Os islâmicos entre nós, outra vez

Capa Al-AndaluzOs ibéricos na sua maioria não se sentem ameaçados pelos extremistas islâmicos.

Marvine Howe, Al-Andalus Rediscovered

/Vamberto Freitas

 Al-Andalus Rediscovered: Iberia’s New Muslims é uma admirável narrativa não só sobre os islâmicos entre nós e em Espanha, como sobre certas facetas da história da península no que toca ao contacto histórico com o restante mundo, mas ainda também sobre a sua rica herança islâmica, muito antes e durante a formação das várias nacionalidades no mesmo espaço geográfico, recolocando-nos, por assim dizer, na actualidade europeia e na nossa entrada na modernidade. Para além desta só por si aliciante temática, o livro não deixa de lado, não poderia deixar, outros imigrantes entre nós, como os brasileiros e os muitos que chegaram dos países africanos de língua portuguesa para cá reconstruírem as suas vidas. É rara uma narrativa de temática histórica e cultural sobre nós em língua inglesa que nos olhe com empatia, compreensão, e até admiração, nunca se afundando nos habituais clichés norte-europeus ou norte-americanos, que são muito semelhantes. Adicione-se aqui que nem sequer os brasileiros, que melhor deveriam saber, fogem a essas ideias feitas sobre nós, tendo a maior parte dos seus intelectuais olhado quase sempre para nós com certa condescendência e uma espécie de culpabilização por tudo o que o Brasil gostaria de ser mas não é, quando não mesmo hostilidade difamatória, especialmente a partir dos anos 20-30, quando redefiniam eles o seu lugar na História e buscavam uma identidade nacional. Não será, com esta minha leitura de Al-Andalus Rediscovered, o meu orgulho nacional a ser alimentado, mas sim o prazer puramente intelectual de não nos vermos uma vez mais reduzidos a essas “análises” simplistas, e particularmente à infantilidade de se falar em “carácter” nacional, ou medir o seu próprio lugar entre outros povos como consequência do que Gilberto Freire chamava “o mundo que o português criou”, no além-mar e portas adentro. O presente volume poderá ser lido também na sequência de outra grande narrativa publicada cá recentemente, Os Portugueses, de Barry Hatton, jornalista britânico que trabalha e reside entre nós há muitos anos.

Marvine Howe foi durante uma longa carreira a correspondente do New York Times na África, Médio Oriente e Europa, com especial interesse em Portugal e Espanha. Autora de outros livros sobre as questões islâmicas do nosso tempo (Turkey: A Nation Divided Over Islam’s Revival e Morocco: The Islamist Awakening and Other Challenges), a sua prosa vem no estilo do jornalista-escritor norte-americano: os factos como argumento, linguagem escorreita mas nunca simplista, simultaneamente aplicada à minúcia analítica de uma ou outra questão sem nunca deixar a abrangência de uma narrativa sobre acontecimentos significantes e protagonistas ou personalidades influentes, ora tudo e todos vistos no seu contexto comunitário ou nacional, ora colocados no pertinente panorama global.

