Memória do tempo: Álamo Oliveira e a literatura açoriana sem amarras

Álamo e EuA dolorosa díade amor-ódio mais uma vez se instala, e de maneira fundamental.

Luiz António de Assis Brasil sobre um dos romances de Álamo Oliveira, Pátio de Alfândega/Meia Noite

/Vamberto Freitas

 Álamo Oliveira vem amanhã a Ponta Delgada apresentar o seu novo romance, Murmúrios Com Vinho de Missa. Não tenho qualquer dúvida que será o nosso romance do ano, pela sua beleza formal, pela audácia da sua temática, o sexo como moeda de troca na sociedade dos nossos tempos. Um crítico não deveria usar estas palavras, mas não resisto: é belo, é lindo, é um mergulho perfeito na nossa história e actualidade. Entretanto, publico aqui alguns passos de uma entrevista que ele me concedeu no fim dos anos 80 sobre o seu romance de guerra Até Hoje (Memórias de Cão), e no qual a temática da homossexualidade já tinha sido abordada, sem rodeios nem ansiedades algumas.

Natural da ilha Terceira, onde ainda hoje vive (facto a notar, pois a saída e fixação com outras partes tem sido a sorte da maioria dos escritores açorianos), antes do sucesso  deste seu outro romance, era já reconhecido no arquipélago como uma das mais vivas e criativas vozes da literatura açoriana, sobretudo na sua poesia e teatro. Desde sempre hiperconsciente da sua realidade de homem ilhéu, a sua temática centra-se na procura do amor e entendimento num mundo já sem fronteiras e em constante turbulência e transformação. Mobilizado para a Guiné-Bissau em 1967, passariam uns bons anos antes que essa experiência fosse por ele transfigurada em Até Hoje (Memórias de Cão), considerado por muitos um dos melhores romances portugueses “de guerra”.

***

Até Hoje mereceu considerável atenção na Imprensa Nacional – Jornal de Letras e Diário de Notícias, entre outros periódicos. Quer isto dizer que, finalmente, o escritor residente no arquipélago está a quebrar barreiras que em outros tempos o mantinham na obscuridade?

AO – Involuntariamente e à falta de melhor expressão, tenho de ir buscar a “vaga de fundo”. É ela que vem aí, cautelosa, prudente, persistente, teimosa. Os Açores existem. Lisboa começa a ter conhecimento disso, que é como quem diz, alguma sobranceria cede perante uma realidade que não é possível continuar a ignorar, Sabemos que nos órgãos de comunicação é possível forjar a informação; que é possível empolar acontecimentos que a opinião pública normalmente ignoraria mas que acaba por assimilar à força de a impingirem; que é possível suprimir acontecimentos que, por razões obscuras, importa safar. Ciclicamente, fez-se isso com os Açores. Só que, hoje, já não é admissível essa atitude. É tempo de se assumir o conteúdo total de uma frase do Torga, proferida há quase vinte anos: “Portugal, sem Açores, não o entendo.” E há a “vaga”. Com muitos outros, faço parte dela.

– O protagonista de Até Hoje acaba por emigrar: a sociedade a que pertence não tem lugar para outsiders, ou é ele que rejeita por completo o comodismo e a beatice social da sua comunidade?

AO – O João Machado emigrou, quanto a mim, por razões de conflito com o passado, que não prescinde da vivência com os outros, claro. Por isso, também não o fez por se considerar outsider, mas offside. Só que João Machado, ao optar por emigar, não foi original. Antes, repetiu a fórmula antiga do povo do seu país e, sobretudo, das gentes das suas ilhas

– A procura de amor e carinho, creio, é um dos temas fundamentais do seu romance. É, em Até Hoje, o contraponto radical à ideologia militar e à situação de raiva e solidão inerentes a um conflito armado? Foi essa uma condição generalizada entre todos, mesmo os que nos parecem indiferentes e demasiado desumanizados pela guerra?

