devido à cor da pele, língua falada ou religião praticada.

Marvine Howe, mesmo após nos dar a retrospectiva de uma história que, antes da Inquisição, estabeleceu a nossa hibridez e abertura étnica e cultural, afirma a dado momento que o que nos mantém longe das raivas étnicas ou anti-imigrantes, como acontece neste momento em muita outra Europa, são os números: 1.5 milhão de muçulmanos em Espanha, 50 mil em Portugal, contra os 4 milhões na Alemanha, 5 milhões na França, e 2.8 milhões na Grã-Bretanha. Poderá ser que isto explique em parte as diferenças entre nós e o resto do continente. Acredito, no entanto, que, uma vez mais, são os factores de real força, esse passado, essa proximidade geográfica, até, entre a península e o Norte de África que determinam a nossa postura sociocultural, assim como deveremos relembrar que toda a história não se reduziu só à violência imperialista de outras épocas. O Brasil não herdou a sua democracia racial da Alemanha – herdou-a de Portugal, herdou-a de toda a diversidade humana que compunha a nossa nação antes de ao Novo Mundo chegarmos. A educação fará o resto no nosso presente e futuro – Portugal pode orgulhar-se, tal como Espanha, de pelo menos nas maiores cidades, financiar e acarinhar inúmeros centros de formação e apoio aos imigrantes, aos que os procurarem e deles necessitam. A nível internacional, tanto nós como os nossos vizinhos no lado de lá da fronteira, continuamos a insistir numa política humanista e de abertura, mesmo em tempos de crises profundas nas nossas sociedades.

“Quando milhares de africanos, fugindo da guerra na Líbia, tentaram entrar na Europa, os espanhóis denunciaram certas tentativas franco-italianas de se reerguer as fronteiras para impedir esse fluxo migratório. Euro-deputados portugueses activaram o alarme sobre a situação dramática dos refugiados africanos, insistindo: ‘É o tempo agora da Europa se concentrar no que é fundamental: salvar vidas humanas e auxiliar a transição democrática em curso no Norte de África’”.

Al-Andalus Rediscovered: Iberia’s New Muslims é uma narrativa brilhante e de todo original, que poderá ser lida também como uma espécie de antídoto político e intelectual à escuridão do momento, à nossa descrença, não só perante os outros como especialmente perante nós próprios. A autora, por entre a discussão de factos e ideias, apresenta-nos a algumas distintas e anónimas personalidades das comunidades aqui em foco, dando vida e visão neste texto aos que connosco partilham e constroem a nossa sociedade. Conhecê-los, entendê-los, valorizá-los é um acto que devemos a nós próprios — e ficamos a saber que nem tudo está perdido, muito pelo contrário.

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Marvine Howe, Al-Andalus Rediscovered: Iberia’s New Muslims, New York, Columbia University Press, 2012. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

Bill Cardoso e o novo jornalismo americano

bill cardosoHá destinos piores, como poderão entender, do que me tentar passar por um escritor de viagens a bebericar um copo tropical num chamado Derby Bar e a rir levemente como uma memória esquecida…

