Ilhas e literatura, açorianos e açorianidade

Capa Machado PiresAçorianidade. Um termo feliz que parece exprimir uma espécie de ontologia insular. Uma referência e uma ‘alma’ que se fica a transportar toda a vida.

António A. M. Machado Pires, Páginas sobre Açorianidade

/Vamberto Freitas

 Se alguns outros estudiosos e escritores entre nós, pertencentes à presente geração, se debruçaram com rigor académico e conhecimento literário-histórico sobre o termo açorianidade, o professor e ensaísta António M. B. Machado Pires – que dispensa aqui qualquer cláusula de apresentação — é por certo uma dessas figuras mais proeminentes no que devemos chamar, sem complexos, Estudos Açorianos. Desde o seu percurso universitário iniciado na Universidade de Lisboa, primeiro como aluno e depois como assistente de Vitorino Nemésio, estou em crer, ou pelo menos aventuro aqui, foram talvez as suas duas experiências intelectuais mais marcantes, e que teriam consequências escriturais muitíssimo importantes para todos os que se têm empenhado, particularmente ao longo das décadas pouco antes e que se seguiram ao 25 de Abril, na tentativa de se reafirmar ou mesmo de redefinir nada menos do que identidade – ou identidades, como ainda há pouco tempo nos relembrava um colóquio na Universidade dos Açores precisamente sobre o mesmo tema – açoriana, ou, uma vez mais, açorianas, agora sem aspas ou itálicos. É também sabido que no centro da obra ensaística de Machado Pires está a sua tese de doutoramento, A Ideia de Decadência Na Geração de 70 (seguida de outros ensaios posteriores sobre este e outros temas, como Linguagem, Linguagens e Ensino, e Universidade, Humanismo e Tecnologia) esse mais do que distinto grupo de escritores, poetas e pensadores que anunciaram de formas diversas a necessidade crucial de trazer o modernismo, no modo de vivências como nas artes, para Portugal. Não deixa de, no mínimo, ser curioso, e talvez de significados ainda não inteiramente desvendados ou revistos, que o um dos seus mais destacados membros – e hoje, juntamente com Eça de Queirós, dos mais lembrados e a cuja obra total regressamos constantemente — foi Antero de Quental, tão profundamente açoriano cujo o seu último e mais radical acto como ser humano foi escolher a sua ilha natal para a sua morte. O estar longe da ilha natal (que Machado Pires nos relembra ter sido a condição de “desterro” que exacerbou o sentimento de açoriano da Terceira no autor de Mau Tempo no Canal) e na companhia, pessoal e literária, de Nemésio só poderia levar, pois, a esse inevitável e melvilleano “choque de reconhecimento” em que nos situamos de imediato com ou no outro, qualquer outro falando qualquer língua, o nosso lugar, as nossas origens permanecendo determinantes na definição de quem somos e de onde viemos sem negar a universalidade humana para além da geografia e da própria cultura, entendida como a nossa mundividência nas diversidade do mosaico das nacionalidades e etnias, na diferença dentro de um todo. Foi exactamente esse olhar atento e descobridor num espelho sem distorções que provoca em Nemésio esse choque de reconhecimento após a leitura de As Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão. Que foi um escritor continental que leva o mais profundo de todos açorianos, no modo de vida e nas suas obsessões literárias, ao centro da historicidade e circunstâncias geográficas do seu passado e presente, fica tudo mais ou menos esclarecido – Raul Brandão poderia entender-nos com tanta clareza porque reconheceu, ele próprio, a irmandade de alma com os que cá permaneciam escondidos na bruma e na solidão, temerosos e ao mesmo tempo afoitos ante a natureza de ilhas vulcânicas, tendo provavelmente sentido o contrário do dito pessoano: “sou daqui como de toda a parte”. Uma grande obra literária só pode resultar tanto do autoconhecimento como da empatia e aproximação do próprio ser à paisagem humana em sua frente. Se não fosse assim, o seu livro pouco mais teria sido do que um mero relato jornalístico, ou algo parecido, como aconteceria com um grupo de intelectuais continentais que por cá andaram de encomenda nos tristes anos 20, e nada entenderam — ou quiseram ou entender.