AO – Na guerra, pior do que a morte, é a solidão. Por isso, a procura de companhia – como geradora de amor e de carinho – era luta fundamental. À distância, é possível saber o quanto foi importante investir afectivamente nisto e naquilo. Agora, esse investimento não se afigura como ortodoxo. Só que, nessa altura, foi o mais adequado. E foi muito importante. Sem ele, muitos outros teriam sucumbido. Nada pior do que ter um coração do tamanho do mundo e ter que frequentar a catequese do ódio. Provavelmente, hoje, nenhum desses guerreiros fará dessa forma de amar a sua bandeira. Porém, se não houver uma desumanização total (a tropa dava uma “educação” absolutamente desumanizada), isso ficou a dever-se a uma reserva de amor que, contra todas as regras, se activou desesperadamente.

– O seu protagonista encara, umas vezes mais desinibidamente do que outras, numa outra faceta fundamental da sua condição de outsider, ou de quem está offside, como você já disse, na sociedade portuguesa – o seu homossexualismo. Implica isso estar em estado de guerra pessoal a dois tempos, o do real campo de batalha em África e contra a sua própria sociedade? Fica ele condenado sempre à solidão social? É uma realidade que até Até Hoje, creio que deliberadamente, nunca encontra resolução…

AO – Não se encontra resolução porque não se precisa dela. É verdade que o homossexualismo caracteriza algumas das personagens de Até Hoje. Porém, é um aspecto bastante secundário. A guerra (o seu cenário real) não foi nem mais nem menos dramático por isso. Na guerra, é difícil conhecer-se a fronteira que separa o normal do anormal. E isso sem que caíssem drogas ou as figueiras secassem. Por exemplo, consumiu-se tanta droga, naturalmente. E nunca os responsáveis pela guerra se preocuparam com o facto de devolverem à sociedade levas e levas de drogados. Só os hospitais psiquiátricos poderão revelar a razão porque abarrotavam de doentes. Em Até Hoje, a homossexualidade aparece por duas razões: porque a ficção sobre a guerra colonial publicada até ao momento não tocara no assunto; porque traria a Até Hoje uma diferença de abordagem do tema, mesmo em termos literários. Aí, poderia residir, em parte, a sua originalidade.

– Enquanto o amor tem sido, para si, um dos temas constantes, particularmente na sua poesia, a realidade e insinuação de violência que caracteriza o mundo moderno, só em Até Hoje foi abordada. Acha que a vida insular protege o escritor dos processos históricos vividos nos grandes meios continentais? Quais são os temas açorianos que a literatura ainda não tratou devidamente?

AO- A violência, sob as suas múltiplas caretas, esteve, está, estará presente mesmo na minha poesia. Se o amor também me é um tema constante, devo-o ao facto de querer, à minha maneira, denunciar a violência. Em Até Hoje, essa denúncia foi mais directa, mas não foi mais acintosa. O viver numa ilha já foi uma opção lírica. Actualmente, não passa de um local onde se vive, se sobrevive. Escuso explicar porquês. Os Açores perderam o encanto original. Desde que plantamos bombas no quintal (a Base das Lages é um quintal mortífero), deixamos de colher apenas couves e alfaces. A ideia placentária de ilha, nos Açores, já não tem significado. Nem mesmo a nível de sossego turístico. Hoje, tudo pode acontecer em qualquer parte dos Açores – para o bem e para o mal. Quanto aos temas açorianos que, porventura, possam não ter sido ainda tratados devidamente, responderia com outra pergunta: será que Nemésio deixou escapar algum? Só que não é proibido bater no molhado. Alguém há-de acrescentar um ponto.

– A poesia e o teatro têm sido os dois géneros mais cultivados por si, e creio que é como poeta que o público o reconhece. O sucesso crítico e editorial de Até Hoje foi um anúncio de mais ficção na sua actividade literária de futuro?

AO – Poesia, sempre. Teatro, idem. E também mais ficção narrativa. Mas isso sem promessas e, muito menos, calendários. Sei lá se o fim está ao virar da esquina. No entanto, essa dúvida não me impedirá de a virar. E tudo isto farei mesmo sem sucesso crítico e editorial. Não que tal sucesso me seja indiferente. Mas não é vital. Nem fatídico.

____

Álamo Oliveira, Até Hoje (Memórias de Cão), Lisboa, Edições Ulmeiro, 1988. O romance teria várias edições nos anos seguintes.

Memória de um tempo: de João de Melo e de nós

Jo├гo e melo e a lit a├зorianaAinda hei-de pensar que tudo isto não passou afinal de um riso que chora ou de um pranto que ri – e de literatura!

