A odisseia americana de um intelectual açoriano

Capa No Fio da VidaA emigração é, tal como a condição humana ela mesma, um bocadinho de ambas essas coisas: parte via libertadora e parte inferno

Francisco Cota Fagundes, No Fio Da Vida

/Vamberto Freitas

 Escolhi deliberadamente “intelectual açoriano” para o título aqui porque Francisco Cota Fagundes, natural da Agualva, Ilha Terceira, é mais do que qualquer título universitário que lhe possamos atribuir, classificação que o limitaria injustamente: doutorado por uma das mais prestigiadas instituições académicas do mundo, a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), Professor Catedrático em Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Massachusetts, Amherst, reconhecido ensaísta especializado nas obras de Fernando Pessoa e Jorge de Sena, sem nunca deixar de parte os escritores açorianos e da nossa Diáspora, “cronista” de fôlego cuja prosa oscila entre a mimética realista tradicional e a imaginação ficcionada, ex-ordenhador de vacas no Vale de São Joaquim e lavador de pratos em Los Angeles, ninguém entre nós poderá reclamar por enquanto, um currículo tão completo e significante, no que à “condição imigrante” diz respeito no nosso tempo. No Fio da Vida: Uma Odisseia Açor-Americana é a tradução, feita pelo próprio autor, do seu Hard Nocks: An Azorean-American Odyssey (memoir), publicado originalmente em 2000. Até há bem pouco tempo, permanecia quase desconhecido entre nós fora dos círculos universitários habituais. Esse estatuto tem vindo a alargar-se ultimamente, primeiro com a publicação de dois livros de “cónicas”, No Vale dos Pioneiros: narrativas da minha diáspora e A Lagoa dos Castores E Outras Narrativas da Minha Diáspora, e agora, definitivamente, com esta sua incomparável autobiografia. A áspera solidão e o desamparo da sua caminhada são simultaneamente uma condição de vida muito própria, como colectivamente nossa. Aliás, um dos temas das suas presentes páginas não foge ao que mais marca a literatura açoriana, desde logo anunciado no próprio título – a “odisseia” e a inevitável viagem de “regresso a casa”. Acontece que conheci o pessoalmente autor, já na Califórnia, num tempo em que isso lhe seria impensável, e até, creio, indesejável. Esta é uma autobiografia de pura catarse, e daí a violência sentida e criativa da sua linguagem. Como diria um autor judeu-americano, que também foi imigrante nos EUA, Bashevis Singer: é preciso saber primeiro odiar um povo para só depois amá-lo.

Permitam-me que seja peremptório aqui: é de longe, a meu ver, a melhor e a mais radical autobiografia-memórias alguma vez escrita e publicada por um imigrante açoriano na América do Norte, ou em qualquer outra parte ou tempo. Este desvendar de alma, esta desconstrução implacável da mítica profunda que tem sido para nós e desde sempre o Novo Mundo e o nosso lugar no seu mosaico de gente e culturas, este percurso de vida que leva um autor da mais sentida e aterradora humilhação ao mais improvável triunfo pessoal diante de barreiras (para Cota Fagundes, nunca um muro de lamentações) que fariam a maior parte de nós ajoelhar e pedir ajuda a todos os deuses em que acreditamos, resultou num “testemunho” literário que, pelo seu referencial intimista e depois geográfico e social assim como pela sua linguagem simultaneamente dura (tal a rudeza dos nossos mundos nas ilhas de outrora e nas comunidades que sempre foram a sua extensão) vai muito além dos incidentes e sentimentos pessoalismos aí relatados ou transfigurados: passa a fazer parte, uma vez mais, da nossa própria história de povo andarilho por necessidade, e estóico ante todas as circunstâncias de vida em qualquer parte. Na literatura portuguesa, inclusive na que é escrita por autores açorianos, não existem autobiografias que interliguem tão directamente os mais íntimos segredos de uma vida com a restante obra estritamente literária, em qualquer uma das suas formas. O nosso suposto “pudor” não passa de outra hipocrisia muito nossa, despedaçamo-nos mutuamente à mesa do café e através do mexerico ou boato, mas recusamos o mais elementar na vida intelectual: toda, toda a escrita acaba por ser autobiográfica, como outros já o disseram, se não nos factos por certo que nos sentimentos, sejam eles de boa ou má índole, seja esse texto uma ficção ou um poema ou ensaio. Para qualquer página, trazemos o nosso e o saber alheio, e depois condicionamo-los ao que mais profundamente conhecemos, que é a nossa alma, o nosso mais profundo interiorismo e crenças. Na escrita ensaística de Francisco Cota Fagundes detecto duas fases bem distintas: a primeira, “académica” em que o autor assegura o seu lugar profissional prestando a devida vénia às “autoridades” que o “formaram”, os que estavam necessariamente em comando durante a odisseia de combate pela sobrevivência; a segunda, iniciada após o tal “regresso a casa” com toda a segurança, e na qual o autor se vira decididamente para os seus colegas de viagem, tanto os que residem nas ilhas como nas comunidades diaspóricas. No Fio da Vida, pois, o projecto intermitente e decisivo, de limpeza da alma, de aceitação do passado (sem o desculpar), foi a sua viragem de vida e visão, rumo ao presente. Não creio haver um único leitor deste livro que não se reveja nessa luta de sobrevivência e, eventualmente, afirmação — tranquila, generosa, sabedora.

