A odisseia americana de um intelectual açoriano

Capa No Fio da VidaA emigração é, tal como a condição humana ela mesma, um bocadinho de ambas essas coisas: parte via libertadora e parte inferno

Francisco Cota Fagundes, No Fio Da Vida

/Vamberto Freitas

 Escolhi deliberadamente “intelectual açoriano” para o título aqui porque Francisco Cota Fagundes, natural da Agualva, Ilha Terceira, é mais do que qualquer título universitário que lhe possamos atribuir, classificação que o limitaria injustamente: doutorado por uma das mais prestigiadas instituições académicas do mundo, a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), Professor Catedrático em Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Massachusetts, Amherst, reconhecido ensaísta especializado nas obras de Fernando Pessoa e Jorge de Sena, sem nunca deixar de parte os escritores açorianos e da nossa Diáspora, “cronista” de fôlego cuja prosa oscila entre a mimética realista tradicional e a imaginação ficcionada, ex-ordenhador de vacas no Vale de São Joaquim e lavador de pratos em Los Angeles, ninguém entre nós poderá reclamar por enquanto, um currículo tão completo e significante, no que à “condição imigrante” diz respeito no nosso tempo. No Fio da Vida: Uma Odisseia Açor-Americana é a tradução, feita pelo próprio autor, do seu Hard Nocks: An Azorean-American Odyssey (memoir), publicado originalmente em 2000. Até há bem pouco tempo, permanecia quase desconhecido entre nós fora dos círculos universitários habituais. Esse estatuto tem vindo a alargar-se ultimamente, primeiro com a publicação de dois livros de “cónicas”, No Vale dos Pioneiros: narrativas da minha diáspora e A Lagoa dos Castores E Outras Narrativas da Minha Diáspora, e agora, definitivamente, com esta sua incomparável autobiografia. A áspera solidão e o desamparo da sua caminhada são simultaneamente uma condição de vida muito própria, como colectivamente nossa. Aliás, um dos temas das suas presentes páginas não foge ao que mais marca a literatura açoriana, desde logo anunciado no próprio título – a “odisseia” e a inevitável viagem de “regresso a casa”. Acontece que conheci o pessoalmente autor, já na Califórnia, num tempo em que isso lhe seria impensável, e até, creio, indesejável. Esta é uma autobiografia de pura catarse, e daí a violência sentida e criativa da sua linguagem. Como diria um autor judeu-americano, que também foi imigrante nos EUA, Bashevis Singer: é preciso saber primeiro odiar um povo para só depois amá-lo.

Permitam-me que seja peremptório aqui: é de longe, a meu ver, a melhor e a mais radical autobiografia-memórias alguma vez escrita e publicada por um imigrante açoriano na América do Norte, ou em qualquer outra parte ou tempo. Este desvendar de alma, esta desconstrução implacável da mítica profunda que tem sido para nós e desde sempre o Novo Mundo e o nosso lugar no seu mosaico de gente e culturas, este percurso de vida que leva um autor da mais sentida e aterradora humilhação ao mais improvável triunfo pessoal diante de barreiras (para Cota Fagundes, nunca um muro de lamentações) que fariam a maior parte de nós ajoelhar e pedir ajuda a todos os deuses em que acreditamos, resultou num “testemunho” literário que, pelo seu referencial intimista e depois geográfico e social assim como pela sua linguagem simultaneamente dura (tal a rudeza dos nossos mundos nas ilhas de outrora e nas comunidades que sempre foram a sua extensão) vai muito além dos incidentes e sentimentos pessoalismos aí relatados ou transfigurados: passa a fazer parte, uma vez mais, da nossa própria história de povo andarilho por necessidade, e estóico ante todas as circunstâncias de vida em qualquer parte. Na literatura portuguesa, inclusive na que é escrita por autores açorianos, não existem autobiografias que interliguem tão directamente os mais íntimos segredos de uma vida com a restante obra estritamente literária, em qualquer uma das suas formas. O nosso suposto “pudor” não passa de outra hipocrisia muito nossa, despedaçamo-nos mutuamente à mesa do café e através do mexerico ou boato, mas recusamos o mais elementar na vida intelectual: toda, toda a escrita acaba por ser autobiográfica, como outros já o disseram, se não nos factos por certo que nos sentimentos, sejam eles de boa ou má índole, seja esse texto uma ficção ou um poema ou ensaio. Para qualquer página, trazemos o nosso e o saber alheio, e depois condicionamo-los ao que mais profundamente conhecemos, que é a nossa alma, o nosso mais profundo interiorismo e crenças. Na escrita ensaística de Francisco Cota Fagundes detecto duas fases bem distintas: a primeira, “académica” em que o autor assegura o seu lugar profissional prestando a devida vénia às “autoridades” que o “formaram”, os que estavam necessariamente em comando durante a odisseia de combate pela sobrevivência; a segunda, iniciada após o tal “regresso a casa” com toda a segurança, e na qual o autor se vira decididamente para os seus colegas de viagem, tanto os que residem nas ilhas como nas comunidades diaspóricas. No Fio da Vida, pois, o projecto intermitente e decisivo, de limpeza da alma, de aceitação do passado (sem o desculpar), foi a sua viragem de vida e visão, rumo ao presente. Não creio haver um único leitor deste livro que não se reveja nessa luta de sobrevivência e, eventualmente, afirmação — tranquila, generosa, sabedora.