João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas


/Vamberto Freitas

Com João de Melo, temos percorrido séculos da nossa existência nacional. O romance Gente Feliz Com Lágrimas, que se seguiu ao Meu Mundo Não É Deste Reino (que viria a ser anos mais tarde traduzido para o inglês por Gregory Rabassa), transporta-nos para a actualidade, crendo ele que “atravessa geografias, círculos familiares, tempos, sociedades, errâncias… tomara eu que nele se mirassem as famílias portuguesas que vieram da aldeia para a cidade, os que emigraram para a Europa e para a América, até como para o Brasil, ou que em tudo isso houvesse a noção de um país errante, mutável em busca da sua identidade.” Seguem-se aqui fragmentos de uma longa entrevista sob o título de “O Imaginário Açoriano de João de Melo” que no fim dos anos 80 travei com o autor. Fala de si, da sua obra, da terra açoriana, fala de nós e da nossa arte e dos temas que então ocupavam as suas páginas de ficção, assim como, mesmo que isso não esteja explicitado ou directamente abordado, as obras de toda uma geração de escritores açorianos – nas ilhas, no continente e na diáspora. A circularidade do tempo português não nos tem sido feliz. As palavras de João Melo continuam a ser de uma grande pertinência para os tempos que agora vivemos. Outra vez.

***

– Thomas Wolfe dizia que pouco lhe incomodava magoar indivíduos, da sua família ou não, que porventura se reconhecessem, ou pensavam que se reconheciam, negativamente, nos seus romances declaradamente autobiográficos. A criação artística tudo justificava. Demais a mais, as pessoas um dia desaparecem, mas os romances ficam. Sentiu-se alguma vez, ao escrever Gente Feliz com Lágrimas, com dúvidas acerca da transfiguração de muitas das suas personagens e a possibilidade de alguém se reconhecer abertamente em alguma delas?

João de Melo – É suposto que Rui Zinho nunca tenha existido, como sabe. Mas a geografia e a memória de Gente Feliz Com Lágrimas passam-lhe pelo sangue e pelos nervos, antes de se converterem em escrita de ficção. Daí a minha ideia de que o romance não possa nem deva ser rotulado equivocamente – nem autobiográfico nem açoriano. Essa geografia interior, atravessando o espírito e o senso crítico de Zinho, é como um grifo ou um baixo-relevo e pretende envolver e projectar para o exterior da personagem um tempo e um espaço que coincidam com um país e com a sua história recente. Estão lá a Ditadura, a guerra, a infância, a morte desse país de sombras que atravessou a fronteira da noite e se encontra hoje na claridade diurna da sua liberdade política e cultural. Rui Zinho não existe sequer no “Livro Primeiro” de Gente Feliz, enquanto “ouve” Nuno, Amélia e Luís nessa confissão da infância comum. Não existe também a outro nível, quando Marta desfolha o discurso do cinismo acerca dum casamento que veio da paixão e da aprendizagem do amor até ao divórcio. De resto, Marta é uma mulher múltipla. Cumpre, neste livro, a função da mulher primordial, ao mesmo tempo única e numerosa. Tem o seu quê de quotidiano e divino em coexistência na mesma pessoa, na linha das sublimações femininas que compareceram já em anteriores ficções minhas.

– Se bem que se trate de dois romances que não necessitam um do outro e cada um dos seus mundos está completo perante qualquer leitor, foi-me difícil ler uma só página de Gente Feliz Sem Lágrimas sem pensar em O Meu Mundo Não É Deste Reino. Foi como que ouvir uma história de gente diferente, mas colocada no mesmo palco, numa paisagem de imediato reconhecida, por outro lado, logo nas primeiras páginas deste seu último romance. Dz-se que Nuno, uma das suas vozes principais e à volta de quem o narrador une toda a história, anda desde há muito num ajuste de contas com tudo e com todos, Trata-se aqui da descarga catártica determinante e final?