No Fio da Vida traça a vida do seu autor desde a nascença na sua freguesia terceirense até aos anos de todas a lutas pessoais na América dos nossos dias. As suas descrições da infância nos Açores dão o tom de toda a linguagem que se segue, a memória magoada definindo a visão e o entendimento da experiência que virá a seguir numa América que o autor encontra aos dezoito anos de idade, em 1963. Da pobreza açoriana (os pais tinham já emigrado, e Cota Fagundes havia sido criado por uma madrinha) à exploração idêntica pelo mesmo povo e seus descendentes na Califórnia profunda com os seus vastos campos de cultivo e das gigantescas vacarias, naquela altura mais ou menos automatizadas mas dependentes, sempre, do trabalho escravizado dos recém-chegados. O pouco tempo que Cota Fagundes permaneceu nesse inferno que os luso-americanos e os imigrantes mais antigos, passe a ironia, beatificavam como sendo a realização do famoso sonho americano, a dádiva da Terra Prometida, foi mais do que suficiente para que ele depressa fugisse, mesmo sozinho e de olhos fechados em busca de outra vida, de outro futuro em Los Angeles. Não se trata aqui nem de difamação nem de vingança – é quase sempre a “bondade de estranhos”, eis aí um dos grandes apanhados universais de Tennessee Williams, que nos salva. Naturalmente que se Francisco Cota Fagundes tivesse esperado pela mão de um açoriano ou luso-descendente na Califórnia desse tempo – sei do que falo por experiência própria — para o iniciar na viagem que paulatinamente o levaria a uma grande universidade e a um doutoramento distinto, a ser aluno e dialogante com um Jorge de Sena, a ser o autor deste e de inúmeros outros livros de referência crítica, o sonho nem sonho seria nunca. Como qualquer grande narrativa, esta é um diálogo e ao mesmo tempo ajuste de contas com alguém, ou com toda uma realidade humana. Diz o próprio autor que No Fio Da Vida foi escrito para que um dia o seu filho único soubesse de seu pai, e está dirigida implicitamente a uma mulher de nome Jeanette, hoje falecida e que lhe merece um comovente epílogo neste volume. De cena em cena, de personagem em personagem, quase esquecemos que se trata de prosa ensaística, e mais nos parece um romance, alguns dos acontecimentos e incidentes aqui parecendo também quase inacreditáveis, a invenção meramente do “plausível”, terminando com s sua reconciliação e retorno aos Açores.

