Bill Cardoso e o novo jornalismo americano

bill cardosoHá destinos piores, como poderão entender, do que me tentar passar por um escritor de viagens a bebericar um copo tropical num chamado Derby Bar e a rir levemente como uma memória esquecida…

Bill Cardoso, The Maltese Sangweech & Other Heroes

 /Vamberto Freitas

 Ye Gods!, escreveu frequentemente o grande e sempre controverso Hunter S. Thompson, herói do Jornalismo Gonzo para toda uma geração irrequieta na América, principalmente para a minha a partir dos anos 70, estudantes universitários que éramos nesses tempos e leitores assíduos de revistas da contra-cultura como a Rolling Stone. Mas a exclamação aqui não vai para o autor do já clássico (e livro de culto) Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey to the Heart of the American Dream (1971), mas sim para o seu grande amigo, e de certo modo mentor para muitos outros, Bill Joseph Cardoso, luso-americano nascido em Cambridge, Massachusetts, criado na vizinha Sommerville, cidade do mesmo estado, eventual “residente” algures nos Açores e nas Canárias no princípio dessa mesma década, e depois na Califórnia até ao seu falecimento a 26 de Fevereiro de 2006. Dos pormenores das suas origens ancestrais lusas pouco sabe o seu público leitor; sabe-se que era filho, o mais novo de entre três irmãos, de um imigrante português (“nascido de uma família aristocrática em Portugal”, escreveu sobre o seu pai Bryan Marquard do The Boston Globe no obituário de Bill Cardoso de 15 de Março de 2006), e de mãe luso-americana, natural de New Bedford. Não, Cardoso (atentem no “s”, e não no “z” de muitos outros luso-americanos) nunca escondeu ser “Portuguese”, muito pelo contrário, como veremos adiante, mas até hoje, nos seus trabalhos publicados, mais não disse, o que se espera venha a acontecer na publicação dos trabalhos póstumos, em que ele ia trabalhando até ser surpreendido pela morte aos 68 anos de idade no seu esconderijo privilegiado de Kelseyville, na Califórnia. A sua carreira, no entanto, foi absolutamente distinta, a certa altura sendo considerado “um deus para a sua geração”. Formou-se em jornalismo na Boston University, e em 1967, depois de passar pelo Valley News de West Lebanon e pelo Concord Monitor, ambos de New Hampshire, ingressou nos quadros do prestigiado The Boston Globe, onde com rapidez viria a ser nomeado “editor” – director – da respectiva Globe Sunday Magazine, páginas que lhe permitiriam muito mais criatividade e subjectividade de jornalista-escritor, assim como o poder de convidar para essas páginas outros da mesma estirpe do Novo Jornalismo norte-americano. Pouco depois do seu nome se tornar referência respeitada e apetecida entre algumas das mais influentes revistas da época, Cardoso demitiu-se e tornar-se-ia num free lancer, altura em que vem “trabalhar” uns tempos no nosso arquipélago, supõe-se que em escrita-outra. Publicaria depois na Harper’s Weekly, Esquire, Ramparts, Outside, New Times, Playboy, City of San Francisco, entre outras publicações de igual renome e alcance político-intelectual da Nova Esquerda do seu país. Thompson, quando Cardoso ocupou esse seu lugar no The Boston Globe, escreveu a vários amigos, como hoje consta das suas cartas reunidas em Fear and Loathing in America: The Brutal Odyssey of an Outlaw Journalist/The Gonzo Letters, Volume II, 1968-1976, elogiando-o sem reservas algumas, e prevendo que ele depressa tomaria o lugar de director da Esquire, o que, para a felicidade dos seus leitores, suponhamos, nunca viria a acontecer.