JM – Em certa medida, é um livro que estava prometido a mim mesmo, para a minha libertação interior. Claro que a sua força motriz é a da catarse, mas a ideia da sua escrita nunca perdeu de vista a necessidade de fazer dele um objecto de criação e de literatura. Toda a minha ficção se inscreve no movimento de um pêndulo. Esse pêndulo oscila entre a mentira e a verdade da minha pessoa civil. Nada é realidade transcrita, e nada aparece escrito depois como ficção pura. Mas você talvez não devesse insistir muito nesse paralelismo apenas hipotético, entre O Meu Mundo Não É Deste Reino e Gente Feliz Com Lágrimas. Leu Entre Pássaro e Anjo? Aí, há uma novela que fecha um ciclo de O Meu Mundo. Chama-se a Divina Miséria e é dos textos de que mais gosto. E leu Autópsia De Um Mar de Ruínas? Nesse romance de guerra, quem circula é um tal furriel enfermeiro, quase um inominado, que é bem um alter-ego meu, daquilo que eu próprio vivi em Angola. Aí tem uma obra de catarse, por um lado, e de testemunho e aprendizagem ideológica, por outro. Está escrita. Por esse motivo, a experiência da guerra é imputada a outrem, em Gente Feliz, e não foi minha intenção voltar a incorrer no tema. E, no entanto, foi-me indispensável dizer que a geração dessa “gente feliz com lágrimas” conheceu também o destino da guerra colonial, para só depois mudar o seu próprio e o destino do seu país.

– As duas mortes principais em Gente Feliz com Lágrimas resultam de um cancro. Mas creio também que percebi que a sua visão da vida “nova” que levam os irmãos de Nuno no Canadá é, para ele, outra espécie de corrosão interior, outra forma de morte. Como vê as consequências dessa emigração?

JM – Os “meus” emigrantes começam por ser sobreviventes dum Portugal infinitamente pequeno. Têm pela frente o problema da sua integração nas sociedades estranhas. Oscilam entre a “ilha eterna” que levam dentro de si e o estigma de se interrogarem por dentro quanto a essa identidade portuguesa que vem atormentando alguma da actual literatura portuguesa. A minha sondagem da emigração foi dupla: saber como suportavam eles o impacto do destino e como se confrontavam com o desafio de educar os filhos. E as crianças desses emigrantes começam a fazer uma opção entre os pais (ou o modelo social e pedagógico deles) e a sua própria diferença educacional. Não é um problema menor. É porventura mesmo o elemento da ruptura interior, que vai ter como protagonistas os filhos e os emigrantes da segunda geração. Ouço dizer que Jorge de Sena sentiu isso com alguma amargura, não sei. Vi desenhar-se esse cenário na vida dos meus irmãos emigrados. Os filhos resistem à Língua Portuguesa, à mentalidade dos pais e ao seu próprio modo de vida, isto é, acabam por confundir tudo na mesma ideia. Penso, por conseguinte, que a opção dos emigrantes terá de ser definitiva: serem canadianos no Canadá e americanos nos Estado Unidos. Aliás, o futuro e o destino deles já não estão nos Açores nem no Continente, e sim nesse reenraizamento progressivo e irreversível. De outra forma, não se acabarão tão cedo os seus dramas de integração. Mas compete ao poder político português não se deixar resignar a isso, como se tratasse duma fatalidade. Chocou-me imenso ser o abandonado a que foram votados esses nossos compatriotas, a provar que nunca existiu entre nós uma política cultural de emigração.

_______

João de Melo, Gente Feliz Com Lágrimas (16ª edição), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000. Existem outras edições da mesma editora, inclusive em livro de bolso.

3

De mim e dos outros: a propósito do Imaginário

3D ImaginarioA literatura açoriana define e restitui-nos a voz que a história e a política, durante séculos, nos tentou negar.
O Imaginário dos Escritores Açorianos

/Vamberto Freitas

Lancei recentemente, aqui em Ponta Delgada, a 2ª edição do meu O Imaginário dos Escritores Açorianos. Foi apresentado pelo Prof. Doutor  Paulo   Meneses, meu colega e antigo Director do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas da Universidade dos Açores, a quem agradeço comovidamente a análise longa e certeira deste livro. Publico aqui o Prefácio para esclarecimento aos eventuais leitores desta coluna sobre as razões que me levaram a reeditá-lo.