“O sentimento de regresso ao lar! Ó céus, depois de uma acidentada viagem de nove anos pela Califórnia; depois de seis anos por vezes de suma alegria e felicidade mas tantas vezes também de dor e agonia com a minha Calipso suíça, senti que havia finalmente regressado a casa”.

Se omiti aqui mais detalhes de No Fio da Vida: Uma Odisseia Açor-Americana foi porque sobre ele escrevi extensamente aquando da publicação do original em inglês. Sempre insisti com Francisco Cota Fagundes, juntamente com outros colegas e amigos, que ele um dia haveria de o publicar em tradução no nosso país, como agora aconteceu. É uma narrativa sobre a experiência imigrante, repito, sem igual entre nós. Que o autor também a lançaria recentemente na Praia da Vitória, recebendo a Medalha de Mérito da sua Câmara Municipal em reconhecimento de toda a sua obra, foi um acto de grande justiça, ao contrário do que quase sempre acontece.

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Francisco Cota Fagundes, No Fio Da Vida: Uma Odisseia Açor-Americana (Autobiografia), Ponta Delgada, Veraçor Editores, 2013.

Poesia luso-americana, ou os uivos do vento

Capa Port American Poetry É com orgulho que agora adicionamos a nossa antologia à evidência inquestionável da existência de um corpo poético luso-americano.

Alice R. Clemente e George Monteiro, The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Poetry

 /Vamberto Freitas

 O que os organizadores desta maravilhosa antologia The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Poetry não dizem e nunca diriam, digo eu: eles são duas das figuras que, cada um a seu modo, muito têm contribuído para que esse corpo poético-literário exista já entre nós, em quantidade e sobretudo grande qualidade. George Monteiro, como é sabido, passou toda uma carreira universitária em volta de estudos anglo-americanos e luso-brasileiros, com um levantamento sistemático de tudo o que ia encontrando na escrita dos nossos descendentes na América do Norte, ele próprio poeta de largos recursos formais e temáticos, tradutor de muitos escritores e poetas lusos, inclusive dos Açores. Alice R. Clemente, do mesmo modo e a outra escala, contribui desde há anos na coordenação e dinamização (ambos juntamente com o seu outro director, Onésimo T. Almeida) da Gávea-Brown: Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-americanos, a primeira grande publicação periódica (Brown University) na divulgação desta escrita em todas a suas formas e géneros, a partir de 1980. Queria aqui ainda relembrar que todo este trabalho referente à criatividade luso-americana foi iniciado numa época em que poucos, dentro e fora da nossa Diáspora, acreditavam nele, ou então viravam-lhe a cara e a mente, pois não pertencia a “cânone” nenhum, não trazia “prestígio” aos que dos galões, e não da sua produção ou honestidade intelectual, fazem a sua carreira institucional ou no diáfano mundo da escrita. As minhas palavras aqui têm alguns endereços pessoais e institucionais, claro está. Entretanto, a nova geração de escritores luso-americanos aí está, e está com fulgurância, sentido de comunidade, espalhada por toda América, alguns deles formados ao mais nível e integrados em universidades que vão desde Nova Iorque e Massachusetts a Chicago e à Califórnia, outros permanecem intelectuais e escritores independentes, que se movimentam entre projectos criativos de vária ordem e publicações literárias da mais variada natureza. Todos eles ainda há pouco se sentiam isolados no vasto mosaico cultural do seu país, mas todos eles, hoje, já se encontram num grande grupo de partilha literária, todos eles, após as suas solitárias odisseias na abertura de trilhos e formas de vida, de regresso a casa, de regresso à sua ancestralidade nos dois lados do Atlântico, quer como membros das segundas e demais gerações nascidas nas nossas comunidades mais conhecidas, quer como filhos e filhas das dispersas terras portuguesas de onde saíram os seus antepassados. Não é de somenos importância que nestes anos mais recentes, alguns dessa nova geração de escritores e poetas juntam-se de quando como participantes em simpósios de línguas e literaturas, e oferecem sessões de leitura sob o nome de “Kale Soup For The Soul”, como que em gesto de lembrança da sopa de couve das suas avós, do cheiro das suas reais origens. Para quem os esperou como eu desde os meus anos da Califórnia, e pensava que simplesmente nunca apareceriam, como já tinham aparecido muitos de outros grupos étnicos daquele país, é quase como que milagroso. Para além desses encontros, alguns deles têm participado no já anual programa de escrita e estudo em Lisboa intitulado simplesmente “Disquiet/Dzanc Interantional Literary Program Lisbon”, numa homenagem a Fernando Pessoa, que será, sem dúvida alguma, a nossa influência literária mais profunda entre todos eles. Tão irónico, para mim, este seu apego ao nosso país e cultura precisamente quando sabem que estamos a cair aos bocados desde há alguns anos a esta parte. O seu contacto mútuo, as suas leituras e diálogos constantes uns com os outros de uma ponta do continente imenso à outra, assim como entre alguns deles e nós no arquipélago, assemelham-se muito ao que a minha geração de escritores açorianos viveu nos anos 70-90, o sentido de grupo, nem sempre totalmente concordante ou discordante, mas reconhecendo um chão pátrio histórico e comum, uma Tradição que nos enlaçava e enlaça. Foi dessa convivência que nasceram e duraram alguns anos os encontros de escritores açorianos dentro e fora das ilhas,

