Ilhíada, ou a epopeia que nos coube

 Capa Ilh+¼ada Vasco PCPerguntam-me onde nasci/-Numa ilha por cima do mundo.
Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois

 /Vamberto Freitas

 Uma antologia que reúna a obra literária de um autor não significa nem deve de significar o fim de um projecto, que será sempre na vida de um autor um trabalho em progresso. Ainda há poucos dias, Eugénio Lisboa diria mais ou menos isso numa entrevista acerca do primeiro volume das suas memórias (Acta Esta Fabula I) recentemente publicadas – significava, tão-só, afirmou o grande ensaísta, o querer trazer o passado para o presente, para que outros, caso o quisessem, pudessem partilhar parte dessa sua caminhada pessoal e artística. Tanto neste caso como no de uma antologia, também deveremos adicionar, será como que pôr em ordem e reivindicar, por assim dizer, um lugar na história e num espaço que outros determinarão onde essa obra cabe no cânone criativo de uma língua e de uma cultura, que não têm, como no mundo lusófono, necessariamente um “território” mapeado – constituído que é por países e comunidades espalhadas literalmente pelo mundo inteiro.

Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012) de Vasco Pereira da Costa, que fez desde cedo o continente português (Coimbra) a sua outra “ilha” de vivências, um outro cais terrestre que lhe serviu de ponto de partida tanto para o desconhecido como para os regressos à sua casa açoriana, que também não cabe num mapa qualquer, o seu regresso ainda às suas “pátrias imaginárias”, como diria Salman Rushdie num contexto literário muito semelhante, tão reais como as ilhas atlânticas da sua nascença. Ler um poeta esporadicamente em publicações periódicas ou mesmo em volumes que se sucedem ao longo de uma carreira literária é desfrutar devidamente do “prazer do texto” que é por natureza autónomo, e só para os leitores fiéis de imediato interligado às obras precedentes, desenvolvendo, reafirmando e (re)trabalhando temas e formalismos próprios do seu autor, ou então iniciando novas partidas textuais conforme lugares, gentes e estado de espírito ou interior do poeta. Ler um poeta agora na totalidade proposta num só volume organizado numa sequência por ele escolhida é termos outra e bem diferente visão da mesma obra. Não será só o acompanharmos a evolução da escrita conforme a idade do poeta, a época que absorveu e a sua consequente mundividência numa historicidade cada vez mais instável e imprevisível. Será, sobretudo, ficarmos com todo um imaginário coerente e coeso na diversidade de formas (desde o poema classicamente estruturado ao verso livre, ou ainda a prosa poética) que nos conduzem à temática unificadora de toda a obra, ao retrato-outro intimista do seu autor, mas sem nunca deixar de ser também uma visão da “comunidade” alargada a que pertence ele, e pertencemos todos. A declamada mas sempre indefinível “universalidade” na literatura será isto — e provavelmente só isto.