*

Publicado originalmente em 1992 pelas Edições Salamandra (Lisboa) sob a direcção do Dr. Bruno da Ponte, O Imaginário dos Escritores Açorianos faria um percurso que ainda hoje me surpreende. A grande maioria dos ensaios e entrevistas foram escritos ou realizadas a partir de meados dos anos 80, enquanto eu ainda residia e pensava residir para sempre no sul da Califórnia, e depois de começar a corresponder com o Diário de Notícias no fim da década de 70 a par com a minha colaboração regular em jornais da imigração, como o Portuguese Tribune e o Portuguese Times. Quando passei também ao então suplemento Cultura do diário lisboeta, foi-me proposto iniciar uma série de artigos explicando aos seus leitores o que “era” a literatura açoriana, que eu vinha lendo sistematicamente e de quando em quando comentando noutras publicações. Depressa delineei o meu próprio projecto, para além do pedido do jornal: daria conta, numa escolha pessoal e naturalmente subjectiva, das obras e escritores que marcaram toda uma época na literatura açoriana, limitando-me à prosa de ficção e, em certos casos, ensaística. De fora ficava a poesia, ou as obras poéticas dalguns escritores aqui presentes. Não tencionei escrever uma proposta de “cânone” literário açoriano, mas sim dar conta do melhor que, na minha perspectiva, se publicava entre nós aqui no arquipélago, no restante país, e até na nossa Diáspora. Como se sabe, foi uma época de grande criatividade entre nós, e desde Vitorino Nemésio que obras com um referencial açoriano raramente eram lidas ou comentadas na imprensa de grande projecção, o que agora começava a acontecer com nomes como Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo, Dias de Melo e Cristóvão de Aguiar. Depressa o debate, pouco frutífero, em volta “da questão da literatura açoriana” tomava primazia nas próprias ilhas, e enviesava o que deveria ter sido o principal ponto de discussão e apreciação entre nós: as próprias obras que intensificavam e nos devolviam uma identidade que nos colocava e coloca adentro do país português, mas redefinida obrigatoriamente pelas questões sociopolíticas e sobretudo pela consciência liberta e descomplexada que reconhecia que quinhentos anos de história no isolamento e separação pelo mar da mãe-pátria abrigava consequências sérias que nada tinham ou têm a ver com qualquer separatismo político ou cultural, mesmo que outros, com o todo o direito e legitimidade de um povo livre, pensassem, e por certo ainda pensam, o contrário. Foi este, pois, o contexto global em que escrevi o presente volume.

Tem-me sido gratificante ao longo dos anos saber que O Imaginário dos Escritores Açorianos está presente, ora citado directamente ora em notas de rodapé e bibliografias, em praticamente todas as teses de mestrado e doutoramento em estudos literários e culturais açorianos que foram defendidas durante estas últimas décadas um pouco por toda a parte, desde o nosso país e outros na Europa às Américas, com especial relevo no Brasil, onde a força da nossa ancestralidade continua bem viva, particularmente em estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e até mesmo em universidades federais como a de Brasília. Por isso, decidi não lhe tocar, não lhe retirar ou aumentar uma única página. Poderá ser que hoje eu mudasse uma ou outra expressão neste ou naquele passo, revisse esta ou aquela posição implicitamente teórica nalgumas destas páginas – mas nem isso mudaria em nada o que então pensava e penso. Ou seja, o que aqui está contido continua a ser uma expressão íntegra de como ainda vejo e entendo o acto literário, o texto sempre ligado ao seu contexto, a literatura indissociável da sociedade de onde brota, ou a que lhe serve de referencial. Como então dizia na introdução à primeira edição, estava consciente das ausências nestas páginas, mas também afirmava o que penso ter cumprido nos anos posteriores, e até aos nossos dias – dar conta de outros escritores e outras obras da literatura açoriana, ou, se preferem, da literatura portuguesa escrita por autores açorianos, e que têm a nossa geografia e história como primeiros referenciais.
____
Vamberto Freitas, O Imaginário dos Escritores Açorianos (2ª edição), Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições, 2013.

Um americano (amigo) em Lisboa

Capa Do lado de cáA variedade local de idiossincrasias espirituais é mais uma das razões para que Portugal se encaixe de forma tão aconchegante dentro de mim.