The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Poetry é um inestimável contributo à criação em curso de um cânone literário luso-americano, já plenamente justificado pelas razões aduzidas acima. O duplo hífen aqui é por si só muitíssimo significante – para poetas e poesia de ancestralidade dupla, de múltiplos chamamentos a referenciais geográficos, humanos e histórico-literários, uma publicação do mesmo modo ligada intimamente aos mundos das línguas portuguesa e inglesa ao mais alto nível universitário é o meio ideal de os apresentar ou reapresentar, e disseminar as melhores mostras das sua obra. Só Alice R. Clemente e George Monteiro, permitam-me repeti-lo, seriam capazes de tal tarefa pelo seu conhecimento acumulado no decorrer dos anos e trabalho, pela sua capacidade de investigação, persistência e crença puramente intelectual em tal projecto, que não meramente lealdade étnica ou duplamente nacional. Estão nestas páginas várias gerações de luso-descendentes, com a excepção de Alfred Lewis, que nasceu nas Flores, mas depois na Califórnia escreveu nas suas duas línguas. A mais antiga, Emma Lazarus (1849-1887), descendente dos primeiros judeus portugueses na América, e hoje talvez a figura mais famosa desta antologia por uma razão ainda mais distinta, o seu talento tendo sido reconhecido já pelo próprio filósofo e sábio Ralph Waldo Emerson: são da autoria dela as famosas palavras poéticas colocadas numa placa de bronze aos pés da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, as que imploram ao restante mundo que mande para a América o povo sem vida nem futuro em terras antigas. Outros presentes neste volume são jovens poetas, como Millicent Borges Accardi e Carlo Matos. Entre estes, estão todos os nomes incontornáveis, uns naturalmente mais conhecidos do que outros, como Frank X. Gaspar, o próprio George Monteiro, Sam Pereira, Nancy Vieira Couto e Lara Gularte. Não é a minha intenção fazer uma listagem completa aqui (para isso existe a antologia), mas sim dar uma ideia de quanta bela poesia está incluída neste livro, agora fundamental para estudiosos e todos os que lêem a boa poesia sem mais qualificações, inclusive, inevitavelmente neste caso, a que referencia alguma da nossa marcante experiência de vida durante mais de um século num contexto de uma nação multiétnica e multicultural, como são os Estados Unidos. Assim mesmo, os organizadores deste livro esclarecem logo de início que as suas escolhas aqui presentes não obedeceram em primeiro lugar à temática de se ser português ou luso-descendente naquele país, mas sim pura e simplesmente à qualidade estética de cada poema, ou do conjunto de poemas de cada autor.