Bill Cardoso, The Maltese Sangweech & Other Heroes

 /Vamberto Freitas

 Ye Gods!, escreveu frequentemente o grande e sempre controverso Hunter S. Thompson, herói do Jornalismo Gonzo para toda uma geração irrequieta na América, principalmente para a minha a partir dos anos 70, estudantes universitários que éramos nesses tempos e leitores assíduos de revistas da contra-cultura como a Rolling Stone. Mas a exclamação aqui não vai para o autor do já clássico (e livro de culto) Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey to the Heart of the American Dream (1971), mas sim para o seu grande amigo, e de certo modo mentor para muitos outros, Bill Joseph Cardoso, luso-americano nascido em Cambridge, Massachusetts, criado na vizinha Sommerville, cidade do mesmo estado, eventual “residente” algures nos Açores e nas Canárias no princípio dessa mesma década, e depois na Califórnia até ao seu falecimento a 26 de Fevereiro de 2006. Dos pormenores das suas origens ancestrais lusas pouco sabe o seu público leitor; sabe-se que era filho, o mais novo de entre três irmãos, de um imigrante português (“nascido de uma família aristocrática em Portugal”, escreveu sobre o seu pai Bryan Marquard do The Boston Globe no obituário de Bill Cardoso de 15 de Março de 2006), e de mãe luso-americana, natural de New Bedford. Não, Cardoso (atentem no “s”, e não no “z” de muitos outros luso-americanos) nunca escondeu ser “Portuguese”, muito pelo contrário, como veremos adiante, mas até hoje, nos seus trabalhos publicados, mais não disse, o que se espera venha a acontecer na publicação dos trabalhos póstumos, em que ele ia trabalhando até ser surpreendido pela morte aos 68 anos de idade no seu esconderijo privilegiado de Kelseyville, na Califórnia. A sua carreira, no entanto, foi absolutamente distinta, a certa altura sendo considerado “um deus para a sua geração”. Formou-se em jornalismo na Boston University, e em 1967, depois de passar pelo Valley News de West Lebanon e pelo Concord Monitor, ambos de New Hampshire, ingressou nos quadros do prestigiado The Boston Globe, onde com rapidez viria a ser nomeado “editor” – director – da respectiva Globe Sunday Magazine, páginas que lhe permitiriam muito mais criatividade e subjectividade de jornalista-escritor, assim como o poder de convidar para essas páginas outros da mesma estirpe do Novo Jornalismo norte-americano. Pouco depois do seu nome se tornar referência respeitada e apetecida entre algumas das mais influentes revistas da época, Cardoso demitiu-se e tornar-se-ia num free lancer, altura em que vem “trabalhar” uns tempos no nosso arquipélago, supõe-se que em escrita-outra. Publicaria depois na Harper’s Weekly, Esquire, Ramparts, Outside, New Times, Playboy, City of San Francisco, entre outras publicações de igual renome e alcance político-intelectual da Nova Esquerda do seu país. Thompson, quando Cardoso ocupou esse seu lugar no The Boston Globe, escreveu a vários amigos, como hoje consta das suas cartas reunidas em Fear and Loathing in America: The Brutal Odyssey of an Outlaw Journalist/The Gonzo Letters, Volume II, 1968-1976, elogiando-o sem reservas algumas, e prevendo que ele depressa tomaria o lugar de director da Esquire, o que, para a felicidade dos seus leitores, suponhamos, nunca viria a acontecer.

Por essa altura, numa carta datada de 10 de Setembro de 1971, Hunter S. Thompson escreve-lhe para os Açores pedindo que ele “arranjasse” maneira de o trazer às ilhas juntamente com a sua namorada para umas férias de Natal, e, por certo, para cerveja sem fim, charros e escandaleira vária, quando alguém os aborrecesse! Thompson, na sua irreprimível e irreverente linguagem de sempre, refere-se às ilhas, que ele desconhecia por completo, como “that filthy place”, e continua delirantemente a sugerir que Cardoso também conspirasse para que essa viagem fosse inteiramente paga pela Rolling Stone. “Uma possibilidade – escreve Thompson – que poderás tornar realidade – e pelo menos incluir-me nela – talvez seja uma ligação com viagem paga por uma qualquer linha aérea que voa para a esse maldito lugar. Que maneira melhor para trazer mesmo essa terrinha para o centro do Mapa Hip do que convidar para uma visita o Editor Desportivo da Rolling Stone? De uma só penada, eu poderia fazer do Funchal [que Thompson tencionava visitar de seguida aos Açores] uma geografia da moda ainda este ano. Deverias talvez aproximar-te e sondar sobre isto essa cambada no Hilton… talvez possas também convencer o Wenner [fundador e director da revista] de que é importante a Rolling Stone ser vista nos Açores”. É difícil não acreditar que Cardoso tenha nos seus ficheiros alguma coisa ainda por publicar sobre a sua estadia numa ilha açoriana, onde ele, noutra parte, dizia visitar para “descanso espiritual”. Toda a sua geração, aliás, se caracteriza por essa independência radical face aos periódicos em que publicavam e especialmente ante todos os Poderes públicos na sua sociedade, tendo-lhes permitido a reinvenção da escrita jornalística na língua inglesa, na qual o autor se posiciona com um “eu” de todo subjectivo, e até criando “situações” ou “incidentes” ficcionais para melhor explicar a natureza de um “acontecimento” ou “personagem” da vida real.

