Um americano (amigo) em Lisboa

Capa Do lado de cáA variedade local de idiossincrasias espirituais é mais uma das razões para que Portugal se encaixe de forma tão aconchegante dentro de mim.

Philip Graham, Do Lado De Cá Do Mar

/Vamberto Freitas

 É certo que ultimamente leio tudo que vem de fora a respeito do nosso país condicionado por certa psicologia — ninguém aguenta a situação insultuosa em que nos encontramos adentro de uma suposta “União” Europeia, e muito menos ante um governo indígena que mais nada sabe dizer de que teremos de ser pobres, como querem também os nossos “parceiros” — supõe-se que “europeus”, seja lá isso o que for para além de uma noção geográfica — para sermos mais felizes, livres, úteis e, como diria Fernando Pessoa, mesmo assim ainda tributáveis para que os bancos dos países ricos não percam os seus lucros obscenos. Estes são dias “interessantes”, em que toda uma geração lusa viveu na mentira, uma vez mais na nossa história, sem suspeitar que por detrás da “nova” Europa esteve sempre a velha tendência e vontade atávica: as massas nasceram para trabalhar e combater ao serviço da elite económico-financeira, a democracia agora parecendo servir quase exclusivamente para que o roubo seja legal, e um pouco mais moralizado do que fazer tropas entrar violentamente pelas fronteiras dentro e tomar conta do ouro e dos próprios bancos centrais. Como é que um pequeno povo mantém a sua dignidade e força para a sua libertação, que desde há séculos parece nunca mais chegar? Com a força interior que só pode vir com a certeza da sua dignidade nacional, com a auto-estima que só a sua cultura e espiritualidade lhe poderão fornecer, ou sustentar. A memória colectiva de uma comunidade será isso —  de que devemos aos nossos antepassados a perpétua tentativa de chegarmos a um futuro, mas sem as amarras esclavagistas que se metamorfoseiam para que nunca desapareçam. Sísifo tem a sua dignidade muito própria, universal, de todo humana. Quando entramos numa fase de aguda desconfiança sobre quem somos, de como fomos, e do que gostaríamos de ser, ler quem nos olha de fora e empaticamente se aproxima de nós poderá ser um contraponto essencial aos outros, aos que nos olham e nos “entendem” através exclusivamente de interesses próprios e enriquecimento questionável, tal como os nossos supostos “parceiros” no outro lado dos Pirenéus.

Do Lado  De Cá Do Mar: crónicas de um americano em Lisboa, é um dos livros mais curiosos destes últimos anos escritos sobre nós por um autor norte-americano. Trata-se da tradução de The Moon, Come to Earth (Dispatches From Lisbon), de Philip Graham, um reconhecido ficcionista e ensaísta, e professor de escrita e literatura na Universidade de Illinois, Urbana-Champaign, e no Vermont College of Fine Arts. O autor foi publicando estas suas crónicas durante a sua estadia (2006) com a família em Lisboa numa conhecida revista da net, que depois reuniu no livro acima referido. Há muito tempo que eu não tinha o prazer de ler mini-ensaios de tanto brilho, astúcia e originalidade de visão ante a cidade branca e os seus lugares mais reconhecidos, ou os seus recantos menos pisados mas de charme muito próprio, como se sabe, desde a pequena mercearia aos cheiros que combinam tinta fresca do jornais acabados de chegar com o bacalhau destapado à porta. Lisboa, para Philip Graham, não é só a capital muito antiga — a Cidade de Ulisses, em todo o seu esplendor, como diria Teolinda Gersão – de um pequeno e pobre país, que deu mais ao mundo do que toda a Europa junta. Ele, que vem de uma América gigantesca, próspera e necessariamente aberta ao mundo. Vê nela, na cidade, e em nós, quer dizer, nos que são os seus habitantes, um reduto de história e arte, de gente mais ou menos tranquila e sagaz, de arquitectura e sotaque que fazem lembrar as suas origens remotas e a sua caminhada como ponto de encontro de religiões e culturas que vão desde a Arábia à parte norte do continente. Claro que um choque cultural é sempre inevitável, mas provocado pelas pequenas coisas, nunca pelo que nos une, em grandes traços, aos outros povos do mundo. Desde a culinária à literatura (fica fascinado com a quantia de ruas que têm o nome de escritores famosos, e de outros menos conhecidos) e música, Graham nada deixa escapar à sua atenção, absorve tudo num como que desesperado e criativo gesto de se querer sentir em casa por inteiro, de ser um de nós. De uma casa de fados a um jogo de futebol na companhia de um filho na faculdade do seu país que o visita em Lisboa durante uns dias, de uma exposição numa rua no Bairro Alto em que uma tenda retratando a lua fascina a sua filha ainda não adolescente, a um desprezível reality show no qual participam como júri alguns dos seus amigos, a cidade e a sua gente sobressaem aqui não como o reduto de um país agora à beira do colapso total, mas sim como uma das capitais europeias mais humanizadas, tranquilas e de todo civilizadas. A sua linguagem é naturalmente a linguagem de um ficcionista ou poeta – no detalhe escondido ou nunca por nós observado ou tido em conta reside a surpresa, a luminosidade de uma frase inesperada, a surpresa do escritor, e logo a nossa também, da descoberta inesperada. O mesmo acontece quando sai com a mulher e filha numa peregrinação ao interior do país em busca das nossas raízes remotas. Por algumas duas vezes menciona uma outra estadia nos Açores (São Miguel) há uns anos, mas pouco mais diz, para além de insinuar os seus prazeres na ilha verde.