Páginas sobre Açorianidade, uma sequência de ensaios em andamentos pluri-sgnificativos que permaneciam dispersos por vários publicações universitárias, e surgidos em ocasiões também diferenciadas (colóquios, conferências de abertura e encerramento de congressos) cobrem um espaço de tempo desde a início da década de 80 até aos dias presentes. Antes e para além de falarmos na sua temática predominante que serve de fio condutor as estas páginas, lembremos que esta foi precisamente a época em que os Açores enfrentaram nada menos do que a construção de uma sociedade que se queria nova, e de um governo próprio pela primeira vez na sua existência de mais de cinco séculos a meio Atlântico, o sentido de pertença à nossa Nação tendo sido sempre tanto um acto de imaginação e da indelével lusitanidade herdada das nossas origens ibéricas assim como por tudo o que nos aconteceu após os Descobrimentos – os Açores e os açorianos nunca foram ou estiveram alheios a nenhuma emergência da Pátria, quer em momentos de perda e luta pela independência nacional, quer nas grandes mudanças de regime ao longo da história, nem sequer a solução da colonização do Brasil, como se sabe, foi feita sem esse envolvimento ilhéu, facto que autor que nos relembra quando fala da açorianidade ainda hoje ritualizada na vida espiritual e criativa em estados como Santa Catarina e Rio do Grande do Sul. Assim, para o Professor Machado Pires como foi sempre para Vitorino Nemésio, o autor do termo açorianidade primeiro aparecido no seu famoso de ensaio de 1928-1932, intitulado O Açoriano e os Açores”, e decalcado de hispanidade que Unamuno utilizou em relação ao seu país e ao restante mundo por ele criado, não pode ser inteiramente entendido fora das raízes da lusitanidade, muito menos agora em que vários países espalhados do Atlântico à Oceânia aceitam, pelo parecem aceitar, o termo lusófono como pressuposto claramente identitário perante outras línguas e tradições. Páginas sobre Açorianidade, no seu conjunto agora de livro, teoriza a partir de sínteses feitas com a clareza só possível após leituras aprofundadas – close-readings, como as chamavam os da nova crítica americana – dos textos da sua maior aproximação intelectual e antecessores na fundação e abordagem de uma proposta de tal alcance cultural e identitário, como é o caso de Machado Pires em relação à obra de Nemésio na sua totalidade, ficção (Mau Tempo no Canal, em primeiro lugar), poesia (Bicho Harmonioso, Festa Redonda e O Verbo e a Morte), e ensaio (particularmente nas crónicas do Corsário das Ilhas e do Jornal do Observador). O ser especialmente da literatura que parte o autor para o seu próprio posicionamento ante o conceito simultaneamente literário e antropológico, encerrando em si toda a semântica que denota o nosso modo de der e estar na fluidez de um povo que sempre soube adaptar-se e readaptar-se não só dentro do próprio arquipélago como em terras distantes (“As questões da identidade mudam com a História”, escreve a dada altura) que depressa se tornam noutras “pátrias”, a questão da literatura açoriana ocupa também na sua escrita a centralidade, digamo-lo assim, apaziguada que lhe é devida, ora para implicitamente contestar algumas posições que ele pensa levariam ao arrancar o galho da árvore progenitora, ora para reafirmar, sem atenções à outrora polémica designação, que é precisamente essa mesma literatura portuguesa feita por açorianos, já também multissecular e iniciada com as Saudades da Terra, que constitui o repositório mais rico da nossa firmeza e angústia identitária na modernidade agora globalizada.

“A Cultura e a Literatura – escreve Machado Pires no ensaio ‘Os Açores Antes do 25 de Abril/Alguns Indicadores Culturais” – como sua parte integrante reflectem nos Açores dois sentidos ou movimentos a que chamaremos centrífugo e centrípeto, isto é, respectivamente, o desejo de fuga ou a evasão, a aspiração a sair do isolamento [lembre-se O Barco e o Sonho, de Manuel Ferreira], e o desejo, forte e identitário, de recriação pela escrita do mundo insular matricial em que cada açoriano se revê. Forças dissonantes mas complementares, como o comportamento r a exaustão, a dor e o prazer, o partir e o ficar, a dupla natureza do ilhéu, que quer compreender o mundo na condição de o mundo o compreender”.

Outros dois temas fundamentais da nossa literatura e que Machado Pires reconheceu desde sempre na obra de Vitorino Nemésio, recorrem insistentemente em todos estes ensaios de Páginas sobre Açorianidade. Se a nossa foi desde o povoamento das ilhas uma história essencialmente homérica, Ulisses em viagens de guerra e descoberta, o obsessivo regresso a casa não só acontece na realidade como na imaginação, marca praticamente toda a nossa escrita em qualquer um dos seus géneros, relembrado no referido ensaio de Nemésio “Os Açores e os Açorianos”, o autor realçando essas viagens “para fora” como sendo um “desterro” que exacerba e condiciona toda a vivência dos ilhéus em peregrinação ou enquanto participa na construção de novas sociedades. Não admira, pois, que Machado Pires interligue sempre a condição existencial dos açorianos enquanto residentes na sua natal ao seu estado de emigrante, as forças centrífugas que têm comandado todo o nosso destino, reconhecendo agora e abertamente os contributos indeléveis dos nossos escritores no além-fronteiras. Junte-se a estes um crescente número de autores luso-americanos e ao seu próprio cânone literário em língua inglesa e conclua-se sem complexos nem receios que, afinal, os Açores e os Açorianos, como um dia nos lembrou também Pedro da Silveira, quase não têm par em terras e culturas de dimensão e população comparável à nossa. Isso também poderá ser considerado parte da nossa grande herança da lusitanidade viva nas ilhas, da lusitanidade que desde Camões nunca ficou a dever nada a ninguém quando às grandes artes literárias.

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António M. B. Machado Pires, Páginas sobre Açorianidade, Letras Lavadas Edições, Ponta Delgada, 2013.

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One thought on “Ilhas e literatura, açorianos e açorianidade

  1. Em@ Abril 7, 2013 / 11:00 pm

    Só hoje descobri o teu blog!!!
    Boa. Virei + vezes.
    Beijo

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