Philip Graham, Do Lado De Cá Do Mar

/Vamberto Freitas

 É certo que ultimamente leio tudo que vem de fora a respeito do nosso país condicionado por certa psicologia — ninguém aguenta a situação insultuosa em que nos encontramos adentro de uma suposta “União” Europeia, e muito menos ante um governo indígena que mais nada sabe dizer de que teremos de ser pobres, como querem também os nossos “parceiros” — supõe-se que “europeus”, seja lá isso o que for para além de uma noção geográfica — para sermos mais felizes, livres, úteis e, como diria Fernando Pessoa, mesmo assim ainda tributáveis para que os bancos dos países ricos não percam os seus lucros obscenos. Estes são dias “interessantes”, em que toda uma geração lusa viveu na mentira, uma vez mais na nossa história, sem suspeitar que por detrás da “nova” Europa esteve sempre a velha tendência e vontade atávica: as massas nasceram para trabalhar e combater ao serviço da elite económico-financeira, a democracia agora parecendo servir quase exclusivamente para que o roubo seja legal, e um pouco mais moralizado do que fazer tropas entrar violentamente pelas fronteiras dentro e tomar conta do ouro e dos próprios bancos centrais. Como é que um pequeno povo mantém a sua dignidade e força para a sua libertação, que desde há séculos parece nunca mais chegar? Com a força interior que só pode vir com a certeza da sua dignidade nacional, com a auto-estima que só a sua cultura e espiritualidade lhe poderão fornecer, ou sustentar. A memória colectiva de uma comunidade será isso —  de que devemos aos nossos antepassados a perpétua tentativa de chegarmos a um futuro, mas sem as amarras esclavagistas que se metamorfoseiam para que nunca desapareçam. Sísifo tem a sua dignidade muito própria, universal, de todo humana. Quando entramos numa fase de aguda desconfiança sobre quem somos, de como fomos, e do que gostaríamos de ser, ler quem nos olha de fora e empaticamente se aproxima de nós poderá ser um contraponto essencial aos outros, aos que nos olham e nos “entendem” através exclusivamente de interesses próprios e enriquecimento questionável, tal como os nossos supostos “parceiros” no outro lado dos Pirenéus.

Do Lado  De Cá Do Mar: crónicas de um americano em Lisboa, é um dos livros mais curiosos destes últimos anos escritos sobre nós por um autor norte-americano. Trata-se da tradução de The Moon, Come to Earth (Dispatches From Lisbon), de Philip Graham, um reconhecido ficcionista e ensaísta, e professor de escrita e literatura na Universidade de Illinois, Urbana-Champaign, e no Vermont College of Fine Arts. O autor foi publicando estas suas crónicas durante a sua estadia (2006) com a família em Lisboa numa conhecida revista da net, que depois reuniu no livro acima referido. Há muito tempo que eu não tinha o prazer de ler mini-ensaios de tanto brilho, astúcia e originalidade de visão ante a cidade branca e os seus lugares mais reconhecidos, ou os seus recantos menos pisados mas de charme muito próprio, como se sabe, desde a pequena mercearia aos cheiros que combinam tinta fresca do jornais acabados de chegar com o bacalhau destapado à porta. Lisboa, para Philip Graham, não é só a capital muito antiga — a Cidade de Ulisses, em todo o seu esplendor, como diria Teolinda Gersão – de um pequeno e pobre país, que deu mais ao mundo do que toda a Europa junta. Ele, que vem de uma América gigantesca, próspera e necessariamente aberta ao mundo. Vê nela, na cidade, e em nós, quer dizer, nos que são os seus habitantes, um reduto de história e arte, de gente mais ou menos tranquila e sagaz, de arquitectura e sotaque que fazem lembrar as suas origens remotas e a sua caminhada como ponto de encontro de religiões e culturas que vão desde a Arábia à parte norte do continente. Claro que um choque cultural é sempre inevitável, mas provocado pelas pequenas coisas, nunca pelo que nos une, em grandes traços, aos outros povos do mundo. Desde a culinária à literatura (fica fascinado com a quantia de ruas que têm o nome de escritores famosos, e de outros menos conhecidos) e música, Graham nada deixa escapar à sua atenção, absorve tudo num como que desesperado e criativo gesto de se querer sentir em casa por inteiro, de ser um de nós. De uma casa de fados a um jogo de futebol na companhia de um filho na faculdade do seu país que o visita em Lisboa durante uns dias, de uma exposição numa rua no Bairro Alto em que uma tenda retratando a lua fascina a sua filha ainda não adolescente, a um desprezível reality show no qual participam como júri alguns dos seus amigos, a cidade e a sua gente sobressaem aqui não como o reduto de um país agora à beira do colapso total, mas sim como uma das capitais europeias mais humanizadas, tranquilas e de todo civilizadas. A sua linguagem é naturalmente a linguagem de um ficcionista ou poeta – no detalhe escondido ou nunca por nós observado ou tido em conta reside a surpresa, a luminosidade de uma frase inesperada, a surpresa do escritor, e logo a nossa também, da descoberta inesperada. O mesmo acontece quando sai com a mulher e filha numa peregrinação ao interior do país em busca das nossas raízes remotas. Por algumas duas vezes menciona uma outra estadia nos Açores (São Miguel) há uns anos, mas pouco mais diz, para além de insinuar os seus prazeres na ilha verde.