Ulisses, por assim dizer, está, uma vez mais, de regresso, mas creio que só num intervalo antes de nova partida. Não se nasce nos Açores – em ilhas – impunemente. O “castigo” e a “aventura” fazem parte da nossa génese e do nosso destino. Os versos que coloquei aqui em epígrafe são dos mais ampla e profundamente definidores de quem e como somos. De olhos eternamente postos no horizonte chamativo, o passado para nós nunca morre, nunca está esquecido, é tão actuante, consequente e determinante como as nossas angústias no nosso enclausuramento geográfico e histórico, sob “o fogo oculto”, que sem aviso se poderá tornar por demais visível e aterrorizador. É desse passado, desse cerco sem fim, que partimos sempre para os nossos sonhos de fuga interminável. Vasco Pereira da Costa inicia e conclui esta outra sua longa viagem redizendo o seu postulado ou paratexto poético, que o acompanhará pelos anos fora, pela sua vida e convivências em cada uma destas suas páginas: Tenta que o verso contenha apenas/as palavras do teu aparo/(do teu apuro)/e dessas as mais úteis. De seguida, abre Ilhíada: antes e depois com os poemas dos anos 70 publicados em revistas como a Vértice (então editada em Coimbra) e na extinta A Memória da Água-Viva (que foi editada em Lisboa, e por um curto espaço de tempo em Ponta Delgada), ambas fazendo já parte da nossa história literária, açoriana e nacional. São quarenta anos de poesia neste volume, são quarenta anos a cultivar a palavra breve mas significante, são quarenta anos, insista-se, da sua visão simultaneamente intimista e colectiva, em que Açores e açorianos estão no centro do seu estar e do seu ser, a viagem interior e depois pelos caminhos deixados abertos pelos seus compatriotas um pouco por toda a parte, especialmente nas Américas, e entre essas, a da América do Norte, a quem dedicou inteiramente o seu livro My Californian Friends (poemas, 1994). Para um poeta português dos Açores que já viveu a maior parte da sua vida em Coimbra, esta hiper-consciência dos mundos que o fizeram e orientaram no percurso de uma vida entre a Educação, escrita e política não deixará de ficar bem vincada entre nós, reconfirmando que Vitorino Nemésio tinha toda a razão: o escritor sai da ilha, mas ilha nele permanecerá indelével. Leva tempo, mas acaba por acontecer: “a consequência do lugar”, de que se fala em relação a outro poeta português de origens nortenhas, não impede nunca nem poderia impedir o pressuposto intelectual — e supostamente “legitimador” — desse acto literário abrangente, a que outros chamam de “universalista”. O bom escritor que se mantém fiel a si próprio e que aceite sem complexos as suas “circunstâncias” não ficará reduzido a qualquer geografia humana predefinida. Nemésio foi o primeiro grande escritor português que fez dos Açores o seu cenário de praticamente todas as suas representações e transfigurações literárias, mas foi seguido e hoje é acompanhado, entre alguns outros, por João de Melo, Cristóvão de Aguiar, Vasco Pereira da Costa, e Onésimo Teotónio Almeida, cujo estatuto académico e estudos filosóficos e culturais ocupam um lugar proeminente lado a lado com a sua escrita referente às ilhas e à Diáspora. Os que residem no arquipélago e cuja obra em nada fica a dever aos nomes aqui referidos têm de sofrer o provincianismo cultural dos que, pouco ou mesmo nada sabendo de nós, controlam os meios jornalísticos e culturais divulgadores só de quem eles querem, conhecem, ou com quem tomam uns copos no Bairro Alto & Arredores, como diria Urbano Bettencourt.

 Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012) encerra com os poemas do também recente O Fogo Oculto. Cada ilha açoriana serve de título aos poemas a ela dedicados ou referentes, entre outras secções denominadas de “outras ilhas” (inclusive da Grécia, muito apropriadamente  na escrita homérica de Vasco Pereira da Costa) e “outras terras”, que vão desde a Europa ao Brasil e à América do Norte, o continente em que o poeta encontra outras paisagens e cidades, inclusive as nossas comunidades residentes nas costas atlântica e pacífica, com os poemas inspirados ora em amigos e familiares ora em outras figuras conhecidas e lá reencontradas, todos despertando-lhe memórias das ilhas e da sorte (metonimicamente) de todo um povo. Trata-se de um andamento poético em que nos sobressai de imediato o dialogismo da epopeia e anti-epopeia, as referências metatextuais são uma constante na obra de Vasco Pereira da Costa, assim como a convocação da nossa memória nacional — Camões e Fernão Mendes Pinto andam nestas páginas quase invisíveis, mas muito por perto, tudo para nos dizer que por toda a parte sobrevivemos como sobrevivem todos os outros povos, com a dignidade possível ante a irreprimível força centrífuga do nosso rumo histórico, ante a sorte de sermos o viveiro, como nos lembrou Nemésio, onde se planta só para sermos replantados. O penúltimo poema de Ilhíada encerra esta caminhada chegada ao fim, só que entre uma fase da vida e o que o poeta chama de “terra derradeira”, outras descobertas por certo virão: Conheci princípios, ideologias limpas./Hoje, com três quartos de caminho andado, aguardo a vinda dos amigos. Varri o alpendre./Junquei de alecrim o chão da casa./Aqueci o fogo. Cozi o pão (…).

Não há distância entre Coimbra e os Açores, ou entre os Açores e resto dos mundos aqui representados. A poesia é esse milagre: tudo converge, corpo e alma, geografias e línguas, o coração humano pairando sobre um universo que varia apenas em forma e cor. Só a grande Arte é capaz de tais aproximações.

Ilhíada: antes e depois vem acompanhado por um cd com quatro destes poemas belissimamente musicados pelo seu conterrâneo terceirense, Carlos Alberto Moniz.

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Vasco Pereira da Costa, Ilhíada: antes e depois (poesia 1972-2012), Calendário das Letras, Vila Nova de Gaia, 2012.

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