The Maltese Sangweech & Other Heroes (1984) é a colectânea de “ensaios”, quase todos publicados ao longo dos 70 e abordando uma diversificada gama de temas e acontecimentos, desde os famosos crimes na Chinatown de San Francisco por essa altura à “histórica” luta entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire, acontecimento desportivo internacional que mobilizou algumas outras das mais famosas figuras do jornalismo e literatura americana, como Norman Mailer e Joyce Carol Oates. Pelo meio, Bill Cardoso visita outras figuras, cidades e acontecimentos que ficaram “mitificados” na consciência nacional do seu país, ou pelo menos entre todos os que liam nesses anos de loucura e revolução a Imprensa de alternativa à esquerda, ou a intelectualmente elitista: “Chowchilla Kidnap”, “Oregon: Sometimes a Great Nation”, “The San Francisco Bosox”, “Singing in the Canaries”, “The Smothers Brothers Get Their Sh-t Together”, entre outras páginas de igual fulgurância narrativa.

Em The Maltese Sangweech & Other Heroes Bill Cardoso refere-se vezes sem fim, e deixa outros referir, que é “Portuguese” ou “Portigee” (quando menciona como se riam de nós em anedotas os migrantes que tinham vindo de Oklahoma nos deprimidos anos 30, os Oakies do Vale de São Joaquim), refere os “Azores” e “Portugal”, fala de Salazar e Caetano e da opressão no nosso país, que ele conheceu directamente desde os anos 60 — mas sempre de passagem e sem juízos de valor. Raramente os seus leitores, uma vez mais, deixam de saber da sua ancestralidade. Cardoso por vezes deixa cair comicamente esse facto da sua vida, ensinando uma vez como se escreve em Português (erradamente, diga-se) “tramacos/tremoços”, “matar o bicho”, explica aos seus amigos o que “cao” quer dizer (do navegador Diogo Cão), “marihuana (“Portuguese spelling”, explica ele), em Zaire puxa dos seus galões como sendo “Portuguese” em certas situações, e noutro ensaio explica o horrendo e histórico acidente de aviação em Tenerife: “(…) Um 747 da KLM acabava de colidir numa pista de Tenerife, matando 581 pessoas. O pior desastre aéreo da história. O outro avião da Pan Am tinha sido impedido de aterrar em Las Palmas devido a uma ameaça de bomba. (Uns lunáticos quaisquer exigiam a independência das ilhas dos Açores, da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde… que formariam uma confederação de arquipélagos, a mais estranha confederação de sempre).

A tradição literária e intelectual assumidamente luso-americana vem de longa data, e intensificou-se consideravelmente nos nossos dias, felizmente. Os nossos escritores de sucessivas primeiras gerações, os que escreveram e escrevem em Português, um dia ficarão só na memória cultural do seu país de origem, quando muito. Bill Cardoso é “nosso”, e pertence também aos “outros” — serão eles a única memória, verdadeiramente nacional, substancial ou meramente camuflada, num futuro muito próximo, da nossa presença e, diria, distinta afirmação na América do Norte.

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Bill Cardoso, The Maltese Sangweech & Other Heroes, Athenaeum, New York, NY, 1984. Retirei esta recensão de um ensaio que publiquei em 2008. Todas as traduções aqui são minhas.