“Desde o início, – escrevem Clemente e Monteiro na introdução às páginas que se seguem – decidimos que a nossa selecção da poesia escrita por luso-americanos seria guiada pela sua estética em vez de por um critério cultural… Enquanto incluirá poemas sobre temas luso-americanos, o primeiro critério para a sua presença aqui é que os poemas eles próprios – para além do seu assunto ou temática – sejam da mais alta qualidade estética. Estamos perfeitamente conscientes de que a obra poética de luso-descendentes pertence à tradição da melhor poesia americana”.

Com a publicação de The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Poetry, a primeira e grande proposta (quer tenha sido essa a intenção ou não de Alice R. Clemente e George Monteiro) de cânone da literatura luso-americana fica completo ao juntarmos-lhe a antologia de prosa Luso-American Literature: Writings by Portuguese-Speaking Authors in North America, de Robert Henry Moser e António Luciano de Andrade Tosta.

Não é pouco, acreditem. Enquanto o ensino da literatura a nível superior em Portugal, e especialmente nos Açores, definhou quase por completo, chegam-nos estes actos de grandeza humanística e artística, esta reconfirmação de que a literatura é tanto um acto estético como o mais firme e duradouro repositório da memória colectiva de um povo, a reafirmação, acima de tudo, de identidades fluidas de um povo que sobrevive e vence em qualquer lugar e circunstâncias históricas. São estes, pois, os uivos do vento, como no título de um dos poemas aqui contidos, que chegam do longe. Muito mais rica e serenamente, ao que parece, do que em casa própria.

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The Gávea-Brown Book of Portuguese-American Poetry, Edited by Alice R. Clemente and George Monteiro, Providence, Rhode Island, Gávea-Brown Publications (Brown University), 2012. As traduções aqui são da minha responsabilidade.

Ilhas e literatura, açorianos e açorianidade

Capa Machado PiresAçorianidade. Um termo feliz que parece exprimir uma espécie de ontologia insular. Uma referência e uma ‘alma’ que se fica a transportar toda a vida.