No Fio da Vida traça a vida do seu autor desde a nascença na sua freguesia terceirense até aos anos de todas a lutas pessoais na América dos nossos dias. As suas descrições da infância nos Açores dão o tom de toda a linguagem que se segue, a memória magoada definindo a visão e o entendimento da experiência que virá a seguir numa América que o autor encontra aos dezoito anos de idade, em 1963. Da pobreza açoriana (os pais tinham já emigrado, e Cota Fagundes havia sido criado por uma madrinha) à exploração idêntica pelo mesmo povo e seus descendentes na Califórnia profunda com os seus vastos campos de cultivo e das gigantescas vacarias, naquela altura mais ou menos automatizadas mas dependentes, sempre, do trabalho escravizado dos recém-chegados. O pouco tempo que Cota Fagundes permaneceu nesse inferno que os luso-americanos e os imigrantes mais antigos, passe a ironia, beatificavam como sendo a realização do famoso sonho americano, a dádiva da Terra Prometida, foi mais do que suficiente para que ele depressa fugisse, mesmo sozinho e de olhos fechados em busca de outra vida, de outro futuro em Los Angeles. Não se trata aqui nem de difamação nem de vingança – é quase sempre a “bondade de estranhos”, eis aí um dos grandes apanhados universais de Tennessee Williams, que nos salva. Naturalmente que se Francisco Cota Fagundes tivesse esperado pela mão de um açoriano ou luso-descendente na Califórnia desse tempo – sei do que falo por experiência própria — para o iniciar na viagem que paulatinamente o levaria a uma grande universidade e a um doutoramento distinto, a ser aluno e dialogante com um Jorge de Sena, a ser o autor deste e de inúmeros outros livros de referência crítica, o sonho nem sonho seria nunca. Como qualquer grande narrativa, esta é um diálogo e ao mesmo tempo ajuste de contas com alguém, ou com toda uma realidade humana. Diz o próprio autor que No Fio Da Vida foi escrito para que um dia o seu filho único soubesse de seu pai, e está dirigida implicitamente a uma mulher de nome Jeanette, hoje falecida e que lhe merece um comovente epílogo neste volume. De cena em cena, de personagem em personagem, quase esquecemos que se trata de prosa ensaística, e mais nos parece um romance, alguns dos acontecimentos e incidentes aqui parecendo também quase inacreditáveis, a invenção meramente do “plausível”, terminando com s sua reconciliação e retorno aos Açores.

“O sentimento de regresso ao lar! Ó céus, depois de uma acidentada viagem de nove anos pela Califórnia; depois de seis anos por vezes de suma alegria e felicidade mas tantas vezes também de dor e agonia com a minha Calipso suíça, senti que havia finalmente regressado a casa”.

Se omiti aqui mais detalhes de No Fio da Vida: Uma Odisseia Açor-Americana foi porque sobre ele escrevi extensamente aquando da publicação do original em inglês. Sempre insisti com Francisco Cota Fagundes, juntamente com outros colegas e amigos, que ele um dia haveria de o publicar em tradução no nosso país, como agora aconteceu. É uma narrativa sobre a experiência imigrante, repito, sem igual entre nós. Que o autor também a lançaria recentemente na Praia da Vitória, recebendo a Medalha de Mérito da sua Câmara Municipal em reconhecimento de toda a sua obra, foi um acto de grande justiça, ao contrário do que quase sempre acontece.

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Francisco Cota Fagundes, No Fio Da Vida: Uma Odisseia Açor-Americana (Autobiografia), Ponta Delgada, Veraçor Editores, 2013.

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2 thoughts on “A odisseia americana de um intelectual açoriano

  1. jocarussell Maio 6, 2013 / 10:25 pm

    Vamberto:

    Não sei porquê eu cheguei do almoço hoje e pensei na temporada quando eu, jovem americano falando português aprendido no Brasil, trabalhava com a comunidade açoriana na Artésia. Por casualidade, resolvi procurar seu nome no Google, e achei o seu blog. Fico contento ao saber que uma das vozes da minha (nossa) juventude continua firme. Quando encontrei as palavras “… vastos campos de cultivo e das gigantescas vacarias, naquela altura mais ou menos automatizadas mas dependentes, sempre, do trabalho escravizado dos recém-chegados.” eu quase podia sentir o cheiro de Dairyland de novo. Lembro dos milhares de imigrantes que chegaram cada ano, sem saber mais que duas ou três palavras em inglês, e por tanto, sem opções no trabalho.

    Obrigado pela sua amizade e ajuda naquela época tão formativa na minha vida.

    Um abraço do

    John Russell

  2. M.Martins Maio 20, 2013 / 7:10 am

    Mas vos sois formidaveis!! Sei por experiencia propia porque tive amigos Açoreanos,que estivéram na tropa nos mesmo anos, 1962 depois na Guiné…naquéla raiva de guérra suja.
    Depois tanto infelizes nos U.S.A como no Canada:mas que extraordinarios amigos!!
    Eu e minha esposa somos Lisboetas,e que amigos.
    Encontreio a si agora e estou bastante orgulhoso,vou continuar a le-lo por bastante tempo.Parabens .Chapeau

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