Ilhíada, ou a epopeia que nos coube

 Capa Ilh+¼ada Vasco PCPerguntam-me onde nasci/-Numa ilha por cima do mundo.
Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois

 /Vamberto Freitas

 Uma antologia que reúna a obra literária de um autor não significa nem deve de significar o fim de um projecto, que será sempre na vida de um autor um trabalho em progresso. Ainda há poucos dias, Eugénio Lisboa diria mais ou menos isso numa entrevista acerca do primeiro volume das suas memórias (Acta Esta Fabula I) recentemente publicadas – significava, tão-só, afirmou o grande ensaísta, o querer trazer o passado para o presente, para que outros, caso o quisessem, pudessem partilhar parte dessa sua caminhada pessoal e artística. Tanto neste caso como no de uma antologia, também deveremos adicionar, será como que pôr em ordem e reivindicar, por assim dizer, um lugar na história e num espaço que outros determinarão onde essa obra cabe no cânone criativo de uma língua e de uma cultura, que não têm, como no mundo lusófono, necessariamente um “território” mapeado – constituído que é por países e comunidades espalhadas literalmente pelo mundo inteiro.

Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012) de Vasco Pereira da Costa, que fez desde cedo o continente português (Coimbra) a sua outra “ilha” de vivências, um outro cais terrestre que lhe serviu de ponto de partida tanto para o desconhecido como para os regressos à sua casa açoriana, que também não cabe num mapa qualquer, o seu regresso ainda às suas “pátrias imaginárias”, como diria Salman Rushdie num contexto literário muito semelhante, tão reais como as ilhas atlânticas da sua nascença. Ler um poeta esporadicamente em publicações periódicas ou mesmo em volumes que se sucedem ao longo de uma carreira literária é desfrutar devidamente do “prazer do texto” que é por natureza autónomo, e só para os leitores fiéis de imediato interligado às obras precedentes, desenvolvendo, reafirmando e (re)trabalhando temas e formalismos próprios do seu autor, ou então iniciando novas partidas textuais conforme lugares, gentes e estado de espírito ou interior do poeta. Ler um poeta agora na totalidade proposta num só volume organizado numa sequência por ele escolhida é termos outra e bem diferente visão da mesma obra. Não será só o acompanharmos a evolução da escrita conforme a idade do poeta, a época que absorveu e a sua consequente mundividência numa historicidade cada vez mais instável e imprevisível. Será, sobretudo, ficarmos com todo um imaginário coerente e coeso na diversidade de formas (desde o poema classicamente estruturado ao verso livre, ou ainda a prosa poética) que nos conduzem à temática unificadora de toda a obra, ao retrato-outro intimista do seu autor, mas sem nunca deixar de ser também uma visão da “comunidade” alargada a que pertence ele, e pertencemos todos. A declamada mas sempre indefinível “universalidade” na literatura será isto — e provavelmente só isto.