António A. M. Machado Pires, Páginas sobre Açorianidade

/Vamberto Freitas

 Se alguns outros estudiosos e escritores entre nós, pertencentes à presente geração, se debruçaram com rigor académico e conhecimento literário-histórico sobre o termo açorianidade, o professor e ensaísta António M. B. Machado Pires – que dispensa aqui qualquer cláusula de apresentação — é por certo uma dessas figuras mais proeminentes no que devemos chamar, sem complexos, Estudos Açorianos. Desde o seu percurso universitário iniciado na Universidade de Lisboa, primeiro como aluno e depois como assistente de Vitorino Nemésio, estou em crer, ou pelo menos aventuro aqui, foram talvez as suas duas experiências intelectuais mais marcantes, e que teriam consequências escriturais muitíssimo importantes para todos os que se têm empenhado, particularmente ao longo das décadas pouco antes e que se seguiram ao 25 de Abril, na tentativa de se reafirmar ou mesmo de redefinir nada menos do que identidade – ou identidades, como ainda há pouco tempo nos relembrava um colóquio na Universidade dos Açores precisamente sobre o mesmo tema – açoriana, ou, uma vez mais, açorianas, agora sem aspas ou itálicos. É também sabido que no centro da obra ensaística de Machado Pires está a sua tese de doutoramento, A Ideia de Decadência Na Geração de 70 (seguida de outros ensaios posteriores sobre este e outros temas, como Linguagem, Linguagens e Ensino, e Universidade, Humanismo e Tecnologia) esse mais do que distinto grupo de escritores, poetas e pensadores que anunciaram de formas diversas a necessidade crucial de trazer o modernismo, no modo de vivências como nas artes, para Portugal. Não deixa de, no mínimo, ser curioso, e talvez de significados ainda não inteiramente desvendados ou revistos, que o um dos seus mais destacados membros – e hoje, juntamente com Eça de Queirós, dos mais lembrados e a cuja obra total regressamos constantemente — foi Antero de Quental, tão profundamente açoriano cujo o seu último e mais radical acto como ser humano foi escolher a sua ilha natal para a sua morte. O estar longe da ilha natal (que Machado Pires nos relembra ter sido a condição de “desterro” que exacerbou o sentimento de açoriano da Terceira no autor de Mau Tempo no Canal) e na companhia, pessoal e literária, de Nemésio só poderia levar, pois, a esse inevitável e melvilleano “choque de reconhecimento” em que nos situamos de imediato com ou no outro, qualquer outro falando qualquer língua, o nosso lugar, as nossas origens permanecendo determinantes na definição de quem somos e de onde viemos sem negar a universalidade humana para além da geografia e da própria cultura, entendida como a nossa mundividência nas diversidade do mosaico das nacionalidades e etnias, na diferença dentro de um todo. Foi exactamente esse olhar atento e descobridor num espelho sem distorções que provoca em Nemésio esse choque de reconhecimento após a leitura de As Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão. Que foi um escritor continental que leva o mais profundo de todos açorianos, no modo de vida e nas suas obsessões literárias, ao centro da historicidade e circunstâncias geográficas do seu passado e presente, fica tudo mais ou menos esclarecido – Raul Brandão poderia entender-nos com tanta clareza porque reconheceu, ele próprio, a irmandade de alma com os que cá permaneciam escondidos na bruma e na solidão, temerosos e ao mesmo tempo afoitos ante a natureza de ilhas vulcânicas, tendo provavelmente sentido o contrário do dito pessoano: “sou daqui como de toda a parte”. Uma grande obra literária só pode resultar tanto do autoconhecimento como da empatia e aproximação do próprio ser à paisagem humana em sua frente. Se não fosse assim, o seu livro pouco mais teria sido do que um mero relato jornalístico, ou algo parecido, como aconteceria com um grupo de intelectuais continentais que por cá andaram de encomenda nos tristes anos 20, e nada entenderam — ou quiseram ou entender.

Páginas sobre Açorianidade, uma sequência de ensaios em andamentos pluri-sgnificativos que permaneciam dispersos por vários publicações universitárias, e surgidos em ocasiões também diferenciadas (colóquios, conferências de abertura e encerramento de congressos) cobrem um espaço de tempo desde a início da década de 80 até aos dias presentes. Antes e para além de falarmos na sua temática predominante que serve de fio condutor as estas páginas, lembremos que esta foi precisamente a época em que os Açores enfrentaram nada menos do que a construção de uma sociedade que se queria nova, e de um governo próprio pela primeira vez na sua existência de mais de cinco séculos a meio Atlântico, o sentido de pertença à nossa Nação tendo sido sempre tanto um acto de imaginação e da indelével lusitanidade herdada das nossas origens ibéricas assim como por tudo o que nos aconteceu após os Descobrimentos – os Açores e os açorianos nunca foram ou estiveram alheios a nenhuma emergência da Pátria, quer em momentos de perda e luta pela independência nacional, quer nas grandes mudanças de regime ao longo da história, nem sequer a solução da colonização do Brasil, como se sabe, foi feita sem esse envolvimento ilhéu, facto que autor que nos relembra quando fala da açorianidade ainda hoje ritualizada na vida espiritual e criativa em estados como Santa Catarina e Rio do Grande do Sul. Assim, para o Professor Machado Pires como foi sempre para Vitorino Nemésio, o autor do termo açorianidade primeiro aparecido no seu famoso de ensaio de 1928-1932, intitulado O Açoriano e os Açores”, e decalcado de hispanidade que Unamuno utilizou em relação ao seu país e ao restante mundo por ele criado, não pode ser inteiramente entendido fora das raízes da lusitanidade, muito menos agora em que vários países espalhados do Atlântico à Oceânia aceitam, pelo parecem aceitar, o termo lusófono como pressuposto claramente identitário perante outras línguas e tradições. Páginas sobre Açorianidade, no seu conjunto agora de livro, teoriza a partir de sínteses feitas com a clareza só possível após leituras aprofundadas – close-readings, como as chamavam os da nova crítica americana – dos textos da sua maior aproximação intelectual e antecessores na fundação e abordagem de uma proposta de tal alcance cultural e identitário, como é o caso de Machado Pires em relação à obra de Nemésio na sua totalidade, ficção (Mau Tempo no Canal, em primeiro lugar), poesia (Bicho Harmonioso, Festa Redonda e O Verbo e a Morte), e ensaio (particularmente nas crónicas do Corsário das Ilhas e do Jornal do Observador). O ser especialmente da literatura que parte o autor para o seu próprio posicionamento ante o conceito simultaneamente literário e antropológico, encerrando em si toda a semântica que denota o nosso modo de der e estar na fluidez de um povo que sempre soube adaptar-se e readaptar-se não só dentro do próprio arquipélago como em terras distantes (“As questões da identidade mudam com a História”, escreve a dada altura) que depressa se tornam noutras “pátrias”, a questão da literatura açoriana ocupa também na sua escrita a centralidade, digamo-lo assim, apaziguada que lhe é devida, ora para implicitamente contestar algumas posições que ele pensa levariam ao arrancar o galho da árvore progenitora, ora para reafirmar, sem atenções à outrora polémica designação, que é precisamente essa mesma literatura portuguesa feita por açorianos, já também multissecular e iniciada com as Saudades da Terra, que constitui o repositório mais rico da nossa firmeza e angústia identitária na modernidade agora globalizada.