Por essa altura, numa carta datada de 10 de Setembro de 1971, Hunter S. Thompson escreve-lhe para os Açores pedindo que ele “arranjasse” maneira de o trazer às ilhas juntamente com a sua namorada para umas férias de Natal, e, por certo, para cerveja sem fim, charros e escandaleira vária, quando alguém os aborrecesse! Thompson, na sua irreprimível e irreverente linguagem de sempre, refere-se às ilhas, que ele desconhecia por completo, como “that filthy place”, e continua delirantemente a sugerir que Cardoso também conspirasse para que essa viagem fosse inteiramente paga pela Rolling Stone. “Uma possibilidade – escreve Thompson – que poderás tornar realidade – e pelo menos incluir-me nela – talvez seja uma ligação com viagem paga por uma qualquer linha aérea que voa para a esse maldito lugar. Que maneira melhor para trazer mesmo essa terrinha para o centro do Mapa Hip do que convidar para uma visita o Editor Desportivo da Rolling Stone? De uma só penada, eu poderia fazer do Funchal [que Thompson tencionava visitar de seguida aos Açores] uma geografia da moda ainda este ano. Deverias talvez aproximar-te e sondar sobre isto essa cambada no Hilton… talvez possas também convencer o Wenner [fundador e director da revista] de que é importante a Rolling Stone ser vista nos Açores”. É difícil não acreditar que Cardoso tenha nos seus ficheiros alguma coisa ainda por publicar sobre a sua estadia numa ilha açoriana, onde ele, noutra parte, dizia visitar para “descanso espiritual”. Toda a sua geração, aliás, se caracteriza por essa independência radical face aos periódicos em que publicavam e especialmente ante todos os Poderes públicos na sua sociedade, tendo-lhes permitido a reinvenção da escrita jornalística na língua inglesa, na qual o autor se posiciona com um “eu” de todo subjectivo, e até criando “situações” ou “incidentes” ficcionais para melhor explicar a natureza de um “acontecimento” ou “personagem” da vida real.

The Maltese Sangweech & Other Heroes (1984) é a colectânea de “ensaios”, quase todos publicados ao longo dos 70 e abordando uma diversificada gama de temas e acontecimentos, desde os famosos crimes na Chinatown de San Francisco por essa altura à “histórica” luta entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire, acontecimento desportivo internacional que mobilizou algumas outras das mais famosas figuras do jornalismo e literatura americana, como Norman Mailer e Joyce Carol Oates. Pelo meio, Bill Cardoso visita outras figuras, cidades e acontecimentos que ficaram “mitificados” na consciência nacional do seu país, ou pelo menos entre todos os que liam nesses anos de loucura e revolução a Imprensa de alternativa à esquerda, ou a intelectualmente elitista: “Chowchilla Kidnap”, “Oregon: Sometimes a Great Nation”, “The San Francisco Bosox”, “Singing in the Canaries”, “The Smothers Brothers Get Their Sh-t Together”, entre outras páginas de igual fulgurância narrativa.

Em The Maltese Sangweech & Other Heroes Bill Cardoso refere-se vezes sem fim, e deixa outros referir, que é “Portuguese” ou “Portigee” (quando menciona como se riam de nós em anedotas os migrantes que tinham vindo de Oklahoma nos deprimidos anos 30, os Oakies do Vale de São Joaquim), refere os “Azores” e “Portugal”, fala de Salazar e Caetano e da opressão no nosso país, que ele conheceu directamente desde os anos 60 — mas sempre de passagem e sem juízos de valor. Raramente os seus leitores, uma vez mais, deixam de saber da sua ancestralidade. Cardoso por vezes deixa cair comicamente esse facto da sua vida, ensinando uma vez como se escreve em Português (erradamente, diga-se) “tramacos/tremoços”, “matar o bicho”, explica aos seus amigos o que “cao” quer dizer (do navegador Diogo Cão), “marihuana (“Portuguese spelling”, explica ele), em Zaire puxa dos seus galões como sendo “Portuguese” em certas situações, e noutro ensaio explica o horrendo e histórico acidente de aviação em Tenerife: “(…) Um 747 da KLM acabava de colidir numa pista de Tenerife, matando 581 pessoas. O pior desastre aéreo da história. O outro avião da Pan Am tinha sido impedido de aterrar em Las Palmas devido a uma ameaça de bomba. (Uns lunáticos quaisquer exigiam a independência das ilhas dos Açores, da Madeira, das Canárias e de Cabo Verde… que formariam uma confederação de arquipélagos, a mais estranha confederação de sempre).

A tradição literária e intelectual assumidamente luso-americana vem de longa data, e intensificou-se consideravelmente nos nossos dias, felizmente. Os nossos escritores de sucessivas primeiras gerações, os que escreveram e escrevem em Português, um dia ficarão só na memória cultural do seu país de origem, quando muito. Bill Cardoso é “nosso”, e pertence também aos “outros” — serão eles a única memória, verdadeiramente nacional, substancial ou meramente camuflada, num futuro muito próximo, da nossa presença e, diria, distinta afirmação na América do Norte.

________

Bill Cardoso, The Maltese Sangweech & Other Heroes, Athenaeum, New York, NY, 1984. Retirei esta recensão de um ensaio que publiquei em 2008. Todas as traduções aqui são minhas.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s