“Não sei — diz o autor logo numa das primeiras crónicas — por que adoro Lisboa. Mas agarrei a oportunidade de participar na conferência internacional sobre contos a decorrer aqui esta semana. Que maravilha de trabalho: tudo o que tenho de fazer é ler uma das minhas histórias, servir de painelista para dizer algo remotamente inteligente acerca da edição literária, colaborar num ensaio videográfico relativo à conferência juntamente com o meu filho, que tem jeito para as coisas técnicas, e depois já posso vaguear por uma das minhas cidades preferidas. Quando passeio por estas ruas calcetadas, captando aqui e ali vislumbres da proximidade do rio Tejo, ou absorvendo, do alto de uma das colinas da cidade, a gloriosa e íngreme topografia dos edifícios brancos com os seus telhados cor de salmão, sinto que também estou a viajar através de uma paisagem interior, que aquelas ruas conduzem a um lugar dentro de mim que ainda não consegui localizar”.

Philip Graham, de descendência escocesa e Católica, passou esse ano em Lisboa na companhia da sua esposa, Alma, antropóloga que esteve cá num estudo prolongado. Judia de religião, alguns dos momentos mais cómicos destas crónicas é quando o marido e ela jantam fora tentando evitar comida com carne de porco (quase uma impossibilidade em Portugal, escreve ele com a melhor das disposições e fascínio), ou então adivinhar nos supermercados que tipo salsicha está livre da mesma. Um dos temas recorrentes em toda esta prosa deliciosa é o ajustamento da filha, Hannah, à escola pública e às suas novas vivências, levando ao que parece ser a uma anorexia nervosa, que mantém os pais quase em pânico, mas eventualmente é curada com o amor (e inteligência) inabalável de família. Nenhum contratempo, maior ou menor, desfaz a doce prosa de Graham, nada desfaz o seu afecto pela cidade querida. Quando regressam a casa em Illinois, Hannah não só fala fluentemente o português com sotaque lisboeta, como passa horas na net falando com uma amiga neste lado do mar, e repetindo aos pais que tem muitas saudades, quer muito voltar a Lisboa, que agora é sua também.

Uma vez mais, o autor tudo visita, tudo chama a si. Numa visita aos Jerónimos, aprecia tanto a firmeza da construção que saiu sem uma racha do abalo de 1755, como a sua religiosidade e a homenagem aos escritores e poetas lá sepultados, opinando que falta um túmulo para o Gil Vicente — “Muitas vezes comparado a Shakespeare (‘Que escreveu quase um século depois dele’)”. Philip Graham não se apropria da nossa cultura ou língua para a sua prosa dirigida a quem sobre nós nada conhece: pede entrada, quer, sem sotaque ou entraves vocabulares, sentir a pertença sem mais classificações de qualquer género. Tudo isto é pouco comum na escrita de muitos outros nossos visitantes, do passado ou dos nossos tempos. Escreve Rui Zink, amigo do autor, e que assina o prefácio da edição portuguesa: “Enfim: um livro estranho sobre um povo estranho e que fez a delícia do leitor americano. É altura, agora, de fazer o inverno do nosso descontentamento parecer menos inverno, e mais contentamento”.

Por certo. Sempre que as vozes amigas nos chegam do oeste, o resto do continente a que pertencemos parece ainda mais distante, incompreensível, e pouco amigo. Paciência. Deveríamos saber, de uma vez por todas, para que lado nos convinha virar com um coração tão aberto como o destes “visitantes” no outro lado do Atlântico.

________

Philip Graham, Do Lado De Cá Do Mar: Crónicas de um americano em Lisboa, Lisboa, Editorial Presença, 2012.