“A Cultura e a Literatura – escreve Machado Pires no ensaio ‘Os Açores Antes do 25 de Abril/Alguns Indicadores Culturais” – como sua parte integrante reflectem nos Açores dois sentidos ou movimentos a que chamaremos centrífugo e centrípeto, isto é, respectivamente, o desejo de fuga ou a evasão, a aspiração a sair do isolamento [lembre-se O Barco e o Sonho, de Manuel Ferreira], e o desejo, forte e identitário, de recriação pela escrita do mundo insular matricial em que cada açoriano se revê. Forças dissonantes mas complementares, como o comportamento r a exaustão, a dor e o prazer, o partir e o ficar, a dupla natureza do ilhéu, que quer compreender o mundo na condição de o mundo o compreender”.

Outros dois temas fundamentais da nossa literatura e que Machado Pires reconheceu desde sempre na obra de Vitorino Nemésio, recorrem insistentemente em todos estes ensaios de Páginas sobre Açorianidade. Se a nossa foi desde o povoamento das ilhas uma história essencialmente homérica, Ulisses em viagens de guerra e descoberta, o obsessivo regresso a casa não só acontece na realidade como na imaginação, marca praticamente toda a nossa escrita em qualquer um dos seus géneros, relembrado no referido ensaio de Nemésio “Os Açores e os Açorianos”, o autor realçando essas viagens “para fora” como sendo um “desterro” que exacerba e condiciona toda a vivência dos ilhéus em peregrinação ou enquanto participa na construção de novas sociedades. Não admira, pois, que Machado Pires interligue sempre a condição existencial dos açorianos enquanto residentes na sua natal ao seu estado de emigrante, as forças centrífugas que têm comandado todo o nosso destino, reconhecendo agora e abertamente os contributos indeléveis dos nossos escritores no além-fronteiras. Junte-se a estes um crescente número de autores luso-americanos e ao seu próprio cânone literário em língua inglesa e conclua-se sem complexos nem receios que, afinal, os Açores e os Açorianos, como um dia nos lembrou também Pedro da Silveira, quase não têm par em terras e culturas de dimensão e população comparável à nossa. Isso também poderá ser considerado parte da nossa grande herança da lusitanidade viva nas ilhas, da lusitanidade que desde Camões nunca ficou a dever nada a ninguém quando às grandes artes literárias.

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António M. B. Machado Pires, Páginas sobre Açorianidade, Letras Lavadas Edições, Ponta Delgada, 2013.