“Não sei — diz o autor logo numa das primeiras crónicas — por que adoro Lisboa. Mas agarrei a oportunidade de participar na conferência internacional sobre contos a decorrer aqui esta semana. Que maravilha de trabalho: tudo o que tenho de fazer é ler uma das minhas histórias, servir de painelista para dizer algo remotamente inteligente acerca da edição literária, colaborar num ensaio videográfico relativo à conferência juntamente com o meu filho, que tem jeito para as coisas técnicas, e depois já posso vaguear por uma das minhas cidades preferidas. Quando passeio por estas ruas calcetadas, captando aqui e ali vislumbres da proximidade do rio Tejo, ou absorvendo, do alto de uma das colinas da cidade, a gloriosa e íngreme topografia dos edifícios brancos com os seus telhados cor de salmão, sinto que também estou a viajar através de uma paisagem interior, que aquelas ruas conduzem a um lugar dentro de mim que ainda não consegui localizar”.

Philip Graham, de descendência escocesa e Católica, passou esse ano em Lisboa na companhia da sua esposa, Alma, antropóloga que esteve cá num estudo prolongado. Judia de religião, alguns dos momentos mais cómicos destas crónicas é quando o marido e ela jantam fora tentando evitar comida com carne de porco (quase uma impossibilidade em Portugal, escreve ele com a melhor das disposições e fascínio), ou então adivinhar nos supermercados que tipo salsicha está livre da mesma. Um dos temas recorrentes em toda esta prosa deliciosa é o ajustamento da filha, Hannah, à escola pública e às suas novas vivências, levando ao que parece ser a uma anorexia nervosa, que mantém os pais quase em pânico, mas eventualmente é curada com o amor (e inteligência) inabalável de família. Nenhum contratempo, maior ou menor, desfaz a doce prosa de Graham, nada desfaz o seu afecto pela cidade querida. Quando regressam a casa em Illinois, Hannah não só fala fluentemente o português com sotaque lisboeta, como passa horas na net falando com uma amiga neste lado do mar, e repetindo aos pais que tem muitas saudades, quer muito voltar a Lisboa, que agora é sua também.

Uma vez mais, o autor tudo visita, tudo chama a si. Numa visita aos Jerónimos, aprecia tanto a firmeza da construção que saiu sem uma racha do abalo de 1755, como a sua religiosidade e a homenagem aos escritores e poetas lá sepultados, opinando que falta um túmulo para o Gil Vicente — “Muitas vezes comparado a Shakespeare (‘Que escreveu quase um século depois dele’)”. Philip Graham não se apropria da nossa cultura ou língua para a sua prosa dirigida a quem sobre nós nada conhece: pede entrada, quer, sem sotaque ou entraves vocabulares, sentir a pertença sem mais classificações de qualquer género. Tudo isto é pouco comum na escrita de muitos outros nossos visitantes, do passado ou dos nossos tempos. Escreve Rui Zink, amigo do autor, e que assina o prefácio da edição portuguesa: “Enfim: um livro estranho sobre um povo estranho e que fez a delícia do leitor americano. É altura, agora, de fazer o inverno do nosso descontentamento parecer menos inverno, e mais contentamento”.

Por certo. Sempre que as vozes amigas nos chegam do oeste, o resto do continente a que pertencemos parece ainda mais distante, incompreensível, e pouco amigo. Paciência. Deveríamos saber, de uma vez por todas, para que lado nos convinha virar com um coração tão aberto como o destes “visitantes” no outro lado do Atlântico.

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Philip Graham, Do Lado De Cá Do Mar: Crónicas de um americano em Lisboa, Lisboa, Editorial Presença, 2012.

 

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