Al-Andalus, o nome árabe que significa, a partir da chegada dos islâmicos à Ibéria em 711, “as terras dos vândalos”, ainda hoje é referida pelos extremistas da Al-Qaeda como terra ocupada pelos usurpadores cristãos, e a ser eventualmente reconquistada. Por certo que poucos levarão a sério tal campanha político-militar todos estes séculos depois, mas quando as bombas explodiram em Madrid no dia 11 de Março de 2004, matando 191 pessoas e ferindo gravemente quase outras duas mil, os espanhóis tiveram toda a razão em ver o acontecimento como um aviso directo do que pensavam os terroristas islâmicos não só do envolvimento espanhol nas guerras em curso nalgumas nações islâmicas, como a reactivação magoada de certa memória histórica. Mesmo assim, repete sempre Marvine Howe após incontáveis entrevistas e conversas com algumas das mais destacadas figuras da política interna espanhola e portuguesa, é precisamente nos nossos dois países onde as políticas da imigração são abertas, acolhedoras e de grande respeito cívico não só ante as suas populações islâmicas, como em tudo que se refere a outros grupos de imigrantes entre nós. Lembrando de quando em quando que tanto Portugal como Espanha são historicamente países de e/imigração, o seu humanismo e tolerância perante as diferenças culturais e linguísticas que connosco partilham um espaço comum na nossa sociedade não tem par adentro da restante Europa, hoje marcada, quase toda ela, pela intolerância, medos de vária ordem, racismo aberto na rua, quando não mesmo na legislação. Nada disto surpreende a autora de Al-Andalus Rediscovered. Foi precisamente na península ibérica onde os poderes islâmicos fundaram outrora uma das mais avançadas (no sentido científico, cultural, artístico e religioso) sociedades de sempre, e onde aconteceu a convivência civilizada, tolerante, das três maiores religiões do mundo – islamismo, judaísmo e cristianismo. O nosso passado não está morto, a nossa história, mesmo que tantas vezes mal contada ou ignorada, continua a iluminar o presente, no que se refere à nossa convivência, só muito recentemente reiniciada, com outros povos entre nós. Rapidamente adaptam-se eles, e adaptamo-nos nós à sociedade-mosaico, e por isso uma sociedade muito mais viva e criativa em tudo: desde a eventual reanimação da economia às artes e ciência. A autora também reconhece que em Espanha começa-se a notar certos sentimentos xenófobos ante os seus imigrantes, devido ainda à crise financeira generalizada. Só que nos nossos dois países a lei defende totalmente os recém-chegados, e castiga os que tentarem maltratar seja quem for devido à cor da pele, língua falada ou religião praticada.

Marvine Howe, mesmo após nos dar a retrospectiva de uma história que, antes da Inquisição, estabeleceu a nossa hibridez e abertura étnica e cultural, afirma a dado momento que o que nos mantém longe das raivas étnicas ou anti-imigrantes, como acontece neste momento em muita outra Europa, são os números: 1.5 milhão de muçulmanos em Espanha, 50 mil em Portugal, contra os 4 milhões na Alemanha, 5 milhões na França, e 2.8 milhões na Grã-Bretanha. Poderá ser que isto explique em parte as diferenças entre nós e o resto do continente. Acredito, no entanto, que, uma vez mais, são os factores de real força, esse passado, essa proximidade geográfica, até, entre a península e o Norte de África que determinam a nossa postura sociocultural, assim como deveremos relembrar que toda a história não se reduziu só à violência imperialista de outras épocas. O Brasil não herdou a sua democracia racial da Alemanha – herdou-a de Portugal, herdou-a de toda a diversidade humana que compunha a nossa nação antes de ao Novo Mundo chegarmos. A educação fará o resto no nosso presente e futuro – Portugal pode orgulhar-se, tal como Espanha, de pelo menos nas maiores cidades, financiar e acarinhar inúmeros centros de formação e apoio aos imigrantes, aos que os procurarem e deles necessitam. A nível internacional, tanto nós como os nossos vizinhos no lado de lá da fronteira, continuamos a insistir numa política humanista e de abertura, mesmo em tempos de crises profundas nas nossas sociedades.

“Quando milhares de africanos, fugindo da guerra na Líbia, tentaram entrar na Europa, os espanhóis denunciaram certas tentativas franco-italianas de se reerguer as fronteiras para impedir esse fluxo migratório. Euro-deputados portugueses activaram o alarme sobre a situação dramática dos refugiados africanos, insistindo: ‘É o tempo agora da Europa se concentrar no que é fundamental: salvar vidas humanas e auxiliar a transição democrática em curso no Norte de África’”.

Al-Andalus Rediscovered: Iberia’s New Muslims é uma narrativa brilhante e de todo original, que poderá ser lida também como uma espécie de antídoto político e intelectual à escuridão do momento, à nossa descrença, não só perante os outros como especialmente perante nós próprios. A autora, por entre a discussão de factos e ideias, apresenta-nos a algumas distintas e anónimas personalidades das comunidades aqui em foco, dando vida e visão neste texto aos que connosco partilham e constroem a nossa sociedade. Conhecê-los, entendê-los, valorizá-los é um acto que devemos a nós próprios — e ficamos a saber que nem tudo está perdido, muito pelo contrário.

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Marvine Howe, Al-Andalus Rediscovered: Iberia’s New Muslims, New York, Columbia University Press, 2012. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

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