Ulisses, por assim dizer, está, uma vez mais, de regresso, mas creio que só num intervalo antes de nova partida. Não se nasce nos Açores – em ilhas – impunemente. O “castigo” e a “aventura” fazem parte da nossa génese e do nosso destino. Os versos que coloquei aqui em epígrafe são dos mais ampla e profundamente definidores de quem e como somos. De olhos eternamente postos no horizonte chamativo, o passado para nós nunca morre, nunca está esquecido, é tão actuante, consequente e determinante como as nossas angústias no nosso enclausuramento geográfico e histórico, sob “o fogo oculto”, que sem aviso se poderá tornar por demais visível e aterrorizador. É desse passado, desse cerco sem fim, que partimos sempre para os nossos sonhos de fuga interminável. Vasco Pereira da Costa inicia e conclui esta outra sua longa viagem redizendo o seu postulado ou paratexto poético, que o acompanhará pelos anos fora, pela sua vida e convivências em cada uma destas suas páginas: Tenta que o verso contenha apenas/as palavras do teu aparo/(do teu apuro)/e dessas as mais úteis. De seguida, abre Ilhíada: antes e depois com os poemas dos anos 70 publicados em revistas como a Vértice (então editada em Coimbra) e na extinta A Memória da Água-Viva (que foi editada em Lisboa, e por um curto espaço de tempo em Ponta Delgada), ambas fazendo já parte da nossa história literária, açoriana e nacional. São quarenta anos de poesia neste volume, são quarenta anos a cultivar a palavra breve mas significante, são quarenta anos, insista-se, da sua visão simultaneamente intimista e colectiva, em que Açores e açorianos estão no centro do seu estar e do seu ser, a viagem interior e depois pelos caminhos deixados abertos pelos seus compatriotas um pouco por toda a parte, especialmente nas Américas, e entre essas, a da América do Norte, a quem dedicou inteiramente o seu livro My Californian Friends (poemas, 1994). Para um poeta português dos Açores que já viveu a maior parte da sua vida em Coimbra, esta hiper-consciência dos mundos que o fizeram e orientaram no percurso de uma vida entre a Educação, escrita e política não deixará de ficar bem vincada entre nós, reconfirmando que Vitorino Nemésio tinha toda a razão: o escritor sai da ilha, mas ilha nele permanecerá indelével. Leva tempo, mas acaba por acontecer: “a consequência do lugar”, de que se fala em relação a outro poeta português de origens nortenhas, não impede nunca nem poderia impedir o pressuposto intelectual — e supostamente “legitimador” — desse acto literário abrangente, a que outros chamam de “universalista”. O bom escritor que se mantém fiel a si próprio e que aceite sem complexos as suas “circunstâncias” não ficará reduzido a qualquer geografia humana predefinida. Nemésio foi o primeiro grande escritor português que fez dos Açores o seu cenário de praticamente todas as suas representações e transfigurações literárias, mas foi seguido e hoje é acompanhado, entre alguns outros, por João de Melo, Cristóvão de Aguiar, Vasco Pereira da Costa, e Onésimo Teotónio Almeida, cujo estatuto académico e estudos filosóficos e culturais ocupam um lugar proeminente lado a lado com a sua escrita referente às ilhas e à Diáspora. Os que residem no arquipélago e cuja obra em nada fica a dever aos nomes aqui referidos têm de sofrer o provincianismo cultural dos que, pouco ou mesmo nada sabendo de nós, controlam os meios jornalísticos e culturais divulgadores só de quem eles querem, conhecem, ou com quem tomam uns copos no Bairro Alto & Arredores, como diria Urbano Bettencourt.

 Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012) encerra com os poemas do também recente O Fogo Oculto. Cada ilha açoriana serve de título aos poemas a ela dedicados ou referentes, entre outras secções denominadas de “outras ilhas” (inclusive da Grécia, muito apropriadamente  na escrita homérica de Vasco Pereira da Costa) e “outras terras”, que vão desde a Europa ao Brasil e à América do Norte, o continente em que o poeta encontra outras paisagens e cidades, inclusive as nossas comunidades residentes nas costas atlântica e pacífica, com os poemas inspirados ora em amigos e familiares ora em outras figuras conhecidas e lá reencontradas, todos despertando-lhe memórias das ilhas e da sorte (metonimicamente) de todo um povo. Trata-se de um andamento poético em que nos sobressai de imediato o dialogismo da epopeia e anti-epopeia, as referências metatextuais são uma constante na obra de Vasco Pereira da Costa, assim como a convocação da nossa memória nacional — Camões e Fernão Mendes Pinto andam nestas páginas quase invisíveis, mas muito por perto, tudo para nos dizer que por toda a parte sobrevivemos como sobrevivem todos os outros povos, com a dignidade possível ante a irreprimível força centrífuga do nosso rumo histórico, ante a sorte de sermos o viveiro, como nos lembrou Nemésio, onde se planta só para sermos replantados. O penúltimo poema de Ilhíada encerra esta caminhada chegada ao fim, só que entre uma fase da vida e o que o poeta chama de “terra derradeira”, outras descobertas por certo virão: Conheci princípios, ideologias limpas./Hoje, com três quartos de caminho andado, aguardo a vinda dos amigos. Varri o alpendre./Junquei de alecrim o chão da casa./Aqueci o fogo. Cozi o pão (…).

Não há distância entre Coimbra e os Açores, ou entre os Açores e resto dos mundos aqui representados. A poesia é esse milagre: tudo converge, corpo e alma, geografias e línguas, o coração humano pairando sobre um universo que varia apenas em forma e cor. Só a grande Arte é capaz de tais aproximações.

Ilhíada: antes e depois vem acompanhado por um cd com quatro destes poemas belissimamente musicados pelo seu conterrâneo terceirense, Carlos Alberto Moniz.

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Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012), Calendário das Letras, Vila Nova de Gaia, 2012.